Um novo poema: «Toada de amargura»

Posto que tendo já abandonado a actividade poética com carácter de regularidade – como, de resto, repetidamente temos dito -, não nos furtamos a, muito raramente, ir fazendo revivescer alguns cantos da nossa pobre lira. Eis o último deles, recentemente cinzelado:

 

«TOADA DE AMARGURA»

Lôbrego caminho da triste vida,
Juncado d’heras de sombrio vulto;
Porque se há-de sofrer tão amarga investida
Desse áspero sentir, ‘inda insepulto?

As razões, não no-las desvela o Criador,
Ele, que aos destinos da gente assim preside;
Resta a incerteza, a amargura, a dor,
A opressora mágoa que no triste peito reside.

Porém, há-de ser assim o devir,
Tão-só de nigérrima paleta esboçado?
Creio, por minha fé, que o porvir,
Em se querendo ridente, bem custa a ser alcançado.

Diz a alma ao coração, caridosa:
«Repara, que também soalheiros são os alvores,
E essa sorte, que se te faz inditosa,
Prestes há-de evolar-se nos mais faustos alcandores!».

 

Diogo Figueiredo P. D. Ferreira

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Crescendo Constroem-se os Sonhos (IV)

É como adultos, e mais responsáveis, que começamos a compreender que as sucessões dos planos naturais e sociais se tornam numa manifestação natural de revelações que nos parecem sempre semelhantes, mas que devemos assimilar nas nossas acções quotidianas por linguagens e gestos de total cumplicidade. Sinto que estas relações naturais vão ganhando uma aceitação e entrega à medida que vamos envelhecendo, à medida que vamos sentindo que afinal somos elementos do Universo e que conforme melhor com ele vamos combinando vamos sendo mais felizes e brilhando muito mais. Creio que é da nossa natureza esta atitude e acredito que está na nossa substância estas qualidades de sermos integrados no universo dos vários elementos pela extensão das nossas capacidades. De sermos integrados noutras formas e noutros planos, mas com a acção das nossas resistências e mudanças.

   À medida que nos vamos ligando mais ao mundo e às suas partes, vamos contrariando a nossa estabilidade emocional e desejando mais a nossa emocionalidade. Será, certamente, por esta razão que começamos muito cedo a rejeitar o mundo e a sua ordem, não fomos nós que a fizemos e pensamos que os que nos antecederam não tiveram a inteligência e o juízo suficientes para fazer um mundo melhor. Limitamo-nos a um idealismo emocional, despertando muitas vezes para exaltações e acontecimentos que nos parecem únicos, que nos parecem encaminhar para a realização plena e nos dar tudo o que precisamos. Os jovens adolescentes são a expressão temporal humana que melhor traduz esta forma de comportamento, esta forma de resistência que levanta maiores complicações nos domínios da ordem humana-social.

   É da nossa natureza o sentimento e a emoção, são elementos básicos do nosso humanismo e os elementos principais para a iniciação do nosso romantismo corporal. Resistimos, de um modo geral, durante a nossa vida a tudo o que é dureza e convicção forçada, mas na adolescência esta resistência por vontade de criar e mudar tem uma especificidade mais determinada. Pois se o princípio do prazer está agora mais nítido e traz-nos alguma vergonha quando praticado fora dos seus limites, o princípio da responsabilidade não é ainda integrado sem uma resistência, por vezes radical, e o modo que encontramos para a exercer manifesta-se pela prática do prazer e do gozo que a aventura e a rejeição causam no seu exagero.

   A adolescência traz consigo a emoção do tempo de viver e pensar no que mais agrada e do que é mais útil para nós e nos faz participar por envolvimento. Normalmente, procuram-se os acontecimentos que nos dão mais partilha de prazer do que de responsabilidade, acontecimentos que nos fazem esquecer do horário e da distância, esquecer com quem se está e onde, com quem se vai e com quem se vive. O mais importante para nós somos nós próprios — os outros têm que nos compreender e nos aceitar como somos e com a liberdade que queremos. A moral da autonomia baseada num sujeito legislador e obediente, a liberdade de viver com os outros e para os outros, ainda estão bem longe deste tempo de crescimento. O homem faz-se na vida, mas esta vai tendo a forma temporal vivida e as experiências adquiridas, que são, como se pode compreender, conforme as necessidades que cada um vai tendo. A exigência a si próprio só a determinamos num sentido de imitação e compromisso com o grupo, não necessariamente, com um plano cujas partes ainda não são necessárias no projecto em construção e muito menos na sua materialização.

   Nesta altura não sentimos necessidade de mudança nos ajustamentos e adaptações e fazemo-lo, com alguma contrariedade, se não for para o que nos diz estritamente respeito. O mundo tem de ajustar-se a nós e não o contrário; não temos de ser elementos de planos de projectos passados e se os mais velhos não concordam é porque não evoluíram o suficiente e são demasiado exigentes. Tenho consciência que estou a ser um pouco radical na análise observada, mas os pormenores é que podem variar um pouco, o resto tem uma forma temporalmente definida que se repete em todas as gerações. Eis porque acredito que seja da nossa natureza ou até, quem sabe, de toda a natureza a tendência para resistir, que no homem, em meu entender, ganha a força de domínio e torna-se numa raiz da emergência cultural humanamente necessária. O problema surge nesta totalidade temporal e genética que terá que ser sempre bem acompanhada, para que o homem se faça no tempo de cada uma das suas fases de crescimento com equilíbrio em todas as dimensões. Não pode a tendência a resistir perder-se do sentido natural da mudança nem as transformações vitais ocorrerem por ruptura com a capacidade humana.

   Resistir até ao ponto crítico, até ao ponto em que não podemos mais ser o centro único do amor e para o qual tudo terá de convergir, não será despropositado se estivermos a crescer e ainda não formos maiores nem necessariamente obrigados. Mas, logo que a idade e a responsabilidade tenham suporte natural do fazer da vida, não devemos encaminhar-nos para o resistir, como negação da ordem natural e social; antes pelo contrário, devemos solidarizar­‑nos com ambos e assumirmos a nossa parte no processo. Nada se mudará para nós se não nos mudarmos também, a proporção é individual mas a força da convicção com que o fazemos é elementar para nos desenvolvermos num mundo que é real. A maioridade, quando bem estruturada na sua origem e ordenada pela educação na base do dever e do respeito, trará ao homem a compreensão de que a liberdade não é um sonho, mas esta compreende todos e nós somos apenas um elemento que tem uma função na sua linha. A maioridade trará ao homem a compreensão mais natural destas realidades, pois até o dia e a noite em tangência têm de se superar para darem lugar a cada uma das suas composições. E o homem tem de se superar no centro para se elevar até a um outro onde passará a ser elementar, mas já não sujeito único.

   É bom recordar (e é com esta preocupação que escrevo estes pensamentos) que aprendi pelas experiências diversas que a expressão da vida não tem uma forma definida e acabada em cada uma das nossas épocas ou fases, pois esta desenvolve e rege-se por princípios e leis que são constantes e permanentes e, por isso, são naturais. Estes princípios e leis são as bases reguladoras necessárias e convenientes à vida de todas as gerações, e eu só vejo uma maneira simples de deles falarmos para que todos mais ou menos percebam a sua importância, e essa maneira é recordá-los pelos sentimentos vividos e expandi-los às emoções de cada um. É mais fácil perpetuar estes pensamentos pela comunhão geral de vivências e plantá-los nas emoções mais jovens, para que as formas das expressões da sua vida venham a ter conteúdos diferentes, como será lógico e natural, mas não sentidos nem ordens nem dimensões diferentes dos desígnios que a vida humana sempre deverá ter em todas as gerações.

   Tenho ainda muito vincadas as preocupações dos que me ensinaram a descobrir o caminho da vida autêntica, foram breves sentenças morais que se tornaram à medida que ia crescendo em sinais de aviso de que nada aconteceria sem que a nossa sensibilidade fosse subtilmente perturbada. Esses sinais foram as fontes de expectativas e os pensamentos reveladores de uma ordem que era preciso descobrir nem que fosse à custa de aventuras que deixassem algum desespero na alma e remoques de desânimo no mal sucedido. Ninguém me pôde avisar dos meus sonhos nem me dizer como caminhar para os encontrar, mas todos me falaram de algo que era a sua própria razão e se tornava na sua própria força. Todos me contaram as suas maiores realizações e me falaram em forma de exemplo elevado; acontecimentos da sua vida e sentenças moralmente profundas, formas de um bom encontro para sempre.

Macedo Teixeira

Páginas 29 a 35

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Crescendo Constroem-se os Sonhos(III)

Temos que escolher entre um mundo natural, com a sua própria ordem e com a nossa liberdade de escolha para viver, e um mundo natural e humano construído por nós, mas com egoísmo e só para a nossa vida. Essa escolha tem que ser feita pela necessidade de caminharmos para uma ordem que recapitula a perfeição humana, no mundo do ser criança, do ser jovem e do ser adulto.

Ainda me lembro das primeiras sensações e do eco da gritaria ao sairmos da escola, do pontapear as pedras e empurrar para o chão os companheiros de que às vezes mais gostávamos. Era uma certa maneira de dizer: “Até amanhã!” Tornava-se na forma de manifestar a amizade de qualquer modo. E se não era, por vezes, o melhor modo, a experiência realizava-se e o sentimento começava a tornar-se forte.

É neste quadro de efeitos temporários e distantes que começa a nascer para cada criança urna nova perspectiva sobre o que vai ser novo e diferente no futuro. Novos companheiros, outras situações que desconhecemos e, porventura, mais tristezas e alegrias sobre as passagens ou reprovações na escola; perturbações da nossa inteligência, que ainda não está completa, nem pode ainda compreender todas as razões.

Mais quietos e mais conformes com a nossa natureza de meninos, vamos situando a nossa vida e fazendo questão que ela seja como queremos. Construímos os nossos desejos num jogo de forças e de relações sociais que são a expressão da educação e da ordem dominante. Inventamos soluções para as nossas dificuldades e suprimos as faltas de todo o tipo de coisas, pelas respostas que encontramos. Às vezes vivemos alheados de tudo o que não queremos sem a certeza de porque o fazemos, mas com a ideia de que resistimos deste modo à forma de um mundo que nos querem mostrar. Um mundo que é nosso, mas muito diferente daquele em que vivêramos antes, que era completamente nosso, porque éramos pequeninos e não conhecíamos classes. Agarramo-nos ainda a ele com todas as nossas forças e todas as recordações que guardamos, pensamentos que se tornam na força que nos mantém na certeza de que era bom viver como quando fomos pequeninos. Nesse mundo não éramos estranhos e sabíamos como fazer. Não tínhamos que nos mostrar nem ganhar consciência das nossas dificuldades. Afinal, alhear-se nesta fase que recapitula a fase de menino é uma forma de resistir a uma outra ordem que vamos pouco a pouco reconhecendo como necessária, já que o outro plano do nosso ser, o plano da responsabilidade, vai rasgar o véu que escondeu anteriormente os grandes mistérios da nossa vida.

Agora já não somos mais, nós e o mundo, que era nosso e só entrava nele quem nós queríamos e gostávamos. Já não podemos fazer o que queremos nem que seja para chamar a atenção e sermos o centro da vida. As interrogações nesta fase da responsabilidade, no que ela tem de limites, tornam-se na plantação do querer existir em cada momento conforme as sensações que temos. Sensações que ainda não são verdadeiramente nossas porque lhes falta ainda um sujeito determinado a existir livremente, sem qualquer condição que não seja a de ser sujeito num mundo de objectos. A adolescência rompe numa atitude descomprometida com o mundo e com as pessoas; não acontecem factos que entusiasmem muito e agradem o suficiente. O mundo e as pessoas configuram expressões e formam sentimentos que são hipoteticamente contrários às soluções que os adolescentes desejam e acreditam ser possíveis. A figura do sujeito determinado a existir livremente não se exprime ainda senão como ideal, não tem ainda suporte de atitudes completamente livres. O que os jovens vêem e sentem nesta altura desliza para emoções que não trazem nada de novo e que permaneça muito tempo. As atitudes são ainda frágeis e não libertam a vontade de tudo fazerem conforme lhes dá mais gozo e não do que seja melhor para todos. “O princípio do prazer e o princípio da responsabilidade” não são muito distintos nos seus limites nem nas suas formas. Nesta altura os jovens adolescentes não deixam os domínios do prazer, pois assumem-se “senhores do que sentem e querem”, participam na cooperação social pelo ensaio da responsabilidade, mas sentem-se “estrangeiros” quanto às regras que são socialmente adoptadas e que têm de respeitar. Não sei se é da nossa própria natureza resistir na revelação de qualquer plano, em que não fizemos as regras; sei que mesmo bastante mais velhos não nos é fácil conhecer e aceitar sem qualquer constrangimento na vontade o que é escrito e regulado para qualquer estrutura organizativa e sua aplicação prática. Sei que há em toda a nossa vivência e nos seus diferentes actos diversos pontos críticos entre a concordância e a decisão. Julgo não ser despropositado dizer que, na revelação dos planos, o dia e a noite têm um ponto crítico real, um ponto em que há tangência da noite com o final do dia e vice-versa. Com esta ideia pretendo justificar uma certa ordem natural e social e as diferentes perspectivas em que nos temos de colocar. Digo que tem que haver uma superação pessoal das qualidades do dia para o experimentarmos nos diferentes modos e sentirmos profunda e implicitamente as suas diferentes mudanças. É assim que se vivem estes planos elementares da unidade que se chama dia e é assim que se compreende que há na natureza uma certa ordem cíclica e que as mudanças desta resultam de transformações. Pretendo mostrar, afinal, que mesmo sobre a nossa relação com a natureza existe uma certa necessidade de ajustamento e superação dos pontos críticos em resultado das transformações naturais e que o homem não o faz com voluntarismo absoluto. Creio, entretanto, que é esta atitude que faz com que o homem seja um ser cultural por excelência e me leva a compreender que seja da nossa natureza a vontade de resistir a tudo o que está feito e a dar-lhe outra forma. Vejo, porém, que este grau de resistência vai mudando à medida que vamos sendo maiores e que os limites da sua maior complicação se verificam em certas idades e nos domínios da ordem humana e social. Concluo, porém, que mesmo na ordem natural a nossa relação tem de ser de superação e ajustamento, o que quer dizer que não podemos proceder em contradição para vivermos naturalmente bem. Logo, esta atitude de resistência humana será porventura natural, mas torna-se em certas fases da nossa vida numa força de acção muito poderosa pelo que deverá ser muito bem apreendida na ordem social para que cada um de nós não se perca no seu crescimento correcto.

             Páginas 25 a 29Autografar1 livros.jpg

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Felicidade não é para quem pode, é para quem quer.

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Acabadinha de aqui chegar e muito verde nesta “coisa” de publicar livros, sinto ainda alguma timidez, confesso…

Aproveito o simpático convite do Sítio do Livro, que agradeço, para me juntar a este blogue e vos apresentar o pequeno  livro sobre a felicidade que acabei de lançar.

Mantenho, desde 2007, um blogue  (Sopa de Ideias) onde divago sobre o tema  e apeteceu-me finalmente ter algo físico, papável… Se tiverem curiosidade, aqui escrevi pela primeira vez sobre o meu livrinho azul.

Deixo também, para quem possa interessar, o filme do lançamento.

 

Irei agora explorar esta casa cujas portas me abriram.🙂

Obrigada

Cristina Rodo

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Crescendo Constroem-se os Sonhos (II)

Tenho-me interrogado acerca desta questão, perguntando a mim mesmo se a realidade que vivemos em cada fase da nossa vida não poderia ser vivida de modo diferente, se não poderia ser ao menos reforçada pela presença permanente de laços de ternura e sentimentos de espera por uma presença que queremos e que não deveria acabar nunca. Compreendo que não podemos ser sempre donos do nosso tempo e da nossa vontade; sei que um dia, quando somos maiores e mais velhos, temos de aprender a tomar conta de nós e até da comunidade a que pertencemos. Sei que é necessário o exercício da libertação e da responsabilidade que a Escola e a Sociedade nos iniciam no tempo próprio, pois não podemos viver sempre na dependência dos outros. Mas não compreendo que não possamos ser acompanhados eternamente de laços de ternura e de espera, pela chegada ao lugar e ao coração do que a nossa existência nunca deixou de sentir e desejar. Sei que são muitos aqueles em que as condições humanas são muito pobres e o aconchego não é senão desespero, mas não creio que isso tenha de ser assim. Julgo que muitas vezes essas realidades vivenciais são a expressão final e dolorosa de um mundo desumano que a sociedade prepara sem se lembrar que o que vê nos outros é a imagem do seu próprio sofrimento.

Se a Sociedade fosse capaz de entender que um bocadinho de ” pão”, com a alegria do afecto e a estima do sentimento pode dar força para enfrentar os grandes obstáculos, não sentiria tanta dor em tantas pessoas nem os grupos tentariam a fuga para um mundo que não estará completo, se lá não estivermos todos. Se a sociedade fosse, não apenas a expressão do grupo, mas o seu verdadeiro valor, que vale pelas qualidades e capacidades das pessoas e, sobretudo, pela força que dispõe para resolver os problemas do mundo em que é basicamente responsável. Se a sociedade fosse assim, ela seria um valor que todos queriam e não um valor que é por muitos rejeitado dadas as falsas qualidades, que são em grande parte as mais evidentes. A sociedade terá que entender cada vez mais que serão as qualidades verdadeiras que a tornarão coesa e elevada, serão esses valores que farão elevar o homem aos sentimentos mais profundos do valor da vida.

Falo de ternura, da presença e da espera, falo de qualidades do afecto e do coração, mas também outras devem começar muito cedo a serem evidentes para a criança. A justiça, a coragem, a rectidão, a liberdade, a amizade e outros valores vão-se descobrindo pela experiência, mas os adultos não podem demonstrar às crianças a sua importância, pela exemplificação das falsas qualidades. Não se podem resolver os problemas do mundo se não se melhorarem as nossas atitudes, os nossos actos e os nossos pensamentos. Tenho ainda presente o que ouvia contar sobre alguns acontecimentos que marcaram positivamente a nossa história nos domínios da conquista e da expansão, mas fundamentalmente nos domínios da coragem e da sinceridade dos vários exemplos humanos que ficaram para sempre gravados na minha memória de criança. A personalidade de uma criança, a sua memória e a sua imaginação têm que ser construídas com conteúdos sinceros, acontecimentos com alguma heroicidade e factos que criem plasticidade. Também guardo com carinho algumas passagens de que foram exemplos pessoas das mais diversas origens – o seu carácter, a sua sinceridade e a convicção com que praticavam os seus actos, servem-me, ainda hoje, de reforço para o equilíbrio emocional e social, especialmente nos momentos em que na sociedade actual não encontro senão um ambiente desconexo e vazio de sentido. É nestes valores que se formam as maneiras da sensibilidade e os diversos pensamentos que muito cedo serão repartidos na caminhada da nossa vida e no valor da expressão que lhe vamos dando à medida que crescemos e nos tornamos homens.

Quem não se lembra de alguns dos momentos da sua meninice? Daqueles momentos que facilitaram a abertura da nossa memória pelas traquinices consentidas e pelas brincadeiras atordoadas de emoção. Era menino e gostava tanto de pescar, que me esquecia do comer e da promessa de chegar cedo, que tinha feito a minha mãe. Depois da escola ou aos fins de semana pegava numa cana com linha e anzol, metia um bocado de pão no bolso e lá ia a procura do melhor pesqueiro que houvesse próximo de onde morava. Atirava algumas pedrinhas aos peixes, brincava com eles, sem ter consciência disso! Depois, gostava de os atacar com todas as minhas habilidades, com pedras maiores afastava-os uns dos outros, a água formava círculos concêntricos e uma certa ondulação que os confundia. Esperava que esta voltasse a normalidade e à sua limpidez, fazia uma bolinha de pão e colocava-a no anzol a servir de isco. Como precedente, atirava à água bastantes bocadinhos de pão para os atrair, e como consequência não tardava a trazer para cima uma “boga”, um “escalo” ou um “barbo”, que manifestavam tanta vida como aquela que é própria de uma natureza pura. Foram momentos que tive e que devem ser semelhantes a todas as crianças, senão nos factos, pelo menos nos desejos e na vontade de experimentar. Momentos que temos num certo tempo que são bons quando realizados ou são tristes quando insatisfeitos ou irrealizáveis por qualquer razão, mas que nem por isso deixaremos de estar alegres e de ser crianças sadias.

Foram sensibilidades da inocência e da pureza do nosso espírito; foram elas que nos deram força, nos alimentaram de ternura e até nos guindaram da solidão das tristezas ou das alegrias quando não tínhamos grupo para as manifestarmos. Foram o prémio de um valor que exaltava a nossa alma de pequeninos e nos abria os sonhos das ilusões passageiras que, apesar de tudo, tinham uma graça especial.

Quem não se lembra de pouco ter dormido na noite em que lhe tinham dado alguma coisa para calçar ou vestir, jogar ou passear? Quem não sentiu que a noite era demasiado longa e o dia tardava a nascer, para podermos ver e mostrar o que nos tinham dado? Fossem umas botas de cabedal duro e forte para atestarem alguma humildade económica, fossem uns belos sapatos de verniz para estrearmos em cerimónia ou prendarmos os valores materiais da vida de quem tinha um pouco mais para gastar e podia viver do luxo. Quem não se lembra destas palpitações nervosas pela causa de uma realidade que era necessária, mas que para nós era uma prenda que fazia notar e, ao mesmo tempo, nos fazia dizer: “Vês o que eu tenho novo, não é bonito?”

Todos se lembram com certeza, mas a maior parte de todos nós, nas grandes ocasiões da vida, esquecem esse sentimento de pertença dado pelos valores vividos que não “ilustram na sua recordação”, mais pela origem económica do que pelos factos, pois os meninos são sempre desculpáveis! Esquecem estes sentimentos por julgá-los pobres e tornam-se sobranceiros em relação a estas “meninices”, julgando-se muito certos e muito mais crescidos como adultos.

Grande erro em que caímos, que poderá ser desculpável quando resulta da nossa ignorância, do desconhecimento do valor cultural que tem origem e riquezas diversas ou do desconhecimento do valor dos valores. Mas já não poderá ter desculpa se esta atitude for de elevação social, sem ter substrato real nem o valor cultural da humildade, em virtude da negação dessas vivências, querendo-se ser arrogante e ter mais que os outros, mesmo através dessa distinção falsa. Estaremos numa atitude baixa, porque negamos a nossa sensibilidade de crianças e mostraremos um adulto que ainda não somos nem nunca seremos se não mudarmos. Será uma atitude sem exemplo, porque todos devemos ser mentores de exemplos comparativos de um mundo de valores com partilhas diferentes e origens diversas; o nosso mundo de crianças é um mundo mais semelhante e comum que os mundos seguintes.

As maneiras da sensibilidade são várias e serão tanto mais ricas quanto mais história factual tiverem. A todos sem excepção é reconhecida a sua vida e a qualidade igual que esta deve ter; se diferenças houver, serão naturais, e por qualquer razão que não será da nossa conta. Essas qualidades não criarão sentimentos de abaixamento social em quem as viveu e experimentou; se forem pobres os objectos com que brincáramos, terão o sabor da recordação de como foram experimentados no efeito da diversão e não pelas capacidades tecnológicas ou culturais que possuíam. Se os objectos forem materialmente ricos e muito sofisticados, trarão à recordação o mesmo sentimento de alegria, porque as crianças brincam mais pelo gosto do prazer do que pelo gosto do ter. A afirmação pelo ter objectos valiosos em adultos é uma noção social de poder que tem uma raiz mais dominadora do que humana. E é bom que se diga, que são as experiências de criança e a riqueza do mundo em que esta vive e é educada, que permitem o equilíbrio, mais tarde, entre a ordem do poder social e a ordem do dever humano.

Não se sabe, com pormenor, a força da sensibilidade que recebemos em cada fase ou ocasião da nossa vida, mas é específico da ordem natural, que sejamos estimulados por forças e tensões para a criação de atitudes cada vez mais originais. Emergem, por efeito destas riquezas, as maneiras da sensibilidade que criarão o nosso mundo que, sendo natural, se tornará cada vez mais humano e, por isso, perfeito como as nossas vontades o querem. O nosso mundo terá que ser cada vez mais sensível e imaginário, terá que ter uma história rica de acontecimentos, especialmente da nossa infância, acontecimentos que sejam simples e que permaneçam sempre na nossa memória, para que possamos ser mais tarde como pessoas e adultos muito mais elevados.

Macedo Teixeira

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Crescendo Constroem-se os Sonhos(I)

Titulo – CRESCENDO CONSTROEM-SE OS SONHOS EDITORIAL PANORAMA, LDA. Apartado 5070       4018 Porto CODEX Autor Macedo Teixeira Capa – Zélia Mota Responsabilidade Editorial   Maria do Céu…

Fonte: Crescendo Constroem-se os Sonhos(I)

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Crescendo Constroem-se os Sonhos(I)

Titulo – CRESCENDO CONSTROEM-SE OS SONHOS

EDITORIAL PANORAMA, LDA.

Apartado 5070       4018 Porto CODEX

Autor Macedo Teixeira Capa – Zélia Mota

Responsabilidade Editorial   Maria do Céu Ribeiro

Pré-impressão, impressão e acabamentos: Tipografia Nunes, Lda.

Rua D. João IV. 590 4000-299 Porto

500 ex. – Março de 2002

Dep6sito Legal N.° 178235/02

Em Jeito de Prefácio…

Jean Lacroix, insigne pensador francês, nosso contemporâneo, representante do Personalismo, corrente filosófica iniciada, em meados do século passado, em França, por Mounier[1], dizia que a filosofia era, para ele, a “tradução intelectual de uma experiência espiritual” e que essa experiência profunda se poderia traduzir sob múltiplas formas: poderia assumir uma vertente religiosa, metafísica, moral, estética ou até mesmo política, para além de outras… E acrescenta, noutro passo do mesmo excerto: “Façam os homens o que fizerem, eles pensam para agir e enquanto agem. O Filósofo é um homem como os outros, que pensa primeiro participando nos trabalhos e na dor dos homens.” Filosofar será, então, reflectir sobre este pensamento “imediato” e “espontâneo” (Lacroix refere-se ao pensamento que decorre da Vida e das acções concretas que os homens realizam no âmbito do quotidiano em que decorre a sua Existência) a fim de descobrir ou de dar um sentido…

 

Se vem a propósito evocar o nome de Jean Lacroix é porque as lucubrações desenvolvidas no último livro de Macedo Teixeira[2] seguem de muito perto as directrizes traçadas, a risco fino, por este filósofo francês, para quem a filosofia só tem validade, se for entendida como uma “reflexão sobre a totalidade da experiência vivida”, se ao saber que dela resultar (utilizo o termo saber, não no sentido de “savoir”, mas no sentido de “sagesse”)[3] lhe for conferida uma dimensão essencialmente práxica que a faça voltar para o “mundo da vida” (a “Lebenswelt” de que falava o célebre filósofo alemão Edmund Husserl), para os problemas práticos que decorrem da existência humana.

Em jeito de anamnese, o autor leva a efeito uma incursão reflexiva sobre alguns dos momentos mais significativos do seu percurso existencial. Afinal, a História não é só a dos grandes eventos, dos magnos cometimentos sociais e políticos, a História é também feita pelas histórias dos indivíduos concretos, cujas vidas encerram misérias e grandezas, tristezas e alegrias, fracassos e sucessos, momentos de dor e de sofrimento mas também de júbilo e de regozijo, de festa e de satisfação plena: “Todo o indivíduo — diz, uma vez mais, Jean Lacroix — é uma história.” Uma história — acrescente-se — que encerra todas as contradições da existência humana[4]. E é essa história (ou melhor, pedaços, fragmentos dessa história que, no seu conjunto, entretecem a trama existencial da vida do autor) que Macedo Teixeira nos procura relatar, para daí extrair algumas congeminações que irão constituir a base configuradora da sua percepção do Mundo e da Vida. Dando largas aos seus devaneios, realizando contínuos excursos sobre alguns dos aspectos que mais timbraram a sua infância e adolescência, o autor parte daí para enaltecer o valor de uma vida prenhe, plenamente vivida, onde o trabalho, o sacrifício, o sofrimento, a dor, numa palavra, os aspectos duros e decantados da vida ombreiam com os aspectos lúdicos, jocosos, poéticos, oníricos, porventura, os mais exuberantes da existência. Afinal, o que nos surge neste livro é um retrato do “homem total”, do “homem contrastivo” de que nos fala a “hermenêutica filosófica” de H. G. Gadamer[5], à luz da qual, o ser, o “ser-aí”, o “ser-no-mundo” (o “In-der-Welt-sein” de que fala Heidegger) só ganha sentido a partir de um reflectido exercício de autocompreensão. É no âmbito de um inusitado esforço para se compreender a si próprio que o autor procede a uma extrapolação para a compreensão daquilo que, no seu entender, constitui a estrutura nuclear da condição humana, que a relação dialógica “Eu-Tu”[6] (autor ↔ leitor, entenda-se) expressa de forma clarividente. Na tessitura em que o texto é urdido, constata-se, por parte do autor, um inexcedível desejo de aproximação e abertura à alteridade, uma espécie de “entrega”, uma vontade de partilhar um espólio que decorre do seu roteiro existencial (materializado sob a forma de vivências, valores e visões do mundo) com alguém que estivesse efectivamente disposto a lê-lo e a escutar os seus ensinamentos. É este o desafio que eu faço ao leitor desta pequena nótula, feita em jeito de prefácio… Que leia o livro que ora se apresenta e que, por um momento, seja capaz de entrar no mundo do autor e de partilhar da sua experiência vivencial…

Páscoa de 2002 Joaquim Faria dos Santos

As palavras que eu digo

Fui juntando, como se fosse para fazer uma estrela de papel (fio, goma, canas de bambu e papel de seda), e esperei, guardando estes valores com muito segredo e ansiedade, guardando do mesmo modo como quando esperava em criança por quem me havia de fazer a estrela de papel que lançaria nos ares para a olhar através de um sonho. E hoje, com um desejo semelhante aos desejos de criança, mostro, nestas páginas que escrevi, acontecimentos que fizeram parte de mim, pois julgo que já chegaram todos os que existem, para fazermos com os elementos que guardei um pouco de uma outra estrela, que não sendo igual às de papel nem se podendo agarrar do mesmo modo fará parte de um sonho que é de todos nós, e que cada um, como pessoa, o pode ver, conforme a parte que dela escolher e à medida que for lendo este livro. Seja ele, então, inspirador de uma qualquer oportunidade e eu veja, como vós, a parte que há muito procuro e que dessa estrela dos meus sonhos haja sempre algo de comum à vossa, e possa eu sempre sonhar com uma idealidade que não acabe, mas que seja sempre referência da história, do nosso caminho e imaginação, do Tempo que não tivemos.

O autor

No momento em que nascemos e no género que nos define marcam-se os principais sinais que hão-de mostrar-se em expressão e revelar-se na própria vida. Fica registado no acto e na integração social um acontecimento que não volta a ter semelhança nem será mais reversível. O lugar do berço e do sonho começam a revelar-se e o ano em que nascemos a tornar-se pouco a pouco no tempo do que nos contam, quando perguntamos por ele ou quando o saudamos em aniversário e festejamos o nascimento. É um acontecimento esperado com fascínio e ansiedade e só o desejo e a alegria vão superando todas as canseiras até ao momento de nascer. Creio que não há outro acontecimento mais preocupante como o que envolve todo o mistério de um nascimento, especialmente, o nascimento de qualquer ser humano.

Não conheço, mesmo em questões de grande experiência, pessoas que não se quedem perante esta realidade, pois não se sabe o que virá, mesmo quando em formações completamente sãs. Aliás, é numa linguagem de silêncio e num élan de ternura que os futuros pais vão manifestando esse ambiente apreensivo e fazem adivinhar um acontecimento numa natalidade feliz, mesmo sem a evidência dessa certeza.

É neste ambiente que se forma a vontade natural do desejo de toda a perfeição, pois o mistério da vida é oculto, mas nós acreditamos que nos faz a vontade aos nossos mais secretos desejos. É assim que julgamos que este facto acontece e fazemos deste sentimento uma espécie de força para caminhar com os sonhos que nascem, com os filhos que vemos nascer e damos depois ao mundo. Não se espera, nem se deseja, praticamente nada — só aquilo que é natural e perfeito — a vida na sua máxima força e na sua mais bela perfeição. Uma espécie de prémio para uma caminhada que desperta muito cedo nos olhares de cada criança, mesmo que ainda não saiba como viver na emoção dos sentimentos de cada jogo e das suas brincadeiras. É uma forma e um movimento que se abrem para as traquinices que vão causar prazer pela energia da vida a uma qualquer criança. Aliás, é ao brincar que esta começa a descobrir que quanto mais se confunde com as suas brincadeiras e contradições, mais se sente notada e sente que o regaço da mãe é o melhor sítio para estar segura. A criança, à medida que vai crescendo, vai descobrindo que o colo é a melhor almofada para se sentar e estar aconchegada. E vai descobrindo, também, que entre o que há para fazer, conforme o desejo materno, e o gosto de brincar para contrariar a ordem dada, nascerão entre ambas sentimentos de ternura que ninguém conhecerá melhor do que elas neste modo tão perfeito de viver. A mãe não é outra senão aquela que nos deu à luz e nos guarda, aquela com quem brincamos e nos sentimos seguros. Um filho é tudo o que de mais importante existe e tudo o que de mais belo e perfeito acontece. A separação é para sossegar e dormir e, mesmo aí, dizemos: “Não te distancies, mãe, nem fujas de mim, que eu vou dormir, mas amanhã cá estarei! — Guarda-me, e não te esqueças de me beijar, porque assim não terei medo e a noite passará depressa.” O pai é o sonho que aguardamos com alegria e segredo, desejamos que ele chegue a casa, que chame por nós e nos desperte para si mesmo. Corremos para o seu carinho e na pressa do encontro grassa em nós um certo receio de alguma coisa não termos feito como devíamos. Nesta descoberta de relações, uma certa intimidade vai marcando as nossas vidas e uma “pontinha” de diferença nos separa e nos faz viver entre dois e não um, como em crianças às vezes desejamos. A mãe ralha e beija, vai abrindo as portas de um destino com trajectos e movimentos, que são a consistência de uma vida que ganhará mais a forma da mãe e mais o espírito do pai. Qualquer que seja o sexo, o ser humano mantém traços que evidenciam mais a forma do sentido materno e o espírito do sentido paterno. É a forma que tendemos a ir buscar para a fixação em lugar seguro e protegido da nossa vida. Uma forma em que o valor da vida não é apenas qualificado pelo projecto ideal e único, pois tem uma base física que é assegurado pela forma mater. É essa forma que ganha sentido fisiológico e mental e que procura a ordem das leis da sobrevivência. A mãe não sobrevive sem se fixar e ganhar raízes; a sua segurança e a dos seus tem que se basear nesta dimensão. Não é que não possa ser aventureira por um ideal, mas o nascimento de qualquer razão tem de ter uma base de apoio. É esta forma que é o sustentáculo do espírito paterno e que ganha uma força própria para buscar o sentido da elevação. O espírito do pai é mais aventureiro e distante, torna-se em cada um de nós na vontade de viver, mas é a forma materna que o enraíza na segurança de um qualquer sonho.

É nesta síntese que se realiza parte do mistério da nossa vida, nas relações vividas e experimentadas no jogo do amor, no jogo que fará nascer formas mais definidas e concretas na relação materna, mas mais íntimas e profundas na relação paterna. Somos mais semelhantes do que diferentes e no ser da semelhança é mais fácil e definível o jogo das relações com a mãe. O pai não é diferente, é igual a mãe, as crianças não distinguem um do outro e, a intimidade de ambos, faz nascer nos filhos o mesmo pulsar de sentimentos. O que acontece e faz parecer diferente é que a mãe, enquanto somos crianças é “nossa”, enquanto o pai é “nosso”, mas só o temos quando lhe falamos ou quando o ouvimos. É ele que nos conta o que queremos saber, e é ele que nos faz sonhar na eleição do que mais nos fascina e nos faz inclinar para o culto daquele que para nós é a pessoa mais extraordinária; não existe ninguém que seja maior herói que o nosso pai. A nossa mãe é a ternura do que queremos ter, o sinal do que queremos ver e sentir, o sinal da interdição, mas só quando ela é mais “forte do que nós”, o que é raro e só quando não há alternativa. No jogo da mãe estão implícitas as regras, só variam os movimentos e se alteram os sentimentos; as respostas estão nas motivações e os resultados previamente preparados. Cada criança descobre no jogo de cada gesto e no mando de cada palavra que os pais a querem e desejam, descobre que os pais prendem o coração à intocabilidade daquele que é o seu maior enlevo e a sua maior satisfação. Cada criança sente que agrada pelo que faz e pelo que diz, pelo que é verdade, de facto, ou pelo que é pura imaginação na tentativa de ocupar e prender a atenção dos outros. Com estas diversões de espírito, cada ser pequenino chama eternamente pela sua própria vida, que não acaba em si nem termina nos seus pais. Uma vida que não mora longe e que está acima dos seus olhos; uma vida que é a sua e que está para além de si mesmo a “morar” algures no espaço da sua imaginação.

Quem não tem, a este propósito, leves recordações da sua meninice? Quem não tem recordações do momento em que brincou com os seus pais, até pelo “jogo” de querer fazer o que lhe estava vedado ou o que sabia de antemão, que o mais certo era apanhar algum castigo por ter desobedecido?

Era o desejo de se mostrar capaz, mas também a vontade de fazer o que queria sem que alguém soubesse. Diz-se que a criança vive por força do princípio do prazer, não sabe ainda o que é a responsabilidade nem quando tem necessidade de ser responsabilizada. Diz-se que a criança vive a brincar com o tempo e com o jogo, vive como criança na ingenuidade amorosa dos adultos que a amam e a desculpam com exagero. A criança faz tudo o que lhe causa prazer e evita o que lhe causa dor, aliás, é num misto de prazer e de felicidade que ela vive, vivendo do que não sabe e vivendo do que mais gosta. Esta expressão singela e delicada vai-se tornando numa expressão cada vez mais definida e orientada para trajectórias mais definitivas e mais custosas de percorrer. Quando a escola começa, somos como pequenos pássaros a ganhar sentido de orientação e força para voar, começam a percorrer-se distâncias e a deixar-se ambientes que a sua recordação nos entristece. A neve pela manhã começa a fazer doer as mãos e as personagens dos nossos jogos já não são como eram dantes; os pais, com quem brincávamos e aborrecíamos, já não são os únicos na nossa vida. Só os intervalos de tempo, em que não há deveres para fazer ou recados para executar, nos permitirão de novo viver e jogar com os sentimentos do tempo e da alegria de sermos somente nós a brincar como queremos. Entretanto, até estes raros momentos de liberdade estão já carregados de perturbação; os deveres que não sabemos ou que não queremos fazer para aprender na escola, o beijo que não nos deram; o ralho e o medo com que nos inspiraram na revolta do coração ou nos carinhos que já não estão nas lágrimas que choramos. Tudo isto torna-se nas sementes de outros “espinhos”, que havemos de sentir quando tivermos a idade e o poder para abrir outras janelas e percorrer outros caminhos.

Páginas 1 a 17.

Macedo Teixeira

[1] Emmanuel Mounier (1905 -1950) é um dos teóricos proeminentes da doutrina social-cristã. Apologista de um cristianismo socialmente operante e politicamente interveniente, Mounier nunca deixou de criticar a Igreja por esta se revelar, frequentemente, incapaz de contribuir para a renovação do mundo em que vivemos e sobretudo por se identificar com as estruturas e instituições sociais e politicas mais reaccionárias, adversas do progresso e da libertação do homem.

[2] Embora este livro não seja uma obra de acentuado pendor filosófico, será bom não esquecer que o seu autor é um homem de aturada formação filosófica, uma formação que — vale a pena dizê-lo — não é apenas académica… Aqui e ali, ao sabor das circunstâncias, pressente-se que a intenção que preside à sua escrita é essencialmente uma intenção moralizadora. Implícita ou explicitamente, o campo da filosofia moral está sempre presente na sua reflexão, constituindo, por isso, o horizonte de referência do seu pensamento. Neste sentido, pode mesmo dizer-se que constitui o verdadeiro leitmotiv que, no plano meramente conceptual, anima, de fio a pavio, a estrutura retórico-discursiva do texto.

 

[3] Perdoe-se-me o uso deste galicismo, mas — como bem notou Joel Serrão num dos textos didácticos mais significativos sobre a natureza da “reflexão filosófica” — é ele que traduz, com maior rigor e propriedade, o sentido etimológico deste saber.

[4] Vem a talho de foice, lembrar, aqui, aquilo que um dos mestres do espiritualismo existencialista disse, urn dia: “O conhecimento filosófico — diz o filósofo russo Nicolai Berdiaeff (1874-1948) — depende da amplitude da experiência vivida, supõe a experiência essencialmente trágica de todas as contradições da existência humana.” E acrescenta: “Na origem da filosofia está a experiência da existência humana na plenitude.” É à luz desta definição que o livro de Macedo Teixeira também pode ser entendido corno uma obra de filosofia. Ou, para sermos mais claros nas nossas insinuações, diremos simplesmente que se trata de uma obra envolta num mundo revivescente de recordações, entremeada com alguns arremedos de filosofia… de filosofia moral… Um texto onde as fronteiras que separam os domínios do literário e do filosófico se esbatem e não são facilmente contornáveis.

[5] H. G. Gadamer (1900- ), filósofo alemão, fundador da “hermenêutica filosófica”, corrente filosófica do nosso tempo, muito em voga, que se situa na esteira da “filosofia existencial” desenvolvida por Heidegger (1889-1976), de quem, aliás, foi discípulo, porventura o mais ilustre. Para muitos, Gadamer é mesmo o maior pensador da segunda metade do século XX.

[6] Esta relação de “abertura” e “diálogo” de um Eu a um Tu que o transcende deu origem a um importante movimento especulativo, que perdurou ao longo do século XX — e que a história da filosofia registou sob a designação de “filosofia da alteridade” —, congregando no seu seio nomes de pensadores ilustres, tais como Martin Buber, Theodor Rosenzveig e Emmanuel Levinas. Em certa medida, o pensamento hermenêutico de H. G. Gadamer apresenta-se como herdeiro legítimo desta tradição especulativa.

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