CECÍLIA MEIRELES – A avó do menino

CECILIA MEIRELES
CECÍLIA MEIRELES
(Rio de Janeiro, Brasil, 1901 – 1964)
Poetisa, pintora e professora

***

A avó do menino

A avó
vive só.
Na casa da avó
o galo liró
faz “cocorocó!”
A avó bate pão-de-ló
E anda um vento-t-o-tó
Na cortina de filó.
A avó
vive só.
Mas se o neto meninó
Mas se o neto Ricardó
Mas se o neto travessó
Vai à casa da avó,
Os dois jogam dominó.

 

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HOMENAGEM de VERGÍLIO FERREIRA a JORGE DE SENA

VERGILIO FERREIRA

Homenagem de Vergílio Ferreira a Jorge de Sena

Agora que a morte o arredou de todos, agora que se alargou o espaço em que os inimigos se moviam, agora é a altura de sua obra o substituir. Que espaço ocupado por ele será ocupado por ela? Acabadas as razões emocionais de todos, quando sobretudo a morte os suprimir a eles e a obra ficar definitivamente sozinha, creio que a sua poesia ouvir-se-á ainda melhor, harmonizada com a dos grandes poetas deste século português. Da prosa, é impecável a de certos contos, nomeadamente a daquele que nos fala de Camões já no fim da vida, traçando o percurso da sua amargura na Sôbolos rios que vão. Das coisas eruditas, não sei. Mesmo os ensaios, foi pena que ele tropeçasse tanto na maledicência e não abrisse apenas caminho por onde ela não houvesse. De qualquer modo, um livro como Metamorfoses será sempre uma revelação de beleza, de grandeza humana, de fascinação. O resto, a legenda agressiva de Sena, será esquecida, para esquecer, ou para lembrar, apenas no anedotário dos grandes homens. Paz ao Sena morto, viva a sua poesia.

in “Conta-Corrente II”

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OUTRA MANEIRA DE VER AS COISAS

RAMIRO CALLE - OUTRA MANEIRA

Outra maneira de ver as coisas

 Era um homem que sempre tivera boa sorte, mas certo dia começou a deparar-se com muitas contrariedades. Foi visitar um sábio e disse-lhe:

– Venerável sábio, estou à beira do desespero. Desde há um tempo, tudo me corre mal. A minha mulher adoeceu, os meus negócios dão prejuízo e o meu ânimo anda abatido.

– Assim são as coisas – disse o sábio. – A fortuna e o infortúnio alternam-se. É a lei da vida.

– Não, não – protestou o homem. – Alguém conjurou contra mim, garanto-lhe.
O homem estava obcecado com isso e os raciocínios do mestre de nada serviam. De repente, o mestre disse:

– Ainda bem que conservo o amuleto que o meu mestre me deixou e que é infalível nestes casos. Nunca falhou.

O sábio pôs um pequeno seixo do rio na mão do homem e disse-lhe:

– Não o percas. É muito poderoso. Pendura-o ao pescoço e todos os dias, durante um mês, reza-lhe uma prece. Foi benzido pelo meu mestre e pelo mestre do mestre do meu mestre.

Aliviado, o homem foi-se embora. Todos os dias rezava uma prece ao amuleto e o seu ânimo começou a restabelecer-se, os seus negócios começaram a correr melhor e a sua mulher começou a recuperar. Passado um mês, voltou a visitar o sábio e disse-lhe:

– Alma nobre, que relíquia maravilhosa! Aqui a tem, senhor, é muito valiosa! Grande poder o dela!

Mas o sábio ordenou-lhe:

-Deita-a fora! Desfaz-te dessa simples pedrinha. Não é um amuleto, apanhei-a um dia qualquer perto do rio.

O homem indignou-se visivelmente e perguntou:

– Está a fazer pouco de mim? Por que fez isso?

– Porque estavas tão obcecado que tive de usar a tua imaginação construtiva para refrear a tua imaginação destrutiva. É como quando um homem sonha que está a ser atacado por um leão mas encontra um revólver e o mata, ou seja, com um arma ilusória matou um leão ilusório.

 

O poder da imaginação é extraordinário, tanto na sua direcção construtiva como destrutiva, criativa ou autodestrutiva. É uma energia que há que saber orientar. A imaginação descontrolada e neurótica faz-nos ver o que não é e induz-nos a falsas interpretações e a sentirmo-nos ameaçados por objectos, situações e circunstancias que não têm qualquer mal. Um sinal de sabedoria é poder manter a mente mais atenta ao aqui e agora e exercitá-la para que compreenda o que é, e não o que foi ou possa vir a ser.

 

in “Os Melhores Contos Espirituais do Oriente” – Ramiro Calle.
Imagem: pintura de Gu Kaizhi.

 

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AUGUSTO GIL – Luar de Janeiro

AUGUSTO GIL - LUAR DE JANEIRO

AUGUSTO GIL

(Lordelo do Ouro, Portugal, 1873 – Guarda, 929)

Poeta

LUAR DE JANEIRO

Luar de Janeiro,
Fria claridade

À luz dele foi talvez
Que primeiro
A boca dum português
Disse a palavra saudade…

Luar de platina;
Luar que alumia
Mas que não aquece,
Fotografia
De alegre menina
Que há muitos anos já… envelhecesse.

Luar de Janeiro,
O gelo tornado
Luminosidade…
Rosa sem cheiro,
Amor passado
De que ficou apenas a amizade…

Luar das nevadas,
Àlgido e lindo,
Janelas fechadas,
Fechadas as portas,
E ele fulgindo,
Límpido e lindo,
Como boquinhas de crianças mortas,
Na morte geladas
-E ainda sorrindo…

Luar de Janeiro,
Luzente candeia
De quem não tem nada,
-Nem o calor dum braseiro,
Nem pão duro para a ceia,
Nem uma pobre morada…

Luar dos poetas e dos miseráveis…
Como se um laço estreito nos unisse,
São semelháveis
O nosso mau destino e o que tens;

De nós, da nossa dor, a turba – ri-se
– E a ti, sagrado luar… ladram-te os cães!

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VINICIUS DE MORAES – Minha Mãe

Vinicius de Moraes

VINICIUS DE MORAES

(Rio de Janeiro, Brasil, 1913 – 1980)

Poeta, cantor e compositor

                  Minha Mãe

Minha mãe, minha mãe, eu tenho medo
Tenho medo da vida, minha mãe.
Canta a doce cantiga que cantavas
Quando eu corria doido ao teu regaço
Com medo dos fantasmas do telhado.
Nina o meu sono cheio de inquietude
Batendo de levinho no meu braço
Que estou com muito medo, minha mãe.
Repousa a luz amiga dos teus olhos
Nos meus olhos sem luz e sem repouso
Dize à dor que me espera eternamente
Para ir embora.  Expulsa a angústia imensa
Do meu ser que não quer e que não pode
Dá-me um beijo na fonte dolorida
Que ela arde de febre, minha mãe.

Aninha-me em teu colo como outrora
Dize-me bem baixo assim: — Filho, não temas
Dorme em sossego, que tua mãe não dorme.
Dorme. Os que de há muito te esperavam
Cansados já se foram para longe.
Perto de ti está tua mãezinha
Teu irmão. que o estudo adormeceu
Tuas irmãs pisando de levinho
Para não despertar o sono teu.
Dorme, meu filho, dorme no meu peito
Sonha a felicidade. Velo eu

Minha mãe, minha mãe, eu tenho medo
Me apavora a renúncia. Dize que eu fique
Afugenta este espaço que me prende
Afugenta o infinito que me chama
Que eu estou com muito medo, minha mãe.

 

in  “Vinicius de Moraes – Poesia completa e prosa”.

 

 

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EUGÉNIO DE ANDRADE – Último Poema

EUGENIO DE ANDRADE - ULTIMO POEMA

EUGÉNIO DE ANDRADE

(Póvoa de Atalaia, Portugal, 1923 — Porto, 2005)

Poeta

          ÚLTIMO POEMA

É Natal, nunca estive tão só.
Nem sequer neva como nos versos
do Pessoa ou nos bosques
da Nova Inglaterra.
Deixo os olhos correr
entre o fulgor dos cravos
e os dióspiros ardendo na sombra.
Quem assim tem o verão
dentro de casa
não devia queixar-se de estar só,
não devia.

in “Rente ao Dizer”

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FERNANDO PESSOA – Como a noite é longa!

FERNANDO PESSOA

FERNANDO PESSOA
(Lisboa, Portugal, 1888 – 1935)
Poeta, filósofo, dramaturgo, tradutor

COMO A NOITE É LONGA!

Como a noite é longa!
Toda a noite é assim…
Senta-te, ama, perto
Do leito onde esperto.
Vem p’r’ao pé de mim…

Amei tanta coisa…
Hoje nada existe.
Aqui ao pé da cama
Canta-me, minha ama,
Uma canção triste.

Era uma princesa
Que amou… Já não sei…
Como estou esquecido!
Canta-me ao ouvido
E adormecerei…

Que é feito de tudo?
Que fiz eu de mim?
Deixa-me dormir,
Dormir a sorrir
E seja isto o fim.

 

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