Educação e Poesia

Para quem deseje ler o texto da minha intervenção sobre “Educação e Poesia” durante o I Fstival de Lisboa, pode acedê-lo em http://www.dulcerodrigues.info/educa/PDF/educacao_poesia.pdf.

Para os vídeo-excertos :

Boa leitura e visualizações.

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O Plano Comum

A mulher é como a flor, depois de cortada, murcha e perde o brilho do rosto. É uma comparação que assume uma preocupação sobre o modo como vamos desenvolvendo as relações de comunicação e de partilha das tarefas e das responsabilidades, que fazem dos seres humanos, mais semelhantes e menos estranhos.

Homem e Mulher são a unidade da beleza humana que se especifica no género e se distingue na forma; são elementos, que em separado percorrem trajetos de sonho e de realização, que revelam o fascínio natural que a vida humana contém, nas suas partes e no seu todo. Trajetos de sonho que ganham outro significado, quando se tocam na semelhança de esforço com vista a uma realização individual, mas também, em conformidade social, de desejo e sentimento mútuos.

 Não há qualquer diferença entre o homem e a mulher, senão na subtileza da realização e na sensibilidade da vida; ambos a sentimos como homem ou como mulher, a vivemos como semelhantes e nos realizamos em conformidade com a nossa natureza.

 Mas existe um plano que é comum e que permite que tanto o homem como a mulher vivam a sua vida singular ou de conjunto; de modo individualizado ou de modo coletivo e que é constituído por duas partes ou planos geométricos de um mesmo plano; como se fosse um jardim com dois terrenos; com flores semelhantes, mas de características e canteiros distintos.

Um plano onde a mulher e o homem gravitam, onde se tocam e fundem, nas ideias e desejos, nos gostos e aventuras; e acima de tudo, onde reúnem a vida para lhe darem significado e sentido, e a tornarem mais bela e diferente. Um plano que contém o caminho e o processo que sensibiliza a vida de ambos; homem e mulher, mas que não permite o afastamento de cada uma das suas partes, nem que haja confusão de características, lugares ou formas; somos semelhantes e comuns, mas não somos a mesma realidade.

É esta preocupação que deve estar presente nas relações do nosso dia-a-dia; a preocupação de mantermos a ordem em cada um dos espaços em que nos movemos e o sentido certo da nossa especificidade, no género e na forma, pelo respeito e acordo de princípios, pela responsabilidade de tarefas e pela exigência do rigor. A preocupação de fazer da relação humana a relação social e ética, a relação de coexistência num mundo em que a partilha de tarefas vai sendo cada vez mais igual e o plano comum se vai tornando mais homogéneo e equilibrado. Num mundo onde os valores são avaliados pelas qualidades que acrescentam outras realidades à vida humana e a melhoram na sua semelhança; aliás, num mundo em que somos iguais, se forem iguais as oportunidades.

Parece-me, por estas razões, continuar a ser razoável a análise em relação a esta preocupação, pois foi boa a rapidez com que chegámos ao reconhecimento desta necessidade, da necessidade de nos sentirmos iguais, mas parecemos esquecer que estas realidades têm que ser, de facto, tão cheias de conteúdo como de humanidade, e não apenas partilhas cheias de conteúdo e vazias de humanismo.

 É uma realidade que a mulher de hoje sente-se mais livre, semelhante e igual em oportunidades, mas a mulher como mãe não está tão próxima dos filhos como estava; os filhos falam-lhe através das máquinas ou dos brinquedos! A mulher esposa é um elemento da casa que já não está só; e os maridos, nos nossos dias, até ajudam nas lides domésticas, mas a maioria, mais para colaborarem na relação conjugal; para não estarem fora da imagem social do nosso tempo.

 Os jovens facilmente iniciam relações de amizade com o sexo oposto, mas também com a mesma facilidade se desvinculam; estão muito próximos no corpo, mas afastados no coração. E a preocupação torna-se muito mais aflitiva, se soubermos que o principal foco destes problemas reside no facto de estar a verificar-se uma certa confusão nas limitações dos planos que dizem respeito ao homem e à mulher; isto é, as oportunidades que realizam são vazias de humanismo, não têm o reconhecimento de ambos, pela sua semelhança; ou seja, faz-se e participa-se, mais para se ser moderno e não se ser notado na sociedade do que de modo voluntário e livre.

O reconhecimento da necessidade de nos sentirmos iguais não está a ser acompanhado pela tolerância e esforço de cooperação de ambos; aliás, julgo que se insiste muito mais na afirmação da igualdade do que na procura de soluções para se viver de modo igual e sem ter que se sacrificar os filhos ou um qualquer dos elementos; homem e mulher, marido ou esposa, à satisfação egoística das vontades emancipadoras, sem o consequente sacrifício de ambas as partes.

 É bom não esquecer que existe um plano constituído por dois planos tangentes e geométricos, onde o homem e a mulher se realizam e tornam a vida mais bela, mas que não permite que nos afastemos de cada uma das suas partes nem troquemos as suas ordens; o que é do homem, só ele o poderá realizar, o que é da mulher, só ela o poderá solucionar. Vale a pena a tolerância, em troca de um amor verdadeiro e de uma vida saudável; a mulher e o homem são as partes de uma unidade que quanto mais se força mais se enfraquece e perde o brilho.

Macedo Teixeira

 

 

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A Vida nos dará o Tempo!

A Vida nos dará o Tempo!

Macedo Teixeira

Devemos saber esperar até podermos dar o passo. A Vida nos dará o Tempo!

Quiçá será esta uma síntese orientadora para resolvermos algumas das situações que nos serão comuns no nosso dia-a-dia. Especialmente as situações que mais terão a ver com a regularidade dos nossos afazeres e das nossas necessidades diárias e que, muitas vezes, em virtude das dificuldades que sentimos por não termos uma solução rápida para cada problema que nos surge, deixamos nascer por dentro de nós estados de maior conflito psicológico que nos vêm turvar a nossa sensibilidade e nos retirar a alegria para poder ver por outras janelas e encontrar outras soluções entre o que o Mundo e a Vida continuarão a ter de belo e de fascinante.

Quem poderá apreciar o Mundo e sentir a Vida que o vai animando, se não se sentir nem se preparar a si próprio para ser capaz de admirar as diferenças e descobrir as alternativas perante as imprevisíveis e mais difíceis circunstâncias da vida humana?

Devemos saber esperar até podermos dar o passo. A Vida nos dará o Tempo!

Devemos saber esperar até termos a certeza de que perante as nossas decisões não nos encaminharemos para estados de crise de ansiedade e de tormenta. Aliás, não é muito invulgar na nossa vida, mesmo que com alguma prudência nas decisões, acontecer o contrário do que tínhamos pensado, pensarmos num certo resultado e obtermos um outro completamente diferente, às vezes até muito pior do que o que era esperado na menor incerteza!

Ora, se em certas situações a realidade pode acontecer assim, então é porque a Vida, e em especial a vida humana, não será tão linear como às vezes nos parece ser; logo, perante qualquer necessidade, deveremos aceitar que nem tudo na vida poderá ser tão previsível como desejaríamos e que os resultados poderão ser ainda muito piores quando nos precipitamos nas nossas decisões e vivências.

A atitude de saber esperar, ao que parece, será um dos domínios mais difíceis de atingir pelo homem durante o seu crescimento e desenvolvimento. Todos somos impelidos pela pressa da ocasião e na voragem de qualquer momento vemos sempre um tempo normal da nossa realização e crescimento: pensamos que, quanto mais depressa vivermos, maior será o ganho e maior será o proveito. Julgamos e fazemos questão de assim proceder!

Ora, se é verdade que o Movimento é Vida, é ganho e é proveito, não será menos verdade que a espera tranquila e sem remorsos são contemplação e merecimento dos mesmos efeitos. Esperar que a Vida aconteça pelo merecido, esperar que ela nos dê o tempo necessário para se especificar em cada um de nós e nos tornar felizes na globalidade do Grupo.

Olhar meditando entre a espera e o acontecimento de cada momento temporal, olhar pelas diferentes janelas da Vida e vê-la passar por instantes diante dos nossos olhos, tomar-lhe o sabor e sentir-lhe o efeito nos nossos desejos, serão aspetos tão necessários para a compreensão da beleza da Humanidade como necessário será que a Vida seja para cada um de nós na parte que nos pertence tão integral como o movimento que a anima.

E assim como a água de cada fonte especifica o sabor do lugar, e o caudal a rapidez com que abastece quem a procura, também a nossa pressa mais agilizada, cum anima (com alma), e a nossa lentidão mais ponderada, ex abundantia cordis (com efusão do coração), especificam o nosso beber da Vida e o modo como a bebemos no tempo de que dispomos.

Ninguém deverá esforçar-se por manter-se sentado quando precisa de caminhar, mas não precisaremos de andar sempre a correr com o receio de não chegarmos a tempo, nem termos disso o proveito ou ganho suficiente; o que é nosso jamais deixará de o ser, e o tempo é uma acessão da nossa sensibilidade e do nosso entendimento que irá para além da relatividade; se não recebermos o que é nosso com o tempo do Prazer, haveremos de recebê-lo com o merecimento do Dever.

Devemos saber esperar até podermos dar o passo. A Vida nos dará o Tempo!

O tempo necessário para resolvermos os nossos problemas, manter os nossos hábitos, guardar as nossas colheitas e semear as novas sementes, aliás, nos dará o tempo para fazermos todos os “recados” e resolvermos todos os problemas com a sociedade de que fazemos parte, encomendas mais ou menos “pesadas” que transportamos com alegria e que colocamos nos patamares mais elevados da nossa “casa”, sempre na esperança de a elevarmos no máximo com que nos for possível pela nossa inteligência e com a força que formos capazes de entender.

E se a Vida não pode esperar, segundo a nossa “pressa” e perante cada ocasião menos previsível, também não se deverá duvidar de que o sabor e a delicadeza dos resultados dessa “pressa” serão sempre muito mais agradáveis sempre que sabemos cuidar do Tempo e temos a paciência de esperar. Esperar até podermos dar o outro passo e sem nos atropelarmos a nós próprios. Esperar que os frutos cresçam e amadureçam, esperar que a Vida aconteça no tempo de um qualquer plano da Criação, sem que a criação tenha de ser mais rápida por nossa vontade e com isso trazer-nos dissabores e tristezas.

Devemos saber esperar, com a responsabilidade de querer ser e o desejo de querer chegar, mas sem atropelos nem desejos apressados; aliás, ter consciência de que o que importa é estar a viajar no “comboio” da Vida, mesmo que se vá na última carruagem, o Condutor é o mesmo, e o sabor deste dom não depende nem do lugar, nem da distância; bastará sentir que se vai a viajar no “Comboio” e o Condutor nos levará até onde podemos ir sabendo que sentiremos o mesmo que os outros sentem.

Devemos saber esperar, a Vida nos dará o Tempo!

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Instantes de Movimento e Vida

Fixara da agenda os assuntos a tratar naquele dia, abrira sem ansiedade o seu computador e lera seletivamente as mensagens que entretanto chegaram à sua caixa de correio. Passara rapidamente os olhos pelas notícias dos jornais diários, sublinhara os acontecimentos mais importantes e preparara-se um pouco melhor para sair até ao primeiro local donde habitualmente entrava para entre o sabor de uma xícara de café dar azo aos primeiros desabafos sociais; o proprietário do café era um homem simpático e gostava da asserção das coisas da bola, principalmente do seu clube desportivo, de que era um grande fã.

Nestes gestos de cordialidade e de registo social, verificava-se uma espécie de interlúdio para os Instantes da composição de mais um dia e que, nos acontecimentos mais gerais, se previa complexo e sempre algo imprevisível.

Assumia-se numa mistura de ingredientes plasmada de movimento e vida, que com o intercalar dos diversos trechos sociais se tornava na origem de uma composição complexa a ser narrada pela história da pegada humana.

Ataviara-se melhor e com um aprumo mais rigoroso descera até à garagem do seu andar para pegar no seu automóvel de cor preta e já usado mas muito limpo, e ainda com uma aparência de sinal bastante positivo; o automóvel não era apenas o seu meio de transporte, também representava um pouco do valor económico da sua riqueza conseguida na honra e dignidade do trabalho.

Naquele dia o café não estava tão cheio como de costume, era um tempo de férias escolares e a escola que ficava próxima, apesar de ser um lugar para os mais pequeninos, dava-lhe uma garantia de maior trabalho, não só os pais das crianças como também funcionários e professores acorriam durante esse período formando a maior parte das vezes uma enchente de pessoas.

Mesmo assim, aquele homem que servia no café de forma lesta e atenciosa estava com um ar sorridente para todos os que iam chegando, quer para ocuparem as mesas, quer para ficarem de pé pregados no balcão durante um tempo que não se alongava para além do saborear o paladar aconchegante que tem em Portugal uma xícara de café.

Fizera o mesmo, cumprimentara e sorrira de igual modo para os presentes, havia entre ambos uma amizade gerada pela convivência que depressa se estendia num ambiente de carinho, mesmo aos mais estranhos; o ambiente social urbano será certamente um pouco diferente daquele que decorre de uma matriz de envolvência campesina, é de crer que só o ato de tomar café se apresenta como uma realidade de sentido transversal, in actu.

Naquele dia o espaço, que estava mais vazio do que o habitual, não lhe seria vantajoso para aligeirar o momento da saída. Não dispunha de grande satisfação nem de grande tempo para poder tagarelar sobre as realidades mais simples ou então complexas pelas confusões muitas vezes reinantes em cada situação, como são as dos encontros desportivos e dos resultados do futebol, que na maior parte das vezes são sentidos apenas como expressão do resultado da vitória, do resultado do neutro ou do resultado da derrota, numa atividade social desportiva que acima de tudo deverá ter como finalidade a convivência entre pessoas, o seu recreio e o seu lazer.

De qualquer forma, mesmo assim, esta será sempre uma realidade agradável e não terá em nenhuma situação, por muito complicada que seja, nada de grave ou de tamanha insatisfação que não possa ser compensada por outras realidades sociais; não será como a realidade da fome e da miséria humanas, que destroem e matam a vida sem lhes darem nenhuma compensação nem lhes permitirem qualquer retorno.

Sem demonstrar desencanto nem dar sinal de tédio, despedira-se com um “Até à próxima”, misturando-se entre os demais nas despedidas agradáveis e de bom senso; há nestes lugares e nestes locais de natureza rural uma certa simbiose na amizade, que fraquejará no seu encanto quando se esquecem os pormenores da simpatia, do respeito e da elegância na conduta; o ser humano aqui torna-se mais transparente.

Entrara no carro e com delicadeza mantivera por alguns segundos o motor a trabalhar sereno e sem pressa, assinalara depois o pisca na direção a seguir e pusera-se a caminho. Com o rádio ligado em tom suave, deixara-se embalar levemente por uma linda canção a que, sem grande força, não resistira a trautear na intermitência alguns dos versos da melodia.

Entretanto começara a pensar na primeira coisa que deveria tratar naquele dia, a situação em que se encontrava não era nada agradável e daí evidenciar alguma perturbação no seu ânimo. Precisava de encontrar o gerente do banco a quem ia recorrer a um empréstimo, necessitava que este se mantivesse atencioso e humano para lhe conceder um pedido de crédito, em situações especiais de idade, pois tinha uma prestação global vencida no tribunal da casa de habitação que comprara, ainda como inquilino e que, numa razão inesperada e bastante posterior, pois no momento da sua promessa de compra acreditara que não teria de ir até uma situação daquelas e já tão avançado na idade para o crédito à habitação, pois por razões de incompreensão e de injustiça de algumas pessoas levaram na contenda a que o caso fosse resolvido sem prévio conhecimento do inquilino nos termos da Justiça por venda em hasta pública no Tribunal da Comarca.

Necessitava de encontrar naquele momento alguém que compreendesse a aflição, que confiasse na honra e na seriedade da pessoa e estivesse disposto a correr algum risco aparente perante a administração do banco no entendimento que poderiam fazer da sua competência e zelo na defesa do dinheiro da instituição.

Como se procurasse no movimento a resposta que procurava, olhara desinteressadamente para as realidades que avistara naqueles instantes, uma mulher com uma criança ao colo anunciando um quadro de maternidade que lhe lembrara a mãe quando caminhara com ele a gritar para pedir socorro perante a gravidade do ferimento que lhe abrira a água fervente quando era ainda pequenino e a sua mãe dormitava sobre a mesa. Lembrara-se de que ela fora buscar forças sem saber onde para sulcar as águas que, alvoroçadas, naquele dia de inverno corriam barrentas e enchiam com uma força medonha o carreiro que a mãe com ele a gemer de dor e abraçados na tragédia tivera de percorrer até à primeira povoação.

Um pouco mais adiante, reparara num enorme camião carregado de troncos de madeira que rasgava a estrada sem piedade na alegria expressiva do condutor que parecia segurar o volante como se este fosse a rédea de um cavalo que teria de domar num certo tempo e entre uma certa distância; aquele homem dera-lhe força e coragem para acelerar a velocidade e ir sem tibieza ao encontro de um pouco de felicidade no dinheiro que procurava e na casa que passaria a ser definitivamente sua; tornara-se de repente um jovem repleto de loucura e de sonho.

Na azáfama do caminho a percorrer misturara a emoção com alguma lucidez; sentira-se turvo por instantes, mas depressa fora acordado por um taxista que procurava na distância alguém para transportar, sabe-se lá quem! Talvez uma pessoa como eu, que procurasse naquele instante os sonhos, mesmo que não pudesse revelá-los por não lhe conhecer rigorosamente a origem, uma casa, um carro, um curso para um filho, um emprego para a filha ou, simplesmente, que o levasse até um lugar sagrado onde pudesse encontrar a paz para uma desavença havida no seu lar.

Entrara no banco possuído de uma coragem e de uma força que jamais certamente algum gerente sentira; decidido, fora expedito na explicação do que pretendia, e ao cabo de pouco tempo o gerente estava a colocar-lhe condições de pegar ou largar. Respirara fundo, ouvira a sua mulher e lembrara-se num ímpeto de surpresa de que o que lhe acontecera não fora senão mais um acontecimento para o pôr à prova perante outras circunstâncias ainda mais difíceis.

Aquela mulher que segurava a criança ao colo não era nenhuma gigante, mas parecia ter uma força que não emanava da sua doçura; era a vida agreste que pulsava nela e naquela ocasião.

O condutor não era um domador de cavalos, mas encarnava a luta da natureza para conseguir os seus fins.

O taxista não era intolerante, naquele momento era o guia que, em certo desencanto da vida, vai buscar dentro da alma um dito de espírito para alegrar na solidão humana ou no corpo por um grito de buzina para acordar aquele que adormece desencantado pelo peso do sofrimento e da amargura nos caminhos ásperos da vida.

Assim somos os seres humanos, e em cada instante que vivemos há um movimento e um acaso a experimentarem a nossa vida.

Macedo Teixeira

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Educação e Poesia

Excerto da minha intervenção “Educação e Poesia” durante o Festival de Poesia de Lisboa, que se realizou no passado dia 23 de Abril no Hotel Holiday-Inn Lisboa – Continental.

Obrigada pela atenção dispensada e por todas as gentilezas que me foram dispensadas.

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Vida, Um Pão e Um Sorriso

Vida, Um Pão e Um Sorriso

Macedo Teixeira

Ao romper da manhã, acordara com o som magnífico do chilrear dos passarinhos, sentira-os naquele momento um pouco mais intensos do que era habitual, até parecia que no seu frenesim queriam também chamá-lo lá para fora.

Sondara no seu silêncio de encanto e fora desinteressadamente concluindo: “Sossega, homem, que é a primavera, ela com os seus sinais. Olha que não é outra coisa, não é mais do que isso, apenas sinais!…” Às vezes, sem sabermos porquê, prega­‑nos uma tal discórdia e ficamos tão tontos que já nem a beleza das estações do ano nos traz alegria para vivermos melhor nem consolo para superarmos as nossas angústias na diminuição do sofrimento.

Mesmo assim, um pouco indiferente à curiosidade, não resistira em abrir as janelas na direção daquela melodia harmoniosa, apesar de um pouco mais persistente do que o habitual, pois ainda antes de se ter arranjado e feito a sua higiene matinal, sentira-se desafiado pela surpresa que entretanto o inspirava, para ir ver sem ter desejado nem saber que ficaria tão de repente encantado com o ambiente que observava e que, naquele momento, despertava em si a diferença da certeza de estar a viver uma felicidade para além da simples rotina.

O ruído pela abertura das janelas afastara os pássaros em alvoroço, que, voando num torvelinho, fizeram uma tangente à vidraça, fora um movimento tão singular no significado, que se traduzira como se lhe quisessem agradecer por ter atendido ao pedido.

Mas quem dera que ao menos soubessem eles que o estavam a presentear com uma das mais belas surpresas da nossa existência: acordar para a vida e vivê-la para além das nossas vidraças.

Quedado no silêncio da quietude que vislumbrava, sentira-se por instantes atraído para longe; depois, tocado pelos raios solares, pudera ver ao perto entre o espaço verdejante as tonalidades da manhã, que também acordavam consigo. Ainda pudera, por algum tempo, distinguir naquele quadro natural, algumas árvores que se agitavam para o nascimento das folhas e das flores, que, entretanto, em pequenos berços se vão formando entre as pernadas e, ao prepararem-se, vão-se alegrando para receberem os frutos que delas hão de nascer.

Mas os passarinhos, que naquela manhã procederam no alvoroço com mais insistência, não quiseram senão que ele visse também uns cordeirinhos que, ladinos, iam correndo atrás das mães, que sem canseiras procuravam alimento para comerem. Que também visse que eles não só as não deixavam livres nos movimentos como lhes tocavam sempre com as patitas para as fazerem parar e assim poderem mamar até à satisfação.

Que quadro maravilhoso, que sinais tão evidentes! A Criação e as criaturas, como são fascinantes as belezas da relação maternal na fartura das dádivas de Deus.

Neste esplendor momentâneo, imaginara imenso, recordara-se de si e dos outros, recordara-se das criaturas e do Universo; descobrira como no imprevisível da mente, perante a pobreza do infeliz, há sempre forças inexplicáveis que a transformam e a levantam.

Desejara ter ficado por ali, aquele quadro natural enchera-o de luz e de força para se erguer de novo e voltar a dar conta da beleza do Tempo e das Formas; acordar para a vida e vivê-la para além das vidraças.

Mas naquele chamamento de primavera, havia também algo de estranho e doloroso, o sinal de carinho daquelas aves fora de preparação para uma realidade que contrastava com a paz que sentira, e que haveria de ver com amargura uns minutos depois no caminho que entretanto continuara a peregrinar; o caminho da existência e das suas contradições.

Folheara as primeiras páginas duma revista de notícias e dera de caras com uma criança que levava uma braçada de tijolos, trabalho infantil, trabalho para matar a fome de famílias pobres. Andara um pouco mais e, em evidência, na terra árida sobre o pó, elevavam-se uma malga de alumínio e um tacho empastado de terra para cozinhar sabe-se lá o quê. Junto deles e naquela solidão, prostravam-se duas crianças com uns olhitos que olhavam perdidos no fundo da escravidão; pois daquela terra só as lágrimas poderiam fecundar. E ainda antes de chegar ao fim da leitura, já quase a soluçar, deparara-se com uma mulher ainda jovem que, sentada sobre uma lixeira, lia um livro, a prenda que fora rejeitada e que ela recebera como prémio de sufocar entre o lixo com as roupas sujas de lama para poder procurar o pão.

Dali em diante, agradecera em silêncio àqueles pássaros que o fizeram acordar de novo para a Vida, gritara por auxílio e socorro de todos e pensara no que haveria de levar para o Caminho.

Solicitara aos Ricos de todo o Mundo: “Uni-vos! Socorrei os pobres e famintos, que a sua vida é o vosso suor do rosto.”

Prometera, desde então, levar consigo a Vida, um Pão e um Sorriso.

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Evocação de Álvaro Guerra e da sua «trilogia dos cafés»

Se vivo fosse, o insigne escritor, jornalista e diplomata Álvaro Guerra completaria, em 2016, oitenta anos. Infaustamente, porém, é passada mais de uma década sobre o seu desaparecimento, com o qual o panorama literário português ficou – neste caso, com particular verdade – imensamente mais pobre.

Não pretendemos, apoiados que estamos, tão-somente, no nosso rude e fruste verbo, obrar aqui uma capaz retrospectiva da riquíssima obra desta notável figura da cultura pátria, cujo talento, fulgentemente multiforme, se espraiou, em rútila demonstração de incomparável genialidade, pelas mais diversas áreas, legando-nos uma pródiga e preciosa herança, a que não podemos senão dispensar o carinho que só as cousas mais belas deste mundo em nossa alma suscitam. De todo o modo, é-nos grato consignar, nesta sede, um punhado de impressões de leitura que em nós permanecem, à guisa, pois, de modesto mas sentido preito de homenagem.

E decidimos, dessarte, referir-nos àquela – empregamos, por opção nossa, o singular, pois que a vemos como tríade incindível e de sentido apenas completamente apreensível por via da consideração da sua integralidade – que temos para nós como sendo a obra-prima, o magnum opus, deste saudoso autor: a sua «trilogia dos cafés», publicada, a espaços, ao longo da década de 80.

Com efeito, por essa época Álvaro Guerra meteu ombros a uma tarefa tão nobre quanto espinhosa: produzir um relato literário da nossa História – portuguesa e mundial – do século XX, através da delicada imbricação dos grandes marcos cronológicos que constituem a mesma e do entrelaçamento de marcas conjunturais e da caracterologia dos distintos períodos político-sociais com a narração da vida quotidiana de uma típica vila portuguesa de província, dando conta, pari passu, dos pequenos e grandes feitos dos seus habitantes, dos seus sonhos e ambições, da trajectória, mais ou menos constante, mais ou menos sinuosa, da vida de cada um. Temos, ao cabo, uma sucessão de instantâneos, de retratos dessa sua «Vila Velha» (que poderá identificar-se, mutatis mutandis, com a Vila Franca de Xira de que o autor era natural) e dos seus personagens mais característicos. Vestindo a pele do cronista que vai arquivando, com afectuoso afinco, as marcas mais frisantes da história da vila, assistimos à passagem do tempo por ela, em seu vórtice paulatinamente transformador dos hábitos e das gentes, em consequência do qual as figuras cógnitas e queridas de antanho vão dando lugar a outras, de fresca data e diversa fisionomia, também estas, no entanto, condenadas a uma mais ou menos completa substituição, no tempo breve, por outras que se lhes seguirão, por irrefragável ditame da lei da vida.

Mas Vila Velha, na sua individualidade, no seu microcosmos, aninhada junto ao Rio Grande, é átomo integrador de um organismo naturalmente mais vasto e complexo: a lezíria, Portugal, a Europa, o Mundo. As transformações do todo influem no destino das partes; e, à medida que o complexo se vai modificando, também Vila Velha evolui, enquanto reprodução a escala menor das mutações verificáveis no vasto conglomerado. E é o seu café o epicentro local dessa transformação. O café. O ponto de encontro. O local de reunião da família vila-velhense. O café, que principia por ser «República», em homenagem ao regímen trazido pela aurora revolucionária de 5 de Outubro de 1910, passa, no dealbar da década de 30, a ser «Central», nome asséptico (e, por isso mesmo, quiçá «a-subversivo»…) que o voltear dos tempos impunha, ao começar de raiar o clamor autoritário, vigilante e repressivo do Estado Novo, e termina, em heróico epílogo, crismado de «25 de Abril», graças à pertinácia de um grupo de entusiastas locais da Revolução dos Cravos. De todos estes designativos, haverá sido o do meio – «Café Central» – o que mais perdurou, entre 1930 e 1975. Coincidentemente – ou não – abrange o longo período de ditadura, que, efectivamente, levou a palma aos restantes, maugrado a contenção forçada, o controlo inquisitorial, a canga férrea e dura. Isto lança-nos a interrogação, a dúvida inquietante: porquê…?

Porém, não foi a despropósito que o café se denominou «Central». Naturalmente, segundo o excelso relato do narrador-cronista, a motivação imediata da mudança deveu-se ao freio imposto pela ditadura. Mas digamos que tinha esse nome pleno significado. No «Central» se reunia, se concentrava, como que impelida por irresistível força centrípeta, a élite vila-velhense – ricos e pobres, instruídos e pouco mais que analfabetos, que aqui se não faz distinção de pecúlio ou formação, apenas se privilegiam os tipos sociais mais característicos e notáveis daquele tão pitoresco e fascinante meio –, cavaqueando sobre cousas corriqueiras, de todos os dias, indagando – hábito tão comum! – da vida alheia e suas peripécias quantas vezes romanescas, mas também comentando, com o fino acerto de uma visão aguçada e perscrutadora ou com a simpleza dimanante de um saber «só de experiência feito», as novas da vida da vila, da região, do país, do mundo. Os actores do palco de Vila Velha reproduzem, à sua dimensão, os cambiantes trazidos pelo devir dos tempos, imbricam-se no fenómeno mutatório político-social, são dele parte integrante. Como, repetidamente, faz notar o autor, Vila Velha está presente em quase todos os acontecimentos de tomo da vida nacional, por meio de um ou vários personagens por ela gerados e criados. E todos – participantes activos ou espectadores passivos – confluem nesse ponto de encontro que vem a ser o café, «República», «Central» e «25 de Abril», mas decididamente, e ao cabo, «Central», porque tem o condão de acolher a todos no seu seio: os abastados e os humildes, os situacionistas e os oposicionistas, os tradicionalistas e os progressistas, reunidos à volta da «bica» (a de saco, vetusta e consuetudinária, quantas vezes com o complemento fundamental de um bagaço, e só bem mais tarde substituída pela modernidade do «café expresso»…), do «carioca», do «abatanado», do mazagran. Não olvidando outras tertúlias da vila – a farmácia (aliás, «pharmacia», até à actualização ortográfica – e não só… – que cortou cerce com a tradição das velhas cavaqueiras), a filarmónica, o clube de futebol e o «Clube Vila-Velhense», este último local de encontro da sociedade mais destacada e, via de regra, bem instalada na vida –, o café a todas leva a palma, em história e perenidade. Vence estoicamente o surgimento de outros estabelecimentos quejandos, mais modernos e inovadores. Mas não vence, mesmo após tantos anos de combate denodado, o correr do tempo. Fulge uma vez derradeira com a Revolução de 1974, mas extingue-se três anos depois.

A «Vila Velha» que Álvaro Guerra assim nos pinta, no longo caminhar do tempo compreendido entre 1914 e 1975 (com ligeiras notas conclusivas que fazem espraiar a narrativa até ao meado da década de 80), é, pois, o retrato fiel e impressivo de qualquer «Vila Velha» portuguesa, mutatis mutandis. As personagens-tipo, primorosamente cinzeladas, são passíveis de encontrar-se em qualquer terra portuguesa de idêntica caracterologia. Por quase todas as vilas ou pequenas cidades do país acharíamos, em similar período, vultos que em muito se equivaleriam ao notário Dr. Teófilo de Oliveira, estrénuo mantenedor de uma neutralidade exímia e atento observador da realidade político-social do país e do mundo, ao advogado Dr. Maurício Santos, referente maior de erudição dispersa em plêiade de elaborados lugares-comuns, ao Dr. Vicente Mourão, causídico perenemente idealista e combativo lutador pela liberdade, ao «Tainha Rico», campeador a pulso pela ascensão social, ao clínico Dr. Leonardo Ferreira e ao industrial Guilherme Andrade, caciques e indefectíveis pilares do poder estabelecido ao nível local, às beneméritas (e beatas…) D. Ermelinda Pacheco e D. Clarisse Andrade, ao «Piedade», tradução distorcida e rude – e, por isso, tantas vezes a mais lúcida de todas! – da realidade envolvente, a Judite Castro, firme e utópica planeadora de amanhãs mais bonançosos e juncados de feéricas e prometedoras esperanças, aos Lencastres da «Quinta das Toupeiras», derradeiros representantes de uma fidalguia decrépita que se agarra tenazmente à perempta lembrança de um passado irrepetível, a Zacarias Gorjão, anarquista da velha guarda sempre fiel aos seus ideais, ao Silva do «Correio de Vila Velha», lídimo representante do eterno casamento de alguma imprensa com o incriticável establishment, etc. Estas e muitas outras figuras da extensa galeria de retratos humanos cuidadamente elaborada por Álvaro Guerra são património comum nosso, emergem das páginas da obra para, por hipótese probabilíssima, virem a encontrar-se connosco bem ao virar da esquina. E em quantas localidades não vamos achar, similarmente, um «Café Central», seguro ponto de encontro de todas elas?

Em suma, na sua «trilogia dos cafés» – «Café República» (abrangendo o período compreendido entre 1914 e 1945), «Café Central» (relato dos sucessos havidos entre 1945 e 1974) e «Café 25 de Abril» (uma penetrantemente lúcida abordagem dos anos de 1974-75 e suas mais frisantes vicissitudes) –, Álvaro Guerra atinge brilhantemente o objectivo de contar a história portuguesa do século XX, não olvidando as suas interligações com os grandes acontecimentos mundiais. A sua «Vila Velha» vem a ser, bem cremos, uma inteligente metáfora do país, e as suas personagens bem no-lo demonstram. Acresce à notável tessitura da narração, prenhe de substância histórica e factual, o estilo desenvolto e doseadamente crítico-irónico do narrador-cronista, mas, acima de tudo, lúcido e adequadamente distanciado dos factos narrados e comentados. Mais do que uma bem conseguida ficção – bastamente imbuída em realidade bem tangível, sublinhe-se –, mais do que uma narrativa envolvente, a «trilogia dos cafés» é um documento imprescindível e de consulta obrigatória para quem almeje conhecer com nitidez o que foi a evolução do país no último século. A obra literária de Álvaro Guerra estende-se muito para além deste precioso conjunto de três livros – mas só por estes já teria indiscutível jus ao maior e mais vivo reconhecimento como autor de altíssimo mérito.

[N. B.: O ano que corre, posto que ainda imberbe, vai já funestamente pródigo em desaparecimentos de pessoas muito queridas, que nos habituámos, ao longo do tempo, a estimar, a respeitar, a admirar. Pecando embora pela incompletude e redutibilidade da enumeração, não queremos, contudo, deixar de aproveitar o ensejo da circunstância para evocar, de guisa humilde, quatro nomes de grandes portugueses, já falecidos em 2016: a insigne fadista e actriz Fernanda Peres, o notável professor, estudioso e divulgador das veras tradições da Academia de Coimbra Dr. Gonçalo dos Reis Torgal, o jurista de alto quilate e figura destacada do panorama político nacional que foi o Dr. António de Almeida Santos e, por fim, mas não por último, o grande actor, referência maior do nosso teatro, cinema e televisão e ser humano de excepcionais qualidades pessoais e profissionais que foi Nicolau Breyner. Aos quatro citados, e a todos os outros que vão implícitos nesta menção, aqui se consagra, muito sentida e sinceramente, a lídima expressão do nosso profundo e perene reconhecimento.]

 

Diogo Figueiredo P. D. Ferreira

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