“HISTÓRIAS DE PESSOAS QUE DECIDI DIVULGAR”

                  HISTÓRIA Nº 25 (Excerto)

                 AMÉLIA DA CONCEIÇÃO

          Amélia da Conceição, vive solitária na sua confortável casa, enriquecida com um lindo jardim repleto de flores coloridas. Com oitenta e sete anos de idade mantém uma actividade salutar que lhe permite ser autónoma nas suas tarefas quotidianas. Não é feliz, porque a morte do marido Alberto, que ela amou toda a vida, lhe arrebatou a alegria duma existência repleta de sorrisos e amizade. Um companheiro sereno, leal, estimulante. (…)

          Amélia recebe todos os dias uma carta de um desconhecido, entregue pessoalmente pelo carteiro do bairro. Ele assumiu o compromisso, a pedido do Amigo Desconhecido, da troca pessoal da correspondência.

          Lê as cartas com atenção e responde por delicadeza. De vez em quando, para se recordar das missivas mais antigas, volta a lê-las, ao acaso, sem qualquer preocupação cronológica.

           Senhora Dona Amélia,

          Ficará surpreendida ao receber esta carta de um Desconhecido. Escrevo-lhe porque sei que está só e compreendo como por vezes é doloroso passar horas sem falar com alguém. Mas, Senhora Dona Amélia ler e escrever também são companhia para a solidão.

          Perguntará a Senhora, “mas quem será este indivíduo intrometido, que tem a audácia de me escrever”? Pois sou apenas um amigo, um Amigo Desconhecido que pretende que as nossas vidas tenham algum mistério e surpresa.

          Como calculará, não me move nenhum interesse que não seja estabelecermos uma relação epistolar, onde possamos desabafar e trocar impressões sobre o que vai acontecendo nas nossas vidas e na vida dos outros, sem sermos, obviamente, bisbilhoteiros.

          Senhora Dona Amélia, espero que aceite este meu leal convite para esta salutar troca de correspondência.

          Aguardo com imensa curiosidade notícias suas.

          Os meus respeitosos cumprimentos

          Amigo Desconhecido

          Resposta a esta carta.

          Caro Amigo Desconhecido

          Foi com enorme surpresa que recebi e li com toda a atenção a sua carta de apresentação, peço que me perdoe o termo.

          De facto vivo só, apesar de ter algumas pessoas de família que às vezes, raras vezes, me telefonam e uma ou outra amiga que se lembram que eu ainda existo. Com o infeliz desaparecimento do meu marido Alberto que eu adorava e continuo a adorar como se ainda o visse sentado aqui ao meu lado enquanto escrevo esta carta, também desapareceram quase todas as pessoas que se diziam nossas amigas. Mas a minha experiência de vida ensinou-me que é o que acontece com quase toda a gente. Não fico, portanto, decepcionada por isso. Basta-me a presença espiritual do meu querido Alberto para me sentir acompanhada. E bem acompanhada, felizmente.

          Pode crer, Amigo Desconhecido que eu não vou tentar saber quem é. Apenas o carteiro tem conhecimento das nossas moradas, por sua iniciativa. Cumprirei rigorosamente as instruções que deu ao simpático intermediário. Sou apreciadora de literatura policial, gosto de mistérios, e por isso até me divirto a adivinhar não quem é, mas como é o Amigo Desconhecido. É alto, gordo, tem bigode? Estou a brincar. Não se trata de um estratagema subliminar sugerindo que me envie a sua fotografia, não. Desapareceria o segredo que dá força ao nascimento da nossa amizade.

         Um dos meus prazeres é de facto escrever. Não sou uma escritora, mas tenho a capacidade de escrever de modo a que toda a gente entenda. Já pensei em escrever um romance, uma história de amor. Sei como começar, mas fico petrificada ao pensar como vai acabar. E vou adiando, adiando, apesar de já não ter idade para adiar por muito mais tempo, seja o que for.

         Fui durante muitos anos assistente social e pude, infelizmente, assistir a dramas, nos quais me deixava envolver. O meu marido que era médico de clínica geral, dizia-me “que não se deve trazer para casa os problemas do trabalho”. E era verdade. Tentei corrigir-me, mas com relativo sucesso. Hei-de contar-lhe histórias que me tiraram o sono e me deram a convicção que muitos seres humanos não deveriam existir. Custa-me dizer-lhe isto, mas é o que eu sinto.

          Veja, sem dar por isso já lá vão duas folhas de papel. Eu sou a escrever como a falar: imparável…

          Cumprimentos.

          Amélia da Conceição

JOSÉ EDUARDO TAVEIRA

 

 

 

 

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Sobre José Eduardo Taveira

Nasci no Porto. Trabalhei em diversas empresas nacionais e multinacionais, exercendo cargos directivos. Actualmente estou liberto de compromissos profissionais, usufruindo a liberdade de viver como gosto e quero. Publiquei três livros intitulados: "Juntos para Sempre","Histórias de Pessoas que Decidi Divulgar" e "Viagem ao Princípio da Vida". Os dois primeiros em Portugal e o último no Brasil.
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