Ganhões da Estrada- páginas 5 a 8 inclusive

O CONTO

Joaquim Silva, conhecido pela alcunha de Pirralho, isto por ser homem pequeno, franzino e seco, de pele gretada pelo sopro do vento suão que varre o Alentejo durante a calmaria do tempo quente, vindo do Sul, dos lados do deserto que fica no outro lado do mar, era um dos três ganhões que calcorreavam à torreira do Sol, que caminhava para a tarde, – pouco passava das onze horas da manhã, – a estrada ainda em insípida fase de construção.
Os outros dois, também filhos das planícies do Sul, eram o Jaime Narciso, o toca concertina, e o António Manuel, o homem da saca, alcunha recente posta pelos companheiros por transportar todos os seus modestos haveres dentro de uma saca de serapilheira; os três tinham-se conhecido havia pouco tempo, – talvez umas escassas duas horas atrás, – junto ao escritório da firma empreiteira responsável pela construção das estradas que iriam formar os acessos do lado do sul, à ponte, e que ficava perto de uma localidade de nome Casal do Marco, localizada quem vai na direcção de Setúbal.
Aí, o funcionário, á pergunta se estavam a contratar serventes, tinha respondido de pronto: “ A precisar devemos de estar sempre, porque saíem uns e entram outros, é um corrupio constante, mas quem lhes pode dizer a certeza não somos nós aqui.”
-Então é quem? – Inquiriu o Joaquim Silva.
– O senhor encarregado geral!
– E vocês têm, isto se ficar a trabalhar, algum sitio onde um homem à noite possa encostar os ossos? – Questão posta desta vez pelo tocador de concertina.
– Isso, arranja-se depois qualquer coisa, se o senhor encarregado quiser, é tudo com ele, menos a jorna, essa é fixa para quem servir para o trabalho, são vinte e seis escudos por dia!
– E onde falamos com o senhor encarregado?
– Ele anda aí pela obra toda, vocês vão pela estrada, e quando virem um jipe Land-Rover escuro com o nome da firma, mandam-no parar que é ele, um senhor baixo e gordo que trás sempre um capacete castanho.
– E a obra é grande, vai até onde?
– Vai daqui até ao rio!
– Isso são práí perto dos vinte quilómetros! – Exclamou o Pirralho.
– Mas ele anda sempre aqui por perto, vocês vão perguntando aos colegas que encontrem a trabalhar, não hão de andar muito tempo, vão ver!
E assim os três homens partiram estrada a fora, andando pelas terras das bermas, aos altos e baixos, vendo um ou outro cilindro calcando as primeiras camadas de pedra, grupos de homens ajeitando as pedras de maior porte, ou espalhando à pá montes de areia e pedras de diversos tamanhos, – o chamado tout-venant, – de forma a preencherem os vazios que existiam entre as pedras de maior porte.
No troço de estrada que ficava relativamente perto do escritório central da obra, naquela frente de trabalho, percebia-se uma imensa anarquia; não se conseguia definir com exactidão a faixa ascendente e a descendente, os camiões despejavam os pedregulhos sem, aparentemente, qualquer critério, mas, ao longe, a já curta distância, as faixas da futura auto-estrada estavam perfeitamente definidas; de um lado, aquele que seria a mão direita do trânsito, uma das camadas de macadame estava a ser convenientemente cilindrada, e do outro, os cilindros calcavam o fundo da caixa onde seria construído o pavimento.
O som estridente de uma sirene fez-se ouvir, accionada por um homem que furiosamente fazia girar o manípulo de um pequeno volante; “meio-dia, a hora das sopas!” Exclamou o Jaime Narciso, olhando para os outros dois.
As máquinas pararam. As pás e outras ferramentas, como os rodos de madeira, ficaram no local, caídos no chão, a esmo, pois assim já estavam próximo do trabalho, e os homens, uns escolheram uma sombra junto das companheiras que entretanto haviam chegado, cestas de vime nas mãos, os outros foram para junto do lume onde o pinche tinha colocado as marmitas a aquecer, ou tomava conta das postas de bacalhau a assar nas brasas ou das batatas que coziam dentro de latas grandes de atum.
– Vamos à merenda que a morte não tarda! – Dizia um, enquanto o companheiro ao lado respondia a dizer-lhe: “afasta para lá essa boca que eu ainda tenho filhos pequenos para criar!”
Os três homens escolheram poiso à sombra de um pinheiro manso, perto dos outros. O António Manuel ajeitou um toro para o pé do tronco e sentou-se, colocando a saca de serapilheira entre os joelhos, o Jaime Narciso sentou-se mesmo no chão e o Joaquim Silva acomodou-se sentado numa pedra de maiores dimensões, fechando assim aquela espécie de círculo.
Joaquim Silva saltou com a ligeireza de um gato quando percebeu o jipe a alta velocidade arrastando consigo uma cortina de poeira; chegado ao inicio da plataforma da caixa do pavimento, gesticulou agitando furioso os braços acima da cabeça voltado para o veiculo que vinha em tão elevada velocidade; o carro ainda hesitou, abrandou um pouco, mas foi apenas uma fracção de segundo, logo disparou de novo, fazendo roncar os cavalos força do motor, e depressa se sumiu na distância da recta do macadame.
– O tipo viu-me, o desgraçado só não parou porque não quis, o cabrão… – desabafou o Pirralho.
– Vossemecê, ó compadre, quer se matar? Então até parecia que se ia a meter debaixo do carro! – Disse um dos homens sentado perto do grupo com a mulher ao lado.
– Não era o vosso encarregado? – Interrogou o Pirralho.
– Sim, os compadres são para arranjar trabalho?
– Somos, sim senhor, – respondeu o António Manuel, – mas não conhecemos o encarregado, e dentro do jipe iam dois homens…
– Mas era ele, era, – acrescentou o homem enquanto abria a tampa da marmita. – Sabem, não era a altura certa, ele e o colega vão a almoçar sempre lá para os lados do Pragal, e à hora do almoço nunca param… Mas vocês porque não foram ter com ele à do café?
– Qual café? No escritório disseram-nos que o apanhávamos aqui na obra…
– Esses aí não sabem nada; perto da hora do almoço ele e o outro encarregado encontram-se sempre no café que fica perto do escritório, por baixo da ponte, é um bom sítio para o apanharem…
– Então e depois do almoço, devem de voltar para tomar a bica?
– Não, nessa altura aproveitam para ver os trabalhos que ficam perto das obras do encontro…
– Então hoje somos capazes de não conseguir falar com o homem…
– Ó compadres, vocês escolhem uma boa sombra aí mais para diante e estão à coca, quando virem o jipe saltam logo para a estrada que o homem assim pára. Mas porque não vão a Lisboa à dos americanos? Aí não é preciso esperar, eles têm um empregado de escritório que trata de tudo, se tiverem o bilhete de identidade em dia, nem é preciso saber ler e escrever que o homem preenche o papel, e pagam melhor do que pagam estes aqui.
– Pois, o pior é o dinheiro para as passagens para ir a Lisboa!
– É a vida dos pobres, uns comem tudo e os outros não comem nada…
O Pirralho retomou o seu lugar, sentado junto dos outros dois. Do pequeno saco de lona de trazer a tiracolo tirou uma pequena garrafa de vinho, um naco de pão, uma lata de sardinhas em conserva e um punhado de azeitonas, com a chave de arame grosso começou a abrir a lata.
– Vossemecê pela fala vê-se que é alentejano como nós, – disse o Jaime Narciso, – mas é da onde?
– Sou de Moura, tenho lá a mulher e os dois filhos, e vim a ver da minha sorte cá para cima…
– Mas em Moura dizem que o trabalho à jorna não falta. Atalhou o António Manuel.
– Se dizem isso é porque estão pranteando mentiras! A gente quando quer trabalho vai à do mercado e encosta-se ao muro, à espera que os capatazes dos agricultores vão lá a escolher a gente, às vezes até alguns estão sentados no chão, porque a fome é tanta que o corpo deitado aguenta melhor, parece que o estômago fica mais quieto, mas nos últimos tempos nem capatazes nem agricultores, nem sequer aparecem, tal é a crise, e quem tem moços pequenos não pode ficar muito tempo parado, senão os miúdos morrem à fome; e vossemecê, amigo, é de onde?
– Eu sou de Mértola, sou meio algarvio, enxertado de gente do mar, lá de Vila Real de Santo António, de onde era a minha gente materna, e, – o António Manuel baixou a voz, a modos de não querer que mais ninguém ouvisse, – ando fugido à policia!
– Ó compadre! Os de Mértola têm cada uma! Então não se vê pela sua cara que vossemecê é boa gente! Anda agora a fugir à policia…
– Fale baixo, compadre, por amor dos seus ricos filhos! O que eu estou a dizer é verdade, ora cheguem-se os dois para cá que eu conto…
O Joaquim Silva e o Jaime Narciso arrimaram-se mais para a frente, cabeças quase encostadas à do António Manuel, as côdeas do pão seguras entre as mãos, uma, a do Jaime Narciso, com uma lasca de bacalhau cru molhado no azeite em cima, o outro, o Joaquim Silva, com a garrafa de três decilitros inclinada, quase a verter o liquido; entreolharam-se e depois, de soslaio, miraram os outros, “ Vamos antes mais para ali, que temos uma sombra melhor!” – Disse o Joaquim Silva, enfatizando o “temos uma sombra melhor” de forma que os outros pudessem escutar.
Os três afastaram-se dos outros uns bons vinte metros, para de baixo de um pinheiro de pequena altura, mas com uma grande copa que fornecia uma óptima sombra; o António Manuel levou o toro debaixo do braço, a saca da serapilheira segura na outra

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..o verbo amar…

Um dia o verbo amar
perdeu-se na tua boca
sabia a pétalas de flor
ditas no teu sabor

José Guerra (2011)

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“HISTÓRIAS DE PESSOAS QUE DECIDI DIVULGAR”

EXTRACTOS DA HISTÓRIA Nº 5

 

     

          Alice Rabuda é conhecida pelos amigos como a Alice“Cu Grande” o que lhe causa perturbações do foro psicológico. Todos lhe dizem que é uma brincadeira e um sinal de amizade e carinho, mas ela não gosta e considera-se permanentemente ofendida.

– Não se chama “Cu Grande” a ninguém, é uma falta de respeito. Pronto. Que raio de pouca sorte a minha ter um rabo grande! Ainda por cima num sítio do corpo que dá imenso nas vistas. (…)

(…) – Porque de resto, o meu corpo até é bem feito. Só o estupor do rabo é que me estraga a estética. Que hei-de eu fazer com este rabo? Fico furiosa quando chego ao restaurante e me dizem para esperar, porque só há uma mesa vaga. Que raiva! Apetece sentar-me em cima do empregado e esborrachá-lo. (…)

(…) – Quando me vêm entrar, as sirigaitas das “boutiques”  dizem logo, que não têm roupa para rabos deste tamanho. E eu pergunto-lhes: vocês por acaso, suas deficientes cerebrais, já se viram ao espelho? E para já não admito comentários sobre o meu rabo. Pronto. Cada um tem o rabo que tem, suas pirosas. (…)

(…) -E os estúpidos dos meus padrinhos ainda se deram ao desplante de me porem o nome de Alice Rabuda. Idiotas, mentecaptos, alienados, incongruentes, que não imaginaram os problemas que me viriam a causar. (…)

(…) – Ao meu irmão chamam-lhe cabeçudo porque tem uma cabeça do tamanho de um melão de vinte quilos? Não! À minha mãe chamam-lhe pencuda, porque tem um nariz que passa a vida entalado nas portas do armário da cozinha? Não! Ao meu pai chamam-lhe pezudo porque calça 64? Não! À minha prima chamam-lhe joelhuda porque tem uns joelhos do tamanho de abóboras? Não. E a outra chamam-lhe orelhuda porque tem umas orelhas que parecem antenas parabólicas? Não. À minha avó chamam-lhe bigodaça porque tem um bigode e um buço que parece um Guarda-nocturno do século dezanove? Não. Ao meu avô chamam-lhe barrigudo porque tem uma barriga maior que o meu rabo? Não. Então porque diabos me chamam “Cu grande”? Não tenho o direito de ter o rabo que Deus me deu? Acho que não há nenhuma lei da Comunidade Europeia para uniformizar o tamanho dos rabos, mas devia de haver. Tenho visto rabos horrorosos, mal feitos e encarquilhados. O meu rabo é lisinho e macio. Gasto nele toneladas de creme de beleza. Não me vou pôr aí de rabo ao léu a mostrá-lo a toda a gente. Às vezes até sinto orgulho no meu rabo, pronto. Sinto orgulho, porque é meu e funciona como qualquer outro rabo. (…)

(…) – Li noutro dia numa revista que o Sylvester Stallone é especialista em “rumpologia”, ou seja, a capacidade de prever o futuro das pessoas através do rabo. Mandei-lhe uma fotografia do meu rabo para ele ver qual seria o meu futuro. Quando recebi a resposta fiquei muito contente. Mas quando abri o envelope para ler o que vinha lá dentro, dei pulos de raiva contra aquele idiota do Stallone.(…)

(…) – É triste quando ficamos escravos do nosso rabo. (…)

(…) – Eu acho que o rabo não tem a importância que lhe querem dar, acho eu. Pronto. (…) (…) – Mas pensando bem, porque será eu me preocupo com aqueles que criticam o meu rabo? (…)

JOSÉ EDUARDO TAVEIRA

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Os Ganhões da Estrada (conto) repart: A Questão, O conto,Conclu.

A QUESTÃO

É esta ideia que tenho sobre as coisas do mundo que me leva de quando em vez a recordar o passado. Não para daí tirar lições para entender melhor o presente, nada disso; o presente, quer se goste ou não, é o resultado de pessoas diferentes das que conhecemos outrora, e a maioria das causas que estão subjacentes aos efeitos, são causas novas em relação às do passado. O mundo, fatalmente, ou para melhor ou para pior, evoluiu. O que me leva então a repensar o passado? É a necessidade de rever as razões que, em determinada época, me orientaram para determinado caminho, que hoje reconheço não ter sido a melhor solução. O homem que sou hoje pouco tem a ver com o homem que fui no passado? Em parte sim, e isto porque evoluí, ao que penso, para melhor, e este efeito que resulta das causas que foram alicerçando o meu carácter ao longo dos anos tanto se manifesta na minha personalidade como também nas minhas opções ideológicas. Acima de tudo o reconhecimento dos erros cometidos diz-me que não sou um fanático, nem no plano político-ideológico e muito menos no plano religioso. Não sou, portanto, um homem que aceite os dogmas.
Esta introdução a um simples e modesto conto tem muito a ver com as ideias que estão por de trás da história que decorre em épocas totalmente distintas da actual.
Decorria o período entre mil novecentos e sessenta e dois e mil novecentos e sessenta e seis; eu, um jovem idealista, depois de me ter livrado da guerra do ultramar, repartia-me entre três necessidades avassaladoras, durante as, para mim, escassas vinte e quatro horas do dia; uma, a necessidade de trabalhar para ganhar o modesto pão de cada dia, a outra, a necessidade de escrever, uma necessidade para mim tão importante como respirar, e a terceira, inerente à segunda, o efeito da causa de escrever, ou seja, a necessidade de saber.
Para quem não tem fortuna, quem não se enquadra numa família estruturada, quem nunca frequentou – por impossibilidade material, – uma escola média, liceu, curso industrial ou comercial, quem como base escolar dispõe apenas da instrução básica da altura, a quarta classe obrigatória, o conhecimento só se alcança por duas vias, a primeira a leitura, a segunda, o contacto com as pessoas, a observação das coisas da vida, e para quem trabalha para satisfazer as necessidades básicas mais elementares, comer, por exemplo, e nem sequer dispõe do beneficio da luz eléctrica, a saída única possível para aprender é passar parte da noite a ler à luz de velas, juntar dinheiro para puder passar alguns dias sem trabalhar, e gastá-los a ler nas bibliotecas públicas, do abrir ao fechar das portas.
Foi com estes interesses e estas dificuldades que me habituei a viver a partir dos doze anos de idade. Assim, na altura em que decorre a narrativa deste modesto conto, havia-me transformado num paradoxo; por um lado dispunha de cultura e conhecimento muito acima da média do comum dos meus compatriotas, mas, por outro, trabalhava como trabalhador não qualificado em consequência de uma magistral falta de aptidão para as profissões fabris que o regímen de então reservava transversalmente, para todas as pessoas com as minhas habilitações, digamos, académicas, e é assim que, aí por volta de mil novecentos e sessenta e três, talvez sessenta e quatro, aos vinte e três, vinte e quatro anos de idade, dou por mim sentado num amplo gabinete nas instalações do escritório da empresa Morrison Knudsen, parceiro responsável pelas obras de betão do projecto de concepção e construção da primeira grande ponte sobre o rio Tejo, hoje chamada de ponte vinte e cinco de Abril, isto, como consequência exactamente da cultura que à data já demonstrava; na minha frente, instalado por detrás de uma enorme secretária, um senhor doutor qualquer, dizia-me:” Você não é um servente! Você manifesta uma cultura elevada, tem uma conversação fluente, emprega um português evoluído, e logo, por detrás da sua candidatura ao lugar de servente existem outras motivações que espero, para o seu bem, que não sejam de natureza politica!”
Um funcionário com excesso de zelo, depois de ler o boletim de inscrição que eu tinha acabado de preencher, sem erros, com bonita caligrafia, e depois de ter trocado comigo umas quantas frases, arranjou-me aquele trinta e um, e o seu superior hierárquico, aquele doutor não sei quantos, procedia, como qualquer inquisidor, à averiguação da verdade; à época todos nós, os comuns mortais desta terra, tínhamos medo de qualquer coisa, dos informadores, dos denunciantes, da PIDE (policia internacional de defesa do estado); eu incluía-me nesse grupo, e aquele doutor qualquer coisa suponho que também, para não destoar da época; Assim, ambos teríamos medo em principio, da mesma coisa, ou seja, da polícia política, eu porque de facto não tinha cometido um acto, ou vários actos contra o estado do meu País, realidade essa que a referida polícia desconhecia, e o doutor não sei quantos teria medo do zeloso funcionário, – possivelmente um membro fervoroso da legião portuguesa, inserido na máquina da empresa estrangeira através de qualquer processo matreiro, – e logo desempenhava o papel que lhe cabia por direito e responsabilidade hierárquica.
A conversação foi um tudo-nada trágico-cómica, em determinadas alturas em tom mais elevado para funcionário ouvir, outras, uma amena cavaqueira entre duas pessoas que, em princípio, tinham o seu quê de civilidade.
Tudo terminou com a aceitação da minha candidatura ao lugar de trabalhador não qualificado, e com uma conversa amena entre o doutor e o funcionário com excesso de zelo, em que o primeiro esclareceu que não existia motivo algum para que a minha lealdade ao estado e à Pátria fosse posta em causa; tratava-se apenas e somente de uma pessoa desempregada que procura um emprego temporário para resolução imediata de uma situação anómala e casual, e assim eu saí do escritório do estaleiro da obra, localizado na margem direita do rio, contratado como trabalhador não qualificado, com ordem para me apresentar ao serviço daí a quatro dias, a uma segunda-feira, no turno com inicio às oito horas da manhã.
A construção da primeira travessia de grande dimensão sobre o rio Tejo foi um marco na construção das obras públicas no Portugal de então; mais, para mim, habituado à mediocridade que norteava a vida dentro desta nossa grande e querida quinta, dirigida pela batuta do grande maestro de então, e secundada pela esperança que o benevolente cardeal nos transmitia para quando chegássemos ao céu, foi um rasgar de horizontes.
O inverno desse ano foi trágico em acidentes com perdas de vidas, para os homens formiga que laboriosamente trabalhavam na construção do encontro sul, rasgando acessos nas encostas, mantendo esses acessos operacionais dias e noites a fio, as valetas desimpedidas com o recurso a enxadas, sob as encostas íngremes, vitimas das derrocadas, circulando por um mar de lama onde se enterravam muitas vezes acima dos joelhos, satisfazendo as necessidades em latrinas de madeira com um metro de lado, espalhadas pela obra, invariavelmente no topo das encostas sobranceiras ao rio, correndo riscos de vida quando os aluimentos provocados pelas chuvas arrastavam esses casinhotos encosta abaixo, para o caudal do rio, ou vibrando o betão em equilíbrio sobre malhas de aço colocadas na horizontal, formando quadricula com cinquenta centímetros de lado, arrastando consigo as agulhas de vibração com cinquenta quilos de peso.
Trabalhei na construção da ponte – a bem dizer, – desde o seu inicio até ao dia da sua inauguração. Desempenhei várias tarefas, não apenas as de trabalho não qualificado, e aprendi algumas lições sobre o mundo que à data existia fora da nossa quinta; aprendi que existiam outras formas de capitalismo, que umas dessas formas respeitavam mais as pessoas e a sua condição humana do que as outras; aprendi que soluções simples podem fazer toda a diferença para respeitar a dignidade dos homens, como, um simples guichet para admitir as pessoas que procuram trabalho, sem as obrigar a calcorrear horas a fio a obra, à procura do encarregado, aprendi que as obras podem ser estudadas ao pormenor e planeadas, aprendi que o esforço humano pode não ser brutal se as várias tarefas forem planificadas e estudadas, e é com o sentido de mostrar um pouco a diferença destes mundos, embora ambos capitalistas, que me proponho escrever este conto. Contudo, e porque entendo que as coisas que observamos na vida raramente são objectivas, – nós chegamos à objectividade através de premissas vistas e pensadas na altura, – para mim o mundo é muito mais subjectivo do que objectivo, em muitos e importantes aspectos o mundo dessa época continha imensas verdades que hoje estão esquecidas, e são esses sinais que devemos redescobrir para nos salvaguardarmos como povo independente e com uma realidade nacional.

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“HISTÓRIAS DE PESSOAS QUE DECIDI DIVULGAR”

EXCERTOS DA HISTÓRIA Nº 13

Dionísio Tespis ignora a sua idade cronológica. É uma falsa controvérsia sobre a caracterização do seu “modus operandi.

Mantém há décadas a mesma qualidade de vida, essa sim, determinante para a celebração diária da sua idade biológica.

Vive numa velha mansão herdada, com a sua companheira de sempre. Mantêm um amor recíproco indestrutível.

Movimenta-se entre milhares de livros desde os dramaturgos gregos até aos contemporâneos. O seu grande tesouro, sempre presente, em qualquer momento, é o livro que lê de forma arrebatada. (…)

(…) Cada personagem que um autor cria com a sua imaginação, ele recria-a, gozando o prazer de desmontar clichés, construindo, ou melhor, reconstruindo a sua nova personagem renascida, servindo os dois criadores com a mesma dedicação. (…)

Há momentos em que Dionísio se desgosta com a personagem que recriou. Quer libertar-se dela, mas atormenta-o pensar que é uma injustiça. Cada um é como é. Todas as personagens têm o direito de serem representadas tal como são, tal como o seu autor quis que elas fossem. Quem as vê, pensará o que entender. Muitas vezes o contrário da realidade. Por desconhecimento ou porque incomoda a retratação cruel espelhada nas folhas de um livro ou em cima de umas tábuas de um palco. (…)

Na sua velha mansão Dionísio Tespis prepara as suas representações lendo em voz alta todo o texto, interpretando todas as personagens, como se todas ou nenhuma fosse a sua. Olha à sua volta e os milhares de livros transformam-se em plateia imaginária onde Dionísio se movimenta como se fosse real. Emociona-se, ri, chora ou pragueja a maldição dos Deuses que disseminam o terror, a morte, o sofrimento, as catástrofes. Dionísio Tespis é então alguém diferente de si, que muitos pensarão ser ele próprio. (…)

JOSÉ EDUARDO TAVEIRA

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“HISTÓRIAS DE PESSOAS QUE DECIDI DIVULGAR”

                                                                         EXTRACTOS DA HISTÓRIA Nº 23

– Eu, Pureza da Purificação vivo no quarto nº 1 desde a abertura desta pocilga. Antigamente trabalhava no Parque, no tempo em que o Parque era bem frequentado. Era conhecida como a mamuda do Parque, o que para  mim era uma honra.  Todas   as gajas tinham inveja de mim.  Pareciam umas franganitas, coitadas. (…)                  Além disso é um sítio muito ventoso e passava a vida constipada e com tosse, o que era muito mau para o meu trabalho. Resolvi mudar-me para a zona de Almirante Reis, sempre era mais aconchegada e havia mais gente na rua. Um dia, umas mulas que lá paravam quiseram roubar-me a malinha de mão. Como eu sou uma mulher que graças a Deus nunca teve medo de nada nem de ninguém, andámos todas à porrada e tive de ir para o hospital de ambulância, com os ossos quase todos partidos. Agora gostava de experimentar um partaime para me distrair ali na Gare do Oriente, se não estiver muito frio. Sempre gostei de andar bem arranjada e à moda. Fui das primeiras a andar de minissaia. No Parque até faziam fila para verem as minhas pernas. Tive homens que deixavam as mulheres se eu me apaixonasse por eles. E também tive mulheres doidas por mim. Mas eu nunca gostei de estar apaixonada porque dá muito trabalho e não é bom para o nosso negócio. A gente no fundo, lá no fundo não gosta de ninguém porque tem de gostar de todos, não é? Sei lá, é assim a vida. No princípio ainda pensei em ter um ou dois filhos, mas para quê? (…)  Já me basta aturar os filhos dos outros. Esta gaja, a Laurentina, lá porque é dona desta trampa de Hospedaria, julga-se a rainha do povo.(…) A única pessoa com quem se pode falar nesta espelunca é com o Bernardino do Gamanço. Ele agora está retirado e já não rouba nada a ninguém.(…)  O resto até mete nojo. Nem quero falar deles, chiça! Até fico agoniada. Só se lavam uma vez por semana. Eu, não há diazinho nenhum que não lave a felisberta. Gosto muito do meu asseiozinho. (…) Quando era miúda sonhava ser bailarina, a dançar em bicos dos pés. (…) Mas enfim, durante a vida andei a bailar de um lado para o outro, sempre com pares diferentes. (…) Há pessoas que eu nunca consigo entender. Nunca. Se calhar porque sou uma parvalhona que andou toda a vida à espera não sei de quê. Se calhar à espera de nada.

JOSÉ EDUARDO TAVEIRA

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Extraido do romance de ficção cientifica: Os Escangalhados

Évora, terra de espanto, por tanta sensibilidade transparecer da sua arquitectura. Os olhos ficam perplexos, semi cerrados, a protegerem-se da luminosidade que, de todos os lados, mostram as cores firmes daquele mundo, que espreita planícies do alto majestoso da colina.
É feita de contrastes de luz, de harmonias, de nostalgias e de orgulhos. Tudo é proporcional aos tempos e às gentes que por lá passaram, o que nos leva a pensar que foram génios todos os que a projectaram no correr dos séculos.
Do jardim e miradouro fronteiro ao Templo de Diana, (nome que lhe advêm da lenda), percebemos uma planície imensa que chora lágrimas para se esquivar da calma cálida do Sol do verão. Há coisas de ontem a rodear-nos por todos os lados. Viajaram através dos milénios. Chegam-nos dos idos da história em que, naquele preciso sitio, nasceu Ebora Liberalitas Júlia, a rodear o Templo onde se divinizou o Imperador Augusto. E o templo foi o centro onde se manifestou a vontade dos supostos homens bons da época, o Fórum. Mas, a atestar a hegemonia pecaminosa de todos os sistemas autoritários, também por ali se consta que deambulou Sertório e as suas legiões revoltadas, a protagonizarem o descontentamento seu e das gentes lusas.
Évora é assim um pedaço da história desta Europa compulsiva de ódios, em que os maiores se põem nos bicos dos pés para aterrorizarem os mais pequenos, esquecendo que, as dádivas destes, deu-lhes os mundos que hoje exploram.
Na cidade a beleza e a gentileza das formas vivem através do prazer de quem a vê. A Praça do Geraldo, com a sua fonte única, as arcadas, os prédios maneiros a delimitar o rectângulo, as cores, a pacatez provinciana de toda a preguiça que enfeitiça os corpos nos dias de muito Sol, os palácios, o barroco, o manuelino, enfim, o encontro de estilos das suas igrejas; a zona histórica feita de ruelas, com casas de pobres e de ricos estampadas de ambos os lados pelo dédalo das ruas, agora um palácio com o seu portão por onde saíam as carruagens, ao lado uma casa de gente pobre, e aqueles candeeiros em ferro trabalhado semeados com mão de mestre pelas fachadas; às tantas, com o cair das sombras da noite, parece que, por um qualquer feitiço que nunca entenderemos, víssemos amantes encapuçados a passarem furtivos encostados às paredes, ou os alabardeiros da guarda em patrulha de rotina para garantir os sossegos.
E, a fazer-nos reflectir, a capela dos ossos a mostrar-nos o fim último das misérias humanas. Vamos ser assim, todos, sem excepção, desde o rei, o príncipe, o burguês, o nobre, o cavalo do nobre, a amante do nobre ou do rico, a camponesa que foi violada pelo senhor da terra, o senhor da terra e o seu moço de estrebaria. Tanto tormento de que se faz a vida, para ficarmos assim, tão iguais.
Évora afinal, é uma das tantas cidades que nos orgulham, uma das últimas coisas que nos restam que justifica o nosso sentido pátrio. É de lamentar que muitos portugueses morram sem as conhecerem. É a negação de direitos básicos de uma cidadania feita sem justiça. Os estrangeiros conhecem a terra que nossa é por direito de nascença, por cultura, pela língua que falamos, pelo solo que defendemos, pelo sangue que derramamos; os estrangeiros conhecem-na, mas a maioria de nós não.
Para a nossa gente sempre sobrou o calor ou o frio da rua, as pedras da calçada e o direito de por ela andarmos quando nos deixam, a defesa do que nunca foi nosso, se preciso com o sacrifício da vida, alguma fominha oferecida pela gentileza dos ricos, com a garantia que, no fim único, quando a pouca carne, seca pelas tristezas da vida, se despede dos ossos, então, sim, ficamos todos iguais.
Com o tempo tudo morre. As concepções de tudo o que é material na vida, incluindo as cidades. Não apenas os homens. Daqui por noventa e nove anos começamos a caminhar para o fim. Depois, com mais cem, possivelmente os últimos vão. Ficam os mercados bolsistas a fazer o futuro. Um futuro feito de prédios de vidro, torres de cimento armado que nos roubam o Sol, nos fazem esquecer das árvores e das flores, das praias quando eram de todos, do vento a correr livre e despreocupado pelos campos.
Ficam os bancos. Faça um empréstimo, meu caro, para puder pagar o último dos trezentos empréstimos que fez nos anos passados. Não recebeu o ordenado? Pois, os empréstimos têm de ser pagos. São razões de princípio, sabe? Tem fome porque amortizou o empréstimo e ficou sem dinheiro? Mas isso é uma questão de hábito. Entenda de vez que não pode haver progresso sem o esforço do trabalho. Suor e lágrimas, nunca ouviram dizer? Se trabalha doze horas passe a trabalhar catorze, que o dia ainda tem as mesmas vinte e quatro, que nós, os bancos, nisso ainda não mexemos. Calma, amigo, não se precipite, não se suicide, pense que Deus o castiga e lhe despeja a alma no inferno. E depois? É uma eternidade de sofrimento. Que compensação tem se for para o céu? Bem, virgens ainda não têm por lá, como nos outros paraísos. Mas é uma simples questão de acordos entre deuses. Coisas que o tempo resolve, vão ver. Deus já pediu esclarecimentos para obter um empréstimo para remodelar o Céu…

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Do verbo sentir…

Do verbo sentir se faz o poema
Se faz o poeta de dor e pena
Do verbo sentir um grito infinito
Que se escreve pelo não dito

José Guerra (2011)

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O nosso Património Cultural

Rómulo Duque” Os Povos civilizados sempre se afirmaram culturalmente pelo modo como tratam o seu património cultural, e são esses os testemunhos do que sentiram e pensaram os seus antepassados”. (…) Para com isso avançar no futuro! Aqui temos um exemplo de respeito, e que vai ao encontro da nossa cultura!!!!
Interior Norte de Portugal”…
Rómulo Duque

Do Livro “O Último Oleiro”

(…) Nos meses de Verão, quem ali subisse, via quantidades de medas de trigo, de centeio e de cevada à espera da altura das malhadas, que eram tão duras para quem nelas trabalhava, mas que ficavam como momentos únicos para as crianças no gozo das férias grandes. Só apetecia pedir que o Outono chegasse lá para a Primavera…(…)

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“HISTÓRIAS DE PESSOAS QUE DECIDI DIVULGAR”

 

EXTRACTOS DA HISTÓRIA Nº 24

 

 

Alliette Françoise nasceu nos arredores de Paris e viveu com os pais até poder ser ela própria a decidir a sua vida.

Ambicionava ser bailarina. Aprendeu a dançar num Clube, onde tantos outros alunos desafiavam o destino, na expectativa de actuarem em espectáculos musicais. Quando Alliette chegava a casa, continuava a treinar, frente ao espelho, gastando horas até que achasse que estava bem. Ou quase bem.

A sorte de habitar num bairro pobre, convivendo com gente emigrante de vários países, levou-a a conhecer um rapaz português que trabalhava como “garçon” num hotel. A mãe era criada de servir na casa de uma pessoa importante do “Show Business” em Paris. O rapaz sabendo da intenção de Alliette prometeu que falaria com a mãe, tentando junto dos patrões a possibilidade de trabalho como bailarina, empenho que considerava viável, visto que a mãe era muito considerada pelo seu profissionalismo e seriedade.

Feitos os contactos, Alliette é informada pelo amigo que poderá ir até Paris, apenas tendo como referência o nome da mãe e a morada da casa onde trabalha.

No seu espírito existe a convicção que poderá estar a ser enganada, mas não tem nada a perder e parte de comboio até Paris. (…)

JOSÉ EDUARDO TAVEIRA

 

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