ERNEST WIECHERT – ‘FLORESTA DOS MORTOS’ – O testemunho sobre o terror nazi

ERNEST WIECHERT

ERNEST WIECHERT

(Alemanha, 1887 – Suíça, 1950)

Escritor e professor

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Foi um dos escritores mais sensíveis, mais humanos e, sem dúvida, menos revolucionário da Alemanha. Conta, no seu livro Floresta dos Mortos, os horrores do campo de concentração antes da guerra. Preso em 1938, foi um dos milhares de alemães sobre que o nazismo «experimentou» os métodos que depois iria aplicar a milhões de homens de todas as raças e de todas as crenças.

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O testemunho sobre o terror nazi

«Um povo inteiro tinha sido transformado, em alguns anos, num povo de lacaios: lacaios nas cátedras das universidades, lacaios nos tribunais, lacaios a ensinar nas escolas, a conduzir a charrua, no tombadilho dos navios, no exército, lacaios no gabinete de trabalho dos escritores. Lacaios em toda a parte onde havia uma palavra a pronunciar, um gesto a fazer, uma acusação a abafar, uma crença a proclamar.

Quando de madrugada ainda, na luz cinzenta do amanhecer, esses milhares de homens se juntavam para a chamada da manhã, curvados e tiritantes sob as bátegas de chuva, muitos deles apoiados em longas varas, outros, gravemente enfermos, que os seus companheiros amparavam, alguns levados em macas improvisadas, quando o vento fazia flutuar farrapos de nevoeiro em volta das colunas em marcha, ocultando-as agora, descobrindo-as depois na luz lívida, quando ao pé de uma árvore ou de um candeeiro jazia um moribundo, mostrando à luz do amanhecer um rosto já de além-túmulo, julgava-se assistir a uma cena da vida do inferno, saída da terra como um pesadelo, à visão de um inferno como jamais o pincel de nenhum pintor, o buril de nenhum gravador igualou, porque nenhuma imaginação humana, genial que fosse, poderia alcançar uma realidade que não teve igual há muitos séculos, nem talvez em tempo nenhum.

Como compreender que eram as duas partes dum só e único povo, que falavam a mesma língua, que tinham adorado outrora o mesmo Deus, tinham recebido da mesma forma o baptismo e a confirmação; do mesmo povo a que Goethe pertencera, que passara pela guerra dos Trinta Anos e pela Grande Guerra, e cujas mães e avós tinham cantado, à noite: «Ergueu-se a lua…»

De um povo que se achava agora dividido, não pela riqueza ou a pobreza, a piedade ou a impiedade, nem por duas línguas, duas religiões  ou duas naturezas diferentes, mas por um dogma político, por um vitelo de ouro de papel, oferecido ao culto e que, adorado ou desprezado, decidia da subida de cada um na escala das honras, ou o precipitava nos braços de Moloch para ser vilipendiado, torturado, imolado, riscado da existência e da memória. Nada do que existia anteriormente contava, nem a obra realizada, nem a bondade, nem o trabalho e o esforço de uma vida inteira. Contava apenas o presente, a fé jurada ao ídolo, o ajoelhar diante de César, a cega repetição de uma fórmula, o patético falso duma pseudo-cultura, a gritaria dos demagogos.

Não se funda uma civilização sobre o sangue dos homens. Sobre o sangue ou a violência podem fundar-se estados, mas os estados não passam de castelos de cartas ao grande vento da eternidade. O que permanece é fundado por outros. Não por carcereiros nem carrascos. Nem sequer por generais. E esses que fundam alguma coisa não derramam o sangue, excepto o seu próprio, com que alimentam a sua obra imortal. O espírito não morrera ainda neste mundo, nem o amor, nem a beleza. Existiam ainda, mesmo desprezados, mesmo vencidos. E um dia voltariam a erguer o seu pendão ofuscante acima dos ossários das nações.»

 

in “Mundo Literário” – 1946

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ÂNGELO DE LIMA – A Meu Pai

ANGELO DE LIMA

ÂNGELO DE LIMA

(Porto, Portugal, 1872 – Lisboa,1921)

Poeta e pintor

Foi colaborador da revista Orfheu. São notáveis alguns dos seus sonetos. Na sua obra há sinais precursores da escrita automática dos surrealistas.

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A Meu Pai

(No Santo Dia dos Finados)

Pai! quando às horas do findar do dia, (No Santo Dia dos Finados)
A bruma vaga cobre, triste, o Espaço
E a mim me envolve na melancolia…

Pai! Diz-me: sabes que secreto laço
Me prende, a mim, que vago n’este mundo,
Triste, avergado sob o atroz cansaço,
A ti, que pairas lá no céu profundo? …

Pai! sou teu filho! – sou teu filho, sinto…
Não me renegues – sou teu filho, oh! Pai!…
Vês como eu vago n’este labirinto,
Perdido, triste, alucinado, – aí! –
Tal como a nave em que Israel vagou,
E, erma, ao acaso, sobre as águas vai,
Sem já saber que força me guiou,
Sem que me guie já vontade alguma,
N’esta derrota que seguindo vou?

Pois, como à nave que não tem nenhuma,
Nenhuma sombra de tripulação,
Sorri ainda Vésper, de entre a bruma…
Tal ao meu enlutado coração,
Que já não guia nem um só anseio,
Sorri, ao longe, de entre a cerração,
Oh! Pai! O afecto do teu nobre seio!

Pai! meu sincero, meu finado amigo!…
Dormes, no Nada majestoso e triste,
Ou vives ‘inda, como a Dor existe?…

Pai! quem me dera, logo, ir ter contigo!…

Pai! A Desgraça se enlaçou comigo,
Desde que, um dia, oh Pai! tu me fugiste!…
Pai!, se, n’um voo, pelo céu, partiste,
Diz-me o rumo, quero ver se o sigo…

Pai! Tua pobre campa, tão singela,
Talvez não tenha, como as outras têm,
No dia de hoje, quem n’a enflore a ela…

Ai! que é tão triste não se ter ninguém!

Ao menos, Eva, o nosso encanto, – vê-la? –
E Pedro, e Vasco… São contigo além!

 

Imagem: retrato de Ângelo de Lima. Autor: “doente Pragana”, 1919, tinta negra s/ papel.

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FERNANDO PESSOA – Carta a Ophélia Queiroz

CARTA DE FERNANDO PESSOA A OFELIA

FERNANDO PESSOA

(Lisboa, Portugal, 1888 — 1935)

Poeta, filósofo, dramaturgo, tradutor

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Carta a Ophélia Queiroz

Terrível Bebé:

Gosto das suas cartas, que são meiguinhas, e também gosto de si, que é meiguinha também. E é bombom, e é vespa, e é mel, que é das abelhas e não das vespas, e tudo está certo, e o Bebé deve escrever-me sempre, mesmo que eu não escreva, que é sempre, e eu estou triste, e sou maluco, e ninguém gosta de mim, e também porque é que havia de gostar, e isso mesmo, e torna tudo ao princípio, e parece-me que ainda lhe telefono hoje, e gostava de lhe dar um beijo na boca, com exactidão e gulodice e comer-lhe a boca e comer os beijinhos que tivesse lá escondidos e encostar-me ao seu ombro e escorregar para a ternura dos pombinhos, e pedir-lhe desculpa, e a desculpa ser a fingir, e tornar muitas vezes, e ponto final até recomeçar, e porque é que a Ophelinha gosta de um meliante e de um cevado e de um javardo e de um indivíduo com ventas de contador de gaz e expressão geral de não estar ali mas na pia da casa ao lado, e exactamente, e enfim, e vou acabar porque estou doido, e estive sempre, e é de nascença, que é como quem diz desde que nasci, e eu gostava que a Bebé fosse uma boneca minha, e eu fazia como uma criança, despia-a, e o papel acaba aqui mesmo, e isto parece impossível ser escrito por um ente humano, mas é escrito por mim.

Fernando

9-10-1929

 

in ”Arquivo Pessoa” – Cartas de Amor.

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ISAAC ASIMOV – Mas afinal, o que é inteligência?

ISAAC-ASIMOV

ISAAC ASIMOV

(Rússia, 1919 – EUA, 1992)

Escritor e bioquímico

Foi considerado um dos mais importantes escritores de ficção científica do século XX. A sua obra mais famosa é a série Fundação (Trilogia da Fundação), que faz parte da série do Império Galáctico.

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Mas afinal, o que é inteligência?

Quando estava no exército, fiz um desses testes de aptidão intelectual que todos os soldados realizam. Minha pontuação foi de 160, o normal é 100. Ninguém na base tinha visto uma nota dessas e durante duas horas eu fui o assunto principal.

(Não significou nada – no dia seguinte eu ainda era um soldado raso da KP – Kitchen Police)

Durante toda minha vida consegui notas como essa, o que sempre me deu uma ideia de que eu era realmente muito inteligente. E eu imaginava que as outras pessoas também achavam isso.

Porém, na verdade, será que essas notas não significam apenas que eu sou muito bom para responder um tipo específico de perguntas académicas, consideradas pertinentes pelas pessoas que formularam esses testes de inteligência, e que provavelmente têm uma habilidade intelectual parecida com a minha?

Uma vez conheci um mecânico de automóveis que de acordo a minha estimativa não poderia superar os 80 pontos nessas provas de inteligência. Sempre tive a certeza que era bem mais inteligente que ele.

Entretanto, quando acontecia algo errado com o meu carro eu observava com ansiedade enquanto ele analisava o meu carro, enquanto proferia termos para mim desconhecidos, mas que levava em conta como se ele fosse um sábio em um oráculo divino. No fim das contas, ele sempre consertava meu carro.

Pois bem, vamos supor que meu mecânico tivesse feito as perguntas para um teste de inteligência. Ou quem sabe fossem formuladas por um carpinteiro, ou por um agricultor, ou, de facto, qualquer pessoa que não tivesse uma vida académica.  Qualquer uma dessas pessoas que fizesse o teste comprovaria minha completa ignorância e estupidez.

Em um mundo onde eu não pudesse usar a minha formação académica e meus talentos verbais, mas tivesse que fazer algo complicado ou difícil, manualmente, eu me daria muito mal.

Minha inteligência, então, não é absoluta,  mas é algo imposto em uma função de uma pequena parcela da sociedade em que vivo.

Ainda sobre o mecânico.

Ele tinha o costume de contar-me piadas sempre que me encontrava. Uma vez levantou a cabeça debaixo do capô do carro para dizer:

– Doutor, um garoto surdo-mudo entrou em uma loja de ferragens para pedir pregos. Pôs dois dedos juntos sobre o balcão e depois fez um movimento de martelar com a outra mão. O empregado trouxe-lhe um martelo. Sacudiu a cabeça e assinalou os dois dedos que estava martelando. O empregado trouxe-lhe os pregos. Escolheu o tamanho que queria, e se foi. Bom, doutor, logo depois entrou um cego na loja. Queria tesouras. Como acha que lhe pediu por elas?

Rapidamente levantei a mão direita e fiz uns movimentos com os dedos simulando uma tesoura. Ele caiu em gargalhadas e disse:

– Mas você é muito burro mesmo! Ele simplesmente abriu a boca e usou a voz para pedir.

Depois de recuperar o fôlego, o mecânico disse:

– Estou fazendo essa pegadinha com todos os clientes hoje.

– Muitos caíram?

– Poucos. Mas tinha certeza absoluta de que funcionaria com você.

– Por quê? – perguntei.

– Porque você estudou muito doutor, sabia que não podia ser muito inteligente.

E eu tive a incómoda sensação de que ele estava falando a verdade.

 

Texto retirado de sua autobiografia “It´s Been a Good Life“.

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Gestão de Existências e Apuramento de Custos, de Rosalina Reis

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JORGE LUÍS BORGES – A Luís de Camões

JORGE LUIS BORGES

JORGE LUÍS BORGES

(Buenos Aires, Argentina, 1899 – Genebra, Suíça, 1986)

Escritor, poeta, tradutor, crítico literário e ensaísta

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A Luís de Camões

Sem lástima e sem ira o tempo vela

As heróicas espadas. Pobre e triste

Em tua pátria nostálgica te viste,

Oh capitão, para enterrar-te nela

 

E com ela. No mágico deserto

A flor de Portugal tinha perdido

E o áspero espanhol, antes vencido,

Ameaçava o seu costado aberto.

 

Quero saber se aquém dessa ribeira

Última compreendeste humildemente

Que tudo o que se foi, o Ocidente

 

E o Oriente, a espada e a bandeira,

Perduraria (alheio a toda a humana

Mudança) na tua Eneida Lusitana.

 

 

 

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ANTÓNIO SÉRGIO – Pensador e político

ANTONIO SERGIO

ANTÓNIO SÉRGIO

(Damão, Índia, 1883 – Lisboa, Portugal, 1969)

Pensador, pedagogo e político português

Foi dos pensadores mais marcantes do Portugal contemporâneo, com uma vasta obra que se estende da teoria do conhecimento, à filosofia política e à filosofia da educação, passando pela filosofia da história.

Em coerência com o seu sistema de pensamento, defendeu que a democracia, ao invés de ser uma coisa é uma actividade que se identifica com o processo da cultura, um dinamismo de essência espiritual, um fim que radica na autoridade crescente de cada um sobre si próprio, acabando por tornar o estado desnecessário, pois substituído pelo império de cada alma livre. Assim, a vontade geral que a democracia invoca é «a vontade de qualquer indivíduo, sempre que este, para proceder, toma uma atitude de pensar objectiva, racional, geral», subindo do indivíduo à pessoa, do plano biológico ao plano do espírito, fazendo o homem coincidir com o cidadão.

in “Filosofia Portuguesa”

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“Sérgio foi preso em 1910, 1933, 1935, 1948 e 1958. E a propósito das últimas quatro vezes pensou (e depois escreveu) que foi na prisão que encontrou a verdadeira «união nacional» – de oposição à ditadura militar, primeiramente, e, depois, a Salazar, ao Estado Novo, ao fascismo.” O essencial da actividade política de Sérgio é sempre enquadrável com o seu aspecto teórico – a ligação à Democracia, à Liberdade, como via para a Educação e Cultura.

 

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