Ganhões da Estrada- páginas 5 a 8 inclusive

O CONTO

Joaquim Silva, conhecido pela alcunha de Pirralho, isto por ser homem pequeno, franzino e seco, de pele gretada pelo sopro do vento suão que varre o Alentejo durante a calmaria do tempo quente, vindo do Sul, dos lados do deserto que fica no outro lado do mar, era um dos três ganhões que calcorreavam à torreira do Sol, que caminhava para a tarde, – pouco passava das onze horas da manhã, – a estrada ainda em insípida fase de construção.
Os outros dois, também filhos das planícies do Sul, eram o Jaime Narciso, o toca concertina, e o António Manuel, o homem da saca, alcunha recente posta pelos companheiros por transportar todos os seus modestos haveres dentro de uma saca de serapilheira; os três tinham-se conhecido havia pouco tempo, – talvez umas escassas duas horas atrás, – junto ao escritório da firma empreiteira responsável pela construção das estradas que iriam formar os acessos do lado do sul, à ponte, e que ficava perto de uma localidade de nome Casal do Marco, localizada quem vai na direcção de Setúbal.
Aí, o funcionário, á pergunta se estavam a contratar serventes, tinha respondido de pronto: “ A precisar devemos de estar sempre, porque saíem uns e entram outros, é um corrupio constante, mas quem lhes pode dizer a certeza não somos nós aqui.”
-Então é quem? – Inquiriu o Joaquim Silva.
– O senhor encarregado geral!
– E vocês têm, isto se ficar a trabalhar, algum sitio onde um homem à noite possa encostar os ossos? – Questão posta desta vez pelo tocador de concertina.
– Isso, arranja-se depois qualquer coisa, se o senhor encarregado quiser, é tudo com ele, menos a jorna, essa é fixa para quem servir para o trabalho, são vinte e seis escudos por dia!
– E onde falamos com o senhor encarregado?
– Ele anda aí pela obra toda, vocês vão pela estrada, e quando virem um jipe Land-Rover escuro com o nome da firma, mandam-no parar que é ele, um senhor baixo e gordo que trás sempre um capacete castanho.
– E a obra é grande, vai até onde?
– Vai daqui até ao rio!
– Isso são práí perto dos vinte quilómetros! – Exclamou o Pirralho.
– Mas ele anda sempre aqui por perto, vocês vão perguntando aos colegas que encontrem a trabalhar, não hão de andar muito tempo, vão ver!
E assim os três homens partiram estrada a fora, andando pelas terras das bermas, aos altos e baixos, vendo um ou outro cilindro calcando as primeiras camadas de pedra, grupos de homens ajeitando as pedras de maior porte, ou espalhando à pá montes de areia e pedras de diversos tamanhos, – o chamado tout-venant, – de forma a preencherem os vazios que existiam entre as pedras de maior porte.
No troço de estrada que ficava relativamente perto do escritório central da obra, naquela frente de trabalho, percebia-se uma imensa anarquia; não se conseguia definir com exactidão a faixa ascendente e a descendente, os camiões despejavam os pedregulhos sem, aparentemente, qualquer critério, mas, ao longe, a já curta distância, as faixas da futura auto-estrada estavam perfeitamente definidas; de um lado, aquele que seria a mão direita do trânsito, uma das camadas de macadame estava a ser convenientemente cilindrada, e do outro, os cilindros calcavam o fundo da caixa onde seria construído o pavimento.
O som estridente de uma sirene fez-se ouvir, accionada por um homem que furiosamente fazia girar o manípulo de um pequeno volante; “meio-dia, a hora das sopas!” Exclamou o Jaime Narciso, olhando para os outros dois.
As máquinas pararam. As pás e outras ferramentas, como os rodos de madeira, ficaram no local, caídos no chão, a esmo, pois assim já estavam próximo do trabalho, e os homens, uns escolheram uma sombra junto das companheiras que entretanto haviam chegado, cestas de vime nas mãos, os outros foram para junto do lume onde o pinche tinha colocado as marmitas a aquecer, ou tomava conta das postas de bacalhau a assar nas brasas ou das batatas que coziam dentro de latas grandes de atum.
– Vamos à merenda que a morte não tarda! – Dizia um, enquanto o companheiro ao lado respondia a dizer-lhe: “afasta para lá essa boca que eu ainda tenho filhos pequenos para criar!”
Os três homens escolheram poiso à sombra de um pinheiro manso, perto dos outros. O António Manuel ajeitou um toro para o pé do tronco e sentou-se, colocando a saca de serapilheira entre os joelhos, o Jaime Narciso sentou-se mesmo no chão e o Joaquim Silva acomodou-se sentado numa pedra de maiores dimensões, fechando assim aquela espécie de círculo.
Joaquim Silva saltou com a ligeireza de um gato quando percebeu o jipe a alta velocidade arrastando consigo uma cortina de poeira; chegado ao inicio da plataforma da caixa do pavimento, gesticulou agitando furioso os braços acima da cabeça voltado para o veiculo que vinha em tão elevada velocidade; o carro ainda hesitou, abrandou um pouco, mas foi apenas uma fracção de segundo, logo disparou de novo, fazendo roncar os cavalos força do motor, e depressa se sumiu na distância da recta do macadame.
– O tipo viu-me, o desgraçado só não parou porque não quis, o cabrão… – desabafou o Pirralho.
– Vossemecê, ó compadre, quer se matar? Então até parecia que se ia a meter debaixo do carro! – Disse um dos homens sentado perto do grupo com a mulher ao lado.
– Não era o vosso encarregado? – Interrogou o Pirralho.
– Sim, os compadres são para arranjar trabalho?
– Somos, sim senhor, – respondeu o António Manuel, – mas não conhecemos o encarregado, e dentro do jipe iam dois homens…
– Mas era ele, era, – acrescentou o homem enquanto abria a tampa da marmita. – Sabem, não era a altura certa, ele e o colega vão a almoçar sempre lá para os lados do Pragal, e à hora do almoço nunca param… Mas vocês porque não foram ter com ele à do café?
– Qual café? No escritório disseram-nos que o apanhávamos aqui na obra…
– Esses aí não sabem nada; perto da hora do almoço ele e o outro encarregado encontram-se sempre no café que fica perto do escritório, por baixo da ponte, é um bom sítio para o apanharem…
– Então e depois do almoço, devem de voltar para tomar a bica?
– Não, nessa altura aproveitam para ver os trabalhos que ficam perto das obras do encontro…
– Então hoje somos capazes de não conseguir falar com o homem…
– Ó compadres, vocês escolhem uma boa sombra aí mais para diante e estão à coca, quando virem o jipe saltam logo para a estrada que o homem assim pára. Mas porque não vão a Lisboa à dos americanos? Aí não é preciso esperar, eles têm um empregado de escritório que trata de tudo, se tiverem o bilhete de identidade em dia, nem é preciso saber ler e escrever que o homem preenche o papel, e pagam melhor do que pagam estes aqui.
– Pois, o pior é o dinheiro para as passagens para ir a Lisboa!
– É a vida dos pobres, uns comem tudo e os outros não comem nada…
O Pirralho retomou o seu lugar, sentado junto dos outros dois. Do pequeno saco de lona de trazer a tiracolo tirou uma pequena garrafa de vinho, um naco de pão, uma lata de sardinhas em conserva e um punhado de azeitonas, com a chave de arame grosso começou a abrir a lata.
– Vossemecê pela fala vê-se que é alentejano como nós, – disse o Jaime Narciso, – mas é da onde?
– Sou de Moura, tenho lá a mulher e os dois filhos, e vim a ver da minha sorte cá para cima…
– Mas em Moura dizem que o trabalho à jorna não falta. Atalhou o António Manuel.
– Se dizem isso é porque estão pranteando mentiras! A gente quando quer trabalho vai à do mercado e encosta-se ao muro, à espera que os capatazes dos agricultores vão lá a escolher a gente, às vezes até alguns estão sentados no chão, porque a fome é tanta que o corpo deitado aguenta melhor, parece que o estômago fica mais quieto, mas nos últimos tempos nem capatazes nem agricultores, nem sequer aparecem, tal é a crise, e quem tem moços pequenos não pode ficar muito tempo parado, senão os miúdos morrem à fome; e vossemecê, amigo, é de onde?
– Eu sou de Mértola, sou meio algarvio, enxertado de gente do mar, lá de Vila Real de Santo António, de onde era a minha gente materna, e, – o António Manuel baixou a voz, a modos de não querer que mais ninguém ouvisse, – ando fugido à policia!
– Ó compadre! Os de Mértola têm cada uma! Então não se vê pela sua cara que vossemecê é boa gente! Anda agora a fugir à policia…
– Fale baixo, compadre, por amor dos seus ricos filhos! O que eu estou a dizer é verdade, ora cheguem-se os dois para cá que eu conto…
O Joaquim Silva e o Jaime Narciso arrimaram-se mais para a frente, cabeças quase encostadas à do António Manuel, as côdeas do pão seguras entre as mãos, uma, a do Jaime Narciso, com uma lasca de bacalhau cru molhado no azeite em cima, o outro, o Joaquim Silva, com a garrafa de três decilitros inclinada, quase a verter o liquido; entreolharam-se e depois, de soslaio, miraram os outros, “ Vamos antes mais para ali, que temos uma sombra melhor!” – Disse o Joaquim Silva, enfatizando o “temos uma sombra melhor” de forma que os outros pudessem escutar.
Os três afastaram-se dos outros uns bons vinte metros, para de baixo de um pinheiro de pequena altura, mas com uma grande copa que fornecia uma óptima sombra; o António Manuel levou o toro debaixo do braço, a saca da serapilheira segura na outra

Sobre jsola02

quando me disseram que tinha de escrever uma apresentação, logo falar sobre mim, a coisa ficou feia. Falar sobre mim para dizer o quê? Que gosto de escrever, (dá-me paz, fico mais gente), que escrever é como respirar, comer ou dormir, é sinal que estou vivo e desperto? Mas a quem pode interessar saber coisas sobre um ilustre desconhecido? Qual é o interesse de conhecer uma vida igual a tantas outras, de um individuo, filho de uma família paupérrima, que nasceu para escrever, que aos catorze anos procurou um editor, que depois, muito mais tarde, publicou contos nos jornais diários da capital, entrevistas e pequenos artigos, que passou por todo o tipo de trabalho, como operário, como chefe de departamento técnico, e que, reformado, para continuar útil e activo, aos setenta anos recomeçou a escrever como se exercesse uma nova profissão. Parece-me que é pouco relevante. Mas, como escrever é exercer uma profissão tão útil como qualquer outra, desde que seja exercida com a honestidade de se dizer aquilo que se pensa, (penso que não há trabalhos superiores ou trabalhos inferiores, todos contribuem para o progresso e o bem estar do mundo), vou aceitar o desafio de me expor. Ficarei feliz se conseguir contribuir para que as pessoas pensem mais; ficarei feliz se me disserem o que pensam do que escrevo… José Solá
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