Ganhões da Estrada- páginas 12 a 14 inclusive

O Pirralho sonhava com a bacia da barragem de Barrancos, com a água do rio, com o fresco das sombras das árvores, com a quietude dos montes envolta, com os porcos selvagens com o focinho no chão em busca de bolota, com o castelo em ruínas que ficava na pequena ilha no meio do rio, e das tardes que passava por entre aquelas muralhas velhas de séculos, com os filhos, à cata de moedas antigas que depois vendia ao senhor presidente da Câmara.
Os sábados eram dias bons. Ele ia a Barrancos aos sábados ajudar o cortador de carne que era dono do talho em Moura e em Barrancos, e levava os dois filhos. Terminado o serviço ao final da manhã e logo a seguir ao almoço, ficavam livres até ao fim da tarde, hora em que o cortador regressava com a carrinha para Moura, e perdiam-se os três pelo campo junto às margens do rio. No outro lado ficava Ensinasola, já terras de Espanha, e na margem de cá passavam tempo a atirar pedras para o outro lado. Estavam a combater os espanhóis, dizia para os rapazes, como em Aljubarrota, e acrescentava que, da Espanha, nem bom vento nem bom casamento.
– Então e o avô Inácio? – Perguntava o seu mais velho, – que é tão nosso amigo e é espanhol!
– Esse está cá já há muitos anos, olha, desde que casou com a tua avó Gertrudes, vê lá, ao tempo que foi; agora é mais português do que espanhol, a tua avó meteu-lhe juízo na cabeça!
– Olhem, lá vem o gajo!
O Jaime Narciso estava em menos de nada a meio da estrada com a mão levantada, olhando para o jipe que vinha ao fundo arrastando consigo um turbilhão de poeira; pronto se lhe juntaram os outros dois homens, e o condutor começou a vagar a marcha, até que estancou junto do grupo. Ao volante um sujeito com um capacete de protecção de cor castanha, um rosto bolachudo com cara de poucos amigos, e do outro lado outro homem com um capacete branco ligeiramente atirado para trás, mostrando uma calva suada.
O condutor baixou ainda mais o vidro da janela do carro, enquanto o outro homem lhe ia dizendo: “ Olhe as horas para a reunião, o engenheiro está à espera.”
– O que querem vocês, rapazes?
– Procuramos trabalho, foi o senhor do escritório que nos mandou a falar com o senhor encarregado! – Disse o Joaquim Silva.
– Pois, o encarregado geral sou eu, mas é má altura, eu estou atrasado para uma reunião importante. Vocês são serventes? – Perguntou enquanto os avaliava com o olhar.
– Somos, sim senhor! – Responderam em simultâneo.
– Mostrem-me lá as vossas mãos…
Os três homens estenderam as mãos com as palmas para cima.
– Ó rapazes, isso são poucos calos, assim à primeira olhadela; de onde são vocês?
– Do Alentejo, – respondeu o António Manuel, – somos os três alentejanos.
– Ó Nunes, tome atenção às horas; olhe que o engenheiro não é flor que se cheire!
– Tem razão! Bem, vocês vão desculpar, mas vão ter de voltar amanhã, a esta mesma hora e neste sítio, para falar melhor, com mais tempo, eu agora tenho mesmo que ir, mas vocês têm poucos calos, mas vamos a ver se servem; amanhã vemos isso.
E o jipe arrancou veloz.
– Olhem lá o cabrão de merda, pensa que somos criados dele, se não fosse cá por coisas ia a ter à dos americanos, nem que fosse a nado!
– Calma, amigo Joaquim, com estes filhos da puta é preciso calma e paciência.
– É, amigo António, paciência de Jó!
Os três companheiros voltaram para a sombra do pinheiro. A tarde esvaia-se lentamente, sonolenta, pegajosa, compuscarda pelo manto de poeira empurrado quando havia brisa, ou arremessado para o ar quando passavam os camiões, ficando a pairar e a cair, lentamente, entrando no corpo dos ganhões que trabalhavam na estrada, como condenados por nada de mal terem feito, sovados pela vida, alheios à alegria que deve de estar subjacente ao acto de existir. Por ali andavam, aqueles autómatos, fazendo os mesmos gestos vezes sem conta, maquinalmente, sem pensar, sem perceber. Os homens apertaram as mãos e disseram até amanhã, neste sítio, a esta mesma hora, como o homem disse, a ver se temos mais sorte do que tivemos hoje; e afastaram-se, seguindo cada um o seu caminho, mesmo que fossem no mesmo sentido. A individualidade dos homens é assim, manifesta-se por esta forma; os homens agem em grupo, trabalham em grupo, mas parece que só sabem pensar sozinhos.
Os homens, fatalmente, parecem que estão sempre sós.
Joaquim Silva começou a deitar contas à vida, o seu maior problema resumia-se em descobrir onde dormir em segurança mais uma noite.
No pequeno saco de lona ainda havia duas latas de conserva, umas azeitonas e pão, assim, comer alguma coisa à noite e aconchegar o estômago no outro dia ao meio dia, não tinha dificuldade; a questão estava como iria a passar mais uma noite.
Uns passos mais à frente deram de caras com o António Manuel, que os esperava protegido pela sombra de um pinheiro.
– Então mestre, o que faz aí que parece que está à coca?
– Esperava por si, homem; então vossemecê não tem onde dormir esta noite?
– Eu, a ter tenho, mas não devo!
– Não o estou a entender, ou tem ou não tem!
– Pois, eu conto-lhe; eu vim a ter a casa de um conterrâneo que vive perto aqui do Casal do Marco, moço novo ainda, antigo companheiro de escola e de paródias; é na casa dele que estão as minhas coisas; mas o homem só tem dois quartos, e é ele, a mulher, um filho pequeno e uma filha já espigadora, eu dormir lá podia dormir, mas senti-me acanhado, tive vergonha, e disse-lhe que ia a ficar à da pensão, só queria que me guardasse a roupa.
– Então e onde dormiu o compadre?
– Aí, no pinhal, arranquei só com o farnel e mais nada; mas, ó amigo, passei a noite cheio de receio…
– Então porquê?
– Não sei, homem, não sei, são outros sítios, outras gentes, e um homem não está habituado a dormir no mato como os bichos.
– Então venha daí comigo, vamos a ficar à da minha prima que tem uma casa maior e é menos gente, vá homem, que vergonha é roubar, temos de ser uns para os outros… eu ando sempre com a saca com as minhas coisas atrás, mas não é que não tenha onde a deixar, é porque se a policia aparecer estou pronto para dar o salto nesse minuto!
António Manuel, o homem da saca, e Joaquim Silva, o Pirralho, seguiram lado a lado, cortando caminho por entre os pinheiros da mata; ao fundo, já distante, a figura ágil do Jaime Narciso recortava-se contra o primeiro casario visível mais à frente.

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Sobre jsola02

quando me disseram que tinha de escrever uma apresentação, logo falar sobre mim, a coisa ficou feia. Falar sobre mim para dizer o quê? Que gosto de escrever, (dá-me paz, fico mais gente), que escrever é como respirar, comer ou dormir, é sinal que estou vivo e desperto? Mas a quem pode interessar saber coisas sobre um ilustre desconhecido? Qual é o interesse de conhecer uma vida igual a tantas outras, de um individuo, filho de uma família paupérrima, que nasceu para escrever, que aos catorze anos procurou um editor, que depois, muito mais tarde, publicou contos nos jornais diários da capital, entrevistas e pequenos artigos, que passou por todo o tipo de trabalho, como operário, como chefe de departamento técnico, e que, reformado, para continuar útil e activo, aos setenta anos recomeçou a escrever como se exercesse uma nova profissão. Parece-me que é pouco relevante. Mas, como escrever é exercer uma profissão tão útil como qualquer outra, desde que seja exercida com a honestidade de se dizer aquilo que se pensa, (penso que não há trabalhos superiores ou trabalhos inferiores, todos contribuem para o progresso e o bem estar do mundo), vou aceitar o desafio de me expor. Ficarei feliz se conseguir contribuir para que as pessoas pensem mais; ficarei feliz se me disserem o que pensam do que escrevo… José Solá
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