“HISTÓRIAS DE PESSOAS QUE DECIDI DIVULGAR”

                                                                         EXTRACTOS DA HISTÓRIA Nº 23

– Eu, Pureza da Purificação vivo no quarto nº 1 desde a abertura desta pocilga. Antigamente trabalhava no Parque, no tempo em que o Parque era bem frequentado. Era conhecida como a mamuda do Parque, o que para  mim era uma honra.  Todas   as gajas tinham inveja de mim.  Pareciam umas franganitas, coitadas. (…)                  Além disso é um sítio muito ventoso e passava a vida constipada e com tosse, o que era muito mau para o meu trabalho. Resolvi mudar-me para a zona de Almirante Reis, sempre era mais aconchegada e havia mais gente na rua. Um dia, umas mulas que lá paravam quiseram roubar-me a malinha de mão. Como eu sou uma mulher que graças a Deus nunca teve medo de nada nem de ninguém, andámos todas à porrada e tive de ir para o hospital de ambulância, com os ossos quase todos partidos. Agora gostava de experimentar um partaime para me distrair ali na Gare do Oriente, se não estiver muito frio. Sempre gostei de andar bem arranjada e à moda. Fui das primeiras a andar de minissaia. No Parque até faziam fila para verem as minhas pernas. Tive homens que deixavam as mulheres se eu me apaixonasse por eles. E também tive mulheres doidas por mim. Mas eu nunca gostei de estar apaixonada porque dá muito trabalho e não é bom para o nosso negócio. A gente no fundo, lá no fundo não gosta de ninguém porque tem de gostar de todos, não é? Sei lá, é assim a vida. No princípio ainda pensei em ter um ou dois filhos, mas para quê? (…)  Já me basta aturar os filhos dos outros. Esta gaja, a Laurentina, lá porque é dona desta trampa de Hospedaria, julga-se a rainha do povo.(…) A única pessoa com quem se pode falar nesta espelunca é com o Bernardino do Gamanço. Ele agora está retirado e já não rouba nada a ninguém.(…)  O resto até mete nojo. Nem quero falar deles, chiça! Até fico agoniada. Só se lavam uma vez por semana. Eu, não há diazinho nenhum que não lave a felisberta. Gosto muito do meu asseiozinho. (…) Quando era miúda sonhava ser bailarina, a dançar em bicos dos pés. (…) Mas enfim, durante a vida andei a bailar de um lado para o outro, sempre com pares diferentes. (…) Há pessoas que eu nunca consigo entender. Nunca. Se calhar porque sou uma parvalhona que andou toda a vida à espera não sei de quê. Se calhar à espera de nada.

JOSÉ EDUARDO TAVEIRA

Anúncios

Sobre José Eduardo Taveira

Nasci no Porto. Trabalhei em diversas empresas nacionais e multinacionais, exercendo cargos directivos. Actualmente estou liberto de compromissos profissionais, usufruindo a liberdade de viver como gosto e quero. Publiquei três livros intitulados: "Juntos para Sempre","Histórias de Pessoas que Decidi Divulgar" e "Viagem ao Princípio da Vida". Os dois primeiros em Portugal e o último no Brasil.
Esta entrada foi publicada em Opiniões, testemunhos. ligação permanente.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s