“HISTÓRIAS DE PESSOAS DE DECIDI DIVULGAR”

                     HISTÓRIA Nº 2 (excertos)

                      ALBERTO BANDEIRA

          Alberto Bandeira é um investigador apaixonado pela língua e cultura portuguesas. Ocupa os seus tempos livres analisando o comportamento das pessoas nas suas diversas vertentes de comunicação. (…)

          Estudou para Sacerdote num Seminário no norte do País. Era a melhor riqueza que os pais podiam oferecer aos filhos rapazes, mesmo que, inconscientemente, hipotecassem o seu futuro. Alberto desistiu. Ainda não sabe bem porquê. Talvez porque tivesse a noção que seria mais fácil estar perto da gente humilde, não sendo padre. E teve razão o seu instinto.

          A sua ambição é percorrer as ruas e becos das cidades, das aldeias, dos montes longínquos, ouvindo e registando as palavras, a vida em cada momento das pessoas que neles habitam. Sentar-se às mesas dos cafés, nos bancos dos jardins, e conversar com quem o rodeia.

          As pessoas mais simples, genuínas e analfabetas, são as que manifestam uma capacidade de expressão espontânea, demonstrando uma cultura invulgar. Não precisam de agradar a ninguém. Não precisam de favores para atingir certos fins.

          Que pena os sabichões, ignorantes e imbecis, não tenham a humildade de aprender com esta gente!

          Alberto gostaria de participar, por exercício supremo na área da investigação, num “reality show”, para ter a oportunidade de conviver, preferencialmente, com participantes famosos, mulherezinhas e homenzinhos, rainhas e reis do jet set, que participam, não para ganhar dinheiro, abrenúncio, mas para transmitirem ao povo a sabedoria e a elegância adquiridas ao longo de anos de pungente ociosidade.

          Tias e tios do jet set labrego, sem classe nem carisma, que vão apodrecendo ao longo das semanas nas casas mais vigiadas do País. Nas galas em directo, exibem uma aterradora debilidade intelectual, acenando infantilmente para a câmara, enviando beijinhos para a família, para os vizinhos, para os amigos, enfim, para Portugal inteiro. Alguns aproveitam para difundir marcas de produtos e serviços, talvez para ganharem mais uns euritos.

          Choram ao fim de uma semana de retiro, com saudades pueris dos queridos filhos, como se tivessem sido obrigados a cumprir uma missão num qualquer teatro de guerra. Partilham a intimidade com desconhecidos, apesar de todos serem famosos. Uns prometem, se ganharem, distribuir o dinheiro pelos pobrezinhos; outros não prometem nada, porque o dinheirinho lhes faz muito jeito. (…)

         Mas como conseguir ser admitido, não sendo famoso, além de possuir uma inteligência superior, confrontando-a com o nível elevado de ignorância e cretinice que caracteriza esses infelizes concorrentes, particularmente os que se consideram elite social, que frequentam casas reais, os locais mais “in” de Nova York e que têm lugar cativo nas páginas das revistas da especialidade, em poses ridículas, com sorrisos cabotinos e declarações idiotas?

          Que grande oportunidade para Alberto elaborar um estudo sociológico e psicológico na vertente comportamental, abrangendo, além dos concorrentes em geral, os produtores, os apresentadores, os familiares, o público que participa nessas saturnais romanas. Uma luta travada entre a dualidade dos seus hemisférios cerebrais: o pensamento lógico e racional do hemisfério esquerdo e o pensamento intuitivo e não racional do hemisfério direito. (…)

          Alberto tem, sobre a secretária onde trabalha, um papel no qual transcreveu pensamentos de Goethe, que relê todos os dias, buscando neles inspiração e força para avançar com o desígnio a que se propôs realizar:

          “A vida é a infância da nossa imortalidade.”

          “ Falar é uma necessidade, escutar é uma arte.”

           “Não chegamos a conhecer as pessoas quando elas vêm a nossa casa; devemos ir a casa delas para ver como são.”

           “Uma vida inútil é apenas uma morte prematura.”

JOSÉ EDUARDO TAVEIRA

Sobre José Eduardo Taveira

Nasci no Porto. Trabalhei em diversas empresas nacionais e multinacionais, exercendo cargos directivos. Actualmente estou liberto de compromissos profissionais, usufruindo a liberdade de viver como gosto e quero. Publiquei três livros intitulados: "Juntos para Sempre","Histórias de Pessoas que Decidi Divulgar" e "Viagem ao Princípio da Vida". Os dois primeiros em Portugal e o último no Brasil.
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