Ganhões da Estrada- página 15 a 17 inclusive

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– Você olhe que não me parece que esteja em estado de conduzir!
– Pimenta, você tem cada uma! Mesmo que tenha bebido um copo a mais, quem é que nos vai levar o carro? Você bebeu o mesmo que eu… além que daqui até ao inicio da obra são, se tanto, uns duzentos metros, e no espaço da obra não à problema, ai a autoridade somos nós…
– Mesmo assim, senhor Nunes, temos a obrigação de dar exemplos ao pessoal!
– Temos de exercer autoridade sobre o pessoal, o que é diferente de exemplos. Ó Pimenta, você hoje está chato! Lembre-se que o Benfica ganhou o campeonato! A rapaziada do Porto está de cara à banda; viu o tipo da instaladora dos cabos? Estava fulo. Á muito tempo que não tinha tanta vontade de rir!
Os dois encarregados acabavam de deixar o restaurante no Pragal. À mesa, entre encarregados das diversas empresas empreiteiras com actividades ligadas directamente à construção da ponte, ou responsáveis pelos acessos ou outras obras subsidiárias, médios técnicos, administrativos e outros, naquele dia tinham-se sentado dezassete pessoas, consumindo o delicioso pernil de porco feito no forno de lenha e acompanhando com abundância excessiva de vinho.
A conversa invariavelmente cingia-se aos desafios de futebol, às transferências dos jogadores e às tácticas seguidas pelos treinadores, e naquele almoço em particular tudo se passara à roda da vitória do campeonato nacional.
O encarregado geral da construção das estradas e acessos à ponte, o Nunes, fanático adepto do clube vencedor, tinha-se excedido no consumo de álcool e entrara em discussão com os colegas das empresas do norte.
Nunes embraiou o jipe, destravou e meteu-se à faixa de circulação, sem se aperceber da manobra, o que teve o efeito de o carro andar uns metros aos esses, e o Pimenta pronto reclamou: “ Eu não lhe disse que você não está capaz de conduzir?”
– Homem, e já ali que viramos para a obra, mas se você quer conduzir…
– Eu não. Você tem razão quando diz que não estou em melhor estado; conduza você mas com mais cuidado; quem fez este já não está cá na terra para fazer outro igual, nem um nem o outro, – e na voz do Pimenta percebeu-se um entaramelar quando falou dos falecidos pais, – “ sentimentalismos de piela!” Pensou o Nunes para consigo, e depois concluiu que ele até devia de estar em pior estado, graças às alegrias que lhe tinham dado os jogadores do seu Benfica ao ganharem o campeonato nacional. “Até que enfim, porra, já fazia jejum á uns anos!”
O jipe virou à esquerda, mais um ésse, uma aceleração desnecessária, um chiar de pneus, e o rodado começou enfim a rolar sobre o macadame já cilindrado naquele pedaço de troço que ia em direcção a Setúbal.
– Você está a ficar branco, ó Pimenta, veja lá se não me vomita dentro do carro; e por falar disso…
O Nunes encostou repentinamente à beira e só teve tempo à justa de abrir a porta do seu lado; do outro lado o Pimenta fez o mesmo e os dois homens deitaram para fora quantidades astronómicas da comida e principalmente da bebida do almoço. O primeiro a recuperar foi o Pimenta.
– Irra, que alivio, e felizmente que não estão os homens por perto para verem este triste espectáculo. Está a ver ao que eu me referia há bocado? Era a isto. Parece eu que sou bruxo!
– Tinha alguma razão, – disse o Nunes, – mas um dia não são dias, agora vamos com calma. Sabe, o Benfica não ganha campeonatos todos os dias!
– Só mais uns cinco minutos, para o estômago se recompor…
Os dois homens aproveitaram o tempo para contarem umas anedotas cheias de pormenores e com palavreado no mínimo considerado porco, riram a bom rir, e por fim voltaram ao eixo da faixa de rodagem, com um andamento mais uniforme.
A tarde, abafada, mostrava um céu livre de nuvens, as copas dos pinheiros de ambos os lados das faixas não se moviam um milímetro que fosse; a canícula à distância fazia parecer que uma ténue neblina, difusa, transparente, invadia todo o traçado da auto-estrada.
Na distância, como se saíssem da terra, moviam-se máquinas e homens; percebia-se que a vida corria ao ritmo de uma modorra pegajosa que fazia os homens assemelharem-se a autómatos, rostos pingando suor, mãos calosas agarradas aos cabos das ferramentas, bocas sequiosas, gargantas protegidas pelos lenços colocados na frente das bocas, como se de máscaras se trata-se.
– Coitados, sofrem tormentos neste trabalho!
– É, Pimenta, mas alguém tem de fazer a porra do trabalho, calhou-lhes a eles, é a chatice da vida. – Respondeu o Nunes.
– Você quer dizer com isso que antes eles do que nós.
– Por alguma razão existem encarregados e operários…
No interior do carro o ar condicionado no máximo não conseguia vencer na totalidade a força do calor; os olhos de ambos os homens começavam a querer fechar, também em consequência da excessiva quantidade de álcool ingerido durante a refeição.
– Atenção aos homens! – Gritou o Pimenta.
– Olha, são os mesmos de ontem; são chatos estes gajos!
– Foi você que os mandou estar hoje aqui, lembra-se?
– Sim, tem razão, mas põem-se no meio da via, os burros!
Nunes parou o jipe junto dos três homens, o Pirralho, o tocador de concertina e o homem da saca, baixou o vidro do seu lado, e, cabeça fora da janela do carro, olhou o grupo e perguntou:
– Então ainda precisam do trabalho?
Em uníssono os homens disseram que sim.
– Olhem que isto aqui é trabalho duro, como podem ver pelos vossos colegas além, e então quando se começar com a fase do alcatroamento, se este calor continuar, não vai ser pêra doce…
– Nós estamos habituados a trabalhar no duro!
Respondeu o Pirralho, enquanto os outros dois o secundavam, dizendo que sim com as cabeças.
– Sim?
– Sim senhor, pode ter a certeza!
– Então onde trabalharam vocês? Já fizeram trabalhos destes?
– Eu já. – Respondeu o Jaime Narciso.
– Onde?
– Na construção de estradas no Baixo Alentejo!
– Bom, e então vocês?
– Eu trabalhei toda a minha vida na agricultura! – Exclamou o Joaquim Silva.
– E eu também! – Disse o António Manuel.

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Sobre jsola02

quando me disseram que tinha de escrever uma apresentação, logo falar sobre mim, a coisa ficou feia. Falar sobre mim para dizer o quê? Que gosto de escrever, (dá-me paz, fico mais gente), que escrever é como respirar, comer ou dormir, é sinal que estou vivo e desperto? Mas a quem pode interessar saber coisas sobre um ilustre desconhecido? Qual é o interesse de conhecer uma vida igual a tantas outras, de um individuo, filho de uma família paupérrima, que nasceu para escrever, que aos catorze anos procurou um editor, que depois, muito mais tarde, publicou contos nos jornais diários da capital, entrevistas e pequenos artigos, que passou por todo o tipo de trabalho, como operário, como chefe de departamento técnico, e que, reformado, para continuar útil e activo, aos setenta anos recomeçou a escrever como se exercesse uma nova profissão. Parece-me que é pouco relevante. Mas, como escrever é exercer uma profissão tão útil como qualquer outra, desde que seja exercida com a honestidade de se dizer aquilo que se pensa, (penso que não há trabalhos superiores ou trabalhos inferiores, todos contribuem para o progresso e o bem estar do mundo), vou aceitar o desafio de me expor. Ficarei feliz se conseguir contribuir para que as pessoas pensem mais; ficarei feliz se me disserem o que pensam do que escrevo… José Solá
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