Nuvens que se chovem…

Nuvens que se chovem
De águas carentes
Passadas e presentes
De tormenta se choram
Dilúvios ardentes
Do nascer ao poente
Se sopram lágrimas de gente
Que se gritam, mudas se sentem

José Guerra (2011)

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“HISTÓRIAS DE PESSOAS QUE DECIDI DIVULGAR”

               HISTÓRIA Nº 25  (Continuação)

                  AMÉLIA DA CONCEIÇÃO

            Amélia

        Hoje tenho o prazer de lhe comunicar que faz três meses que iniciámos a nossa troca de correspondência. Por isso ousei, atrevidamente, alterar o nosso referencial tratamento de Senhora Dona Amélia para Amélia. Julgo que não ficará melindrada. É mais fácil e rápido de escrever.

      Amélia, sinto que nos conhecemos há muitos anos e que entre nós existe uma empatia que gostaria fosse reconhecida por si. Presumo que tenhamos gostos e interesses comuns. Leio nas entrelinhas das suas frases que é uma mulher com talento, apreciadora das artes e uma excelente companhia para serões de cavaqueira. Mas não estou a fazer-me convidado para ir a sua casa…

          Vou contar-lhe uma surpresa. Ontem sonhei que nós, vestidos de branco, passeávamos por jardins cobertos com flores brancas e que a beijei, na testa, bem entendido, timidamente, atrás de uma árvore com folhas brancas. Depois acordei e a Amélia tinha fugido. Foi um sonho lindo, que espero não ser censurável, mas nós não podemos controlar os sonhos, não é Amélia? E que mal há num beijo atrás de uma árvore? Um platónico e respeitoso beijo na testa.

          Hoje escrevi mais do que é meu costume. Sou um bocado preguiçoso, pecado pelo qual nunca serei perdoado pelas instâncias divinas.

          Até amanhã.

          Resposta à carta anterior.

          Meu Amigo Desconhecido

          Obrigada pela sua última e simpática carta. De facto, parece que nos conhecemos há eternidades. Por vezes fico a pensar se é o tempo que nos controla ou somos nós a controlá-lo. Acontecia-me com frequência estar num sítio e ter a convicção que já lá tinha estado anteriormente. O mesmo acontece com as pessoas. Parece que nós já estivemos em algum lugar, que já conversámos, eu sei lá. É uma sensação estranha, no entanto agradável, mas que me provoca o interesse para compreender estes fenómenos. 

          É engraçado que eu também já sonhei várias vezes consigo. Pura curiosidade feminina de tentar desenhar o seu retrato-robot, conhecê-lo, vê-lo fisicamente. Não me leve a mal, mas as mulheres têm esse terrível hábito da bisbilhotice. Mas nestes meus sonhos nós não passeávamos num jardim. Andávamos numa praia deserta, molhando os pés nas águas frias do mar, companhia cúmplice das nossas deambulações de Inverno.

          Hoje fui à sessão da tarde ver um filme excelente baseado no livro “ O diário da nossa paixão”,  de Nicholas Sparks, que por acaso também li, não sendo no entanto um escritor que estimule o gosto pela leitura. Conta-nos duas histórias fantásticas da vida real e que nos avisa que devemos viver bem a vida enquanto podemos, porque não sabemos quando não o possamos fazer.

          Tenho saudades de ir ao cinema e entrar nas grandes salas de antigamente. Agora são caixotes onde passamos toda a sessão a ouvir mastigar pipocas e sugar pela palhinha as bebidas que compram à entrada. Vi grandes filmes musicais, como o My Fair Lady, Música no Coração e muitos mais. Mas o tipo de filmes que aprecio é aqueles do género do realizador Ingmar Bergman, de quem quase tenho a certeza de ter visto todos os seus filmes. Impressiona-me a forma como ela trata a solidão, a vida, o amor, a mortalidade, a fé. É insubstituível a forma como ele aborda os temas existenciais.

         Ai, eu hoje perdi a noção do tempo. Já passa da uma da manhã e eu aqui toda fresca armada em cronista de cinema.

          Vou deitar-me e, quem sabe, sonhar com outro passeio à beira-mar. Espero que a água esteja menos fria.

          Cumprimentos.

             Amélia

JOSÉ EDUARDO TAVEIRA

 

 

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“HISTÓRIAS DE PESSOAS QUE DECIDI DIVULGAR”

                  HISTÓRIA Nº 25 (Excerto)

                 AMÉLIA DA CONCEIÇÃO

          Amélia da Conceição, vive solitária na sua confortável casa, enriquecida com um lindo jardim repleto de flores coloridas. Com oitenta e sete anos de idade mantém uma actividade salutar que lhe permite ser autónoma nas suas tarefas quotidianas. Não é feliz, porque a morte do marido Alberto, que ela amou toda a vida, lhe arrebatou a alegria duma existência repleta de sorrisos e amizade. Um companheiro sereno, leal, estimulante. (…)

          Amélia recebe todos os dias uma carta de um desconhecido, entregue pessoalmente pelo carteiro do bairro. Ele assumiu o compromisso, a pedido do Amigo Desconhecido, da troca pessoal da correspondência.

          Lê as cartas com atenção e responde por delicadeza. De vez em quando, para se recordar das missivas mais antigas, volta a lê-las, ao acaso, sem qualquer preocupação cronológica.

           Senhora Dona Amélia,

          Ficará surpreendida ao receber esta carta de um Desconhecido. Escrevo-lhe porque sei que está só e compreendo como por vezes é doloroso passar horas sem falar com alguém. Mas, Senhora Dona Amélia ler e escrever também são companhia para a solidão.

          Perguntará a Senhora, “mas quem será este indivíduo intrometido, que tem a audácia de me escrever”? Pois sou apenas um amigo, um Amigo Desconhecido que pretende que as nossas vidas tenham algum mistério e surpresa.

          Como calculará, não me move nenhum interesse que não seja estabelecermos uma relação epistolar, onde possamos desabafar e trocar impressões sobre o que vai acontecendo nas nossas vidas e na vida dos outros, sem sermos, obviamente, bisbilhoteiros.

          Senhora Dona Amélia, espero que aceite este meu leal convite para esta salutar troca de correspondência.

          Aguardo com imensa curiosidade notícias suas.

          Os meus respeitosos cumprimentos

          Amigo Desconhecido

          Resposta a esta carta.

          Caro Amigo Desconhecido

          Foi com enorme surpresa que recebi e li com toda a atenção a sua carta de apresentação, peço que me perdoe o termo.

          De facto vivo só, apesar de ter algumas pessoas de família que às vezes, raras vezes, me telefonam e uma ou outra amiga que se lembram que eu ainda existo. Com o infeliz desaparecimento do meu marido Alberto que eu adorava e continuo a adorar como se ainda o visse sentado aqui ao meu lado enquanto escrevo esta carta, também desapareceram quase todas as pessoas que se diziam nossas amigas. Mas a minha experiência de vida ensinou-me que é o que acontece com quase toda a gente. Não fico, portanto, decepcionada por isso. Basta-me a presença espiritual do meu querido Alberto para me sentir acompanhada. E bem acompanhada, felizmente.

          Pode crer, Amigo Desconhecido que eu não vou tentar saber quem é. Apenas o carteiro tem conhecimento das nossas moradas, por sua iniciativa. Cumprirei rigorosamente as instruções que deu ao simpático intermediário. Sou apreciadora de literatura policial, gosto de mistérios, e por isso até me divirto a adivinhar não quem é, mas como é o Amigo Desconhecido. É alto, gordo, tem bigode? Estou a brincar. Não se trata de um estratagema subliminar sugerindo que me envie a sua fotografia, não. Desapareceria o segredo que dá força ao nascimento da nossa amizade.

         Um dos meus prazeres é de facto escrever. Não sou uma escritora, mas tenho a capacidade de escrever de modo a que toda a gente entenda. Já pensei em escrever um romance, uma história de amor. Sei como começar, mas fico petrificada ao pensar como vai acabar. E vou adiando, adiando, apesar de já não ter idade para adiar por muito mais tempo, seja o que for.

         Fui durante muitos anos assistente social e pude, infelizmente, assistir a dramas, nos quais me deixava envolver. O meu marido que era médico de clínica geral, dizia-me “que não se deve trazer para casa os problemas do trabalho”. E era verdade. Tentei corrigir-me, mas com relativo sucesso. Hei-de contar-lhe histórias que me tiraram o sono e me deram a convicção que muitos seres humanos não deveriam existir. Custa-me dizer-lhe isto, mas é o que eu sinto.

          Veja, sem dar por isso já lá vão duas folhas de papel. Eu sou a escrever como a falar: imparável…

          Cumprimentos.

          Amélia da Conceição

JOSÉ EDUARDO TAVEIRA

 

 

 

 

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“HISTÓRIAS DE PESSOAS QUE DECIDI DIVULGAR”

                         HISTÓRIA Nº 4 (Completa)

                           CALIXTO SABONÁRIO

          Calixto Sabonário é um dos milhares de comentadores e jornalistas que ganham a vida a dizer disparates. Sabem de tudo, desde futebol a macroeconomia, de politica a religião, de agricultura a bombas nucleares.  Fazem previsões astrológicas sobre datas de eleições antecipadas, quedas de governo, crises que sirvam os seus interesses, subida das taxas de juro, taxas de desemprego e défices orçamentais. Dominam todas as matérias, porque não sabem de nada.

          Estão dispersos pelas televisões, rádios, jornais e revistas, alguns até acumulam, pois estão em vários meios dada a importância das suas opiniões e a generosidade dos amigos que estão a servir.

          Calixto considerava que não era menos que os outros, e como ambicionava ganhar dinheiro e ser poderoso, resolveu ir para comentador.

           Começou num jornal de província, onde comentava as reuniões da Junta de Freguesia, algumas das quais nem se tinham realizado. Confrontado com estas situações, argumentava, inteligentemente, que se as sessões se tivessem efectuado teria acontecido exactamente o que ele tinha escrito. E aos ataques respondia que são pura demagogia.

          Rapidamente passou do jornal regional para um denominado jornal de referência (ou de reverência?), designação que ninguém sabe o que significa.

         Começou por comentar os filmes que se estreavam nos cinemas, publicando textos parcialmente plagiados do “Cahiers du Cinema”, traduzidos por um amigo que sabia francês.

          Ganhou o prémio do melhor crítico de cinema do ano, oferecido por um grupo de amigos intelectuais, sem intelecto.

          A sua influência aumentava exponencialmente. Os seus comentários alargaram-se à vida social, à política, à economia, à cultura. A sua ignorância era tão grande, que se tornou famosa e logo foi contratado para trabalhar nos grandes meios, dissertando sobre o futuro das bolsas mundiais, sobre os arsenais nucleares, sobre a economia, os sistemas políticos, a educação, a saúde.

           Alguns também comentam futebol, em programas desportivos, para reforçarem os proventos financeiros.

          Está felicíssimo porque a família e os amigos já o podem ver na televisão, bem vestido e com ar superior a opinar como se deve governar o País e o Mundo.

          Aprendeu que nunca se deve aplaudir ou pelo menos considerar válida qualquer medida que beneficie a população. Para ter ascensão na carreira deve deturpar as estatísticas e os factos agradando aos patrões que lhe pagam para não ser independente e honesto.

           Há comentadores que se tornaram famosos, divertindo os espectadores com as suas opiniões facciosas e delirantes. São ex-primeiros ministros, ex-ministros, ex-secretários de estado, ex-secretários gerais de partidos, ex-presidentes partidários, enfim, uma lista interminável de “ex que exerceram o poder, passando por lá com desastrada actuação política. Quando tiveram a oportunidade de cumprir bem o que hoje criticam, não fizeram nada que ficasse na História, sendo corridos pelas suas incapacidades de organização e liderança políticas.

          Olham para os moderadores com sorrisos manhosos preparando-se para distorcer, ardilosamente acontecimentos a seu favor ou do partido a que pertencem, e rejubilam, ouvindo-se, eles próprios, a criticar e a ensinar como se faz isto e aquilo. Usam os meios à sua disposição para promoverem as suas ambições pessoais de uma forma abusiva e conteúdo arrogante.

          Falam de cátedra, apunhalando sem pudor quem lhes desagrada, escorraçando por inveja ou ódios mesquinhos de gente menor. E dão pontos como se estivessem a brincar às escolas.

          Outros, criam factos novos para encherem as capas dos jornais e revistas de mentiras e boatos. Nunca confirmam as notícias por eles inventadas, porque se consideram acima de qualquer controlo.

          Existem ainda os comentadeiros cómicos que se entretêm a gozar de forma leviana e cretina, mentindo sobre acontecimentos, deturpando-os, para terem matéria que suporte a total ausência de humor inteligente e lhes garanta o cachet ganho à custa do riso boçal expelindo bacoradas, divertindo a populaça que os admira. 

           A credibilidade da maioria destes comentadeiros polivalentes é aterradora. Tentam defender interesses pessoais e de grupo, justificando, conforme as conveniências, as ordens e os discursos dos seus patronos. Mais tarde, se forem confrontados, estarão prontos para desmentir tudo com a maior das soberbas.

          Calixto Sabonário sente-se como peixe na água. Anda numa azáfama, da rádio para a televisão, daqui para o jornal e para a revista. Não tem tempo para respirar. Mas vale a pena. A sua conta bancária está a crescer em velocidade uniformemente acelerada.

          Consolidou a eficácia de mentir, deturpar e vilipendiar todos aqueles que não interessam aos seus mentores. Diverte-se a ler e ouvir os seus comentários sobre notícias que ele próprio inventou.

          Haverá acto mais vergonhoso que, para vender jornais e obter audiências de telejornais, se fabriquem falsas notícias, desprezando a regra basilar de um estado de direito que é respeitar o bom-nome das pessoas?

          Ele tem o talento e a desfaçatez de ser em simultâneo jornalista e comentador. Imagina, como reagirão as pessoas que directamente ataca, gozando com prazer mórbido, a reacção dos filhos, da família e dos amigos. Sente-se finalmente poderoso. Ninguém lhe pode exigir que prove as alarvidades que publica. Não depende de ninguém, porque não pode ser manietado nas suas opiniões. Se o fizerem, grita que há censura, mas ele, valente, democrata e independente não se vergará ao jugo do poder…

          Desgraçados que nunca souberam, por ignorância, qual a liberdade que existia antes do vinte e cinco de Abril. Muitos trabalharam nos dois regimes e foram fervorosos defensores da ditadura e gritam agora que não há liberdade para os seus vómitos de ódio.

          Haverá situação mais caricata que trotskistas, estalinistas e extrema direitistas se considerem vítimas de censura em democracia?

          Calixto Sabonário está em grande. Frequenta os melhores restaurantes, está de ouvido alerta para escutar as conversas que lhe podem dar matéria para criar mais uma caixa jornalística de sucesso. Ele é o novo espécime de bufo, sem dignidade, sem carácter.

          Ele é um pulha!

(Este texto foi escrito em 2010)

JOSÉ EDUARDO TAVEIRA

 

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JGuerra – Poesia e Prosa Poética

José Guerra  – Poesia e Prosa Poética (ver blog)

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As fugas ao fisco (Continuação)

Agora, meu caro senhor jornalista, vou contar-lhe a história de uma família medianamente realizada, medianamente séria, que vê o “Sangue Fresco” na TV cabo, todos os jogos de futebol, lê a bola e revistas tipo Maria, ou equivalente. São, portanto, de acordo com os padrões nacionais, também medianamente cultos. A família do Zé Maricão. Conhece? Não? Mas olhe que são gente medianamente infeliz, como a maioria das famílias portuguesas.
O Zé Maricão é casado com a Jaquina do Modelo e têm um filho, o Remeloso, que anda na escola da Câmara na segunda classe e que tem nove anos. O Zé Maricão e a patroa, juntos, ganham mil e duzentos euros já livres de impostos. As horas livres vão todinhas para ele “sovar” no velho Fiat. São lavagens e esfregadelas, lustres puxados a flanelas, verificação do óleo, da água e da temperatura, antes e depois da volta (sempre, ou quase sempre a mesma, pela Ribeira do Porto); e a Jaquina afadiga-se na feitura de almofadinhas, cortinas e seus afins, mais berloques e pendurezas, nos enfeires pelo interior. O Fiat é um misto de cozinha, sala, varanda (quando abre o tejadilho), e quarto, sempre que o Zé apanha a jeito a Lili do prédio ao lado.
Um dia o Fiat pifou. Foi de caminho levado em “rodas” para o senhor doutor mecânico tratar. Passado uma semana infernal, está melhorzinho. Pelo menos tem pouca tosse. E vem a conta do médico, quatrocentos euros sem recibo.
Diga-me: o Zé Maricão, que mal tem dinheiro para comer, por razões cívicas, ou outras que se possam inventar, vai pedir recibo ao médico mecânico, para gastar mais noventa e dois euros para ter uma poupança no IRS de quatro euros e sessenta cêntimos? O Zé Maricão, a Jaquina do Modelo, e até o filho Remeloso são incultos, burros, mas parvos? Parvos, de todo, posso garantir-lhe que não são!
É o governo e a justiça que têm de investigar o comportamento do senhor doutor mecânico! É o governo que tem de melhorar o ensino e dinamizar a cultura das famílias, neste caso da do Zé! Como? Não sei. Eu não sou governo. Eu pertenço ao grupo dos que passaram a vida a sustentar os vários governos que destruíram este pobre País. Sabe como? Eu explico: com 22% de descontos por parte do trabalhador e 33% pelo lado da entidade patronal. Somam 55%, dos quais, trabalhadores ou empregadores nunca tiraram benefícios!
E a saga das “Fugas ao fisco” continuam. Leia, nos próximos dias: “Doenças Mentais e Estado Social”…

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“HISTÓRIAS DE PESSOAS DE DECIDI DIVULGAR”

                     HISTÓRIA Nº 2 (excertos)

                      ALBERTO BANDEIRA

          Alberto Bandeira é um investigador apaixonado pela língua e cultura portuguesas. Ocupa os seus tempos livres analisando o comportamento das pessoas nas suas diversas vertentes de comunicação. (…)

          Estudou para Sacerdote num Seminário no norte do País. Era a melhor riqueza que os pais podiam oferecer aos filhos rapazes, mesmo que, inconscientemente, hipotecassem o seu futuro. Alberto desistiu. Ainda não sabe bem porquê. Talvez porque tivesse a noção que seria mais fácil estar perto da gente humilde, não sendo padre. E teve razão o seu instinto.

          A sua ambição é percorrer as ruas e becos das cidades, das aldeias, dos montes longínquos, ouvindo e registando as palavras, a vida em cada momento das pessoas que neles habitam. Sentar-se às mesas dos cafés, nos bancos dos jardins, e conversar com quem o rodeia.

          As pessoas mais simples, genuínas e analfabetas, são as que manifestam uma capacidade de expressão espontânea, demonstrando uma cultura invulgar. Não precisam de agradar a ninguém. Não precisam de favores para atingir certos fins.

          Que pena os sabichões, ignorantes e imbecis, não tenham a humildade de aprender com esta gente!

          Alberto gostaria de participar, por exercício supremo na área da investigação, num “reality show”, para ter a oportunidade de conviver, preferencialmente, com participantes famosos, mulherezinhas e homenzinhos, rainhas e reis do jet set, que participam, não para ganhar dinheiro, abrenúncio, mas para transmitirem ao povo a sabedoria e a elegância adquiridas ao longo de anos de pungente ociosidade.

          Tias e tios do jet set labrego, sem classe nem carisma, que vão apodrecendo ao longo das semanas nas casas mais vigiadas do País. Nas galas em directo, exibem uma aterradora debilidade intelectual, acenando infantilmente para a câmara, enviando beijinhos para a família, para os vizinhos, para os amigos, enfim, para Portugal inteiro. Alguns aproveitam para difundir marcas de produtos e serviços, talvez para ganharem mais uns euritos.

          Choram ao fim de uma semana de retiro, com saudades pueris dos queridos filhos, como se tivessem sido obrigados a cumprir uma missão num qualquer teatro de guerra. Partilham a intimidade com desconhecidos, apesar de todos serem famosos. Uns prometem, se ganharem, distribuir o dinheiro pelos pobrezinhos; outros não prometem nada, porque o dinheirinho lhes faz muito jeito. (…)

         Mas como conseguir ser admitido, não sendo famoso, além de possuir uma inteligência superior, confrontando-a com o nível elevado de ignorância e cretinice que caracteriza esses infelizes concorrentes, particularmente os que se consideram elite social, que frequentam casas reais, os locais mais “in” de Nova York e que têm lugar cativo nas páginas das revistas da especialidade, em poses ridículas, com sorrisos cabotinos e declarações idiotas?

          Que grande oportunidade para Alberto elaborar um estudo sociológico e psicológico na vertente comportamental, abrangendo, além dos concorrentes em geral, os produtores, os apresentadores, os familiares, o público que participa nessas saturnais romanas. Uma luta travada entre a dualidade dos seus hemisférios cerebrais: o pensamento lógico e racional do hemisfério esquerdo e o pensamento intuitivo e não racional do hemisfério direito. (…)

          Alberto tem, sobre a secretária onde trabalha, um papel no qual transcreveu pensamentos de Goethe, que relê todos os dias, buscando neles inspiração e força para avançar com o desígnio a que se propôs realizar:

          “A vida é a infância da nossa imortalidade.”

          “ Falar é uma necessidade, escutar é uma arte.”

           “Não chegamos a conhecer as pessoas quando elas vêm a nossa casa; devemos ir a casa delas para ver como são.”

           “Uma vida inútil é apenas uma morte prematura.”

JOSÉ EDUARDO TAVEIRA

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A Menina dos Olhos Tristes- Inicio- Primeiras páginas- Romance

O homem vestindo de negro vem caminhando com lentidão junto à borda da água, pela terra dos sapais. Um indivíduo alto e seco, que arrasta os pés num avançarem trôpego, um homem que se aproxima de solidão como companheira de todos os dias. Na cabeça protege-o do Sol impiedoso um chapéu preto de abas pouco largas, na memória são as ideias passadas que ainda o vão protegendo da vida.
Chama-se João Boa Brisa, é homem do rio e também homem do mar, realidade que se mostra impressa nas suas faces, num rendilhado de sulcos misturados com uma barba pequena de pêlos ásperos e brancos, e as mãos, (quem lhes toca), sente uma pele dura de calos que nasceram a puxar redes, e a trabalhar com madeira ou ferro. É gente de trabalho, ou foi, porque de ligeireza já não dispõe de muita, mas de passado é rico, pelas histórias que conta de quando em vez, a quem se dispõe a escutá-lo.
João Boa Brisa tem olhos sagazes. Pretos de carvão. Brilhantes como raios que furam a noite. Transporta dentro de si a recordação de um mundo que foi desfalecendo com o passar da vida, que já pouco lhe pertence, que se escapou pelo desfiar dos anos, e só deixou recordações, como sempre, umas boas, outras más, lembranças feitas de choros e de risos, de tempestades e de calmarias, tardes de Sol que passou a espreitar as águas negras de um rio de mistérios mas também de amor.
Vem por entre os sapais e por vezes pára. Olha o rio com vista arguta de homem entendido, enche os pulmões como quem prova o ar, vê o voltear das aves mais além, a rodopiarem sobre uma mancha mais escura que se percebe na água, perto de uma língua de areia emergente do líquido. Em certas alturas pára e baixa-se, tocando a flora rasteira que se mostra entrançada de raízes. Pega um seixo rolado alisado pelas correntes do tempo e segura-o na mão, admira-o como velho entendido, e logo o lança para a água, onde um círculo de ondas pequenas se desvia, e um ruído vem da água, como se o rio entediado, disse-se “Não faças isso, porque é que andas sempre a atirar-me pedras?”
Outras alturas são aves pequenas que fogem dos ninhos. Parecem bandos de mulheres ansiosas que vão ao cais na espera do seu homem que foi ao mar na faina da pesca, e por ali ficam, volteando, em amplos círculos, a ver se a tempestade se foi. Outra ocasião desequilibra-se, pisa um pedaço de terra que se inclina para um rego de água, mais abaixo, um tudo-nada, uns dois ou três palmos apenas, mas finca os pés e vai de mansinho, aos poucos, sem pressas que a vida espera, o tempo dá-se ao tempo, com toda a lentidão de que o mundo sem horas dispõe, no silêncio comprometido de vagares, e com um passo largo (que ninguém espera), desliza foito para a outra língua de terra que o manda em direcção ao cais.
Quem é João Boa Brisa? Homem que não assenta arraiais por muito tempo no mesmo sítio, mas que volta sempre, de quando em vez, como ave que arriba para onde dá o bom tempo. João Boa Brisa é um velho que tem muito para dar; não e apenas solidão e tristeza. Tem carinho e ternura, que viaja pelas suas palavras quando narra aventuras. E ele narra sempre aventuras; ele viveu nos longes do mundo o pão duro que amassou e comeu. Venceu frios de gelo de morrer e queimaduras de Sol impiedoso. Viveu sedes e cansaços, vertigens de dar e de receber, mares de palha com velas tombadas no convés dos barcos, e montanhas de água das que engolem gentes. Das que engolem tudo. Ele é um homem feito de fatias de dor e de alegrias construídas de coisas pequenas e simples…
João Boa Brisa é homem que nunca fala em Deus; não sabe se sim se não, se é crente ou descrente. Como indivíduo foi educado na fé católica quanto baste. É por tradição das palavras um filho de Deus, mas, se o questionam sobre os assuntos da alma, João diz: “Isto, quando morremos, o nosso corpo arrefece, o sangue seca-nos nas veias, ficamos tesos como um carapau e vamos a dar outro tipo de vida à terra.” Ou então argumenta: “Se ele existe e amanha os pobres, que venha cá a pagar-me as dívidas que eu sou pobre.” Ou ainda: “Porque me levou os filhos tão cedo, O desnaturado.” Ou mesmo: “Fica muito caro para as minhas posses, não posso ter esse luxo.” E o Outro, sentado num trono de mariposas embalado pelo canto das sereias, de tridente em punho e coroa feita de búzios na Divina cabeça, como convêm a um deus dos homens do mar, se acaso o escuta, se acaso existe, se não se limita à conveniência de certos homens, grita-lhe lá das ondas revoltas do oceano: “Ó João, não fale do que não sabe!” E depois, passada que é a excitação de falar para os homens de uma maneira tão directa, sem a interferência dos santos que O representam na terra, acrescenta: “Dei aos burros uma qualidade que apareceu agora nos homens, a teimosia. Porque falam eles do que não sabem?” (E assim o Senhor esquece um pequeno pormenor, é que fez os homens à Sua Imagem.)
João está no sopé da muralha que separa a terra firme do rio, já pisa essa barreira de pedra feita pelos homens; sobe a pequena escadaria que o leva ao topo. Para trás fica a curta língua de sapais e no seu limite, pousada no leito a descoberto por via da praia mar, tombada um pouco de lado, de vela recolhida e presa no mastro, de cores feitas de azuis, vermelhos e brancos, fica a fragata de bojo largo que é a casa que João utiliza nas suas andanças pelo rio.
O rio, os sapais, o casario da margem, as praias de areal misturado com cascas de conchas vazias, a brisa que vem das distâncias do grande mar ali próximo, o pôr-do-sol que avermelha o céu, as garças e os bandos de flamingos, as gaivotas que espreitam do alto as águas em busca de alimento, aquela cor rósea que tapa o Sol quando este se deita na curva do horizonte, são afinal a grande casa de João. Ele vive num palácio feito com um pouco de tudo. De vento e de chuva. De Sol quente e de frio de gelar. Ele é homem de mar, com olhos de água e rosto de sal, com alma feita de muitos mundos.
Mas João está velho. É certo que é um velho num mundo de velhos, por isso e apenas por isso devia de ser um entre tantos, alguém que nunca se espera, e que entedia os jovens, com as suas conversas feitas de passados, de pedaços antigos de história, conversas trazidas à vida, retiradas do bafio dos anos. Mas João é singular, é único. João viveu por muitos velhos, por muitas vidas. “Olhem, não façam caso, é velhote”, dizem uns. “É impertinente, parece que sabe mais do que os outros todos.” “É da idade, não se liga.” “Homem, lá por ser velho pode dizer tudo que lhe vem à boca?”
E este distanciamento que os anos trazem, e que vão afastando as gerações, como se carimbo de marca fosse para desigualar os humanos, afecta João, porque ele ainda tem muito para dizer, é tipo que, quando abre a boca, lança para fora muitas verdades que mostram o rumo que a vida vai tomando.
Do topo da muralha até à venda são dois passos, (um dizer de hábitos), e na calçada que agora pisa, João caminha arrastando um pouco os pés. Bamboleia, parece que dá jeito de ginga, como se de um convés de barco medisse forças e equilíbrios com os balanços do mar.
Mas de dores esquecidas são feitos os reumáticos de João, que os derrota, os leva de vencida, por forças de vontades que lhe vêm de dentro, onde ainda é jovem; o velho dono da venda recebe João com um abraço forte.” Há que tempos, homem, por onde tens andado que nunca mais apareceste.” “Por aqui e por ali.” Responde. “Já me conheces, já sabes como eu sou, um homem de rio.” “Pois, mas a gente preocupa-se, és um amigo de longos anos, quantos, lembras-te?” João franze a testa e chama a memória, num sobrolho que se carrega no seu velho arquivo, no livro das velharias feitas de tempos. “Cinquenta, cinquenta e cinco, práí, mais ano menos ano…” “Pois,” diz o dono da venda.” A Clarissa tinha feitos trinta e oito anos quando se divorciou, e ao tempo que isso já foi. Deves de estar com a razão” “Fazes-me um avio?”Inquire João.
Do bolso surrado do casaco preto tira um papel grosso dobrado em quatro. “Está tudo aí. É tudo o que preciso enquanto espero que a maré suba.” “Visita de médico?” “Volto para casa. A catraia precisa de umas pinturas, e no estaleiro é que tenho condições para fazer um trabalho capaz. A catraia é a minha vida, sabes. É o que tenho, o que me resta. Há dias que acordo com um calafrio quando durmo dentro dela.” “Então homem?” “Nada de mal. Às tantas parece-me que ela fala comigo. Vê tu o disparate.” “Pois é, os barcos não falam.” “Claro, eu sei, e é por saber isso que sei que não estou louco.” “Andas só faz muito tempo, precisas de companhia, de gente. Porque não ficas cá por casa uns tempos?” “Porque não sou capaz de dormir em terra. Faz-me impressão. A terra não me abana, não me embala, não tem aquele zzzzzz da água durante a noite, sempre que a corrente vem e estica o ferro que firma o barco ao ancoradouro.” “Percebo.” Diz o outro. E continua: “Para quem nasceu num barco é assim.” João responde: “É, dás-me um café enquanto espero?” “Homem, claro.”

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“HISTÓRIAS DE PESSOAS QUE DECIDI DIVULGAR”

              HISTÓRIA Nº 12 (COMPLETA)

          “PADRE GASPAR ADONALDO

           Padre Gaspar Adonaldo vive na sua pequena residência paroquial, com o primo Naldinho, que o ajuda nas lidas domésticas e lhe faz companhia, sendo também o sacristão de serviço.

          Como a casa onde vivem só tem um quarto, ambos têm de repartir a cama de corpo e meio, que no Inverno até dá jeito. Mas no Verão também. Naldinho tem queda para os trabalhos caseiros, como diz o padre Gaspar. É um amor de sacristão.

          Logo pela manhã, antes de se levantarem, conversam sobre as tarefas do dia:

         – Naldinho, acorda que são horas de rezar. Não sejas preguiçoso. Não te esqueças que és sacristão e tens deveres para cumprir. E a preguiça é um dos sete pecados capitais e sabes que eu não gosto que transgridas as leis divinas, ouviste, Naldinho?

         – Oh Gasparito, bem, eu rezo, pronto. Tou a pensar em fazer pataniscas com arroz de feijão para o almoço. Qué q´achas?

         – Faz o que mais gostares, Naldinho. Olha que hoje temos missa ao meio-dia e logo a seguir tenho de ouvir aquelas velhas idiotas a confessarem-me os pecados da semana, sem interesse nenhum. Mas levam com Avé-Marias e Pais-Nosso para rezar que se lixam. Até ficam com a boca seca de tanto orarem. Já não tenho pachorra para aturar esta velharia, Naldinho.

         – Gasparito, candé q´acabas com as missas ao meio-dia? A gente nem pode descansar e curtir, meu?

         – Deixa passar a Páscoa, que eu faço novo horário, a começar depois do almoço. Horário Primavera/Verão.

         – Eh! pá, depois do almoço, meu, nem dá para dormir uma sesta. Só pensas em trabalhar.

         – Vê lá como é que falas, que Deus está a ouvir-nos e a responsabilidade é toda minha. Se isto vai aos ouvidos do Bispo estou lixado. Mas pronto, passo a missa para as sete da tarde, acabou-se. Vá e agora toca a levantar.

          O povo considera-os o padre e o sacristão mais perfeitos que alguma vez tiveram na paróquia. Toda a gente os adora.

          As velhotas deliciam-se no confessionário, contando os pecados que cometeram durante a semana, algumas delas sugerindo sonhos eróticos, e levam logo com vinte terços seguidos, que é para aprenderem a ser comedidas nos sonhos.

         – Aldrabonas, todas as semanas é a mesma coisa. Querem é tomar o Senhor e lamber-me a mão. Algumas até pedem para repetir. São umas gulosas. Adoram-me e dariam tudo para estar comigo a conversar fora do confessionário. São umas gaiteiras, muito puritanas mas prontas para qualquer deboche que surja no caminho da Redenção. O Naldinho não tem ciúmes, porque aquilo é só mulherio. Lá há um ou outro rapazito que se faz ao padre, mas nada de importante. Tudo corre ás mil maravilhas entre os dois.

          Um dia, estava uma beata sozinha, de joelhos, a rezar, que viu o padre e o sacristão a beijarem-se. Ficou alucinada, de olhos esbugalhados, pronta a difundir o tremendo escândalo pela paróquia. Já tinha labuta e má-língua para ocupar o tempo durante alguns dias.

         Mas o padre Gaspar detentor de reflexos rápidos, chamou a mulher, beijou-a e disse-lhe:

         – Irmã, a Bíblia manda que hoje toda a gente se beije, homens e mulheres. Ide e divulgai a Nova de Deus. Espalhai os ósculos divinos pelo povo! Que venham todos e todas à missa das sete e cumpriremos a vontade de Deus.

          A mulher ficou ofegante. Nunca lhe passou pela cabeça que o padre beijasse tão bem. Pediu que repetisse o que Deus mandou.

          Às seis da tarde a igreja estava cheia, ficando no adro muitas pessoas que já não cabiam lá dentro.

          São sete horas. O padre entra e dirige-se para o púlpito.

         – Irmãos, fico muito feliz por, pela primeira vez, contemplar a nossa igreja cheia de cristãos de boa vontade. Hoje de manhã roguei à irmã que estava sozinha a orar, que vos transmitisse a palavra do Senhor. A Bíblia, no 2º Capítulo dos Salmos do Velho Testamento anuncia: “Beijai o Filho, para que se não ire, e pereçais no caminho, quando em breve se acender a sua ira; bem-aventurados todos aqueles que nele confiam”. E no Cântico dos Cânticos que é de Salomão, está escrito: “ Beije-me ele com os beijos da sua boca, porque melhor é o teu amor do que o vinho”. Meus irmãos,  é este o momento para que todos em comunhão nos beijemos, agradecendo ao Divino a oportunidade de sermos felizes e espalharmos a luz do seu Espírito. Comecemos! Não vos preocupeis se beijais homens ou mulheres. Beijai quem está ao vosso lado, com respeito e devoção ao próximo. Segui o meu exemplo ao beijar o nosso sacristão Naldinho.

          Toda a igreja fervilhava de beijos e no final da missa o povo imbuído da fé, pedia que o Padre Gaspar repetisse nas próximas missas, este acto de benquerença e fraternidade.

          A partir de então a igreja tornou-se pequena para receber tantos novos participantes. O padre resolveu efectuar esta missa especial duas vezes por semana para corresponder à procura da fé dos novos fiéis que foram aderindo com entusiasmo e espírito cristão.

          O padre Gaspar, sentado num cadeirão de verga, desabafa com o Naldinho:

          – Vês, Naldinho, como a Bíblia serve para justificar comportamentos, dependendo apenas da interpretação que cada sacerdote ou pastor lhe queira atribuir? Não te esqueças de cumprir rigorosamente a palavra do Senhor: “Amai como eu vos amo!

JOSÉ EDUARDO TAVEIRA

 

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Sol poente…

Na praia te vi de sol poente
De areia despida ardente
Amei-te num beijo quente
Em vento salgado que sente

José Guerra (2011)

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