Ganhões da Estrada- página 15 a 17 inclusive

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– Você olhe que não me parece que esteja em estado de conduzir!
– Pimenta, você tem cada uma! Mesmo que tenha bebido um copo a mais, quem é que nos vai levar o carro? Você bebeu o mesmo que eu… além que daqui até ao inicio da obra são, se tanto, uns duzentos metros, e no espaço da obra não à problema, ai a autoridade somos nós…
– Mesmo assim, senhor Nunes, temos a obrigação de dar exemplos ao pessoal!
– Temos de exercer autoridade sobre o pessoal, o que é diferente de exemplos. Ó Pimenta, você hoje está chato! Lembre-se que o Benfica ganhou o campeonato! A rapaziada do Porto está de cara à banda; viu o tipo da instaladora dos cabos? Estava fulo. Á muito tempo que não tinha tanta vontade de rir!
Os dois encarregados acabavam de deixar o restaurante no Pragal. À mesa, entre encarregados das diversas empresas empreiteiras com actividades ligadas directamente à construção da ponte, ou responsáveis pelos acessos ou outras obras subsidiárias, médios técnicos, administrativos e outros, naquele dia tinham-se sentado dezassete pessoas, consumindo o delicioso pernil de porco feito no forno de lenha e acompanhando com abundância excessiva de vinho.
A conversa invariavelmente cingia-se aos desafios de futebol, às transferências dos jogadores e às tácticas seguidas pelos treinadores, e naquele almoço em particular tudo se passara à roda da vitória do campeonato nacional.
O encarregado geral da construção das estradas e acessos à ponte, o Nunes, fanático adepto do clube vencedor, tinha-se excedido no consumo de álcool e entrara em discussão com os colegas das empresas do norte.
Nunes embraiou o jipe, destravou e meteu-se à faixa de circulação, sem se aperceber da manobra, o que teve o efeito de o carro andar uns metros aos esses, e o Pimenta pronto reclamou: “ Eu não lhe disse que você não está capaz de conduzir?”
– Homem, e já ali que viramos para a obra, mas se você quer conduzir…
– Eu não. Você tem razão quando diz que não estou em melhor estado; conduza você mas com mais cuidado; quem fez este já não está cá na terra para fazer outro igual, nem um nem o outro, – e na voz do Pimenta percebeu-se um entaramelar quando falou dos falecidos pais, – “ sentimentalismos de piela!” Pensou o Nunes para consigo, e depois concluiu que ele até devia de estar em pior estado, graças às alegrias que lhe tinham dado os jogadores do seu Benfica ao ganharem o campeonato nacional. “Até que enfim, porra, já fazia jejum á uns anos!”
O jipe virou à esquerda, mais um ésse, uma aceleração desnecessária, um chiar de pneus, e o rodado começou enfim a rolar sobre o macadame já cilindrado naquele pedaço de troço que ia em direcção a Setúbal.
– Você está a ficar branco, ó Pimenta, veja lá se não me vomita dentro do carro; e por falar disso…
O Nunes encostou repentinamente à beira e só teve tempo à justa de abrir a porta do seu lado; do outro lado o Pimenta fez o mesmo e os dois homens deitaram para fora quantidades astronómicas da comida e principalmente da bebida do almoço. O primeiro a recuperar foi o Pimenta.
– Irra, que alivio, e felizmente que não estão os homens por perto para verem este triste espectáculo. Está a ver ao que eu me referia há bocado? Era a isto. Parece eu que sou bruxo!
– Tinha alguma razão, – disse o Nunes, – mas um dia não são dias, agora vamos com calma. Sabe, o Benfica não ganha campeonatos todos os dias!
– Só mais uns cinco minutos, para o estômago se recompor…
Os dois homens aproveitaram o tempo para contarem umas anedotas cheias de pormenores e com palavreado no mínimo considerado porco, riram a bom rir, e por fim voltaram ao eixo da faixa de rodagem, com um andamento mais uniforme.
A tarde, abafada, mostrava um céu livre de nuvens, as copas dos pinheiros de ambos os lados das faixas não se moviam um milímetro que fosse; a canícula à distância fazia parecer que uma ténue neblina, difusa, transparente, invadia todo o traçado da auto-estrada.
Na distância, como se saíssem da terra, moviam-se máquinas e homens; percebia-se que a vida corria ao ritmo de uma modorra pegajosa que fazia os homens assemelharem-se a autómatos, rostos pingando suor, mãos calosas agarradas aos cabos das ferramentas, bocas sequiosas, gargantas protegidas pelos lenços colocados na frente das bocas, como se de máscaras se trata-se.
– Coitados, sofrem tormentos neste trabalho!
– É, Pimenta, mas alguém tem de fazer a porra do trabalho, calhou-lhes a eles, é a chatice da vida. – Respondeu o Nunes.
– Você quer dizer com isso que antes eles do que nós.
– Por alguma razão existem encarregados e operários…
No interior do carro o ar condicionado no máximo não conseguia vencer na totalidade a força do calor; os olhos de ambos os homens começavam a querer fechar, também em consequência da excessiva quantidade de álcool ingerido durante a refeição.
– Atenção aos homens! – Gritou o Pimenta.
– Olha, são os mesmos de ontem; são chatos estes gajos!
– Foi você que os mandou estar hoje aqui, lembra-se?
– Sim, tem razão, mas põem-se no meio da via, os burros!
Nunes parou o jipe junto dos três homens, o Pirralho, o tocador de concertina e o homem da saca, baixou o vidro do seu lado, e, cabeça fora da janela do carro, olhou o grupo e perguntou:
– Então ainda precisam do trabalho?
Em uníssono os homens disseram que sim.
– Olhem que isto aqui é trabalho duro, como podem ver pelos vossos colegas além, e então quando se começar com a fase do alcatroamento, se este calor continuar, não vai ser pêra doce…
– Nós estamos habituados a trabalhar no duro!
Respondeu o Pirralho, enquanto os outros dois o secundavam, dizendo que sim com as cabeças.
– Sim?
– Sim senhor, pode ter a certeza!
– Então onde trabalharam vocês? Já fizeram trabalhos destes?
– Eu já. – Respondeu o Jaime Narciso.
– Onde?
– Na construção de estradas no Baixo Alentejo!
– Bom, e então vocês?
– Eu trabalhei toda a minha vida na agricultura! – Exclamou o Joaquim Silva.
– E eu também! – Disse o António Manuel.

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Vou por ai…

Vou por ai semear palavras ocas
como da noite de que sou feito
cheio de nada e desalento
queria ser ave como o vento
para gritar mais alto que o tempo

José Guerra (2011)

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“HISTÓRIAS DE PESSOAS QUE DECIDI DIVULGAR”

  EXTRACTOS DA HISTÓRIA Nº 11

 

O  coração  de  Emanuela Cante não palpita por ninguém em exclusividade. Acha os homens seres patetas que herdaram historicamente a primazia da superioridade. As mulheres patetinhas herdaram historicamente a primazia da inferioridade. As gerações vão repetindo, séculos após séculos, os mesmos erros, os mesmos conceitos estereotipados, a mesma estrutura mental.

 

Um dos exemplos que confirma a involução das mentalidades é o comportamento em relação ao corpo humano.

Para Descartes, “O corpo enquanto organismo é uma máquina porque é composto de vários aparelhos”. Para o filósofo francês Maurice Merleau-Ponty “O corpo é o espelho de outro corpo”. No entanto continua a ser objecto de curiosidade patológica como se cada corpo fosse arcano na sua estética anatómica.

A vergonha, o falso pudor da nudez, o “voyeurismo” psicopático, é no século XXI um dos mais descarados retrocessos das mentalidades.

O poeta e pintor inglês William Blake declarou que “ A arte jamais poderia existir sem expor a beleza da nudez”.

        Na Idade Antiga, os romanos, incluindo os cristãos, homens e mulheres banhavam-se despidos nos banhos públicos. Na Grécia os desportistas não usavam roupa. Além dos Romanos e dos Gregos, também os Babilónios e Assírios foram os precursores do nudismo. E isto, na Idade Antiga! (…)

Emanuela não gosta de ser mulher, mas também não gostaria de ser homem. Pensa que há-de surgir, não sabe quando, uma nova concepção de vida que transformará a Humanidade. Ignora se para melhor ou pior do que a actual. Mas acredita que tudo será diferente.

Tendencialmente os dois sexos evoluirão para uma estandardização comportamental. Advirão novos conceitos em relação ao trabalho doméstico, à confecção dos alimentos, ao vestuário de utilização universal, à locomoção pessoal, aos meios inovadores de transporte, ao desempenho profissional altamente sofisticado, à estética, ao divertimento, à saúde, à cultura, etc. Surgirão uma nova génese humana e um novo meio ambiental em consequência da destruição criminosa do Planeta.

 

Emanuela Cante pensa que será o fim dos estereótipos comportamentais na sociedade. Homens e mulheres terão os mesmos direitos, os mesmos instrumentos de avaliação psicológica, a mesma capacidade de liderança, as mesmas possibilidades para atingir profissionalmente topos de carreira. A competitividade será feroz, não pela diferença de géneros, mas pela oferta incalculável de candidatos. E a tão proclamada desigualdade sexual será coisa pré-histórica.

 

As mulheres não estarão disponíveis para suportarem uma gravidez de nove meses. Terão objectivos profissionais e lúdicos que não lhe permitem esta perda de tempo e incomodidade pessoal. A reprodução clássica da espécie ficará para aqueles que ainda não entenderem a modernidade. A sociedade será desumanizada.

Os filhos serão adquiridos em “Bio-Shopsespecializadas na comercialização de corpos biocibernéticos, produzidos industrialmente em fábricas, a partir da descoberta do código do DNA. Catálogos digitais informarão sobre todos os produtos à venda, entre os quais se incluem a descrição das características disponíveis para escolha dos candidatos a progenitores. Assim têm a oportunidade de adquirirem o filho que ambicionam que ele seja quando for adulto e que corresponda aos seus interesses pessoais e de agregado social, dependendo apenas da capacidade financeira, para adquirir os que ofereçam no futuro as contrapartidas do investimento efectuado. Emanuela está preocupada com as consequências deste modelo de criação humana. (…)

Emanuela Cante tem o sonho de viver numa sociedade avançada, na qual a liberdade individual da diferença seja respeitada pela comunidade. É a utopia por uma civilização diferente, idealista e fantástica. Que não existe, nunca existirá, mas está nas suas entranhas, viva, forte, a revolucionar o seu ser inconformado. (…)

 Emanuela Cante quer ser ela própria, resistindo ao turbilhão de mentiras, vaidades, egoísmos, como se fosse um bastião protegido por grupos de andorinhas brancas, gozando o prazer da chegada da Primavera.

Gostaria de voar com elas pelos céus, feliz e deslumbrada, tal como nos sonhos das suas noites de poesia.

 JOSÉ EDUARDO TAVEIRA

 

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                                      EXCERTOS DA HISTÓRIA Nº 20

              Cácá, Dódó e Lúlú formam um trio de amigos inseparáveis, detentores de poderes esotéricos. Cácá exerce a profissão de enfermeiro. (…) Está sempre disponível para ajudar, mesmo que não seja preciso. Trabalha por conta própria, mas ao contrário dos outros, passa recibo, porque considera um dever patriótico contribuir para o desenvolvimento do País. (…) Dia e noite não larga a sua pochette onde transporta pó de talco com abundância, algodão, adesivos, álcool, mercúrio, gazes e pouco mais.

– São os primeiros socorros. – diz com sentido profissional.

Tem um problema desde miúdo: não pode ver sangue que desmaia imediatamente. Lúlú é outro dos seus amigos que recorre aos serviços de enfermagem facultados por Cácá, e também é cliente do Dódó nas massagens de “relax”. (…)

Noutro dia, enquanto conversava com Lúlú, Cácá sugeriu que gostava de lhe fazer uma confidência.

– Só eu e o Dódó é que sabemos. É um segredo entre os dois, mas posso contar-te, porque o Dódó deu licença. Lúlú, nem eu nem o Dódó falámos a ninguém sobre o que te vou contar. Tu sabes como são as pessoas, começam logo a gozar, porque são umas ignorantes que só pensam em dizer mal dos outros. Têm as mentes poluídas e não percebem nada destas coisas que só estão ao alcance de pessoas com poderes sobre os naturais.

– Cácá, conta-me tudo, que estou a rebentar de curiosidade.

– Lúlú, ouve bem, eu sou médio. Desde pequenino que eu tenho esse dão que Deus me deu. Eu encarno espíritos e o Dódó é que fala e ouve o que eles dizem, enquanto eu estou possuído. Lúlú, tu sabes o que é estar possuído?

– Oh! Cácá, então não sei…

– Lúlú, eu não vejo e não oiço nada. O Dódó é que me conta tudo, depois de vir dos tratamentos, coitadinho. (…) O meu grande problema, Lúlú, é que só me aparecem espíritos maus e o pobrezinho do Dódó, vê-se aflito para se livrar deles. O Dódó sofre mais do que eu, podes crer.

– Ai, Cácá, conta-me tudo.

– A minha avozinha também era média, mas encarnava espíritos bons e muito meiguinhos. Ela tinha uma grande aurela de luz. E ter uma grande aurela de luz é muito importante, sabes Lúlú?

– Ai que coisa, Cácá, então a tua avó estava ligada à electricidade?

– Lúlú, não é essa luz, estás a perceber? Não sei como hei-de explicar, mas é uma luz que vem não se sabe de onde. Vem de um sítio misterioso, que ainda não consegui entender, percebes? (…) Pois, a minha avozinha tinha tanta luz que à noite nem precisava de acender o candeeiro do quarto, vê lá tu. Como a avozinha gostava de fado e folclore encarnava fadistas muito conhecidos e chegou a haver grandes noitadas de fado, pois eram aos montes os fadistas a encarnar na avozinha. Claro que ela ficava cheia de rouquidão, porque às vezes estava encarnada mais de duas horas seguidas, sempre a cantar.

– Olha, Cácá, eu até fico oirado ao ouvir o que me estás a contar!

– Uma vez a avozinha até encarnou um rancho folclórico completo, que tinha morrido quando a camioneta se amandou por uma ribanceira abaixo. Traziam pandeiretas e acordeão e as mulheres cantavam todas esganiçadas. Era uma barulheira tão grande que a badalhoca da vizinha de cima começou a bater com o cabo da vassoura e a gritar que ia chamar a polícia. Se ela soubesse o que a minha avozinha sabia, devia era estar calada. É que uma noite encarnou o marido dela que contou tudo o que ela lhe fez para ele morrer, desgraçado do homem. Ordinária. Ela que levante cabelo que ainda sou capaz de contar tudo à policia. Ai, sou, sou. Ou eu não me chame Cácá. (…) A minha avozinha ficou tão cansada com a encarnação do rancho que esteve quase um mês de cama, coitadinha. Que Deus lá tenha em descanso, que ela bem precisa. (…) Olha, Lúlú, vou contar-te coisas que eu próprio fico de cabelos em pé. (…)

JOSÉ EDUARDO TAVEIRA

 

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O Deus da sabedoria ( de Danilo Pereira )

Neste post, falarei m pouco mais sobre Odin, o Deus que criou a primeira criatura na terra. No mundo nórdico, Yggdrasil ( a grande mãe ) é a base de tudo, é de onde saiu o primeiro ser criado, o gigante Imer.

Odin, com toda sua sabedoria, criou Imer nas profundezas da grande mãe, que lhe deu vida e o enviou à terra e a partir daí, começaram a surgiu outras criaturas, que nasciam do suor do gigante. Odin ficou orgulhoso e podia ver de Asgard ( plano superior ) sua criação se desenvolver na terra, onde de seu suor, nasceram as demais criaturas. Mas nem tudo era perfeito, pois os trols, que haviam nascido de Imer, se voltaram contra ele, deixando o Deus da sabedoria furioso.

Odin lançou fogo sobre eles, mas de nada adiantou, pois os trols haviam se desenvolvido e criado uma fortaleza, que mais adiante, seria chamada de Utgard. Não havia escolha, os Deuses deveriam interferir e então, Odin acompanhado de Tyr e Freya, desceram até a terra, onde lá combateram os trols e criaram os primeiros seres humanos apartir de seus corpos.

Nascia então ma nova era, um novo mundo repleto de mistérios que daria origem à uma raça de guerreiros de fé, que um dia mudaria o destino da terra para sempre.

 

Os Deuses aqui citados, fazem parte da obra, Wolfgang, o guerreiro nórdico.

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Ganhões da Estrada- páginas 12 a 14 inclusive

O Pirralho sonhava com a bacia da barragem de Barrancos, com a água do rio, com o fresco das sombras das árvores, com a quietude dos montes envolta, com os porcos selvagens com o focinho no chão em busca de bolota, com o castelo em ruínas que ficava na pequena ilha no meio do rio, e das tardes que passava por entre aquelas muralhas velhas de séculos, com os filhos, à cata de moedas antigas que depois vendia ao senhor presidente da Câmara.
Os sábados eram dias bons. Ele ia a Barrancos aos sábados ajudar o cortador de carne que era dono do talho em Moura e em Barrancos, e levava os dois filhos. Terminado o serviço ao final da manhã e logo a seguir ao almoço, ficavam livres até ao fim da tarde, hora em que o cortador regressava com a carrinha para Moura, e perdiam-se os três pelo campo junto às margens do rio. No outro lado ficava Ensinasola, já terras de Espanha, e na margem de cá passavam tempo a atirar pedras para o outro lado. Estavam a combater os espanhóis, dizia para os rapazes, como em Aljubarrota, e acrescentava que, da Espanha, nem bom vento nem bom casamento.
– Então e o avô Inácio? – Perguntava o seu mais velho, – que é tão nosso amigo e é espanhol!
– Esse está cá já há muitos anos, olha, desde que casou com a tua avó Gertrudes, vê lá, ao tempo que foi; agora é mais português do que espanhol, a tua avó meteu-lhe juízo na cabeça!
– Olhem, lá vem o gajo!
O Jaime Narciso estava em menos de nada a meio da estrada com a mão levantada, olhando para o jipe que vinha ao fundo arrastando consigo um turbilhão de poeira; pronto se lhe juntaram os outros dois homens, e o condutor começou a vagar a marcha, até que estancou junto do grupo. Ao volante um sujeito com um capacete de protecção de cor castanha, um rosto bolachudo com cara de poucos amigos, e do outro lado outro homem com um capacete branco ligeiramente atirado para trás, mostrando uma calva suada.
O condutor baixou ainda mais o vidro da janela do carro, enquanto o outro homem lhe ia dizendo: “ Olhe as horas para a reunião, o engenheiro está à espera.”
– O que querem vocês, rapazes?
– Procuramos trabalho, foi o senhor do escritório que nos mandou a falar com o senhor encarregado! – Disse o Joaquim Silva.
– Pois, o encarregado geral sou eu, mas é má altura, eu estou atrasado para uma reunião importante. Vocês são serventes? – Perguntou enquanto os avaliava com o olhar.
– Somos, sim senhor! – Responderam em simultâneo.
– Mostrem-me lá as vossas mãos…
Os três homens estenderam as mãos com as palmas para cima.
– Ó rapazes, isso são poucos calos, assim à primeira olhadela; de onde são vocês?
– Do Alentejo, – respondeu o António Manuel, – somos os três alentejanos.
– Ó Nunes, tome atenção às horas; olhe que o engenheiro não é flor que se cheire!
– Tem razão! Bem, vocês vão desculpar, mas vão ter de voltar amanhã, a esta mesma hora e neste sítio, para falar melhor, com mais tempo, eu agora tenho mesmo que ir, mas vocês têm poucos calos, mas vamos a ver se servem; amanhã vemos isso.
E o jipe arrancou veloz.
– Olhem lá o cabrão de merda, pensa que somos criados dele, se não fosse cá por coisas ia a ter à dos americanos, nem que fosse a nado!
– Calma, amigo Joaquim, com estes filhos da puta é preciso calma e paciência.
– É, amigo António, paciência de Jó!
Os três companheiros voltaram para a sombra do pinheiro. A tarde esvaia-se lentamente, sonolenta, pegajosa, compuscarda pelo manto de poeira empurrado quando havia brisa, ou arremessado para o ar quando passavam os camiões, ficando a pairar e a cair, lentamente, entrando no corpo dos ganhões que trabalhavam na estrada, como condenados por nada de mal terem feito, sovados pela vida, alheios à alegria que deve de estar subjacente ao acto de existir. Por ali andavam, aqueles autómatos, fazendo os mesmos gestos vezes sem conta, maquinalmente, sem pensar, sem perceber. Os homens apertaram as mãos e disseram até amanhã, neste sítio, a esta mesma hora, como o homem disse, a ver se temos mais sorte do que tivemos hoje; e afastaram-se, seguindo cada um o seu caminho, mesmo que fossem no mesmo sentido. A individualidade dos homens é assim, manifesta-se por esta forma; os homens agem em grupo, trabalham em grupo, mas parece que só sabem pensar sozinhos.
Os homens, fatalmente, parecem que estão sempre sós.
Joaquim Silva começou a deitar contas à vida, o seu maior problema resumia-se em descobrir onde dormir em segurança mais uma noite.
No pequeno saco de lona ainda havia duas latas de conserva, umas azeitonas e pão, assim, comer alguma coisa à noite e aconchegar o estômago no outro dia ao meio dia, não tinha dificuldade; a questão estava como iria a passar mais uma noite.
Uns passos mais à frente deram de caras com o António Manuel, que os esperava protegido pela sombra de um pinheiro.
– Então mestre, o que faz aí que parece que está à coca?
– Esperava por si, homem; então vossemecê não tem onde dormir esta noite?
– Eu, a ter tenho, mas não devo!
– Não o estou a entender, ou tem ou não tem!
– Pois, eu conto-lhe; eu vim a ter a casa de um conterrâneo que vive perto aqui do Casal do Marco, moço novo ainda, antigo companheiro de escola e de paródias; é na casa dele que estão as minhas coisas; mas o homem só tem dois quartos, e é ele, a mulher, um filho pequeno e uma filha já espigadora, eu dormir lá podia dormir, mas senti-me acanhado, tive vergonha, e disse-lhe que ia a ficar à da pensão, só queria que me guardasse a roupa.
– Então e onde dormiu o compadre?
– Aí, no pinhal, arranquei só com o farnel e mais nada; mas, ó amigo, passei a noite cheio de receio…
– Então porquê?
– Não sei, homem, não sei, são outros sítios, outras gentes, e um homem não está habituado a dormir no mato como os bichos.
– Então venha daí comigo, vamos a ficar à da minha prima que tem uma casa maior e é menos gente, vá homem, que vergonha é roubar, temos de ser uns para os outros… eu ando sempre com a saca com as minhas coisas atrás, mas não é que não tenha onde a deixar, é porque se a policia aparecer estou pronto para dar o salto nesse minuto!
António Manuel, o homem da saca, e Joaquim Silva, o Pirralho, seguiram lado a lado, cortando caminho por entre os pinheiros da mata; ao fundo, já distante, a figura ágil do Jaime Narciso recortava-se contra o primeiro casario visível mais à frente.

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José Guerra – Poesia e Prosa Poética (clicar)

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“HISTÓRIAS DE PESSOAS QUE DECIDI DIVULGAR”

EXCERTOS DA HISTÓRIA Nº 20

              Cácá, Dódó e Lúlú formam um trio de amigos inseparáveis, detentores de poderes esotéricos. Cácá exerce a profissão de enfermeiro. (…) Está sempre disponível para ajudar, mesmo que não seja preciso. Trabalha por conta própria, mas ao contrário dos outros, passa recibo, porque considera um dever patriótico contribuir para o desenvolvimento do País. (…) Dia e noite não larga a sua pochette onde transporta pó de talco com abundância, algodão, adesivos, álcool, mercúrio, gazes e pouco mais.

– São os primeiros socorros. – diz com sentido profissional.

Tem um problema desde miúdo: não pode ver sangue que desmaia imediatamente. Lúlú é outro dos seus amigos que recorre aos serviços de enfermagem facultados por Cácá, e também é cliente do Dódó nas massagens de “relax”. (…)

Noutro dia, enquanto conversava com Lúlú, Cácá sugeriu que gostava de lhe fazer uma confidência.

– Só eu e o Dódó é que sabemos. É um segredo entre os dois, mas posso contar-te, porque o Dódó deu licença. Lúlú, nem eu nem o Dódó falámos a ninguém sobre o que te vou contar. Tu sabes como são as pessoas, começam logo a gozar, porque são umas ignorantes que só pensam em dizer mal dos outros. Têm as mentes poluídas e não percebem nada destas coisas que só estão ao alcance de pessoas com poderes sobre os naturais.

– Cácá, conta-me tudo, que estou a rebentar de curiosidade.

– Lúlú, ouve bem, eu sou médio. Desde pequenino que eu tenho esse dão que Deus me deu. Eu encarno espíritos e o Dódó é que fala e ouve o que eles dizem, enquanto eu estou possuído. Lúlú, tu sabes o que é estar possuído?

– Oh! Cácá, então não sei…

– Lúlú, eu não vejo e não oiço nada. O Dódó é que me conta tudo, depois de vir dos tratamentos, coitadinho. (…) O meu grande problema, Lúlú, é que só me aparecem espíritos maus e o pobrezinho do Dódó, vê-se aflito para se livrar deles. O Dódó sofre mais do que eu, podes crer.

– Ai, Cácá, conta-me tudo.

– A minha avozinha também era média, mas encarnava espíritos bons e muito meiguinhos. Ela tinha uma grande aurela de luz. E ter uma grande aurela de luz é muito importante, sabes Lúlú?

– Ai que coisa, Cácá, então a tua avó estava ligada à electricidade?

– Lúlú, não é essa luz, estás a perceber? Não sei como hei-de explicar, mas é uma luz que vem não se sabe de onde. Vem de um sítio misterioso, que ainda não consegui entender, percebes? (…) Pois, a minha avozinha tinha tanta luz que à noite nem precisava de acender o candeeiro do quarto, vê lá tu. Como a avozinha gostava de fado e folclore encarnava fadistas muito conhecidos e chegou a haver grandes noitadas de fado, pois eram aos montes os fadistas a encarnar na avozinha. Claro que ela ficava cheia de rouquidão, porque às vezes estava encarnada mais de duas horas seguidas, sempre a cantar.

– Olha, Cácá, eu até fico oirado ao ouvir o que me estás a contar!

– Uma vez a avozinha até encarnou um rancho folclórico completo, que tinha morrido quando a camioneta se amandou por uma ribanceira abaixo. Traziam pandeiretas e acordeão e as mulheres cantavam todas esganiçadas. Era uma barulheira tão grande que a badalhoca da vizinha de cima começou a bater com o cabo da vassoura e a gritar que ia chamar a polícia. Se ela soubesse o que a minha avozinha sabia, devia era estar calada. É que uma noite encarnou o marido dela que contou tudo o que ela lhe fez para ele morrer, desgraçado do homem. Ordinária. Ela que levante cabelo que ainda sou capaz de contar tudo à policia. Ai, sou, sou. Ou eu não me chame Cácá. (…) A minha avozinha ficou tão cansada com a encarnação do rancho que esteve quase um mês de cama, coitadinha. Que Deus lá tenha em descanso, que ela bem precisa. (…) Olha, Lúlú, vou contar-te coisas que eu próprio fico de cabelos em pé. (…)

JOSÉ EDUARDO TAVEIRA

 

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Os Ganhões da Estrada- página 9 a 11 inclusive

mão, e a bucha presa pela mão do braço em que levava o toro, o Joaquim Silva transportava a pedra com algum esforço e o Jaime Narciso, mais prático, só transportava a comida porque escolhera o chão como assento.
Instalaram-se de novo em círculo, mas desta vez um círculo mais apertado, e o Jaime Narciso disse: “Olhem que temos de estar atentos à estrada, não vá o filho da puta vir aí.” E o Joaquim Silva retorquiu: “ Eu estou virado para lá, não se preocupem que o cabrão não se escapa desta vez!”
Fez-se silêncio. Os dois homens olharam fixos para o companheiro, enquanto as cabeças se aproximavam o mais que era possível.
– Pois, sabem, de nós três sou o mais velho, e até já tenho uma netinha. É uma senhorita, com doze anos, mas já uma moçoila que parece ter uns quinze ou dezasseis, e foi essa a desgraça!
– Então não nos diga que alguém fez mal à mocinha!
– Pois então é mesmo isso! Vossemecê acertou em cheio, compadre, o malandro do professor! Andou, andou, seguiu a moça e acabou por conseguir desgraça-la!
– E como foi que vocês descobriram? – Inquiriu o Joaquim Silva, enquanto mastigava a última sardinha a cavalo na fatia do pão escuro. O Jaime Narciso pescava com um miolo do pão um dos últimos pedaços de bacalhau cru, de mistura com um fio de azeite, no fundo da vasilha de plástico, e o António Manuel, o homem da saca, antes de responder à pergunta sobre a desdita que acontecera à neta, olhava para ele a dizer: “ Com este calor é mesmo uma punheta de bacalhau desfiado que sabe bem, desde que não esteja muito salgado”… – e logo depois continuava com o assunto da neta.
– Foi a minha filha que deu pelo sangue da miúda. Sabem, o meu genro está emigrado em França a bem dizer desde que a miúda tinha dois anos, o meu compadre, o pai dele, está entrevado porque lhe deu uma coisa má já lá vão uns quatro anos, assim o homem que veste as calças na família toda sou eu…
– Então e a catraia disse que tinha sido o professor?
– Acabou por contar à mãe!
– E a guarda? Não foram à guarda?!
– Não querem lá ver, a ir fomos, mas o que é que vocês pensam? O homem é professor, tem estudos, é da cidade, anda sempre com os grandes, ora com o presidente da Câmara, o gerente do banco, o cabo da guarda, até há quem diga que é oficial da legião portuguesa! E nós? Quem somos nós? Uns pobres coitados que não temos eira nem beira. Às páginas tantas tive de o apanhar sozinho, e quando o consegui enfiei-lhe a navalha no bucho duas vezes, e à ultima fiz assim, olhem, – e o António Manuel fez o gesto com a mão de quem torce um cabo…
– E fez vossemecê muito bem feito. Desde que se tenha a certeza, não à que saber, é arrimar-lhe com a naifa no bucho! – Falou o Joaquim Silva, com os olhos brilhantes; – Eu tenho filhos e por isso sei o que custa, são carne da nossa, e nesta terra se não somos nós a fazer a justiça…
– Pois claro, – disse o Jaime Narciso, – eu fazia exactamente o mesmo. E o tipo, foi-se?
– Acho que não; parece que o cabrão safou-se, mas eu não fiquei para saber… Então e vocês? Ainda nem sequer sabemos os nomes uns dos outros; só aqui o amigo de Moura é que disse alguma coisa…
– Pois, eu sou o Joaquim Silva, como acho que já lhes disse, e puseram-me a alcunha de Pirralho, como sou assim franzino e magro, a rapaziada lá de Moura é assim que me chama, e ando a ver se ganho algum para mandar para a mulher e os filhos, coitados, que estão a sobrecarregar os meus sogros que são velhotes. Agarro-me a tudo o que aparecer, o que é preciso é ganhar dinheiro…
– Eu sou o Jaime Narciso e não tenho assim nada de importante para lhes dizer. Chamam-me o tocador de concertinas, porque lá em Cuba toco nos bailaricos pela noite dentro; não ganho dinheiro com isso, toco porque gosto, e também canto no grupo da casa do povo; e também eu ando por aqui por causa da maldita crise. Em Cuba está tudo parado, até a água falta, neste tempo…
– Por falar em água, – disse o António Manuel – já repararam no calor que faz? Devem de estar perto dos quarenta graus! E depois esta poeira constante, cada vez que passa um carro ou um camião, eu agora tomava era um banho, se pudesse…
– Também eu, compadres, se pudesse, já ontem não me consegui lavar… não consegui arranjar poiso; e hoje vai pelo mesmo caminho, estava a contar com o alojamento na camarata da obra, mas esse gajo não à meio de aparecer.
Na estrada os homens já tinham retomado o trabalho. Os cilindros avançavam com a lentidão própria dos lentos caracóis, os pinches águadeiros de cântaro ao ombro não tinham mãos a medir, acorriam ao chamamento dos homens, com o púcaro de alumínio preso por uma pequena corrente ao braço dos cântaros, o suor misturava-se com a poeira que dançava no ar, constantemente levantada pela circulação dos camiões, carregados de pedras ou de saibro grosso, a quietude dos pinheirais mostrava a calmaria do tempo, os homens improvisavam chapéus com os lenços com as pontas atadas, colocados por baixo dos capacetes amarelos, a cor dos operários não qualificados, ou utilizavam-nos para proteger a boca, tipo máscara. Na distância via-se um jipe parado na berma e um homem de capacete branco a espreitar pelo óculo do aparelho nivelador montado num tripé, enquanto o porta miras corria com a mira para os pontos indicados pelo topógrafo, uma bolsa com estacas presa na cintura e uma pequena marreta pendurada no cinto. Outro homem segurava um amplo chapéu-de-sol sobre o aparelho, nada preocupado em proteger o topógrafo da canícula.
– Olhem aquele ali deixa o coitado do homem destapado! – Exclamou o António Manuel.
– É mesmo assim. – Esclareceu o Jaime, – o aparelho é que tem de ser protegido porque custa uma pipa de massa e não pode desnivelar para não errar os pontos!
– Vossemecê percebe da poda!
– É que já trabalhei de porta miras…
– Pois, então vossemecê é gente instruída!
– Qual quê, homem de Deus, aquilo é fácil, é só ter a mira direita, estar sempre com os olhos na bolha da água do nível, que tem de estar sempre no centro, e estar também com atenção aos sinais que o mestre faz, bater a estaca a direito e depois pregar o prego, com as indicações do mestre… É uma vida descansada comparada com a nossa.
– Olhe o compadre que, com essa complicação toda, da mira, da estaca e do prego, não era serviço que prestasse para mim; eu sirvo para as coisas mais simples, guardar rebanhos com o meu gabiru a ajudar…
– Gabiru, compadre António? – Perguntou o Jaime.
– É o meu cão que é um bicho esperto… – e o António Manuel ajeitou melhor o corpo encostado ao tronco do pinheiro, – guardar o gado com aquele cão é ter vida sossegada; vou talhando uns bonecos em madeira, falo com as árvores, cheiro o mato, vejo as horas pelo virar do Sol e bebo uma pouca de água que tirei do meu poço e, olhe, durmo às vezes uma pequena cesta porque o diacho do cão é tão bom que trabalha para mim…
O Pirralho afastou a vista do grupo e olhou para trás, para os homens caminhando em equilíbrio sobre as pedras grandes, colocando-as acamadas, o melhor possível, umas de encontro às outras, ou então vergados com o peso das pás, espalhando o saibro sobre as camadas de enroncamento da base.
O calor da tarde era tanto que parecia que do chão vinham vapores, o Sol reflectido no branco das pedras até fazia chorar os olhos de alguns, e os pinches, rapazolas à roda dos doze ou treze anos metiam dó, vergados ao peso dos cântaros de alumínio contendo água.
O Pirralho

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“HISTÓRIAS DE PESSOAS QUE DECIDI DIVULGAR”

EXTRACTOS DA HISTÓRIA Nº 16

O Cónego Sebastião de Jesus Redimido é um activista cristão que está sempre na linha da frente das grandes realizações religiosas. Tem uma relação cordial com todos os elementos do rebanho de Deus, recebendo ofertas que lhe enchem a despensa de tudo o que é bom, desde cabritos a queijos da serra altamente qualificados. Excelentes vinhos do Alentejo e Douro e de outras regiões demarcadas, complementam as santificadas dádivas gastronómicas.

O Cónego Sebastião é uma pessoa simpática, sempre sorridente tanto para os fiéis como para os infiéis, granjeando de todos manifestações de apreço e consideração. É um homem que está  intimamente integrado na sociedade, desenvolvendo sempre actividades em prol da fé, da esperança, da caridade e de si próprio.

Com o seu espírito abnegado decidiu organizar os festejos dos cinquenta anos das Aparições, na sua terra natal,  Vila da Velha dos Bicos. (…)

(…) Os festejos das Bodas de Ouro das Aparições iniciam-se na “Associação Cultural e Recreativa A Velha dos Bicos”, da qual o Cónego Sebastião é Presidente, com a organização de um grandioso e suculento jantar, cuja receita reverterá para a Associação Cultural.

Compareceram à chamada mais de cento e cinquenta católicos, apostólicos, romanos e dois gregos. (…)

(…) Antes de iniciar a refeição, o Cónego Sebastião de Jesus Redimido pede que todos se levantem de cabeça baixa e rezem com ele a seguinte oração:

 – Abençoai,  Senhor, o alimento que vamos tomar para melhor  Vos servir e amar. Abençoai e ajudai quem confeccionou esta refeição, que foi a Sócia nº 43, a nossa querida amiga Bernarda Trepadeira, que tem várias quotas em atraso. Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Ámen. (…)

(…) A seguir, a “Virgem” viajou até Fátima, acompanhada pelo Cónego Sebastião, no comboio das sete da manhã. Estava muito feliz, porque além do sucesso da visita da “Virgem” à Vila da Velha dos Bicos, ia ter a oportunidade de falar com o Papa Paulo VI que estava em visita pastoral a Portugal.  (…) 

(…) Chegados  a Fátima, após longas horas de viagem, dirigiram-se para o local onde estava o Sumo Pontífice. (…)

(…) Outra ocasião emocionante foi o encontro de Paulo VI com a Irmã Lúcia, apresentada pelo Cónego Sebastião.

– Lúcia, vem para aqui que eu vou apresentar-te ao Papa, estás a ouvir? Agora vê lá como te portas, se é que queres ser santa daqui a uns anos, ouviste?

– Oh “Sebastião come tudo”, tu pensas que eu sou parva ou quê? Se eu cheguei onde cheguei é porque sou mais esperta que vocês todos juntos, estás a ouvir?

– Está bem, agora cala-te.

– Calo-me o caraças.  Olha que chatice, estava tão sossegadinha a ler o “Crime do Padre Amaro”, já vou na página cinco e só comecei a lê-lo vai para dois anos e mandam-me para aqui só para me irritarem, Chiça! (…)

(…) O Cónego Sebastião decide falar com Sua Santidade.

 – Sua Santitáti io soi il Conogoti Sebastianiti di Jesus Redimiditi. Esta personati é que à visto la Virginati Mariati dependurati numa arvoreti. Sua Santitáti quieri parlarati com ela?

 – Io no capisco niente. (…)

(…) – Ela  si chamati Luciati. Sua Santitáti nunca ai ouviditi parlarati sobri ela? . (… )

JOSÉ EDUARDO TAVEIRA

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