“HISTÓRIAS DE PESSOAS QUE DECIDI DIVULGAR”

                         HISTÓRIA Nº 4 (Completa)

                           CALIXTO SABONÁRIO

          Calixto Sabonário é um dos milhares de comentadores e jornalistas que ganham a vida a dizer disparates. Sabem de tudo, desde futebol a macroeconomia, de politica a religião, de agricultura a bombas nucleares.  Fazem previsões astrológicas sobre datas de eleições antecipadas, quedas de governo, crises que sirvam os seus interesses, subida das taxas de juro, taxas de desemprego e défices orçamentais. Dominam todas as matérias, porque não sabem de nada.

          Estão dispersos pelas televisões, rádios, jornais e revistas, alguns até acumulam, pois estão em vários meios dada a importância das suas opiniões e a generosidade dos amigos que estão a servir.

          Calixto considerava que não era menos que os outros, e como ambicionava ganhar dinheiro e ser poderoso, resolveu ir para comentador.

           Começou num jornal de província, onde comentava as reuniões da Junta de Freguesia, algumas das quais nem se tinham realizado. Confrontado com estas situações, argumentava, inteligentemente, que se as sessões se tivessem efectuado teria acontecido exactamente o que ele tinha escrito. E aos ataques respondia que são pura demagogia.

          Rapidamente passou do jornal regional para um denominado jornal de referência (ou de reverência?), designação que ninguém sabe o que significa.

         Começou por comentar os filmes que se estreavam nos cinemas, publicando textos parcialmente plagiados do “Cahiers du Cinema”, traduzidos por um amigo que sabia francês.

          Ganhou o prémio do melhor crítico de cinema do ano, oferecido por um grupo de amigos intelectuais, sem intelecto.

          A sua influência aumentava exponencialmente. Os seus comentários alargaram-se à vida social, à política, à economia, à cultura. A sua ignorância era tão grande, que se tornou famosa e logo foi contratado para trabalhar nos grandes meios, dissertando sobre o futuro das bolsas mundiais, sobre os arsenais nucleares, sobre a economia, os sistemas políticos, a educação, a saúde.

           Alguns também comentam futebol, em programas desportivos, para reforçarem os proventos financeiros.

          Está felicíssimo porque a família e os amigos já o podem ver na televisão, bem vestido e com ar superior a opinar como se deve governar o País e o Mundo.

          Aprendeu que nunca se deve aplaudir ou pelo menos considerar válida qualquer medida que beneficie a população. Para ter ascensão na carreira deve deturpar as estatísticas e os factos agradando aos patrões que lhe pagam para não ser independente e honesto.

           Há comentadores que se tornaram famosos, divertindo os espectadores com as suas opiniões facciosas e delirantes. São ex-primeiros ministros, ex-ministros, ex-secretários de estado, ex-secretários gerais de partidos, ex-presidentes partidários, enfim, uma lista interminável de “ex que exerceram o poder, passando por lá com desastrada actuação política. Quando tiveram a oportunidade de cumprir bem o que hoje criticam, não fizeram nada que ficasse na História, sendo corridos pelas suas incapacidades de organização e liderança políticas.

          Olham para os moderadores com sorrisos manhosos preparando-se para distorcer, ardilosamente acontecimentos a seu favor ou do partido a que pertencem, e rejubilam, ouvindo-se, eles próprios, a criticar e a ensinar como se faz isto e aquilo. Usam os meios à sua disposição para promoverem as suas ambições pessoais de uma forma abusiva e conteúdo arrogante.

          Falam de cátedra, apunhalando sem pudor quem lhes desagrada, escorraçando por inveja ou ódios mesquinhos de gente menor. E dão pontos como se estivessem a brincar às escolas.

          Outros, criam factos novos para encherem as capas dos jornais e revistas de mentiras e boatos. Nunca confirmam as notícias por eles inventadas, porque se consideram acima de qualquer controlo.

          Existem ainda os comentadeiros cómicos que se entretêm a gozar de forma leviana e cretina, mentindo sobre acontecimentos, deturpando-os, para terem matéria que suporte a total ausência de humor inteligente e lhes garanta o cachet ganho à custa do riso boçal expelindo bacoradas, divertindo a populaça que os admira. 

           A credibilidade da maioria destes comentadeiros polivalentes é aterradora. Tentam defender interesses pessoais e de grupo, justificando, conforme as conveniências, as ordens e os discursos dos seus patronos. Mais tarde, se forem confrontados, estarão prontos para desmentir tudo com a maior das soberbas.

          Calixto Sabonário sente-se como peixe na água. Anda numa azáfama, da rádio para a televisão, daqui para o jornal e para a revista. Não tem tempo para respirar. Mas vale a pena. A sua conta bancária está a crescer em velocidade uniformemente acelerada.

          Consolidou a eficácia de mentir, deturpar e vilipendiar todos aqueles que não interessam aos seus mentores. Diverte-se a ler e ouvir os seus comentários sobre notícias que ele próprio inventou.

          Haverá acto mais vergonhoso que, para vender jornais e obter audiências de telejornais, se fabriquem falsas notícias, desprezando a regra basilar de um estado de direito que é respeitar o bom-nome das pessoas?

          Ele tem o talento e a desfaçatez de ser em simultâneo jornalista e comentador. Imagina, como reagirão as pessoas que directamente ataca, gozando com prazer mórbido, a reacção dos filhos, da família e dos amigos. Sente-se finalmente poderoso. Ninguém lhe pode exigir que prove as alarvidades que publica. Não depende de ninguém, porque não pode ser manietado nas suas opiniões. Se o fizerem, grita que há censura, mas ele, valente, democrata e independente não se vergará ao jugo do poder…

          Desgraçados que nunca souberam, por ignorância, qual a liberdade que existia antes do vinte e cinco de Abril. Muitos trabalharam nos dois regimes e foram fervorosos defensores da ditadura e gritam agora que não há liberdade para os seus vómitos de ódio.

          Haverá situação mais caricata que trotskistas, estalinistas e extrema direitistas se considerem vítimas de censura em democracia?

          Calixto Sabonário está em grande. Frequenta os melhores restaurantes, está de ouvido alerta para escutar as conversas que lhe podem dar matéria para criar mais uma caixa jornalística de sucesso. Ele é o novo espécime de bufo, sem dignidade, sem carácter.

          Ele é um pulha!

(Este texto foi escrito em 2010)

JOSÉ EDUARDO TAVEIRA

 

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Sobre José Eduardo Taveira

Nasci no Porto. Trabalhei em diversas empresas nacionais e multinacionais, exercendo cargos directivos. Actualmente estou liberto de compromissos profissionais, usufruindo a liberdade de viver como gosto e quero. Publiquei três livros intitulados: "Juntos para Sempre","Histórias de Pessoas que Decidi Divulgar" e "Viagem ao Princípio da Vida". Os dois primeiros em Portugal e o último no Brasil.
Esta entrada foi publicada em Opiniões, testemunhos. ligação permanente.

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