“HISTÓRIAS DE PESSOAS QUE DECIDI DIVULGAR”

       EXCERTO DA HISTÓRIA Nº 11

               “EMANUELA CANTE”

          Emanuela adora viver. Gostaria de fruir do prazer de gozar o sol na sua plenitude correndo em prados verdejantes, de rir e conviver nas igrejas com amigos e desconhecidos; de assistir a grandes concertos no recinto de Fátima; de dizer adeus com sorrisos, na despedida definitiva de um amigo ou familiar; de cantar e dançar o Hino Nacional em vários ritmos musicais, com alegria patriótica; de subir ao Cristo Rei e bradar bem alto: “Cristo não gosta de estátuas”; de sonhar os sonhos que a deixassem sonhar; de amar quem a ame; de saltar à corda quando vai trabalhar; de andar descalça nos jardins sem a preocupação de pisar dejectos caninos; de cumprimentar as pessoas que estão na paragem do autocarro e obter resposta; de ser optimista; de compreender a proporcionalidade da nossa felicidade; de ouvir as pessoas que vale a pena ouvir; de ouvir aquelas que ninguém quer ouvir; de falar com as estrelas que olham para nós nas noites de luar; de passear nua, pelas ruas, sob chuva torrencial, saboreando o privilégio de um banho com água pura vinda dos céus; de participar numa procissão das velas ao som de ritmos de dança, alegres e trepidantes; de assistir à actuação de coros formados por gente de todas as idades, interpretando hinos à alegria em todas as igrejas do mundo; de dizer adeus à Virgem, definitivamente; de assistir ao derradeiro e patético desfile colorido e carnavalesco de cardeais bispos, cardeais presbíteros, cardeais diáconos, patriarcas, arcebispos, bispos diocesanos, bispos titulares, bispos eméritos, padres, diáconos, comandados pelo Papa, exibindo as suas variadas indumentárias, como a murça, a capa magna com uma cauda muito comprida, o mantelete, a cruz peitoral, o solidéu, o barrete roxo, as meias de cerimónia que calça sobre meias ordinárias (já agora porque não compram meias como devem de ser), sandálias de seda da cor litúrgica, as luvas, a mitra, o báculo, o gremial, a saia de seda branca, o subcíngulo, o fanon de seda, a tiara, etc.

          Como é possível que esta gente que se autoproclama representante de Deus na Terra, tenha erigido uma pesada hierarquia exibindo um valioso e burlesco guarda-roupa emergente da cultura medieval?

          Como é possível que o Papa, representante de Deus na Terra, viva num Palácio Apostólico, no Estado da Cidade do Vaticano, rodeado pelos seus acólitos, longe do povo de Deus?

          Como é possível que o Papa detenha um poder autocrático (executivo, legislativo e judiciário), sem o controlo de nenhum órgão fiscalizador? O Papa não presta contas a ninguém na Terra. Será que as presta a Deus?

          Estas manifestações de poder absoluto, opulência e arrogância ofendem quem precisa de ajuda e são milhões de seres humanos em todo o Mundo.

          Emanuela Cante quer ser ela própria, resistindo ao turbilhão de mentiras, vaidades, egoísmos, como se fosse um bastião protegido por grupos de andorinhas brancas, gozando o prazer da chegada da Primavera.

         Gostaria de voar com elas pelos céus, feliz e deslumbrada, tal como nos sonhos das suas noites de poesia.

 JOSÉ EDUARDO TAVEIRA

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“HISTÓRIAS DE PESSOAS QUE DECIDI DIVULGAR”

                               HISTÓRIA Nº 18 (COMPLETA)

                                                DIA DA MÃE

 

                Gabriela é aluna da Professora Teresa que acabara de falar sobre o dia especial que é festejado por todos os filhos: o dia da Mãe. Ela pediu que cada aluno escrevesse num papel uma frase bonita para oferecer às suas mães.

A campainha tocou. Acabou a aula. Todos saíram barulhentos e alegres.

          Ao fundo da sala de aula Gabriela ficou só e a chorar.

          A professora aproxima-se dela, senta-se e pergunta-lhe sobre a razão da sua tristeza.

        – Eu não tenho mãe para lhe escrever frases bonitas. Sou diferente dos meus colegas.

         – Não, não és diferente dos teus colegas, Gabriela. Compreendo a tua mágoa. Eu também não tenho mãe. Perdia-a quando eu tinha mais ou menos a tua idade. A minha avó foi a minha segunda mãe, mas daria tudo na vida para ter a minha verdadeira mãe, é claro.

         – Eu vivo com a minha avó e meu avô que são muito bonzinhos para mim.

         – Fico muito contente por isso, Gabriela. As avós são sempre as segundas mães. Mas, no nosso caso, são como se fossem as primeiras. Afinal somos muito parecidas, Gabriela. Aproveita essa felicidade de teres uns avós que te amam e de quem gostas. Há lá melhor prenda do que sentir a força de um abraço e de um beijo com amor?

         – Também acho, professora Teresa. Eu ainda me lembro de sentir esse abraço de amor da minha mãezinha.

         – E eu também, Gabriela. Vês como as nossas vidas são tão semelhantes?

         – Professora, quem é que inventou o dia da mãe?

         – Olha, Gabriela. Já na Grécia Antiga, há muitos, muitos anos, se festejava o Dia da Mãe, quando começava a Primavera. Mas, efectivamente, foi há cerca de noventa anos quando uma rapariga norte-americana perdeu a mãe, e adoeceu com uma enorme depressão.

         – E como se chamava a menina?

         – Anna Jarvis. As amigas ficaram preocupadas com a doença dela, e resolveram fazer uma festa em honra da sua mãe todos os anos. A Anna quis, então, que essa comemoração fosse alargada a todas as mães do mundo.

         – Tão bonito, não é Professora Teresa?

         – Principalmente porque as amigas foram fantásticas com a Anna. É um privilégio termos amigos assim, Gabriela.

         – Eu também tenho amigos.

         – Claro, uma menina como tu, tão simpática, não havia de ter amigos?

          O sorriso de Gabriela provocou na Professora coragem para continuar a conversar.

         – Sabes, minha querida, o importante das nossas vidas é termos a sensibilidade de recordar com amor aqueles que amamos. E tu choraste por amor. És uma miúda linda por fora e por dentro. Quando tinha a tua idade eu também sentia que era diferente dos outros meninos. Mas não era verdade. Há muitos meninos em todo o Mundo que, além de não terem mãe, também não têm pai. E muitos, coitadinhos, nem têm avós nem ninguém.

         – Devem ser meninos muito infelizes, não devem Professora Teresa?

         – Claro. Já viste a diferença que há entre eles e nós?

         – O meu pai diz que a mãezinha está sempre comigo. Só que eu não a posso ver.

         – Nós sentimos o seu calor, a sua protecção, a sua presença. É tão bom, Gabriela. As nossas mães estão sempre connosco. Acredita.

         – A minha avó e o meu avô também dizem o mesmo, Professora Teresa.

         – Sabes, Gabriela, eu penso que festejar o Dia da Mãe da forma a que estamos habituados, com prendas sugeridas pela publicidade, não significa uma verdadeira afectividade ou homenagem. São actos mecanizados, que nos induzem a comprar na maior parte das vezes coisas sem interesse. Por isso eu pedi a todos os alunos que escrevessem uma frase bonita dedicada a cada uma das suas mães. Eu pedi que abrissem o coração e não o porta-moedas, percebes, Gabriela?

         – Percebo sim, Professora Teresa.

         – Vamos combinar uma coisa, só entre as duas. Para nós, todos os dias serão dias da mãe. Só porque pensamos nelas, estamos a homenageá-las com a eterna saudade da sua presença física, percebes? Agora vais escrever no teu papelinho uma frase bonita dedicada à tua mãe. Está bem? Eu vou fazer o mesmo.

         – Gosto tanto de si, Professora Teresa. Posso dar-lhe um beijinho?

         – Claro que podes.

         – E um abraço muito apertadinho?

         – Sim, e um abraço muito apertadinho.

JOSÉ EDUARDO TAVEIRA

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A questão das fugas ao fisco

Ontem na SIC, dois jornalistas falaram sobre pedir facturas, (os tais 5%), e foram dados exemplos, como o das oficinas de automóveis, e outros. Um dos senhores jornalistas admira imenso o senhor ministro das finanças e concorda com toda a sua linha de estratégia, o outro, (tal como eu), nem tanto…
Ora acontece que o meu modo de vida, para ganhar o pão que se põe na mesa, teve sempre a ver com as obras Públicas e não só. Todo o tipo de Construção Civil. Análise e estudo de projectos, acompanhamento de obras, quantificação de quantidades produzidas, trabalhos a mais e a menos, subempreitadas parciais ou integrais, etc., etc.
É evidente que a classe de industriais da reparação de automóveis foge ao fisco, mais como consequência dos baixos salários dos seus clientes, e também a falta tremenda de escrúpulos que caracteriza esta “espécie” de industriais, mas, e o que dizer dos outros?
Recuando cerca de vinte e oito anos, numa obra Pública. Construção de maciços para fixação de equipamentos metálicos pesados, pavilhões fabris, silos, e outros. Para suporte dos elementos metálicos de maior importância, nos maciços existem rasgos, (ou caixões), espaços que, depois de fixadas as peças, eram preenchidos com argamassas especiais que, por essa altura, custavam 1500$00 por litro; o volume a preencher com estas argamassas variava, mas, tomando, por exemplo, um quarto de metro cúbico, (250 litros) o preço de venda totalizava 375000$00, ou, em euros, 1870,00 euros. Se os espaços fossem preenchidos com recurso a betão ciclópico, (quando o senhor fiscal vira-se as costas, ou fosse ao WC, ou simplesmente espreita-se por entre os espaços dos dedos quando tapasse a cara com as mãos por causa do Sol), e por último recebesse uma pouco espessa camada de argamassa especial, o custo passava a perto de, (incluindo a camada superficial da argamassa), em euros, um máximo de vinte euros, ou 4000$00, (valores à época). Uma pequena diferença, entre este custo e o valor de venda acima indicado, pelo qual era facturado o trabalho, em acordo com o Caderno de Encargos! Estas e outras maroteiras que os operários da altura faziam, (os que usam gravata, como é evidente), não os outros, os que suam ao sol que lhes queima os lombos e lhes encharca as camisas.
Muito se acusam hoje os sindicatos, como maus da festa, ladrões, aldrabões e vigaristas. É evidente que os sindicatos não têm santos entre os seus dirigentes. Mas, quem é santo neste pobre país, que atire a primeira pedra.
Não sou grande especialista em projectos ou construção de auto – estradas. Em estradas Municipais sim, dou um jeito. Em particular na área do Projecto. Por “andanças” de trabalho, e ocasionalmente, “mexi” em erros e omissões de um troço de auto – estrada. Vamos a um pequeno exercício. Admitindo um preço de 1500,00 euros por metro quadrado de camada de desgaste com 40 centímetros de espessura, por cada centímetro o cliente (neste caso o Estado) irá pagar 37,50 euros. Se, por razões “imprevistas” em cada cem quilómetros, apenas em dez quilómetros acontecer um “desvio” de menos três centímetros na espessura da referida camada de desgaste, em 160000,00 metros quadrados de área, o preço cifra qualquer coisa como 18000000,00 de euros. Como é evidente, as vias – rápidas não se limitam apenas às camadas de desgaste…
Não querendo ser perverso, e para que exista um pouco de divertimento no meio de tudo isto, não há muitos anos, andava às voltas com uma obra pública para realojamento, e não havia maneira de “atinar” com a compatibilidade entre o projecto de arquitectura e o de estrutura. Volta daqui, volta dali, e lá descobri, (seguindo o rabo) o corpo do gato. É que a estrutura prolongava-se muito para além da arquitectura! É espantoso o tipo de erros provocado pelo desinteresse quando o trabalho não rende muito dinheiro a quem executa os projectos. São os sindicatos, sabem, sempre os mesmos mariolas a prejudicarem o mundo inteiro. O capital e a justiça nunca. Esses são santos. Gente de altar. Gente abençoada pelo Santíssimo. Não é assim, senhor jornalista? Você sabe, (e tem essa obrigação por ser economista), os milhares de milhões de euros consumidos pela incúria dos homens da gravata? Os sempre bem-postos, sorridentes e agradáveis homens de gravata fina e fato caro, essa gente de bem, que nunca se engana e raramente erra! São esses senhores exclusividade do Partido Socialista? São em exclusividade do Partido Social Democrata? Repartem-se, 50% para cada lado? Não sei. O que na verdade penso, é que a mentalidade do “dono de oficina de automóveis” na democracia portuguesa, estendesse desde o topo da pirâmide, o Presidente da República até ao mais modesto contínuo do menor e menos importante dos ministérios.
Por amor de Deus, pensarem que só entendo não virtudes na nossa Democracia. Muita coisa boa se fez durante estes anos, e muita gente de bem passou pelo nosso edifício da governação. Foram rapidamente neutralizados. Somos gente que viveu muitos anos acima das possibilidades, diz o senhor doutor Bagão Félix, e com toda a justiça o diz. Pessoalmente só tenho a agradecer ao Estado Português todo o bem que me fez nesta matéria. O tremendo esforço com que me travou os ímpetos de gastador. Gente de bem, esta! Quando em certos meses de acertos durante o ano tinha a receber valores de mil e duzentos contos, ou por essa ordem de grandeza, porque trabalhava por vezes dezoito horas diárias sem direito a receber, (não se pagam horas aos técnicos), e por isso recebia outras compensações monetárias, para o banco seguia apenas metade do valor, o restante eram impostos. Não sei os destinos que lhes deram, mas sem dúvida que foram distribuídos por “boas causas.”
Vamos chegar ao fim deste rosário de mágoas. Victor Gaspar não, senhor jornalista! Não por mim, (apesar de me roubarem os dois subsídios), mas por um casal de velhinhos a quem retiraram ao senhor um subsidio que se destinava em exclusividade à compra de medicamentos para os dois, e por, em simultâneo, tirarem as compensações. Isto, mais do que imoral, é porco, meu caro. Estou a pensar (prevendo o desfecho desta situação) em organizar uma colecta para lhes pagar o funeral. Já agora, senhor jornalista, não sendo abuso, está disposto a participar nesta boa causa? É que, repartido por todos, enfim, sempre custa menos.
Mesmo, mesmo para terminar, você sabe como os pides por via de regra funcionavam? É possível que não. O senhor não é bem desse tempo. Mas era assim: um fazia o papel de mau e o outro de bonzinho. Digo isto porque, nesta tomada de posições diferentes na pirâmide do poder, estou a “adivinhar” certos estilos de então, dos tempos de outrora.

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“HISTÓRIAS DE PESSOAS QUE DECIDI DIVULGAR”

 

 

 

 

 

                                   HISTÓRIA Nº 6 (COMPLETA)

          Idalina do Crucifixo vive vinte e quatro horas por dia entregue a Deus. Talvez se sucedam por isso as suas permanentes e irritantes insónias. Veste de preto porque considera a cor da moral e do respeito. Ela pensa que os outros reagem de forma cerimoniosa quando contactam alguém vestido de negro. As saias cobrem os tornozelos, salientando-se os sapatos usados vulgarmente por ratas de sacristia.

          Idalina tem fé. Se lhe perguntarem o que é ter fé, não sabe explicar. Em quem? Em nós próprios? Em Deus? Em outra Divindade? No destino? Na sorte? A confusão é enorme e não vale a pena examinar profundamente as presumíveis respostas. É preciso ter fé e pronto. Quem não tem fé não merece a atenção de Deus. É a sua dogmática verdade.

          A sua veneração pela Igreja começou no momento do baptismo, quando sentiu despejarem uma concha de água fria na sua cabecinha oca de criança bem-aventurada. A partir daí ficou preparada para todas as cerimónias e sacrifícios que fazem parte da lista obrigatória do bom católico: a comunhão solene, o crisma, o casamento pela Igreja, as confissões, a eucaristia, as peregrinações, as orações, as promessas, os milagres, as desgraças, as tristezas, as catástrofes, as doenças, o sofrimento, a dor, o pecado, a morte, o inferno!!!

          Idalina censura com desdém quem não adopta os seus conceitos de vida em conúbio com Deus:

         – Como é possível admitir que homens e mulheres usem roupas de cores berrantes, um insulto à dor, ao sofrimento, à miséria, ao horror das grandes desgraças que proliferam por este Mundo? Como é possível que riam, brinquem e se divirtam como se Deus não tivesse sofrido pela morte do Seu Filho, Jesus amado? Essa gente há-de ser punida com a escuridão devastadora no túmulo dos pecadores. As mulheres não vieram ao Mundo, criado por Deus, para trabalharem fora de casa, desprezando filhos e maridos. Eu sou uma mulher que Deus quer como exemplo para todas aquelas que se esquecem da Sua existência.

          Idalina do Crucifixo considera-se um modelo de católica. Uma lição de vida que quer transmitir a todas as mulheres, preparando-as para entrarem directamente no Reino dos Céus, sem fazerem escala noutros apeadeiros a abarrotar de hereges.

           É feliz porque Deus a protege de todos os males e vicissitudes da vida moderna agnóstica, que a aflige profundamente. E cumpre rigorosamente o primeiro mandamento da lei de Deus: “Amar a Deus sobre todas as coisas.”

          Todas as noites ao deitar, reza a sua oração:

           – “Graças Vos dou meu Deus pela vossa misericórdia que usaste hoje para com esta vossa serva Idalina, humilde e pecadora. O Céu é testemunha do vosso poder e da vossa glória. Assim como vos dignastes proteger-me durante o dia, assim também me vigia durante o meu sono, guardando o meu espírito das investidas dos seres malignos, para que eu descanse tranquila em meu leito, depois de haver cumprido o meu dever. Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Amem.”

           Toda a vida dedicou mais tempo às actividades religiosas do que à família. Duas missas diárias, o terço, enfim, um sem número de obrigações que a ocupam, sentindo-se satisfeita e reconhecida com a paz que Deus envia exclusivamente para si. Agradece a bênção que vem do Céu e que a enche de amor e Luz redentora.

          Bem-aventurados os pobres em espírito porque deles é o Reino dos Céus.

          Divorciada e com três filhos, Idalina do Crucifixo suporta sérias dificuldades económicas, mas não se abstém de contribuir com a sua dádiva para sustentar o Padre e as despesas da sua Igreja.

          A filha é vítima de violência doméstica, sofrendo os maus-tratos do homem com quem vive, um bandido que ela não abandona por recear represálias. O filho mais novo está preso por assaltos e arrombamentos a residências e automóveis; o mais velho é traficante de droga e desconhece-se o seu paradeiro. O marido abandonou-a. Desempenha actualmente a função de gestor de conta de várias acompanhantes de luxo.

JOSÉ EDUARDO TAVEIRA

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Vem princesa…

Vem princesa
Leva a tristeza
Num abraço que seja
No teu dizer que se beija

José Guerra (2011)

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“HISTÓRIAS DE PESSOAS QUE DECIDI DIVULGAR”

 HISTÓRIA Nº 21 ( COMPLETA )

        Daniel Bemol é maestro desde os tempos da noite negra do fascismo. Trabalhou sempre em dancings e cabarets onde desperdiça o seu talento de maestro e pianista. Actualmente dirige o Conjunto Musical  “Os 3 Ases”, animando as noites soturnas numa boite de segunda ordem, frequentada por gente que “não interessa a ninguém”, como ele costuma dizer.  

        Possuidor de uma vocação plural, abrangendo todas as áreas musicais, é muito solicitado para festas de casamento, comícios políticos e arraiais populares.

        De aspecto franzino, não pesará mais de sessenta quilos. Usa franja quase a tapar-lhe os olhos, nariz vermelho arrebitado, orelhas enormes e dentes quase pretos devido ao abuso do tabaco, o seu maior vício que não consegue combater.

        Usa o mesmo smoking desde a sua estreia como pianista. Actua sem sapatos porque a transpiração dos pés o incomoda.

        Uma noite roubaram-lhe os sapatos e foi para casa em peúgas. A mulher ao vê-lo naquela figura,  suspeitou que ele a tivesse traído com alguma das vedetas dos locais onde trabalha. A partir daí a relação começou a exacerbar-se.

        A sua vida tem sido atribulada, tanto no aspecto pessoal como profissional.

        Há alguns anos  o seu Conjunto chamava-se “ Os 7 Ases”, mas vários incidentes obrigaram à redução do número de executantes.

        O saxofonista foi atropelado por um triciclo de castanhas assadas, mesmo à porta da sua residência. Nunca mais tocou saxofone, porque além de ter engolido algumas castanhas com casca, ficou com a cabeça enfiada no fogareiro o que lhe provocou a destruição da garbosa cabeleira pela qual tinha um extraordinário orgulho. Consternado e envergonhado desistiu de participar no Conjunto Musical, dedicando-se à venda de gelados e bolas de Berlim durante o Verão, numa das praias da Costa.

        O Conjunto passou a chamar-se “Os 6 Ases”.

        O trompetista foi obrigado a abandonar o Conjunto porque lhe roubaram o trompete no Metropolitano, durante uma viagem na Linha Vermelha. O que ganhava não lhe possibilitava comprar outro, pelo que se dedicou a palmar carteiras, telemóveis e o que lhe viesse à mão, como desforra do roubo do seu inseparável trompete.

        O Conjunto passou a chamar-se “ Os 5 Ases”.

        O acordeonista sofre de bicos de papagaio. Manifesta uma enorme letargia e toca sentado com o acordeão sobre os joelhos. Quando a música é muito lenta, adormece e deixa cair o instrumento. Acorda esbaforido a pedir que alguém o ajude a apanhar as peças que se espalham pela sala. Quase sem teclas e botões e o fole rebentado deixou de poder tocar, pelo que teve de abandonar o Conjunto. Para ocupar o tempo passa horas a dormir sentado num banco do jardim defronte da sua casa.

        O Conjunto passou a chamar-se “Os 4 Ases”

        O viola baixo é o mais alto do grupo.

        Ele e a mulher do Daniel Bemol há muito tempo que têm uma admiração comum. Ela sempre sonhou apaixonar-se por um homem alto a tocar viola baixo. O caso das peúgas do pianista levou-a a precipitar a sua saída de casa e a juntar-se com o seu novo amor musical. Foram viver para umas águas furtadas perto da Picheleira.

        O Conjunto passou a chamar-se “ Os Três Ases”.

        O viola eléctrica já foi electrocutado várias vezes e agora toca com a viola desligada.

        O baterista veste calças de cabedal à boca de sino, camisa florida, usa óculos de vidros verdes, redondos, enormes, calça botas vermelhas de tacão alto, e traz ao peito uma cruz dourada cravada de pedras e uma catadupa de anéis na mão esquerda. Na mão direita veste uma luva amarela, de plástico, muito brilhante, sem a ponta dos dedos. Acaba cada música com um solo prolongado de bateria, o que irrita ferozmente o pianista. É aplaudido pela selecta assistência. De facto é o grande animador do Conjunto, provocando no maestro e pianista uma raiva incontida.

         Daniel Bemol espera a oportunidade de se libertar destes ambientes sombrios e desprestigiantes para assumir definitivamente a sua competência como grande maestro, o grande maestro da actualidade, conhecido, admirado e respeitado por milhões de melómanos de todo o mundo.

        Daniel encanta-se ao imaginar o orgulho que sentiria ao dirigir grandes orquestras, interpretando compositores célebres e receber no final de cada actuação  aplausos infindáveis como retribuição pelo seu extraordinário talento. Ele inveja os seus grandes maestros preferidos como Vladimir Ashkenazy, Mstislav Rostropovich, Evgeny Mravinsky, Semyon Bychkov, Yuri Temirkanov e Melik-Pashayev.

        No fim de mais uma noite de trabalho, Daniel Bemol, ainda sentado ao piano, levanta a cabeça, olha para o infinito, extasiado, abstraído do ambiente rasca que o rodeia e orgulha-se de ver um enorme cartaz anunciando:

                 “Esta noite no Teatro Bolshoi de Moscovo

     “Concerto dirigido pelo grande maestro Daniel Bemol”

                             “Lotação esgotada há três meses”

         Ouve os aplausos da grandiosa assistência que, de pé, o obrigará a vir à boca de cena vezes sem fim para receber a aclamação merecida. Daniel agradece, partilhando o seu êxito com a orquestra, a grande Orquestra do Teatro Bolshoi de Moscovo.

        Quando acorda vê o deprimente mulherio a olhar para ele, ridicularizando-o, numa triste cena de gargalhadas alarves.

 JOSÉ EDUARDO TAVEIRA

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Momento de divulgação – Livro Infantil

Olá a todos.
O meu nome é Nuno Gomes e o meu 1º livro infantil “O Patinho Friorento” já está disponível através do Sítio do Livro.
Trata-se de uma edição de autor e conta a história de um pequeno patinho amarelo, que achava que não era como os outros e por isso se sentia muito infeliz…Para todos os que vierem de alguma forma a contactar com “O Patinho Friorento”, espero que seja do vosso agrado.
Até breve, Nuno.
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Ents ( de Danilo Pereira )

Os Ents, são antigas árvores que habitam as profundezas de Alfheim ( lar dos elfos ) elas são muito sábias e já foram muito úteis na guerra dos Deuses.

Geralmente, são encontrados nas partes escuras e mais profundas das florestas, sempre acompanhadas das fadas, que tocam harpa em seus galhos. Os Ents, acreditam que a música espanta os males das florestas e que os espiritos ruins se afastam deles.

Estas titânicas árvores  são pacíficas, falam devagar e transmitem muitas paz à aqueles que as encontram, mas nem todos são assim, existem também alguns Ents malígnos, mas estes ficam para um próximo post.

 

Ilustração de Wolfgang falando com um Ent.

Obra, Wolfgang, o guerreiro nórdico.

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“HISTÓRIAS DE PESSOAS QUE DECIDI DIVULGAR”

EXTRACTOS DA HISTÓRIA Nº15

           

               Tuxa Vanessa é uma   senhora que dedica parte da sua vida a visitar e receber as inúmeras amigas que têm o privilégio de pertencer ao seu núcleo social. É companheira há longos anos do Conde König der Würst, oriundo de uma afortunada família alemã, proprietária de várias fábricas de salsichas. Tuxa Vanessa vive no mesmo palacete, por deferência do Conde. Frequentam as melhores festas de sociedade e recebem frequentemente convites para passar fins-de-semana em casas de top-societies por essa Europa fora, todas relacionadas com os negócios do Conde.

         O grupo de amigas de Tuxa reúne-se todas as semanas para tomar chá e saborear os excelentes scones, fabricados em rigoroso exclusivo, numa Pastelaria chiquíssima.

        Para agradar ao Conde, durante os chás, Tuxa Vanessa promove degustações de vários tipos de linguiças, apreciadas pelo gosto requintado das convidadas. (…)

          Ouviram dizer que Portugal é um País que tem muitos pobrezinhos, mas lamentam nunca terem visto nenhum, para os poderem observar em carne e osso.

        Tuxa Vanessa teve uma ideia fantástica que lhe surgiu espontaneamente e resolveu mandar convocar as amigas, com a máxima urgência, para apresentar a sua extraordinária e inovadora proposta.

           Ainda não eram cinco horas e já todas as convidadas estavam presentes, tal a expectativa gerada pelo misterioso convite.

            Entre as amigas, perguntavam-se o que seria que ela tinha para lhes comunicar de tão importante. Antes do lanche, Tuxa Vanessa dá início à sua apresentação:

       – Minhas queridas amigas, vocês são fantásticas e é uma alegria poder contar convosco para lançarmos uma espécie de Movimento Nacional Feminino, lembram-se? Era só senhoras do melhor que havia na sociedade. Tal como elas, o meu objectivo é ajudar os pobrezinhos, que dizem haver muitos por aí. Foi uma ideia que tive assim de repente. Não me perguntem como, porque eu nem sei explicar. É daquelas ideias que temos quando não estamos a pensar, estão a perceber, minhas queridas? Pelo menos sempre temos algo para atirar à cara daqueles que nos insultam por sermos, felizmente, pessoas de bens. Então a minha proposta é que organizássemos um jantar de beneficência no restaurante de luxo que todas costumamos frequentar. Eu ponho a secretária do Conde a tratar de tudo. Ele já me disse que é a sua contribuição para o nosso Movimento. Será convidado o melhor da nossa sociedade. Para começar, vamos ajudar dez pobrezinhos e na noite da nossa Gala, eles ficarão na rua à nossa espera. Vai ser um momento inesquecível para eles, que ainda por cima nem sabem que o restaurante existe. Será um deslumbramento, coitaditos. Que dizem a isto as minhas queridas amigas? (…)

           Faryngite de Santacomba achou a ideia o máximo e propôs que cada benfeitora tenha direito a angariar um pobrezito. (…) 

        – Bem, minhas queridas, fica combinado que cada uma de nós arranja um pobrezinho, tal como sugeriu a nossa querida Faryngite, mas peço-vos minhas queridas amigas, arranjem umas criaturas que não cheirem mal, porque eu detesto gente mal cheirosa. Além disso não quero barulho junto ao restaurante, que é uma vergonha para nós, que somos pessoas conhecidíssimas. Ah! E não quero gentinha a acompanhar os pobretes que vamos ajudar. Se vêm para aí com a famelga e a filharada não se pode estar em paz. A organização destas acções de solidariedade tem de ser muito bem preparada. A secretária do Conde trata de tudo.  (…)

       – Eu apreciava imenso que o Conde König der Würst fosse o convidado de honra, não pagando por isso o seu jantar. É o único estrangeiro do nosso grupo e ele ficaria muito grato por esta amabilidade. Aliás, foi um amor em ceder a sua secretária particular para organizar este jantar de gala. Para a semana voltamos a encontrarmo-nos para acertar os pormenores finais. Ok? (…)

             Passados oito dias efectuou-se nova reunião. Os pobrezinhos já estavam escolhidos e a data da Gala marcada para quinta-feira da semana seguinte. Tudo rigorosamente planeado. Finalmente vai chegar o tão esperado dia.(…)

JOSÉ EDUARDO TAVEIRA

 

 

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Ganhões da Estrada- página 18 e Conclusão

Vocês são de onde?
– Eu sou de Moura, e os meus companheiros, um é de Cuba e o outro de Mértola! – Respondeu o Pirralho.
O Nunes ficou uns minutos calado, a olhar os três homens, logo disse, para o Joaquim Silva, que era quem estava mais próximo:
– Mostra-me então as palmas das mãos, para ver se tens calos de trabalhador.
Joaquim Silva mostrou as palmas das mãos.
– Bolas, não se vê nada de jeito; se calhar é porque tens as mãos sujas; olha, vai ali junto à berma, mijas nas mãos e depois eu vejo outra vez, para tirar a prova dos noves…
Passados uns segundos de pasmo, o pobre Pirralho lá foi a caminho do pinheiro a cumprir a ordem, enquanto os olhos do Pimenta mostravam um profundo desacordo com a situação.
– Então já não se pode brincar um bocado? – Disse o encarregado geral.
– Então e os outros? – Quis saber o Pimenta.
– Isto é só uma paródia, homem!
O Pirralho voltou a mostrar as palmas das mãos.
– Bom, já sabe quanto é a jorna?
– Sim, o senhor do escritório já nos disse! – Respondeu António Manuel.
– Então começam amanhã às oito. Estejam um quarto de hora antes à porta do escritório que aqui o senhor Pimenta vai lá a buscá-los, quem precisar de alojamento traga as suas coisas para as deixar na camarata. Têm de ter roupas de cama, não se esqueçam, até amanhã…

A CONCLUSÃO

O Joaquim Silva, o Jaime Narciso e o António Manuel não são personagens de ficção. Existiram na realidade, com os seus verdadeiros nomes, e na verdade não calcorrearam a auto-estrada em construção à procura do encarregado-geral durante dois dias, mas sim durante três, num ano em que, – recordo-me bem, – o verão foi extremamente quente, com temperaturas que chegaram a atingir os quarenta graus, e que o fizeram por não disporem da abundância de dinheiro, o suficiente para se deslocarem ao escritório da companhia americana em Lisboa, também corresponde à realidade. Eram do Alentejo, precisamente das terras indicadas, as alcunhas são ficção, mas a vida destes homens lá pelo Alentejo passava-se como foi descrito.
O designado pelo nome fictício de António Manuel andava de facto fugido à polícia e pela razão indicada. Se foi mais tarde preso ou não, não sei, porque foram pessoa que nunca mais vi. Não sei se alguma vez foram pessoas felizes, se concretizaram os seus sonhos, bastante modestos, por sinal, uma vez que se limitavam a pretender apenas sustentar as famílias, e pouco mais. É o mínimo que um homem pode pretender na vida, ganhar o suficiente para garantir que os filhos não passem fome, e julgo ser obrigação de qualquer regímen garantir esse direito a quem trabalha, em particular quando a classe política passa o tempo a falar da fraca produção da nossa gente.
Julgo que os políticos que não se preocupam com o sofrimento dos povos que governam, sofrem do pior dos males, o tipo hediondo de racismo que os leva a odiar as pessoas do país onde nasceram.
Quando penso sobre o que tem sido ao longo das gerações a luta de classes em Portugal acabo sempre por me perguntar: Afinal o que é que mudou no nosso país?
O Joaquim Silva, o Jaime Narciso, e o António Manuel desapareceram do nosso pequeno mundo por artes mágicas? Enriqueceram? Passaram à condição de esmolares? Suicidaram-se? (Sei que o numero de suicídios no sul do país tem aumentado bastante.)
E quanto às promessas de modernização dos nossos meios de produção, da reciclagem da nossa mão-de-obra, das novas formas de ensino, mais adaptadas às novas realidades, à colaboração indispensável entre as universidades e as empresas, à salvaguarda dos nossos recursos naturais, – os agrícolas, as pescas, com a respectiva modernização da nossa frota, – será que as pessoas em Portugal continuam a não ser consideradas como a principal riqueza do país, mas sim como uma mão-de-obra mal remunerada e prontamente descartável, logo que chegam lotes de imigrantes prontos a trabalharem por qualquer preço?
Que resposta têm os governantes para dar ao povo se este, um dia, os questionar sobre a aplicação do dinheiro acumulado no país à data do derrube da ditadura, e dos milhões que entraram depois, supostamente destinados para o nosso desenvolvimento, ou seria antes para nos pagar os meios de produção de que dispúnhamos na época?
Felizmente que tal questão nunca vai ser colocada, porque, tal como dizia o poeta, somos um país quietinho! E este raciocínio leva a dois pensamentos distintos; o primeiro, perceber se, de facto, alguma vez existiu em Portugal uma ditadura imposta contra a vontade popular, o segundo, perceber se Portugal pode um dia ser entendido como um país não esclavagista, capaz de sobreviver apenas e somente do trabalho e do esforço e vontade dos seus cidadãos.
Julgo que no nosso, – por enquanto, – país, os níveis de conhecimento e de cultura são de tal modo baixos que os factores responsáveis pelo nosso empobrecimento acelerado, o fabuloso endividamento externo, só são entendidos por uma mão cheia de pessoas qualificadas, e questiono-me se é possível uma democracia subsistir numa terra onde a iliteracia leva uma parte substancial da população aceitar viver como subsidio dependente, sem nunca se interrogar por quanto tempo vai ser possível sustentar a situação.

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