As dez terríveis verdades sobre a publicação de livros

Pela sua clarividência, atualidade e pertinência, transcrevemos aqui este interessante e útil artigo, que ilustra bem o paradigma atual da publicação de livros e se aplica acutilantemente, salvaguardando a grande diferença da escala dos números, à tendência da realidade deste mercado em Portugal e cujas conclusões corroboramos inteiramente e consideramos muito elucidativas das atuais condicionantes da publicação de um livro.

As dez terríveis verdades sobre a publicação de livros

(Fonte: Steven Piersanti, President, Berrett-Koehler Publishers, Updated March 6, 2012
Tradução de SitiodoLivro.pt)

1. O número de livros publicados em cada ano explodiu.

Bowker reporta que mais de três milhões de livros foram publicados nos EUA em 2012 (18 de Maio de 2011, Bowker Report). O número de novos títulos impressos publicados por editores americanos cresceu de 215,777 em 2002 para 316,480 em 2010. E, em 2010, mais de 2,7 milhões de títulos “não tradicionais” foram também publicados, incluindo livros autopublicados, reimpressões de obras do domínio público e outros livros impressos a pedido. Adicionalmente, centenas de milhares de livros em língua inglesa são publicados anualmente fora dos EUA.

2. As vendas da indústria editorial estão a decair, apesar da explosão dos livros publicados.

O volume das vendas de livros de não ficção para adultos, que atingiu o máximo em 2007, tem vindo a decrescer desde então, de acordo com a BookScan (Publishers Weekly, 2 de Janeiro de 2012). As vendas das livrarias registaram igualmente o seu nível mais alto em 2007, tendo declinado anualmente sempre a partir dessa altura, de acordo com o U.S. Census Bureau (Publishers Weekly, 20 de Fevereiro de 2012).

3. Apesar do aumento exponencial das vendas de e-books, mesmo assim as vendas totais de livros estão a reduzir-se.

“Print Declines Outpace Digital Gains” (a quebra de livros impressos em papel não é compensada pelo ganho das vendas de livros digitais) foi a manchete da Publishers Weekly de 19 de Setembro de 2011. Em todo o ano de 2011, um decréscimo de 17,1 % nas vendas de livros impressos representou mais que o aumento de 117,3 % das vendas de e-books, resultando numa diminuição de 5,8 % na soma dos dois formatos, de acordo com a Association of American Publishers (Publishers Weekly, 5 de Maio de 2012). Do mesmo modo, as vendas conjuntas de livros impressos e de e-books para adultos desceram 14 milhões de unidades em 2010, de acordo com o BISG BookStats report de 9 de Agosto de 2011. O volume total vendido na publicação de livros não está a crescer, sendo cada vez mais repartido entre livros digitais e impressos.

4. A venda média de livros é chocantemente pequena e está a regredir rapidamente.

Combinando a explosão da quantidade de títulos publicados com o decréscimo das vendas totais, regista-se uma redução da venda média de cada novo título. De acordo com a BookScan, que analisa as vendas, na maioria das livrarias, online e noutros retalhistas (incluindo a Amazon.com), apenas 263 milhões de livros foram vendidos em 2011 nos EUA, no conjunto de todas as categorias de não ficção para adultos (Publishers Weekly, 2 de Janeiro de 2012). A média anual de vendas de um livro de não ficção nos EUA é agora inferior a 250 exemplares e a 3.000 exemplares durante toda a vida do título. E cada vez menos são best-sellers. Apenas 62 dos 1.000 livros de negócios publicados em 2009 venderam mais de 5.000 exemplares, de acordo com uma análise pelo Codex Group (New York Times, 31 de Março de 2010).

5. Um livro tem menos de 1% de probabilidade de ser colocado numa livraria média.

Para cada lugar disponível de uma estante livreira, existem entre 100 a 1.000 títulos concorrendo para ocupar esse espaço de prateleira. Por exemplo, o número de títulos de negócios colocados em venda varia entre 100, nas livrarias mais pequenas e, aproximadamente, 1.500, nas grandes lojas, mas coexistem mais de 250.000 títulos impressos deste género a competir por esse limitado espaço de estante.

6. Está a tornar-se cada vez mais difícil vender livros.

Muitas categorias de livros ficaram totalmente saturadas, havendo um excesso de títulos em cada tópico. É crescentemente difícil fazer sobressair cada livro, que concorre com mais de dez milhões de outros disponíveis para venda, enquanto os demais meios de comunicação tomam cada vez mais tempo às pessoas. Em resultado, o mesmo investimento aplicado hoje na comercialização de um livro produz um retorno de vendas bastante menor do que há apenas alguns anos atrás.

7. A maioria dos livros é hoje vendida apenas às comunidades dos seus autores ou editores.

Toda a gente incluída na audiência potencial de um livro conhece centenas de livros interessantes e úteis, mas tem pouco tempo para ler algum deles. Consequentemente, as pessoas tendem a ler apenas os livros cuja leitura as suas comunidades tornam importante ou mesmo obrigatória. Não existe uma audiência geral para a maior parte dos livros de não ficção e procurar tal desiderato é normalmente muito menos efetivo do que divulgá-los junto das suas próprias comunidades.

8. Atualmente, a maior parte do marketing dos livros é feita pelos autores e não pelos editores.

Os editores geriram a sua sobrevivência neste enquadramento deteriorado de mercado transferindo mais e mais responsabilidade de marketing para os autores, para reduzirem custos e apoiarem as vendas. Reconhecendo esta realidade, muitas novas publicações de autores consagrados usufruem agora de uma extensa secção (normalmente de muitas páginas) nas plataformas online dos autores e do que estes empreendem para os publicitar e promover. Os editores ainda cumprem um papel importante no êxito de livros referenciais e em colocá-los acessíveis nos canais de venda, mas a sua saída nestes canais depende primordialmente dos seus autores.

9. Nenhum outro sector industrial tem tantos lançamentos de novos produtos.

Cada livro novo é um produto novo, que necessita de ser gerado, desenvolvido, trabalhado, desenhado, editado, denominado, produzido, embalado, valorizado, lançado, promovido, armazenado e vendido. No entanto, cada novo livro induz, em média, vendas de apenas $50,000 a $200,000, que têm de cobrir todas as despesas inerentes àquelas tarefas, deixando apenas um pequeno montante disponível para cada uma. Isto, acima de tudo, limita quanto os editores podem investir em cada novo livro e na sua campanha promocional.

10. O mundo da publicação de livros vive num estado de perturbação sem fim.

As reduzidas margens da indústria, a complexidade do negócio, a concorrência intensa, a implantação de novas tecnologias e o rápido crescimento de outros meios comunicacionais geram uma permanente perturbação na venda e publicação de livros (como a falência da Borders e de muitas outras lojas mostram).

Traduzindo, esperem ainda maiores transformações e desafios nos próximos meses e anos.

11 respostas a As dez terríveis verdades sobre a publicação de livros

  1. A PERGUNTA QUE MAIS ME INCOMODA , É COMO É POSSÍVEL, EXISTIREM AINDA ESCRITORES, FALO DE ESCRITORES, E NÃO DE AUTORES…

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    • Thaís diz:

      A escrita é uma forma de comunicação e o ser humano nunca deixa de se comunicar. Não se comunicar é uma forma de morte para nós. Aliás, nas aulas de teoria da comunicação meu professor costumava dizer que nos comunicamos justamente por medo da morte, porque queremos deixar algo nosso para as futuras gerações.
      Escrevemos para deixar nossos pensamentos em um suporte não perecível, ou pelo menos não tão perecível quanto nossos corpos biológicos.
      Ainda existem escritores porque os escritores de verdade não se importam se serão publicados ou lidos, apenas querem escrever.

      Acho…

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      • Os escritores “de verdade” escrevem para serem lidos. Nesse específico ponto “encontram-se” exactamente no mesmo patamar dos que, nem sequer sabendo escrever, fazem, também, questão de serem lidos.

        É na qualidade da escrita, no respeito por ela, pelos leitores e pela lingua em que escreve que reside a diferença entre aquele que escreve porque efectivamente tem algo importante a dizer e aquele que escreve numa evidente manifestação de egoísmo, exibicionismo e humana inconsciência.

        Parcial e um tanto ou quanto “epidérmica”, esta minha apreciação, mas é a possível, de momento.

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  2. O nosso comentário às “dez terríveis verdades sobre a publicação de livros”:

    Começando por reconhecer a plena pertinência das conclusões explícitas nestas 10 asserções e os condicionalismos que delas decorrem, entendemos no entanto que, nunca como agora, foi tão fácil publicar um livro, desde logo porque:

    1. A evolução recente da tecnologia industrial de impressão digital em papel (print-on-demand) permite produzir os livros em séries muito pequenas, em função estrita das necessidades de venda que vão surgindo, sem agravar excessivamente o seu preço unitário, minimizando-se assim o risco financeiro inerente à sua publicação.

    2. A utilização generalizada da Internet, designadamente do e-mail ou das redes sociais, facilita enormemente a divulgação e promoção das novas publicações, de forma seletiva, direcionada e praticamente gratuita, bem como a sua comercialização online, sem necessidade de se recorrer ao circuito livreiro tradicional que sempre comporta todas as desvantagens já bem conhecidas e demonstradas.

    3. A solução do e-book (ou livro eletrónico), fomentada pela propagação universal, pela sofisticação técnica e pela facilidade de uso dos diversos sistemas de leitura eletrónica, elimina todas as contingências económicas e logísticas do processo de publicação tradicional, reduzindo praticamente a zero os custos da produção, do armazenamento e da distribuição dos livros, tornando-os instantaneamente acessíveis em qualquer lugar e nunca esgotáveis, facilitando assim absolutamente a publicação de quaisquer novas obras.

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  4. Lembro, que os autores escrevem, porque sentem uma necessidade, …fisiológica de o fazerem, ela é tanto maior, quanto é o tempo que estão sem escrever. Se o que escrevem vai ser publicado pouca já lhes interessa. O que se vai passar depois da sua morte é torna-se muito mais importante. Se é bom irá renascer, se for menos bom vai para o esquecimento e se nada acontecer, ficou-lhe a realização pessoal enquanto viveu.

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  5. Com a ajuda do apoio técnico como é o meu caso que tenho o apoio da editora Sitio do Livro que muito me honra trabalhar com esta otima editora, a qual tenho muita gratidão. Acho mesmo que cada autor deve fazer o máximo de divulgação possível não deixando esta tarefa só para os editores! Pois os livreiro exigem em média 50 a 60% do valor de PVP, e si o próprio autor não se esforças para divulgar fica mais difícil da obra chegar aos leitores, principalmente para os novos autores!!!! Nunca desistam dos vossos sonhos, revejas e valorize os métodos utilizados mais desistir jamais…

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  6. Emilia Isabel Soares diz:

    Com tanta informação assustadora… tenho medo de me atrever apenas a tentar publicar o meu livro “Memórias de uma vivência em África (Angola) e na Europa (Portugal)”!
    São 40 anos LÁ… e 40 anos Cá! É um livro com muita informação que merece ser dado a conhecer. Tenho cerca de 30 pessoas (também os meus médicos…) que estão à espera. Embora seja pobre, não espero enriquecer agora, com 81 anos. Apenas sinto a obrigação de contar “coisas que aconteceram”.

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