“HISTÓRIAS DE PESSOAS QUE DECIDI DIVULGAR”

              HISTÓRIA Nº 12 (COMPLETA)

          “PADRE GASPAR ADONALDO

           Padre Gaspar Adonaldo vive na sua pequena residência paroquial, com o primo Naldinho, que o ajuda nas lidas domésticas e lhe faz companhia, sendo também o sacristão de serviço.

          Como a casa onde vivem só tem um quarto, ambos têm de repartir a cama de corpo e meio, que no Inverno até dá jeito. Mas no Verão também. Naldinho tem queda para os trabalhos caseiros, como diz o padre Gaspar. É um amor de sacristão.

          Logo pela manhã, antes de se levantarem, conversam sobre as tarefas do dia:

         – Naldinho, acorda que são horas de rezar. Não sejas preguiçoso. Não te esqueças que és sacristão e tens deveres para cumprir. E a preguiça é um dos sete pecados capitais e sabes que eu não gosto que transgridas as leis divinas, ouviste, Naldinho?

         – Oh Gasparito, bem, eu rezo, pronto. Tou a pensar em fazer pataniscas com arroz de feijão para o almoço. Qué q´achas?

         – Faz o que mais gostares, Naldinho. Olha que hoje temos missa ao meio-dia e logo a seguir tenho de ouvir aquelas velhas idiotas a confessarem-me os pecados da semana, sem interesse nenhum. Mas levam com Avé-Marias e Pais-Nosso para rezar que se lixam. Até ficam com a boca seca de tanto orarem. Já não tenho pachorra para aturar esta velharia, Naldinho.

         – Gasparito, candé q´acabas com as missas ao meio-dia? A gente nem pode descansar e curtir, meu?

         – Deixa passar a Páscoa, que eu faço novo horário, a começar depois do almoço. Horário Primavera/Verão.

         – Eh! pá, depois do almoço, meu, nem dá para dormir uma sesta. Só pensas em trabalhar.

         – Vê lá como é que falas, que Deus está a ouvir-nos e a responsabilidade é toda minha. Se isto vai aos ouvidos do Bispo estou lixado. Mas pronto, passo a missa para as sete da tarde, acabou-se. Vá e agora toca a levantar.

          O povo considera-os o padre e o sacristão mais perfeitos que alguma vez tiveram na paróquia. Toda a gente os adora.

          As velhotas deliciam-se no confessionário, contando os pecados que cometeram durante a semana, algumas delas sugerindo sonhos eróticos, e levam logo com vinte terços seguidos, que é para aprenderem a ser comedidas nos sonhos.

         – Aldrabonas, todas as semanas é a mesma coisa. Querem é tomar o Senhor e lamber-me a mão. Algumas até pedem para repetir. São umas gulosas. Adoram-me e dariam tudo para estar comigo a conversar fora do confessionário. São umas gaiteiras, muito puritanas mas prontas para qualquer deboche que surja no caminho da Redenção. O Naldinho não tem ciúmes, porque aquilo é só mulherio. Lá há um ou outro rapazito que se faz ao padre, mas nada de importante. Tudo corre ás mil maravilhas entre os dois.

          Um dia, estava uma beata sozinha, de joelhos, a rezar, que viu o padre e o sacristão a beijarem-se. Ficou alucinada, de olhos esbugalhados, pronta a difundir o tremendo escândalo pela paróquia. Já tinha labuta e má-língua para ocupar o tempo durante alguns dias.

         Mas o padre Gaspar detentor de reflexos rápidos, chamou a mulher, beijou-a e disse-lhe:

         – Irmã, a Bíblia manda que hoje toda a gente se beije, homens e mulheres. Ide e divulgai a Nova de Deus. Espalhai os ósculos divinos pelo povo! Que venham todos e todas à missa das sete e cumpriremos a vontade de Deus.

          A mulher ficou ofegante. Nunca lhe passou pela cabeça que o padre beijasse tão bem. Pediu que repetisse o que Deus mandou.

          Às seis da tarde a igreja estava cheia, ficando no adro muitas pessoas que já não cabiam lá dentro.

          São sete horas. O padre entra e dirige-se para o púlpito.

         – Irmãos, fico muito feliz por, pela primeira vez, contemplar a nossa igreja cheia de cristãos de boa vontade. Hoje de manhã roguei à irmã que estava sozinha a orar, que vos transmitisse a palavra do Senhor. A Bíblia, no 2º Capítulo dos Salmos do Velho Testamento anuncia: “Beijai o Filho, para que se não ire, e pereçais no caminho, quando em breve se acender a sua ira; bem-aventurados todos aqueles que nele confiam”. E no Cântico dos Cânticos que é de Salomão, está escrito: “ Beije-me ele com os beijos da sua boca, porque melhor é o teu amor do que o vinho”. Meus irmãos,  é este o momento para que todos em comunhão nos beijemos, agradecendo ao Divino a oportunidade de sermos felizes e espalharmos a luz do seu Espírito. Comecemos! Não vos preocupeis se beijais homens ou mulheres. Beijai quem está ao vosso lado, com respeito e devoção ao próximo. Segui o meu exemplo ao beijar o nosso sacristão Naldinho.

          Toda a igreja fervilhava de beijos e no final da missa o povo imbuído da fé, pedia que o Padre Gaspar repetisse nas próximas missas, este acto de benquerença e fraternidade.

          A partir de então a igreja tornou-se pequena para receber tantos novos participantes. O padre resolveu efectuar esta missa especial duas vezes por semana para corresponder à procura da fé dos novos fiéis que foram aderindo com entusiasmo e espírito cristão.

          O padre Gaspar, sentado num cadeirão de verga, desabafa com o Naldinho:

          – Vês, Naldinho, como a Bíblia serve para justificar comportamentos, dependendo apenas da interpretação que cada sacerdote ou pastor lhe queira atribuir? Não te esqueças de cumprir rigorosamente a palavra do Senhor: “Amai como eu vos amo!

JOSÉ EDUARDO TAVEIRA

 

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