Ganhões da Estrada- página 18 e Conclusão

Vocês são de onde?
– Eu sou de Moura, e os meus companheiros, um é de Cuba e o outro de Mértola! – Respondeu o Pirralho.
O Nunes ficou uns minutos calado, a olhar os três homens, logo disse, para o Joaquim Silva, que era quem estava mais próximo:
– Mostra-me então as palmas das mãos, para ver se tens calos de trabalhador.
Joaquim Silva mostrou as palmas das mãos.
– Bolas, não se vê nada de jeito; se calhar é porque tens as mãos sujas; olha, vai ali junto à berma, mijas nas mãos e depois eu vejo outra vez, para tirar a prova dos noves…
Passados uns segundos de pasmo, o pobre Pirralho lá foi a caminho do pinheiro a cumprir a ordem, enquanto os olhos do Pimenta mostravam um profundo desacordo com a situação.
– Então já não se pode brincar um bocado? – Disse o encarregado geral.
– Então e os outros? – Quis saber o Pimenta.
– Isto é só uma paródia, homem!
O Pirralho voltou a mostrar as palmas das mãos.
– Bom, já sabe quanto é a jorna?
– Sim, o senhor do escritório já nos disse! – Respondeu António Manuel.
– Então começam amanhã às oito. Estejam um quarto de hora antes à porta do escritório que aqui o senhor Pimenta vai lá a buscá-los, quem precisar de alojamento traga as suas coisas para as deixar na camarata. Têm de ter roupas de cama, não se esqueçam, até amanhã…

A CONCLUSÃO

O Joaquim Silva, o Jaime Narciso e o António Manuel não são personagens de ficção. Existiram na realidade, com os seus verdadeiros nomes, e na verdade não calcorrearam a auto-estrada em construção à procura do encarregado-geral durante dois dias, mas sim durante três, num ano em que, – recordo-me bem, – o verão foi extremamente quente, com temperaturas que chegaram a atingir os quarenta graus, e que o fizeram por não disporem da abundância de dinheiro, o suficiente para se deslocarem ao escritório da companhia americana em Lisboa, também corresponde à realidade. Eram do Alentejo, precisamente das terras indicadas, as alcunhas são ficção, mas a vida destes homens lá pelo Alentejo passava-se como foi descrito.
O designado pelo nome fictício de António Manuel andava de facto fugido à polícia e pela razão indicada. Se foi mais tarde preso ou não, não sei, porque foram pessoa que nunca mais vi. Não sei se alguma vez foram pessoas felizes, se concretizaram os seus sonhos, bastante modestos, por sinal, uma vez que se limitavam a pretender apenas sustentar as famílias, e pouco mais. É o mínimo que um homem pode pretender na vida, ganhar o suficiente para garantir que os filhos não passem fome, e julgo ser obrigação de qualquer regímen garantir esse direito a quem trabalha, em particular quando a classe política passa o tempo a falar da fraca produção da nossa gente.
Julgo que os políticos que não se preocupam com o sofrimento dos povos que governam, sofrem do pior dos males, o tipo hediondo de racismo que os leva a odiar as pessoas do país onde nasceram.
Quando penso sobre o que tem sido ao longo das gerações a luta de classes em Portugal acabo sempre por me perguntar: Afinal o que é que mudou no nosso país?
O Joaquim Silva, o Jaime Narciso, e o António Manuel desapareceram do nosso pequeno mundo por artes mágicas? Enriqueceram? Passaram à condição de esmolares? Suicidaram-se? (Sei que o numero de suicídios no sul do país tem aumentado bastante.)
E quanto às promessas de modernização dos nossos meios de produção, da reciclagem da nossa mão-de-obra, das novas formas de ensino, mais adaptadas às novas realidades, à colaboração indispensável entre as universidades e as empresas, à salvaguarda dos nossos recursos naturais, – os agrícolas, as pescas, com a respectiva modernização da nossa frota, – será que as pessoas em Portugal continuam a não ser consideradas como a principal riqueza do país, mas sim como uma mão-de-obra mal remunerada e prontamente descartável, logo que chegam lotes de imigrantes prontos a trabalharem por qualquer preço?
Que resposta têm os governantes para dar ao povo se este, um dia, os questionar sobre a aplicação do dinheiro acumulado no país à data do derrube da ditadura, e dos milhões que entraram depois, supostamente destinados para o nosso desenvolvimento, ou seria antes para nos pagar os meios de produção de que dispúnhamos na época?
Felizmente que tal questão nunca vai ser colocada, porque, tal como dizia o poeta, somos um país quietinho! E este raciocínio leva a dois pensamentos distintos; o primeiro, perceber se, de facto, alguma vez existiu em Portugal uma ditadura imposta contra a vontade popular, o segundo, perceber se Portugal pode um dia ser entendido como um país não esclavagista, capaz de sobreviver apenas e somente do trabalho e do esforço e vontade dos seus cidadãos.
Julgo que no nosso, – por enquanto, – país, os níveis de conhecimento e de cultura são de tal modo baixos que os factores responsáveis pelo nosso empobrecimento acelerado, o fabuloso endividamento externo, só são entendidos por uma mão cheia de pessoas qualificadas, e questiono-me se é possível uma democracia subsistir numa terra onde a iliteracia leva uma parte substancial da população aceitar viver como subsidio dependente, sem nunca se interrogar por quanto tempo vai ser possível sustentar a situação.

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Sobre jsola02

quando me disseram que tinha de escrever uma apresentação, logo falar sobre mim, a coisa ficou feia. Falar sobre mim para dizer o quê? Que gosto de escrever, (dá-me paz, fico mais gente), que escrever é como respirar, comer ou dormir, é sinal que estou vivo e desperto? Mas a quem pode interessar saber coisas sobre um ilustre desconhecido? Qual é o interesse de conhecer uma vida igual a tantas outras, de um individuo, filho de uma família paupérrima, que nasceu para escrever, que aos catorze anos procurou um editor, que depois, muito mais tarde, publicou contos nos jornais diários da capital, entrevistas e pequenos artigos, que passou por todo o tipo de trabalho, como operário, como chefe de departamento técnico, e que, reformado, para continuar útil e activo, aos setenta anos recomeçou a escrever como se exercesse uma nova profissão. Parece-me que é pouco relevante. Mas, como escrever é exercer uma profissão tão útil como qualquer outra, desde que seja exercida com a honestidade de se dizer aquilo que se pensa, (penso que não há trabalhos superiores ou trabalhos inferiores, todos contribuem para o progresso e o bem estar do mundo), vou aceitar o desafio de me expor. Ficarei feliz se conseguir contribuir para que as pessoas pensem mais; ficarei feliz se me disserem o que pensam do que escrevo… José Solá
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