Crescendo Constroem-se os Sonhos(V)

Crescendo Constroem-se os Sonhos (V)

Macedo Teixeira

   Afinal, vejo agora com claridade que a razão pela qual cada um se guia e se rege e a razão da sua vida que, sendo original, dá-lhe o toque de qualidade que nos torna diferentes uns dos outros. Afinal, todos se reforçam num sentimento que é o valor mais elevado e mais íntimo e também o mais secreto e o mais precioso. É por uma qualquer razão que cada um tende a realizar de um certo modo a sua vida. Uns, vivem para deixarem exemplos morais de uma conduta séria e honrada; lavam as mãos de tudo quanto possa ensombrar esta ideia — a sua causa tem a razão na honra e no valor da dignidade. Outros, vivem para a aventura; querem deixar exemplos de um heroísmo e abnegação que emocione a vida e faça com que sejam recordados mais pelo que viveram e fizeram do que pelo que foram. Outros, vivem para o mundo e para os problemas que este levanta, entregam-se em espírito e trabalho numa missão que não escapa à dor nem conhece elevações de luxo; procuram limpar o mundo, conforme lhes é possível, sem terem em conta quantos são precisos ou quantos existem; trabalham de sol a sol na esperança de que o futuro será melhor e os outros o hão-de continuar (neste grupo estão os mais pacíficos que querem deixar recordações, mas não deixar pena nem serem indesejados). Outros há que vivem para a miséria, sem que esta lhes peça para ficarem; por todos os caminhos por onde andam, prendem-se à pobreza miserável da escravidão da vida, e nem sempre são pobres de bens e de espírito. São pobres, porque trocam a condição da luz pela condição das trevas; e pobres, porque trocam o que têm de melhor, que é a liberdade de serem ricos com alguns bens e viverem conforme a saúde da sua alma e a beleza do seu espírito.

   Sei que todos têm a sua razão e todos se reforçam nestas convicções. Todos têm a ideia de que a sua é a melhor razão e que não há outra possibilidade de a melhorarem, quando é negativa, ou de a combinarem numa comunhão participada para além da sua causa. Reconheço que estas são razões da vida do homem, mas só em parte as razões da vida humana. E, se estas não forem reguladas nos períodos da nossa juventude, tornar-se-ão em tensões que despertarão forças positivas e negativas que poderão ser em qualquer caso prejudiciais à vivência da nossa consciência e liberdade. Foram, apesar de tudo, estas expressões da vida e os planos que elas projectam que fizeram a minha personalidade e o modo como a desenvolvo e me aplico na adaptação e integração do Mundo. Foram estas condutas que me inspiraram a procurar os caminhos que me conduzem ao meu destino, que fizeram com que acreditasse que a liberdade existia e que era o melhor prémio da vida, além da saúde e da santidade da alma. Acredito que seja da nossa natureza a tendência para resistir a tudo que não traga nada de novo, que não seja empolgante e provoque ondas de fascínio e de mistério; o homem só não resiste ao que o surpreende. Disse-me, há muito tempo, um amigo, que um homem só não resiste à sedução, e que por ela se deixa encaminhar, até ao momento em que ela dure.

   De facto, o homem surpreende-se e admira-se pelo desconhecido e por tudo quanto o encante e o faça sonhar. É neste estado de graça que procura completar-se pela satisfação na resolução dos problemas que o acordam para as necessidades. Acrescento, porém, que para além da sedução existe algo que o envolve com muito mais força e permanência; algo que se encontra entre o vivido indefinido e o desejo de viver pela sua própria razão, o desejo de encontrar a sua linha e de fazer o seu próprio figurino. É aí que se situa um poder incondicionado e natural que impele cada um de nós para um estado dos planos da vida, a que o homem não resiste e, em quietude, procura escutá-lo para o definir e ser-lhe fiel no mais íntimo e profundo do seu ser. É essa força que sensibiliza e emociona a nossa razão e faz com que cada um se projecte para um ideal que não conhece em concreto, mas pensa nele como limite possível. Não é, certamente, o sonho de uma glória conquistada, porque esse é um sentimento que ganha força em cada realização da vida. Pela minha experiência atrevo-me a dizer que será uma força que não tem designação e que nem sequer está regulada pelas capacidades humanas, mas que se manifesta conforme vamos vendo e sentindo o mundo e nele conscientemente vamos tomando parte.

   Vivemos em conformidade com uma ordem de gradações que se expandem ou se contraem, com influências determinantes na nossa espécie. São elementos vitais, sem uma definição real, que emergem da transformação geral e permanente do Mundo e que actuam na razão da nossa vida com efeitos consequenciais na sua ordem. O valor da emoção de cada um de nós em resultado destas influências está na nossa consciência, porque delimita-a para responder às tensões criadas por esta Ordem e equilibradas por este poder. Só isto como acontecimento pode explicar os diferentes modos como o homem capta e compreende os efeitos do mundo e lhe procura as suas causas. Só esta possibilidade poderá explicar que o plano da ordem do mundo seja o mesmo e os seres humanos sejam tão diferentes e tão diversos na concepção dos seus projectos e na resolução das suas emoções. Será esta força que impelirá a nossa razão para o encontro da luz da alma que a serena e a equilibra, donde em consequência nos equilibramos nas tensões próprias da vida. Será este poder que tornará o homem capaz de ser diferente ao longo da vida e poder, sem perder-se, sonhar até à utopia.

   Este poder e esta força não serão os únicos recursos do homem, mas serão, com certeza, os mais inspiradores na sua elevação. Não são, por esta razão, elementos de um qualquer paraíso artificial que estejam só no nosso pensamento. É algo que acontece e que não é a força do homem nem a sua capacidade, que é antes a projecção de uma força que dá outra expressão ao pensamento, desde que o homem se incline para ela. Creio que é um prémio que reforça o sentimento e expande a consciência para limites que são reais e não existem só na imaginação ou fé; existem fundamentalmente nas possibilidades das inclinações possíveis por um poder transcendente ao homem que actua livremente na sua realização.

   Quando vejo que tudo está ao nosso alcance, com certa regularidade, mesmo que com muito trabalho e esforço, não vejo outra explicação para que os homens e mulheres neste mundo continuem a superar o que são obstáculos, muitas vezes perigosos, se não fosse o desejo de conhecer os seus limites para além do real físico. Se tudo o que o homem precisa para sobreviver lhe é dado como a todos os outros animais, por que razão o homem se aventura para realidades aparentemente impossíveis? Quando vejo que cada pessoa se transcende para a busca de outros elementos essenciais através de vários modos, vejo-me forçado a admitir que o homem só se torna verdadeiramente homem nesta animação para um outro estado do ser. É nesta elevação transcendente que o homem se completa, torna-se no que é e mostra em sentimento o que desejou e sentiu ser possível alcançar. Será este sentimento mais empolgante e arrebatador que lhe trará serenidade e o fará feliz.

   Esta força começa bastante cedo a tocar-nos sob as mais diversas formas. Quando jovens e maiores já não são só os exemplos que nos preocupam, mas também o sentimento de liberdade que esses exemplos na prática nos causam. A partir desta altura, somos induzidos para práticas que não nos envergonhem nem sejam indignas, e isso não acontece só porque existe condenação social, mas surge na sua evidência pela necessidade do modelo que queremos construir, e que cairá por terra, se os nossos sentimentos de estima forem perturbados e destruídos. São estes sentimentos que, já nesta altura, manifestam em si esta força que aos poucos se vai tornando mais perceptível, na medida em que nos tornarmos mais perfeitos na maioridade. É esse sentimento interior que nos vai estimulando na caminhada e despertando na vontade da aventura. Os exemplos são a expressão resolvida do pensamento desejado; o que nos incitará mais no caminho da maioridade e a vontade de conquistar o nosso próprio destino, caminhar pelo seu caminho e chegar às metas que o estabelecem. É essa força e o poder que esta intensifica que tornam o homem capaz de formar um ideal com o seu próprio sentido e o seu plano próprio. Um ideal que faz de cada um aventureiro ou apaixonado, devoto ou libertário, sonhador ou convencido.

   Neste contexto, os outros surgem como referências e sinais indicadores; surgem no nosso caminho como se nos visitassem e nos trouxessem alguma coisa que é necessária. São elementos de um processo, que acontecem no perímetro do seu destino, mas só se podem completar com os jovens que com eles caminhem e façam por si mesmos a sua própria caminhada. Por isso, os outros surgem como elementos inspiradores das tarefas que temos de realizar para cumprir o modelo que queremos como projecto; os outros inspiram-nos nesse fim e nele se realizam também. Os outros são a experiência realizada nos acontecimentos que consideramos positivos para seguir; são a marca de um desejo moral que nos querem transmitir. Nesta individualização e concordância cautelosa, a nossa natureza é induzida à capacidade de rejeitar o que não queremos e, até às vezes de rejeitar aquilo que precisamos, mas que a nossa sensibilidade não se apropria imediatamente. Não será uma capacidade que dependa apenas do sujeito na escolha ou decisão, será uma capacidade natural que deriva da ordem humana no seu crescimento e que nesta altura é muito mais determinante na resposta a qualquer perturbação positiva ou negativa do desenvolvimento da nossa vida. Não julgo de modo radical esta atitude de rejeição, nesta altura, ao que não gostamos, apesar de alguma inconsciência. Nem vejo nestes actos uma desaprovação do acto social, a não ser que a nossa rejeição seja feita com actos indignos que nos atrofiem na caminhada da vida. Vejo, nas atitudes de uma adesão cautelosa e pensada, o resultado da procura pelo que cada um é em si mesmo e também pela procura da sua igualdade. Por um lado, porque cada um possui a sua especificidade; e por outro, porque todos num mundo possível de aventura querem ser actores dessa possibilidade. Acredito que existem igualdades diferentes numa igualdade comum. Também nesta dimensão ponho-me a pensar, não só nos outros como também nos elementos naturais, e concluo que a igualdade é uma realidade lógica e não é uma aspiração humana; a igualdade existe para que os elementos a diversifiquem e a tornem diferente nas suas formas. A animação é a mesma, difere nas formas e nos momentos; a vida é igual mesmo na diferença e na diversidade. É por este quadro comparativo e na sua lógica plural que insisto nas grandes questões da juventude e na sua educação para a maioridade. Na verdade é da maior importância a educação da responsabilidade e da preparação para a liberdade de vir a ser responsável pela sua vida e pela ordem que cada um integra e de que é elemento base.

   Na juventude, o que mais nos preocupa e mais inspira são os sentimentos de liberdade para vivermos a vida que sabemos igual para todos, mas não sabemos que os seus efeitos variam conforme forem os modos com que a respeitamos. Neste período, somos mais conforme o momento do que conforme a razão. É próprio desta fase a procura de uma comunhão de sentimentos do que é mais fascinante e do que é mais libertador de todas as ordens socialmente definidas. Os sentimentos de liberdade parecem-nos iguais em todas as vidas semelhantes à nossa e julgamos que só nos libertamos das desigualdades em que caímos ao crescer, se formos capazes, agora, de viver em liberdade e na riqueza dos elementos que a fazem no nosso dia-a-dia. Não é preciso pensar muito nem ser muito cauteloso, basta-nos alguma prudência e um espírito forte e dominador. O diverso não será necessariamente diferente; o diverso pode ser igual nesta forma e o diferente pode justificar todo o tipo de ensaios e experiências. Basta que nos deixem ser livres e que confiem em nós e nada de mal há-de acontecer.

   Não há, acreditamos nós, outro modo melhor de nos tornarmos nos adultos do futuro senão pelo modo de crescer e viver fazendo da nossa vida um ensaio permanente. Os outros não são senão expressões de uma referência que tende a ser universal e a ser divulgada por cada um dos elementos que a compõem e de que o Homem é a sua mais elevada realização. Cada um é, por esta razão, parte integrante dessa referência; é um elemento singular na sua ordem e tem uma originalidade que é preciso descobrir e nós, como jovens, acreditamos desempenhar aqui um papel principal.

   É nesta complexidade imprevisível e mais intolerante na crença das razões clássicas que a sociedade tem um papel determinante no auxílio às vivências da juventude pela forma educada e exemplar, porque se a juventude tende para a liberdade sem limites, os exemplos sociais indicam-lhe o referente normal do razoável e os jovens esforçar-se-ão na originalidade, mas corrigir-se-ão até aos limites normais.

   Lembro-me, com alguma emoção, de alguns factos que ocorreram na minha vida e que revelam com nitidez os ensaios que eu fazia para realizar o que julgava, naquele tempo, serem desejos pessoais e gostos de ser jovem e ser bom. Pelo que vivi nessa altura, e pelo que fui capaz de realizar até hoje, acredito que de facto não há outro modo melhor de nos tornarmos nos adultos do futuro senão pelo modo de crescer e viver, fazendo da nossa vida um ensaio permanente e, nessa altura, quando jovens, crescer e viver pelas experiências que tenham como limite o ser bom. Quando eu era jovem, o que me ocorria nos meus pensamentos era o desejo de ser o melhor, o desejo de ganhar e de vencer. Creio que sou necessariamente sincero e não creio que tenha mudado alguma qualidade de raiz para dizer o que de facto não fora. O que eu sentia nessa altura traduzia-se pelo desejo de ser o melhor, de vencer e de ganhar, mas quando apertavam comigo vinha sempre à minha lembrança, já não o desejo único de ganhar, mas a alegria de não perder, mesmo que não vencesse, de não ser o último; a alegria de ser referência para os outros. Não gostava nada que me vissem perder, mas aceitava passar como perdedor, envergonhava-me é se me sentissem derrotado perante a situação em que ficava ou a pontuação que obtinha. Hoje sinto com verdadeira razão que o que me afligia verdadeiramente não era o perder ou ganhar, era o ser notado como um bom jovem que se interessava pela vida, ainda que ela não trouxesse grandes alegrias; desejava ser escolhido para participar, e gostava de ganhar, fazia questão disso, mas nunca senti como mais grave a derrota do que o sentimento de condenação que os outros poderiam vir a ter sobre mim. Esse sentimento perturbava-me tanto que às vezes mal distinguia o resultado, fosse ele qual fosse, era na aprovação social que eu via a minha maior vitória.

   Creio que é essa sensação que faz com que o jovem queira ser destacado naquilo que faz e, sobretudo, naquilo que anseia realizar. Todos sabemos que o sentimento de vitória dá-nos uma grande segurança e uma emotiva capacidade de auto-estima, mas tal capacidade não é mais fortificante que o sentimento de participação e pertença pela escolha que fazem de nós, pelos melhores modelos que temos ou pelas melhores capacidades que representamos.

   Tenho ainda profundamente vincada a gratidão que exprimia a todos os que me escolhiam para participar no seu grupo; e não era só por me sentir “bom” no que fazia, entenda-se o conceito, por ser jovem e ser próprio da idade, eu sentia-me reconhecido ou “desejado” pelos outros e especialmente pelos meus pares. Sabia que eles gostavam que eu os ajudasse e fôssemos um grupo forte e vencedor. Infelizmente, parece ser normal na actualidade fazer-se por tratamento de choque a mudança de atitudes nos jovens; digo infelizmente, porque não vejo que isso seja uma atitude social correcta e que produza os melhores efeitos e consequências. Parece ser normal que ainda em tenra idade o sentimento natural que atrás referi seja quebrado na sua particularidade para dar lugar a atitudes comprometidas pelo jogo da lógica do vencedor a qualquer preço e em qualquer condição. Ainda bastante jovens somos colocados perante a necessidade de elevar a competição sobre a colaboração e, na sua compreensão, estará imediatamente implícito a força do poder pelo que alguém recebe em dinheiro e é valorizado em exclusivo pela sociedade. As características humanas, na sua profundidade psíquica e mental, são desvalorizadas e o jogo torna-se dominação, força e eleição social. Infelizmente quebram em tenra idade esse sentimento natural que temos todos, esse sentimento puro de equipa, de grupo e de amizade pela glória de estarmos juntos. Pessoalmente digo que, como eu, serão poucos os que não se perdem e não desanimam definitivamente. Digo isto sem nenhum gosto especial nem nenhum destaque pessoal. Valeu-me uma poderosa luz que me iluminava desde que nascera, apesar de na minha juventude se ter quebrado na sua ligação com os meus sonhos. Uma luz que tem-se mantido sempre a fortalecer-me na fé de que outros sonhos hei-de realizar. Valeu-me depois o espírito que não se perdeu em mim e me soprou em todas as minhas aventuras. Ora me perdia, ora me encontrava, pela recordação do que me haviam ensinado e do que me haviam dito: “Se fores capaz de afinar os pensamentos com os actos, a tua luz te voltará a iluminar e o teu espírito te guiará.”

   As sociedades não têm uma visão sentimentalista e humana da vida, têm um pensamento humano carregado de desejos que realizam nos outros e confundem a ternura e afectividade na sua pureza, pois vêem sinais de esperança na caminhada humana da vida, mas deixam-se cegar por indiferença e superioridade de qualquer espécie. E o que é mais dramático e incompreensível é que envolvem os acontecimentos de substância negativa num jogo social, onde não se distingue ninguém como culpado ou como inocente para arrebatarem as vitórias a qualquer preço e com uma condição qualquer.

   É esse sentimento social que escolhe os mais poderosos num poder qualquer e que a minha consciência moral me faz admitir que poucos respeitam o poder dos valores verdadeiros. É esse sentimento que faz com que alguns jovens vão perdendo aos poucos o sentido da exaltação da vida na sua verdadeira dimensão; alguns quebrando mesmo todos os laços que os uniram e dignificaram na sua infância, até se perderem definitivamente no seu ser. Não chegam mais a sentir qualquer reforço familiar ou social desde o tempo de meninos, não sentem mais qualquer “prémio” que os estimule, porque lhe quebraram o sentimento natural e eles não foram capazes de se fazerem por dentro até serem suficientemente fortes para se fazerem também por fora com a liberdade de serem eles próprios.

   Há um “prémio” que está acima dos nossos olhos, não forçosamente aquele que resulta da visão social actual, que é importante para vivermos em comunidade, mas que não é o melhor para a nossa felicidade. Aliás, a visão que a sociedade actual tem da Humanidade e daquilo que é humano não é caracterizada pelo principal, que é, como disse, ser sentimental e humana, e por isso, se assim o homem vai vivendo dentro do possível, viveria muito melhor e seria mais feliz se vivesse com estes predicados. A visão actual da sociedade é de desejo de dar nas vistas e de excluir tudo o que a responsabilizar e tudo o que em pensamento não lhe der gozo nem sensação de vitória. Somos já bastante perfeitos em pensamento; desenvolvemos concepções morais de projecção, idealizamos e escrevemos acordos de princípio e de regulação social, mas na prática negamos os nossos pensamentos, não por esforço intencional, mas por ilusão, pois acreditamos mais no que pensamos do que o que fazemos para a sua prática.

   Não encontro outra razão que não seja aquela que acabei de referir, aquela que motiva tantos desencantos sociais e tantos desencontros com os ideais da juventude e a sua própria força. Acredito que uma visão humana e sentimental há-de gerar o carinho pela estima dos verdadeiros e sinceros valores; dos valores que garantem a aventura da juventude de cada um e o encontro com os laços que tornam perene a vida. Será esta categoria do pensamento que valorizará a vida jovem, que estimulará o desejo da responsabilidade nos actos em que são intérpretes e aumentará a segurança com vista ao seu futuro. A sociedade espera dos jovens a confiança de serem capazes de tomarem conta dos destinos do mundo e dos valores que o compõem; por isso exige-lhes capacidade, inteligência e responsabilidade, mas tal só é lícito se a sociedade os acompanhar nos momentos em que são mais frágeis. Nós nunca nos poderemos sentir confiantes e seguros no mundo se continuarmos a fazer o homem só para os nossos objectivos e só para uma certa perspectiva social. O Homem é muito mais do que o ser vencedor e o ser de sucesso. Na verdade, pode ser vencedor de quê? Se a ordem percorrida não for a da competição, mas a da dominação! E o sucesso tem em conta o quê? O humano, o natural, o serviço, ou simplesmente o espectacular, o irracional e o resultado?

   Se o homem começar a formar-se na sua juventude, através da consciência social que refiro, então o “prémio” que receberá estará acima dos nossos olhos, porque assim a nossa conduta e os princípios que a regularão concluirão o nosso pensamento e os nossos desejos. Passaremos a ser mais justos não só por praticarmos a justiça, mas por participarmos dela de modo implícito e inclusivo; os outros não serão só expressões de julgamentos, mas também expressões de partilha. Os outros não serão os diferentes e nós os iguais; serão iguais que não tiveram as condições normais ou as perderam por qualquer motivo no jogo da vida social. Será esta visão sentimental que irradiará a luz que nos chega de muito longe; será uma visão do espírito que atingirá as almas e as elevará à forma da sua luz e à eternidade da vida. Subir e fazer subir os outros será a nossa obediência suprema e a nossa vontade divina. Não olharemos mais sobre a nossa luz natural só para fazermos juízos de reprovação; olharemos fundamentalmente pela alegria de apreciarmos e valorizarmos; pela alegria de fazermos juízos de lembrança que como iguais teremos que ser mesmo assim, porventura produzindo algo simples ou complexo, mas nunca nada fazer por não ter recebido muito.

   Ainda toco nas minhas recordações com uma sensibilidade cheia de desejo de aí permanecer. Não se pode parar o tempo da nossa história, mas os quadros com que a pintamos revelam, em certos casos, momentos de pormenor que jamais poderemos esquecer. Quando era menino brincava com as coisas pelo prazer de as ter e as utilizar para a minha satisfação. Sabia lá eu que brincava com os meus próprios sonhos. Afinal, nós temos os nossos sonhos reais, que não são fantasias nem nos deixam no vazio da lembrança. São mesmo realidades que nos acontecem ou que nós as provocamos e que depois causam uma brilhante recordação. E mesmo que ao crescermos tenhamos passado maus bocados, são relevantes os pormenores que nos fascinam pela impressão de regresso ao tempo como sensação de libertação causada pelo bem-estar social por havermos conseguido superar as dificuldades. Essas recordações têm-me feito homem e têm-me ajudado a encontrar o caminho para a realização dos meus desejos e sonhos que quando jovem acreditei realizar. Esses pormenores deram-me força para regenerar deficiências estruturais psíquicas e morais; encheram-me quando estava vazio de um alimento que não sei ao certo de onde vem nem em que forma se assimila; sei que é diferente do alimento físico e me estabiliza emocionalmente quando estou mais carente de tudo. Sei que é raro na sua abundância, que temo ser demasiado esbanjador quando não me certifico das minhas possibilidades. E em casos extremos chego a pensar o que seria de nós se esse alimento acabasse!… Observo a Natureza e vejo que os bens alimentares vão escasseando, mas acredito que a regeneração natural e a diversidade serão capazes de resolver as dificuldades. Quando me refiro ao natural, quero referir-me ao que é visível, aquilo que se transforma por acção de forças que estabelecem trocas entre si. Umas implicam as outras, e no jogo natural a regeneração e a diversidade são consequenciais. Mas o invisível, aquilo em que não podemos tocar, nem moldar pela transformação vital; aquilo que é essência, se radica a si mesmo e se manifesta de uma forma tão misteriosa e tão cálida, essa realidade eu desejo-a tanto que gostava que estivesse sempre presente, mas ao verificar que não é consequencial e só vem de vez em quando fico preocupado com a sua utilização.

   Em menino lembro-me de ir para o rio, eu chamava-lhe o regato, e tinha até nomes para identificar o lugar onde nadava com os meus companheiros e onde pescávamos lindos peixes. Questões de pormenor, mas que dão um enfeite simples e natural e fazem avivar a nossa proximidade. Em certas ocasiões do ano, principalmente no Verão procurava as elevações feitas pelos lavradores para represar as águas e onde corresse um fio pequenino de água arranjava-o como queria para fazer um moinho. Com um figo dos maiores que ia buscar à figueira que lá havia, cravava a toda a volta pequenas lascas de madeira de caixas de fósforos ou de pauzinhos pequeninos que alisava carinhosamente. Atravessava-o com um pau na vertical com a altura de 30 a 40 cm e com a base exterior ao figo, com o bico bem afiado, pousava-o sobre um caco de argila com um buraquinho no centro, onde a azenha se movia. A sua velocidade no movimento era conforme à biquinha de água que eu previamente preparava. Não podia esquecer-me de construir uns pequenos muros até à altura do pau do moinho, onde depois suspendia uma barrinha de arame ou de madeira com um anel de arame fino ao centro, onde rodava o pau da azenha na vertical superior. Ficava horas a olhá-lo, a vê-lo rodar e a jorrar água em seu redor. Só o largava para regressar a casa, mas no outro dia ia vê-lo de novo.

   Quando a corrente da água aumentava pela alteração dos caudais do rio, eu não podia brincar mais com o meu moinho. Tinha de esperar por outro ano e pela estação do Verão, que era a que me permitia viver este pequeno sonho. Fazia outras coisas, bem sei, mas cada uma delas era diferente no embalar da vida e na esperança de viver mais. Cada um destes momentos humedeceu de perfume a minha sensibilidade, abriram-me tempos de ansiedade para ser alguém na vida. Criaram-me desejos de vir a ser no futuro o meu próprio sonho, à medida que ia sonhando.

   Sinto nestes acontecimentos de menino, e nos que já escrevi da minha juventude, uma força que me agarra e me lança para a frente, uma espécie de “prémio” que me faz sentir homem e me vai ajudando a concretizar as partes do meu grande sonho. Sinto uma grande alegria quando me recordo de alguns acontecimentos que marcaram a minha vida, e nem todos foram agradáveis, mas eu vivi-os como menino e julgo-os com satisfação. Acredito que a minha consciência se libertou pelo meu crescimento moral, mas não creio que o tenha feito para me iludir nem para simular que não sinto. Mesmo quando tenho sensações mais ofuscadas por qualquer névoa do passado, o meu juízo não fica muito tempo confuso ou desesperado, sinto apenas uma leve emoção que me faz alterar o tempero das vivências momentâneas e as minhas paixões decrescem por pouco tempo. Não sei se seria possível viver sem alterações no grau da vontade e do desejo de manter uma chama acesa de modo sempre intenso. No meu caso, sinto essas mudanças com um valor positivo, porque me fazem situar melhor e ver com mais limpidez.

   O Homem faz-se na vida através de todos os ingredientes que a compõem e de todo o tempero que lhe dá sabor nas várias fases que são as formas do homem. Todas estas formas têm um encanto próprio que se mantém em cada pessoa como conteúdo de memória. Um conteúdo que é recordado com plano para subida na unidade que é conjugada permanentemente nas suas partes. Todos os planos ou formas da vida humana são muito exigentes para se completarem com perfeição, mas a forma adulta é aquela que me parece ser a mais exigente por constituir ou completar o homem na maior parte dos seus domínios. Por esta razão, todas as experiências vividas como menino, adolescente e jovem são fundamentais para darem consistência e força a esta fase que completa as capacidades e permite que possamos tomar iniciativas por nós próprios e decidir o que queremos para a nossa vida.

   É na fase adulta, sobretudo nos primeiros dez anos, que mais necessitamos de recorrer a todos os conhecimentos e a todas as experiências vividas para podermos optar nas decisões que temos de tomar. É vulgar dizer-se que é na adolescência que se vivem as grandes crises do ser humano. É nesta altura que se procuram os laços sociais no grupo, a marcação do espaço no convívio, se procura descobrir e compreender as grandes alterações por que passa o nosso corpo e, sobretudo, se procura reduzir o mundo à nossa própria vontade. Vivemos em crise pelas alterações bruscas a que estamos sujeitos e pela fragilidade que nos caracteriza. Mas se esta fase é uma fase vulnerável e crítica pelas razões aduzidas, não deixa de ser uma fase mais acompanhada e mais apoiada por suportes humanos que a fase da maior idade ou idade adulta. A partir dos 25 anos e até mais ou menos os 35 anos de idade, o homem vive em sucessivas crises de consciência, de desejo e de projecto. De consciência, porque tem que optar entre o viver segundo o momento e conforme a ocasião ou viver conforme o dever e segundo a tradição. Entre estes dois modos de vida pode escolher um terceiro, que corresponde ao viver segundo a sua única vontade e de acordo com o seu único juízo, mas aí opta por uma consciência individual e à margem da família e do grupo. Em qualquer um dos modos escolhidos, enquanto não encontra as bases que estruturam e edificam a capacidade de autonomia na sua consciência, a independência é pouco provável e o comportamento no seu todo é um comportamento debilitado. Crise de desejo, porque é confrontado com os valores que regulam a sociedade e pelas experiências a que a mesma nos sujeita. É uma provação permanente e uma exigência implacável. Ou se compreende e aceita o mundo social no modo como este está regulado e se distinguem as partes na sua responsabilidade; ou se discorda, retirando o valor do mundo na sua forma social objectiva, destacando-se apenas os elementos humanos e, neste caso, colocando-se em pé de igualdade tudo o que é mais fácil, vivendo e resolvendo as questões conforme a matéria que tivermos na ocasião. Vivendo e resolvendo progressivamente as questões-base dos nossos desejos (a casa, o automóvel, a independência económica, a esposa, filhos, etc.), mas admitindo tudo numa situação precária sem assumir culpa nem responsabilidade na parte que nos cabe. Pode dizer-se, em resultado, que os que resolvem as suas questões pelo modo da cooperação, acalmam quando têm a certeza que comungam do social e organizam a sua vida de modo independente e autónomo; enquanto os que actuam pelo modo ocasional e desresponsabilizado vão vivendo numa certa dependência para as suas soluções, mais à mercê dos outros e com desejos que lhe são impostos, em consequência menos tranquilos e com pouca auto-estima. De qualquer forma, em ambos os casos passam-se momentos de grande perturbação, sendo em meu entender mais aflitivo para aqueles que acreditam no mundo como um valor social, cooperando com esforço e dedicação a este valor. Nos primeiros tempos da maioridade, vive-se em crise de projecto, porque as situações não são estáveis nem seguras para quem inicia a vida em comunidade e comunga com a necessidade de constituir uma família a partir da sua própria vontade e com as suas possibilidades. Pode dizer-se que na maior parte dos casos tudo se forma de modo esquemático e transitório, e as partes dos planos são substituídas com regularidade. Pode pensar-se que a organização social na sua perfeição vai dependendo da disposição das partes e, por isso, o homem como ser social na sua aplicação e experiência necessita também de apurar os planos na sua disposição. Viver durante um tempo de modo esquemático e transitório surgirá como solução para os ajustamentos na adaptação à estabilidade e harmonia social. Os problemas que a vida levanta e o modo como os vamos resolvendo nesta primeira fase da maioridade ajudam a diminuir as tensões e a força das crises existenciais em que vamos vivendo, pelo menos até ao limite provável de 10 a 15 anos depois da maioridade. Mas pode concluir-se que esta fase é profundamente perturbada a partir de fora, e se o problema mais geral é da crise de identidade e em consequência de segurança e afirmação, os factores da consciência, do projecto e do desejo são os que mais reflectem as perturbações e os que mais evidenciam o apagamento ou ausência dos conteúdos das fases anteriores.

Páginas 35 a 60

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Um novo poema: «Toada de amargura»

Posto que tendo já abandonado a actividade poética com carácter de regularidade – como, de resto, repetidamente temos dito -, não nos furtamos a, muito raramente, ir fazendo revivescer alguns cantos da nossa pobre lira. Eis o último deles, recentemente cinzelado:

 

«TOADA DE AMARGURA»

Lôbrego caminho da triste vida,
Juncado d’heras de sombrio vulto;
Porque se há-de sofrer tão amarga investida
Desse áspero sentir, ‘inda insepulto?

As razões, não no-las desvela o Criador,
Ele, que aos destinos da gente assim preside;
Resta a incerteza, a amargura, a dor,
A opressora mágoa que no triste peito reside.

Porém, há-de ser assim o devir,
Tão-só de nigérrima paleta esboçado?
Creio, por minha fé, que o porvir,
Em se querendo ridente, bem custa a ser alcançado.

Diz a alma ao coração, caridosa:
«Repara, que também soalheiros são os alvores,
E essa sorte, que se te faz inditosa,
Prestes há-de evolar-se nos mais faustos alcandores!».

 

Diogo Figueiredo P. D. Ferreira

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Crescendo Constroem-se os Sonhos (IV)

É como adultos, e mais responsáveis, que começamos a compreender que as sucessões dos planos naturais e sociais se tornam numa manifestação natural de revelações que nos parecem sempre semelhantes, mas que devemos assimilar nas nossas acções quotidianas por linguagens e gestos de total cumplicidade. Sinto que estas relações naturais vão ganhando uma aceitação e entrega à medida que vamos envelhecendo, à medida que vamos sentindo que afinal somos elementos do Universo e que conforme melhor com ele vamos combinando vamos sendo mais felizes e brilhando muito mais. Creio que é da nossa natureza esta atitude e acredito que está na nossa substância estas qualidades de sermos integrados no universo dos vários elementos pela extensão das nossas capacidades. De sermos integrados noutras formas e noutros planos, mas com a acção das nossas resistências e mudanças.

   À medida que nos vamos ligando mais ao mundo e às suas partes, vamos contrariando a nossa estabilidade emocional e desejando mais a nossa emocionalidade. Será, certamente, por esta razão que começamos muito cedo a rejeitar o mundo e a sua ordem, não fomos nós que a fizemos e pensamos que os que nos antecederam não tiveram a inteligência e o juízo suficientes para fazer um mundo melhor. Limitamo-nos a um idealismo emocional, despertando muitas vezes para exaltações e acontecimentos que nos parecem únicos, que nos parecem encaminhar para a realização plena e nos dar tudo o que precisamos. Os jovens adolescentes são a expressão temporal humana que melhor traduz esta forma de comportamento, esta forma de resistência que levanta maiores complicações nos domínios da ordem humana-social.

   É da nossa natureza o sentimento e a emoção, são elementos básicos do nosso humanismo e os elementos principais para a iniciação do nosso romantismo corporal. Resistimos, de um modo geral, durante a nossa vida a tudo o que é dureza e convicção forçada, mas na adolescência esta resistência por vontade de criar e mudar tem uma especificidade mais determinada. Pois se o princípio do prazer está agora mais nítido e traz-nos alguma vergonha quando praticado fora dos seus limites, o princípio da responsabilidade não é ainda integrado sem uma resistência, por vezes radical, e o modo que encontramos para a exercer manifesta-se pela prática do prazer e do gozo que a aventura e a rejeição causam no seu exagero.

   A adolescência traz consigo a emoção do tempo de viver e pensar no que mais agrada e do que é mais útil para nós e nos faz participar por envolvimento. Normalmente, procuram-se os acontecimentos que nos dão mais partilha de prazer do que de responsabilidade, acontecimentos que nos fazem esquecer do horário e da distância, esquecer com quem se está e onde, com quem se vai e com quem se vive. O mais importante para nós somos nós próprios — os outros têm que nos compreender e nos aceitar como somos e com a liberdade que queremos. A moral da autonomia baseada num sujeito legislador e obediente, a liberdade de viver com os outros e para os outros, ainda estão bem longe deste tempo de crescimento. O homem faz-se na vida, mas esta vai tendo a forma temporal vivida e as experiências adquiridas, que são, como se pode compreender, conforme as necessidades que cada um vai tendo. A exigência a si próprio só a determinamos num sentido de imitação e compromisso com o grupo, não necessariamente, com um plano cujas partes ainda não são necessárias no projecto em construção e muito menos na sua materialização.

   Nesta altura não sentimos necessidade de mudança nos ajustamentos e adaptações e fazemo-lo, com alguma contrariedade, se não for para o que nos diz estritamente respeito. O mundo tem de ajustar-se a nós e não o contrário; não temos de ser elementos de planos de projectos passados e se os mais velhos não concordam é porque não evoluíram o suficiente e são demasiado exigentes. Tenho consciência que estou a ser um pouco radical na análise observada, mas os pormenores é que podem variar um pouco, o resto tem uma forma temporalmente definida que se repete em todas as gerações. Eis porque acredito que seja da nossa natureza ou até, quem sabe, de toda a natureza a tendência para resistir, que no homem, em meu entender, ganha a força de domínio e torna-se numa raiz da emergência cultural humanamente necessária. O problema surge nesta totalidade temporal e genética que terá que ser sempre bem acompanhada, para que o homem se faça no tempo de cada uma das suas fases de crescimento com equilíbrio em todas as dimensões. Não pode a tendência a resistir perder-se do sentido natural da mudança nem as transformações vitais ocorrerem por ruptura com a capacidade humana.

   Resistir até ao ponto crítico, até ao ponto em que não podemos mais ser o centro único do amor e para o qual tudo terá de convergir, não será despropositado se estivermos a crescer e ainda não formos maiores nem necessariamente obrigados. Mas, logo que a idade e a responsabilidade tenham suporte natural do fazer da vida, não devemos encaminhar-nos para o resistir, como negação da ordem natural e social; antes pelo contrário, devemos solidarizar­‑nos com ambos e assumirmos a nossa parte no processo. Nada se mudará para nós se não nos mudarmos também, a proporção é individual mas a força da convicção com que o fazemos é elementar para nos desenvolvermos num mundo que é real. A maioridade, quando bem estruturada na sua origem e ordenada pela educação na base do dever e do respeito, trará ao homem a compreensão de que a liberdade não é um sonho, mas esta compreende todos e nós somos apenas um elemento que tem uma função na sua linha. A maioridade trará ao homem a compreensão mais natural destas realidades, pois até o dia e a noite em tangência têm de se superar para darem lugar a cada uma das suas composições. E o homem tem de se superar no centro para se elevar até a um outro onde passará a ser elementar, mas já não sujeito único.

   É bom recordar (e é com esta preocupação que escrevo estes pensamentos) que aprendi pelas experiências diversas que a expressão da vida não tem uma forma definida e acabada em cada uma das nossas épocas ou fases, pois esta desenvolve e rege-se por princípios e leis que são constantes e permanentes e, por isso, são naturais. Estes princípios e leis são as bases reguladoras necessárias e convenientes à vida de todas as gerações, e eu só vejo uma maneira simples de deles falarmos para que todos mais ou menos percebam a sua importância, e essa maneira é recordá-los pelos sentimentos vividos e expandi-los às emoções de cada um. É mais fácil perpetuar estes pensamentos pela comunhão geral de vivências e plantá-los nas emoções mais jovens, para que as formas das expressões da sua vida venham a ter conteúdos diferentes, como será lógico e natural, mas não sentidos nem ordens nem dimensões diferentes dos desígnios que a vida humana sempre deverá ter em todas as gerações.

   Tenho ainda muito vincadas as preocupações dos que me ensinaram a descobrir o caminho da vida autêntica, foram breves sentenças morais que se tornaram à medida que ia crescendo em sinais de aviso de que nada aconteceria sem que a nossa sensibilidade fosse subtilmente perturbada. Esses sinais foram as fontes de expectativas e os pensamentos reveladores de uma ordem que era preciso descobrir nem que fosse à custa de aventuras que deixassem algum desespero na alma e remoques de desânimo no mal sucedido. Ninguém me pôde avisar dos meus sonhos nem me dizer como caminhar para os encontrar, mas todos me falaram de algo que era a sua própria razão e se tornava na sua própria força. Todos me contaram as suas maiores realizações e me falaram em forma de exemplo elevado; acontecimentos da sua vida e sentenças moralmente profundas, formas de um bom encontro para sempre.

Macedo Teixeira

Páginas 29 a 35

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Crescendo Constroem-se os Sonhos(III)

Temos que escolher entre um mundo natural, com a sua própria ordem e com a nossa liberdade de escolha para viver, e um mundo natural e humano construído por nós, mas com egoísmo e só para a nossa vida. Essa escolha tem que ser feita pela necessidade de caminharmos para uma ordem que recapitula a perfeição humana, no mundo do ser criança, do ser jovem e do ser adulto.

Ainda me lembro das primeiras sensações e do eco da gritaria ao sairmos da escola, do pontapear as pedras e empurrar para o chão os companheiros de que às vezes mais gostávamos. Era uma certa maneira de dizer: “Até amanhã!” Tornava-se na forma de manifestar a amizade de qualquer modo. E se não era, por vezes, o melhor modo, a experiência realizava-se e o sentimento começava a tornar-se forte.

É neste quadro de efeitos temporários e distantes que começa a nascer para cada criança urna nova perspectiva sobre o que vai ser novo e diferente no futuro. Novos companheiros, outras situações que desconhecemos e, porventura, mais tristezas e alegrias sobre as passagens ou reprovações na escola; perturbações da nossa inteligência, que ainda não está completa, nem pode ainda compreender todas as razões.

Mais quietos e mais conformes com a nossa natureza de meninos, vamos situando a nossa vida e fazendo questão que ela seja como queremos. Construímos os nossos desejos num jogo de forças e de relações sociais que são a expressão da educação e da ordem dominante. Inventamos soluções para as nossas dificuldades e suprimos as faltas de todo o tipo de coisas, pelas respostas que encontramos. Às vezes vivemos alheados de tudo o que não queremos sem a certeza de porque o fazemos, mas com a ideia de que resistimos deste modo à forma de um mundo que nos querem mostrar. Um mundo que é nosso, mas muito diferente daquele em que vivêramos antes, que era completamente nosso, porque éramos pequeninos e não conhecíamos classes. Agarramo-nos ainda a ele com todas as nossas forças e todas as recordações que guardamos, pensamentos que se tornam na força que nos mantém na certeza de que era bom viver como quando fomos pequeninos. Nesse mundo não éramos estranhos e sabíamos como fazer. Não tínhamos que nos mostrar nem ganhar consciência das nossas dificuldades. Afinal, alhear-se nesta fase que recapitula a fase de menino é uma forma de resistir a uma outra ordem que vamos pouco a pouco reconhecendo como necessária, já que o outro plano do nosso ser, o plano da responsabilidade, vai rasgar o véu que escondeu anteriormente os grandes mistérios da nossa vida.

Agora já não somos mais, nós e o mundo, que era nosso e só entrava nele quem nós queríamos e gostávamos. Já não podemos fazer o que queremos nem que seja para chamar a atenção e sermos o centro da vida. As interrogações nesta fase da responsabilidade, no que ela tem de limites, tornam-se na plantação do querer existir em cada momento conforme as sensações que temos. Sensações que ainda não são verdadeiramente nossas porque lhes falta ainda um sujeito determinado a existir livremente, sem qualquer condição que não seja a de ser sujeito num mundo de objectos. A adolescência rompe numa atitude descomprometida com o mundo e com as pessoas; não acontecem factos que entusiasmem muito e agradem o suficiente. O mundo e as pessoas configuram expressões e formam sentimentos que são hipoteticamente contrários às soluções que os adolescentes desejam e acreditam ser possíveis. A figura do sujeito determinado a existir livremente não se exprime ainda senão como ideal, não tem ainda suporte de atitudes completamente livres. O que os jovens vêem e sentem nesta altura desliza para emoções que não trazem nada de novo e que permaneça muito tempo. As atitudes são ainda frágeis e não libertam a vontade de tudo fazerem conforme lhes dá mais gozo e não do que seja melhor para todos. “O princípio do prazer e o princípio da responsabilidade” não são muito distintos nos seus limites nem nas suas formas. Nesta altura os jovens adolescentes não deixam os domínios do prazer, pois assumem-se “senhores do que sentem e querem”, participam na cooperação social pelo ensaio da responsabilidade, mas sentem-se “estrangeiros” quanto às regras que são socialmente adoptadas e que têm de respeitar. Não sei se é da nossa própria natureza resistir na revelação de qualquer plano, em que não fizemos as regras; sei que mesmo bastante mais velhos não nos é fácil conhecer e aceitar sem qualquer constrangimento na vontade o que é escrito e regulado para qualquer estrutura organizativa e sua aplicação prática. Sei que há em toda a nossa vivência e nos seus diferentes actos diversos pontos críticos entre a concordância e a decisão. Julgo não ser despropositado dizer que, na revelação dos planos, o dia e a noite têm um ponto crítico real, um ponto em que há tangência da noite com o final do dia e vice-versa. Com esta ideia pretendo justificar uma certa ordem natural e social e as diferentes perspectivas em que nos temos de colocar. Digo que tem que haver uma superação pessoal das qualidades do dia para o experimentarmos nos diferentes modos e sentirmos profunda e implicitamente as suas diferentes mudanças. É assim que se vivem estes planos elementares da unidade que se chama dia e é assim que se compreende que há na natureza uma certa ordem cíclica e que as mudanças desta resultam de transformações. Pretendo mostrar, afinal, que mesmo sobre a nossa relação com a natureza existe uma certa necessidade de ajustamento e superação dos pontos críticos em resultado das transformações naturais e que o homem não o faz com voluntarismo absoluto. Creio, entretanto, que é esta atitude que faz com que o homem seja um ser cultural por excelência e me leva a compreender que seja da nossa natureza a vontade de resistir a tudo o que está feito e a dar-lhe outra forma. Vejo, porém, que este grau de resistência vai mudando à medida que vamos sendo maiores e que os limites da sua maior complicação se verificam em certas idades e nos domínios da ordem humana e social. Concluo, porém, que mesmo na ordem natural a nossa relação tem de ser de superação e ajustamento, o que quer dizer que não podemos proceder em contradição para vivermos naturalmente bem. Logo, esta atitude de resistência humana será porventura natural, mas torna-se em certas fases da nossa vida numa força de acção muito poderosa pelo que deverá ser muito bem apreendida na ordem social para que cada um de nós não se perca no seu crescimento correcto.

             Páginas 25 a 29Autografar1 livros.jpg

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Felicidade não é para quem pode, é para quem quer.

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Acabadinha de aqui chegar e muito verde nesta “coisa” de publicar livros, sinto ainda alguma timidez, confesso…

Aproveito o simpático convite do Sítio do Livro, que agradeço, para me juntar a este blogue e vos apresentar o pequeno  livro sobre a felicidade que acabei de lançar.

Mantenho, desde 2007, um blogue  (Sopa de Ideias) onde divago sobre o tema  e apeteceu-me finalmente ter algo físico, papável… Se tiverem curiosidade, aqui escrevi pela primeira vez sobre o meu livrinho azul.

Deixo também, para quem possa interessar, o filme do lançamento.

 

Irei agora explorar esta casa cujas portas me abriram. 🙂

Obrigada

Cristina Rodo

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Crescendo Constroem-se os Sonhos (II)

Tenho-me interrogado acerca desta questão, perguntando a mim mesmo se a realidade que vivemos em cada fase da nossa vida não poderia ser vivida de modo diferente, se não poderia ser ao menos reforçada pela presença permanente de laços de ternura e sentimentos de espera por uma presença que queremos e que não deveria acabar nunca. Compreendo que não podemos ser sempre donos do nosso tempo e da nossa vontade; sei que um dia, quando somos maiores e mais velhos, temos de aprender a tomar conta de nós e até da comunidade a que pertencemos. Sei que é necessário o exercício da libertação e da responsabilidade que a Escola e a Sociedade nos iniciam no tempo próprio, pois não podemos viver sempre na dependência dos outros. Mas não compreendo que não possamos ser acompanhados eternamente de laços de ternura e de espera, pela chegada ao lugar e ao coração do que a nossa existência nunca deixou de sentir e desejar. Sei que são muitos aqueles em que as condições humanas são muito pobres e o aconchego não é senão desespero, mas não creio que isso tenha de ser assim. Julgo que muitas vezes essas realidades vivenciais são a expressão final e dolorosa de um mundo desumano que a sociedade prepara sem se lembrar que o que vê nos outros é a imagem do seu próprio sofrimento.

Se a Sociedade fosse capaz de entender que um bocadinho de ” pão”, com a alegria do afecto e a estima do sentimento pode dar força para enfrentar os grandes obstáculos, não sentiria tanta dor em tantas pessoas nem os grupos tentariam a fuga para um mundo que não estará completo, se lá não estivermos todos. Se a sociedade fosse, não apenas a expressão do grupo, mas o seu verdadeiro valor, que vale pelas qualidades e capacidades das pessoas e, sobretudo, pela força que dispõe para resolver os problemas do mundo em que é basicamente responsável. Se a sociedade fosse assim, ela seria um valor que todos queriam e não um valor que é por muitos rejeitado dadas as falsas qualidades, que são em grande parte as mais evidentes. A sociedade terá que entender cada vez mais que serão as qualidades verdadeiras que a tornarão coesa e elevada, serão esses valores que farão elevar o homem aos sentimentos mais profundos do valor da vida.

Falo de ternura, da presença e da espera, falo de qualidades do afecto e do coração, mas também outras devem começar muito cedo a serem evidentes para a criança. A justiça, a coragem, a rectidão, a liberdade, a amizade e outros valores vão-se descobrindo pela experiência, mas os adultos não podem demonstrar às crianças a sua importância, pela exemplificação das falsas qualidades. Não se podem resolver os problemas do mundo se não se melhorarem as nossas atitudes, os nossos actos e os nossos pensamentos. Tenho ainda presente o que ouvia contar sobre alguns acontecimentos que marcaram positivamente a nossa história nos domínios da conquista e da expansão, mas fundamentalmente nos domínios da coragem e da sinceridade dos vários exemplos humanos que ficaram para sempre gravados na minha memória de criança. A personalidade de uma criança, a sua memória e a sua imaginação têm que ser construídas com conteúdos sinceros, acontecimentos com alguma heroicidade e factos que criem plasticidade. Também guardo com carinho algumas passagens de que foram exemplos pessoas das mais diversas origens – o seu carácter, a sua sinceridade e a convicção com que praticavam os seus actos, servem-me, ainda hoje, de reforço para o equilíbrio emocional e social, especialmente nos momentos em que na sociedade actual não encontro senão um ambiente desconexo e vazio de sentido. É nestes valores que se formam as maneiras da sensibilidade e os diversos pensamentos que muito cedo serão repartidos na caminhada da nossa vida e no valor da expressão que lhe vamos dando à medida que crescemos e nos tornamos homens.

Quem não se lembra de alguns dos momentos da sua meninice? Daqueles momentos que facilitaram a abertura da nossa memória pelas traquinices consentidas e pelas brincadeiras atordoadas de emoção. Era menino e gostava tanto de pescar, que me esquecia do comer e da promessa de chegar cedo, que tinha feito a minha mãe. Depois da escola ou aos fins de semana pegava numa cana com linha e anzol, metia um bocado de pão no bolso e lá ia a procura do melhor pesqueiro que houvesse próximo de onde morava. Atirava algumas pedrinhas aos peixes, brincava com eles, sem ter consciência disso! Depois, gostava de os atacar com todas as minhas habilidades, com pedras maiores afastava-os uns dos outros, a água formava círculos concêntricos e uma certa ondulação que os confundia. Esperava que esta voltasse a normalidade e à sua limpidez, fazia uma bolinha de pão e colocava-a no anzol a servir de isco. Como precedente, atirava à água bastantes bocadinhos de pão para os atrair, e como consequência não tardava a trazer para cima uma “boga”, um “escalo” ou um “barbo”, que manifestavam tanta vida como aquela que é própria de uma natureza pura. Foram momentos que tive e que devem ser semelhantes a todas as crianças, senão nos factos, pelo menos nos desejos e na vontade de experimentar. Momentos que temos num certo tempo que são bons quando realizados ou são tristes quando insatisfeitos ou irrealizáveis por qualquer razão, mas que nem por isso deixaremos de estar alegres e de ser crianças sadias.

Foram sensibilidades da inocência e da pureza do nosso espírito; foram elas que nos deram força, nos alimentaram de ternura e até nos guindaram da solidão das tristezas ou das alegrias quando não tínhamos grupo para as manifestarmos. Foram o prémio de um valor que exaltava a nossa alma de pequeninos e nos abria os sonhos das ilusões passageiras que, apesar de tudo, tinham uma graça especial.

Quem não se lembra de pouco ter dormido na noite em que lhe tinham dado alguma coisa para calçar ou vestir, jogar ou passear? Quem não sentiu que a noite era demasiado longa e o dia tardava a nascer, para podermos ver e mostrar o que nos tinham dado? Fossem umas botas de cabedal duro e forte para atestarem alguma humildade económica, fossem uns belos sapatos de verniz para estrearmos em cerimónia ou prendarmos os valores materiais da vida de quem tinha um pouco mais para gastar e podia viver do luxo. Quem não se lembra destas palpitações nervosas pela causa de uma realidade que era necessária, mas que para nós era uma prenda que fazia notar e, ao mesmo tempo, nos fazia dizer: “Vês o que eu tenho novo, não é bonito?”

Todos se lembram com certeza, mas a maior parte de todos nós, nas grandes ocasiões da vida, esquecem esse sentimento de pertença dado pelos valores vividos que não “ilustram na sua recordação”, mais pela origem económica do que pelos factos, pois os meninos são sempre desculpáveis! Esquecem estes sentimentos por julgá-los pobres e tornam-se sobranceiros em relação a estas “meninices”, julgando-se muito certos e muito mais crescidos como adultos.

Grande erro em que caímos, que poderá ser desculpável quando resulta da nossa ignorância, do desconhecimento do valor cultural que tem origem e riquezas diversas ou do desconhecimento do valor dos valores. Mas já não poderá ter desculpa se esta atitude for de elevação social, sem ter substrato real nem o valor cultural da humildade, em virtude da negação dessas vivências, querendo-se ser arrogante e ter mais que os outros, mesmo através dessa distinção falsa. Estaremos numa atitude baixa, porque negamos a nossa sensibilidade de crianças e mostraremos um adulto que ainda não somos nem nunca seremos se não mudarmos. Será uma atitude sem exemplo, porque todos devemos ser mentores de exemplos comparativos de um mundo de valores com partilhas diferentes e origens diversas; o nosso mundo de crianças é um mundo mais semelhante e comum que os mundos seguintes.

As maneiras da sensibilidade são várias e serão tanto mais ricas quanto mais história factual tiverem. A todos sem excepção é reconhecida a sua vida e a qualidade igual que esta deve ter; se diferenças houver, serão naturais, e por qualquer razão que não será da nossa conta. Essas qualidades não criarão sentimentos de abaixamento social em quem as viveu e experimentou; se forem pobres os objectos com que brincáramos, terão o sabor da recordação de como foram experimentados no efeito da diversão e não pelas capacidades tecnológicas ou culturais que possuíam. Se os objectos forem materialmente ricos e muito sofisticados, trarão à recordação o mesmo sentimento de alegria, porque as crianças brincam mais pelo gosto do prazer do que pelo gosto do ter. A afirmação pelo ter objectos valiosos em adultos é uma noção social de poder que tem uma raiz mais dominadora do que humana. E é bom que se diga, que são as experiências de criança e a riqueza do mundo em que esta vive e é educada, que permitem o equilíbrio, mais tarde, entre a ordem do poder social e a ordem do dever humano.

Não se sabe, com pormenor, a força da sensibilidade que recebemos em cada fase ou ocasião da nossa vida, mas é específico da ordem natural, que sejamos estimulados por forças e tensões para a criação de atitudes cada vez mais originais. Emergem, por efeito destas riquezas, as maneiras da sensibilidade que criarão o nosso mundo que, sendo natural, se tornará cada vez mais humano e, por isso, perfeito como as nossas vontades o querem. O nosso mundo terá que ser cada vez mais sensível e imaginário, terá que ter uma história rica de acontecimentos, especialmente da nossa infância, acontecimentos que sejam simples e que permaneçam sempre na nossa memória, para que possamos ser mais tarde como pessoas e adultos muito mais elevados.

Macedo Teixeira

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Crescendo Constroem-se os Sonhos(I)

Titulo – CRESCENDO CONSTROEM-SE OS SONHOS EDITORIAL PANORAMA, LDA. Apartado 5070       4018 Porto CODEX Autor Macedo Teixeira Capa – Zélia Mota Responsabilidade Editorial   Maria do Céu…

Fonte: Crescendo Constroem-se os Sonhos(I)

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