A questão das fugas ao fisco

Ontem na SIC, dois jornalistas falaram sobre pedir facturas, (os tais 5%), e foram dados exemplos, como o das oficinas de automóveis, e outros. Um dos senhores jornalistas admira imenso o senhor ministro das finanças e concorda com toda a sua linha de estratégia, o outro, (tal como eu), nem tanto…
Ora acontece que o meu modo de vida, para ganhar o pão que se põe na mesa, teve sempre a ver com as obras Públicas e não só. Todo o tipo de Construção Civil. Análise e estudo de projectos, acompanhamento de obras, quantificação de quantidades produzidas, trabalhos a mais e a menos, subempreitadas parciais ou integrais, etc., etc.
É evidente que a classe de industriais da reparação de automóveis foge ao fisco, mais como consequência dos baixos salários dos seus clientes, e também a falta tremenda de escrúpulos que caracteriza esta “espécie” de industriais, mas, e o que dizer dos outros?
Recuando cerca de vinte e oito anos, numa obra Pública. Construção de maciços para fixação de equipamentos metálicos pesados, pavilhões fabris, silos, e outros. Para suporte dos elementos metálicos de maior importância, nos maciços existem rasgos, (ou caixões), espaços que, depois de fixadas as peças, eram preenchidos com argamassas especiais que, por essa altura, custavam 1500$00 por litro; o volume a preencher com estas argamassas variava, mas, tomando, por exemplo, um quarto de metro cúbico, (250 litros) o preço de venda totalizava 375000$00, ou, em euros, 1870,00 euros. Se os espaços fossem preenchidos com recurso a betão ciclópico, (quando o senhor fiscal vira-se as costas, ou fosse ao WC, ou simplesmente espreita-se por entre os espaços dos dedos quando tapasse a cara com as mãos por causa do Sol), e por último recebesse uma pouco espessa camada de argamassa especial, o custo passava a perto de, (incluindo a camada superficial da argamassa), em euros, um máximo de vinte euros, ou 4000$00, (valores à época). Uma pequena diferença, entre este custo e o valor de venda acima indicado, pelo qual era facturado o trabalho, em acordo com o Caderno de Encargos! Estas e outras maroteiras que os operários da altura faziam, (os que usam gravata, como é evidente), não os outros, os que suam ao sol que lhes queima os lombos e lhes encharca as camisas.
Muito se acusam hoje os sindicatos, como maus da festa, ladrões, aldrabões e vigaristas. É evidente que os sindicatos não têm santos entre os seus dirigentes. Mas, quem é santo neste pobre país, que atire a primeira pedra.
Não sou grande especialista em projectos ou construção de auto – estradas. Em estradas Municipais sim, dou um jeito. Em particular na área do Projecto. Por “andanças” de trabalho, e ocasionalmente, “mexi” em erros e omissões de um troço de auto – estrada. Vamos a um pequeno exercício. Admitindo um preço de 1500,00 euros por metro quadrado de camada de desgaste com 40 centímetros de espessura, por cada centímetro o cliente (neste caso o Estado) irá pagar 37,50 euros. Se, por razões “imprevistas” em cada cem quilómetros, apenas em dez quilómetros acontecer um “desvio” de menos três centímetros na espessura da referida camada de desgaste, em 160000,00 metros quadrados de área, o preço cifra qualquer coisa como 18000000,00 de euros. Como é evidente, as vias – rápidas não se limitam apenas às camadas de desgaste…
Não querendo ser perverso, e para que exista um pouco de divertimento no meio de tudo isto, não há muitos anos, andava às voltas com uma obra pública para realojamento, e não havia maneira de “atinar” com a compatibilidade entre o projecto de arquitectura e o de estrutura. Volta daqui, volta dali, e lá descobri, (seguindo o rabo) o corpo do gato. É que a estrutura prolongava-se muito para além da arquitectura! É espantoso o tipo de erros provocado pelo desinteresse quando o trabalho não rende muito dinheiro a quem executa os projectos. São os sindicatos, sabem, sempre os mesmos mariolas a prejudicarem o mundo inteiro. O capital e a justiça nunca. Esses são santos. Gente de altar. Gente abençoada pelo Santíssimo. Não é assim, senhor jornalista? Você sabe, (e tem essa obrigação por ser economista), os milhares de milhões de euros consumidos pela incúria dos homens da gravata? Os sempre bem-postos, sorridentes e agradáveis homens de gravata fina e fato caro, essa gente de bem, que nunca se engana e raramente erra! São esses senhores exclusividade do Partido Socialista? São em exclusividade do Partido Social Democrata? Repartem-se, 50% para cada lado? Não sei. O que na verdade penso, é que a mentalidade do “dono de oficina de automóveis” na democracia portuguesa, estendesse desde o topo da pirâmide, o Presidente da República até ao mais modesto contínuo do menor e menos importante dos ministérios.
Por amor de Deus, pensarem que só entendo não virtudes na nossa Democracia. Muita coisa boa se fez durante estes anos, e muita gente de bem passou pelo nosso edifício da governação. Foram rapidamente neutralizados. Somos gente que viveu muitos anos acima das possibilidades, diz o senhor doutor Bagão Félix, e com toda a justiça o diz. Pessoalmente só tenho a agradecer ao Estado Português todo o bem que me fez nesta matéria. O tremendo esforço com que me travou os ímpetos de gastador. Gente de bem, esta! Quando em certos meses de acertos durante o ano tinha a receber valores de mil e duzentos contos, ou por essa ordem de grandeza, porque trabalhava por vezes dezoito horas diárias sem direito a receber, (não se pagam horas aos técnicos), e por isso recebia outras compensações monetárias, para o banco seguia apenas metade do valor, o restante eram impostos. Não sei os destinos que lhes deram, mas sem dúvida que foram distribuídos por “boas causas.”
Vamos chegar ao fim deste rosário de mágoas. Victor Gaspar não, senhor jornalista! Não por mim, (apesar de me roubarem os dois subsídios), mas por um casal de velhinhos a quem retiraram ao senhor um subsidio que se destinava em exclusividade à compra de medicamentos para os dois, e por, em simultâneo, tirarem as compensações. Isto, mais do que imoral, é porco, meu caro. Estou a pensar (prevendo o desfecho desta situação) em organizar uma colecta para lhes pagar o funeral. Já agora, senhor jornalista, não sendo abuso, está disposto a participar nesta boa causa? É que, repartido por todos, enfim, sempre custa menos.
Mesmo, mesmo para terminar, você sabe como os pides por via de regra funcionavam? É possível que não. O senhor não é bem desse tempo. Mas era assim: um fazia o papel de mau e o outro de bonzinho. Digo isto porque, nesta tomada de posições diferentes na pirâmide do poder, estou a “adivinhar” certos estilos de então, dos tempos de outrora.

Sobre jsola02

quando me disseram que tinha de escrever uma apresentação, logo falar sobre mim, a coisa ficou feia. Falar sobre mim para dizer o quê? Que gosto de escrever, (dá-me paz, fico mais gente), que escrever é como respirar, comer ou dormir, é sinal que estou vivo e desperto? Mas a quem pode interessar saber coisas sobre um ilustre desconhecido? Qual é o interesse de conhecer uma vida igual a tantas outras, de um individuo, filho de uma família paupérrima, que nasceu para escrever, que aos catorze anos procurou um editor, que depois, muito mais tarde, publicou contos nos jornais diários da capital, entrevistas e pequenos artigos, que passou por todo o tipo de trabalho, como operário, como chefe de departamento técnico, e que, reformado, para continuar útil e activo, aos setenta anos recomeçou a escrever como se exercesse uma nova profissão. Parece-me que é pouco relevante. Mas, como escrever é exercer uma profissão tão útil como qualquer outra, desde que seja exercida com a honestidade de se dizer aquilo que se pensa, (penso que não há trabalhos superiores ou trabalhos inferiores, todos contribuem para o progresso e o bem estar do mundo), vou aceitar o desafio de me expor. Ficarei feliz se conseguir contribuir para que as pessoas pensem mais; ficarei feliz se me disserem o que pensam do que escrevo… José Solá
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