Extraído do romance: A Menina dos Olhos Tristes ( em preparação)

Já mordeu um! E João Boa Brisa corre para a cana, presa e fixada no descanso, à ré da fragata. Demorou tempo mas temos peixe! Retira a cana do suporte e começa a enrolar o fio no carreto. O fio retesa-se, mas vem, entre pequenos esticões, modestos, feitos de peixe pequeno, que resiste, luta. Fora de água ainda não se entrega. É faneca! Exclama João. Peixe que come de tudo, que anda à cata de babugem mesmo perto dos esgotos. Peixe sujo. Pudera, a esta distância da barra e como a água do rio está, o peixe de águas limpas não se aventura. Foge. Distantes vão os tempos em que as tainhas saltavam das águas, vaidosas dos seus corpos prateados, luzidios, e até camarão havia, e gostoso, grado, bonito de se ver, e os golfinhos se mostravam aos pares, como namorados, e as gaivotas vinham de cima, em voos e grasnidos, a saber do peixe; havia que chegava para todos, e em abundância. Com a melhoria da qualidade das águas as coisas estão melhorando, não fora as toneladas de mercúrio depositadas no leito do estuário do rio e tudo caminhava para melhor. Mais para cima, – diz João, – para os lados de Santa Apolónia, talvez que mordesse uma corvina, das gradas, com tamanho que dá para uma casa de família, mas aqui não, já estamos afastados das reservas do rio, para os lados de Alcochete. Poucas cidades se podem orgulhar de ter às portas reservas tão ricas, com linguados e robalos. Este rio ainda tem lampreia e sevelha; e o pescado vai até Constância. O que seria séculos atrás, com a cidade mais pequena e sem poluição. Que riqueza, de fome não morreriam os homens dessa época, não fora os senhores da terra marcarem o seu espaço, como os predadores nas selvas. Aqui ninguém pesca. É espaço que liga à minha propriedade. Este pedaço do rio tem dono, sou eu, por direito de sangue e favores do rei nosso senhor, que o deu ao meu trisavô, como paga pelos feitos de guerra, que levou os favores da caridade cristã aos gentios, e esse feito ficou para mim, que nada fiz, e para os meus filhos que nada vão fazer, porque não têm necessidade, tiveram um tetravô guerreiro.
Para os lados da cidade uma névoa dessas que chegam no tempo quente, ainda deixa ver um lusco-fusco de rastos de ouro que fogem para os lados do ocaso. No céu uma lua cheia já ganha imagem sólida em tecido que vai escurecendo. João põe mais isco no anzol. Atira-o para longe.
A água é como uma mãe que agita o berço de madeira onde descansa o filho. João prendeu a cana no suporte e voltou para a proa. Jantou. Está uma noite quente sob um céu de estrelas que vão aparecendo, a rasgar um azul ainda lívido, onde a Lua cheia tenta derrotar um Sol teimoso, que agarra e não larga todo o céu, no seu abraço feito de infinitos tempos. Ao longe um motor se denuncia em roncos cansados de barco velho. Vem subindo o rio. Agora se vê, o rasto de fumo negro que suja o céu. É como uma tosse de homem velho que expele de si as dores da vida que já farta. João senta-se no travessão de madeira que corre de proa à ré e onde os homens se firmam de pés descalços, quando o vento falta, e a água é pouco funda, a cravar a vara que se empurra de ombros e braços para trás, para o barco avançar. Parece que se vêem, um a estibordo e outro a bombordo, com vozes firmes a marcar o compasso da força. Ó é, ó é! E da ré voltam à proa, centenas de metros de rio, uma vida toda, sem lamúrias, sem queixas, que a vida é o que é, nem boa nem má, somos o que aprendemos a ser, fizeram de nós o que somos, não sabemos ser outra coisa, é impedimento ser o que não se sabe, o que nunca se viu, o que para nós não existe. A traineira vem da barra e é como se o rio não fosse plano, mas sim inclinado e escorregadio, por isso o seu grande esforço. Entre a pequena cabine e a proa um homem de barrete escuro, como sentinela, a ver as margens. Gente de Alcochete, murmura João, e ergue a mão quando o outro lhe acena, coisa de gente do mar que cumprimenta o camarada quando o encontra, solitário, sobre o afago das águas. Do norte Lisboa parece que sorri para a traineira que morre aos poucos a subir o rio. Do sul a proa da Menina dos Olhos Tristes é como se lhe lançasse um olhar de bom agoiro, em jeito de amizade entre barcos.
João inclina-se sobre o tampo do caixote que lhe serve de mesa, e escolhe o melhor ângulo para ler, à luz do petromax, como faz todas as noites. Do seu lado esquerdo vem um ruído, ligeiro, leve, mais brisa que se agita na calmaria daquele rio, hoje de bons humores, que o levam a gostar dos homens. É Gabriela Amor Perfeito, de cabelos de negro azeviche, soltos, caídos em desalinho, quietos, parados pelos ombros, porque não corre brisa. Afadiga-se no asseio da fragata, descalça, de sorriso posto nos lábios carmesins, a mostrar a alegria que lhe ilumina a face, os olhos negros que se misturam com a noite, não fora o Lampião que é aquela Lua que parece tão baixa que apetece saltar e agarrá-la, e os olhos de Gabriela mais se viam, com todo o seu brilho, e assim mais não seriam que estrelas que brincam, travessas, naquele plano azul agora forte.
João Boa Brisa começa a ler, em tom pausado e nítido. Gabriela senta-se no outro lado e apoia a cabeça nas mãos, escuta. Mais à frente, as linhas de Lisboa aparecem no silêncio do tempo, as suas muralhas que se sucedem, em fileira, o derrame da luz difusa dos candeeiros, os becos, de janelas onde o orvalho se vai infiltrando nas plantas, nas flores que se aninham na terra preta dos vasos, e se fecham para passar a noite. É como se João lê-se para todos. Para Gabriela, para Lisboa, para as muralhas, os becos, os vasos onde as flores adormecem a escutar a sua voz, aquele céu e aquela Lua, as estrelas às quais os olhos de Gabriela se uniram e aninharam, o mundo, e o rio, aquele grande rio, de águas agora vestidas de negro, brilhantes por via do reflexo da claridade que vem da Lua, onde os olhos dos homens se enchem de água quando os navios zarpam, e resplandecem quando voltam…

Por quanto tempo João leu, o que disse, os juízos que teceu, ou terá adormecido, ou está neste instante sonhando, ou já acordou, em sobressalto, com o som pequeno daquela voz de criança que escutou, ténue, quase sussurro, murmúrio, talvez queixume. Do outro lado da fragata Gabriela continua ali, na mesma posição, cabeça apoiada nas mãos, expressão terna. Não foi Gabriela quem falou, porque ela nunca fala com voz de criança, o céu contínua mudo, como sempre, em noites de calmaria como nas outras, as estrelas só guardam os segredos dos sonhos dos homens, ou lhes ditam os destinos, como dizem, “está escrito nas estrelas” Que não será só um boato, alguma verdade terá, alguém por lá encontrou o destino, ou lho apontaram, Vê, ali, daquele lado, o pontinho luminoso que mal se distingue; está o teu destino escrito por Deus no brilho daquela estrela, que é um mistério como Ele o faz, assim tão perfeitinho, e que se vai cumprir, tu verás, por muito que esperes nunca desesperes. Mas as estrelas não falaram, que nunca falam, só servem para guardar destinos e mostrar como o Universo se veste, quando não se cobre de nuvens nas noites frias, e se acoita nos sonhos que guarda dos homens, para esquecer as mágoas de eternamente sentir o sofrer do mundo. João está desperto. No seio da noite se prolonga a calmaria, e Gabriela Amor Perfeito ali continua, de sorriso travesso e bem-disposta, não se pôs a caminho lá para onde costuma ir, que não lhe responde quando lho pergunta, quando o vê assim, desperto, sem aquele estado febril que o atormenta por uma vida longa; nessas alturas ela vai a caminhar sobre as águas, e nunca olha para trás, para ele, para o barco, e ele também nada lhe diz, guarda-lhe o respeito que lhe deve por nunca o abandonar.
Em redor dele apenas a noite e a água de reflexos suaves, a mostrarem ternura, como se o rio fosse gente. Mais distantes as luzes difusas da cidade, de um lado, para o norte, que para o sul a mancha imprecisa da terra, nua de montanhas, vai dormitando a sono solto, e na quietude do sono se ajeita nos braços do rio, e se beijam, num amplexo de volúpia.
– Pai, sou eu!
João erguesse e apoia-se no mastro. Está desperto, perplexo e irritantemente lúcido. Ao seu redor fica a noite, a imagem muda da mulher, a fragata com as luzes de presença acesas no topo do mastro.
– Filha Gabriela?
– Não, pai. A minha irmã morreu. Eu sou a outra, que tu também fizeste, por tanto tempo. Anos, noites de serão e de amor, lembras-te, a tua Menina.
– Menina?
– Sim. A Menina dos Olhos Tristes!
João sente um frémito gélido a correr-lhe o corpo. É coisa de espanto, senão de medo, aquela de uma fragata falar, mas também é coisa estranha viver com a presença de quem se diz que já não está entre nós, e Gabriela está ali, tão perto que lhe podia sentir a respiração, o cheiro, o hálito. E é tão estranho como estar vivo entre os vivos, mas estar só como se estivéssemos mortos. Se pensarmos bem é o que nos acontece a todos, de uma maneira ou de outra, o mundo que nos rodeia e com o qual interagimos é o mundo dos outros, a nós cabe-nos o papel de o vermos de dentro para fora e de fazermos dele real. Na verdade a nossa única realidade somos nós. João levanta-se. Olha e vê Gabriela já longe, a deslizar pelas águas, e desta vez não se volta, afasta-se e perde-se a pouco e pouco, na claridade da luminosa noite. Apoia-se no mastro. Volta a sentar-se. Se susto teve, é de alegria que agora se sente. É um homem novo porque não está só, tem uma relação directa com a vida, mesmo que de uma ligação material se trate. Quanto não dariam, (se dinheiro tivessem), os velhos deste mundo moderno, feito de supostas igualdades, se um familiar, um amigo, um confidente, dispensasse algum tempo de conversa, mesmo que barco fosse, fragata ou não, que para tagarelar um pouco só os ricos dispõem de gente, e porque podem pagar. Nem no fim da linha da vida existe uma réstia de igualdade entre os homens. Os que nada têm morrem mudos e quedos, depois de uma vida passada a darem até à saciedade o pouco que vão conseguindo, e no fim, quando o inevitável medo chega, se querem dizer um simples e modesto adeus, é para si que devem falar. São como heróicos combatentes a morrerem entre os inimigos, no campo de bravatas que é a guerra.

Deixe um comentário

A bruxa do sino ( de Danilo Pereira )

No mundo nórdico, além de dragões, bestas, feiticeiros e demais criaturas bizarras, existem também as bruxas. Neste post, contarei um pouco sobre a Gulveig, uma bruxa sinistra que vaga pelos portões e castelos da terra média.

Em Midgard, terra dos guerreiros e bárbaros, houve uma época em que uma mulher fora brutalmente castigada por ser impura e promiscua. Essa mulher era Gulveig, conhecida por todos por realizar bruxarias e feitiços macabros, que resultou na morte de muitos reis e magos daquela época. Os reis tinham muita influência e os magos, eram considerados verdadeiros profetas, que orientavam e protegiam o próspero reino de Midgard.

Certo dia, o rei  ordenou que a bruxa fosse condenada  à  morte e então, ela foi amarrada a um poste de ferro, onde foi espancada e humilhada durante um dia todo. No dia seguinte, Gulveig ainda estava viva e com novas ordens do rei, atearam fogo em seu corpo, que começou a queimar de forma estranha. O fogo parecia não afetar a bruxa, que continuava viva envolta à poderosa chama que ardia por aquele poste de ferro.

Sem saber o que fazer, o rei pediu a Odin que os livrasse daquele mal e então, o todo poderoso Deus nórdico desceu até Midgard com uma lança na mão. Odin, com toda sua fúria, perfurou Gulveig, mas ela continuava viva e sorria de forma sarcástica frente ao Deus. Na segunda tentativa, a lança penetrou mais fundo, mas a bruxa continuava sorridente, sem se importar com a presença divina. Na terceira tentativa, Odin se irritou e com toda sua fúria e força, atravessou Gulveig  ao meio, que sorriu pela última vez antes de morrer.

Alguns anos se passaram e a maldição parecia ter terminado, até que certa noite, um humilde servo do rei, jurou ter visto Gulveig  caminhando com um sino na mão pelos corredores do castelo e então, ele correu até os aposentos do rei e o encontrou morto sobre a cama. Acredita-se que a alma de Gulveig vaga pelos castelos do reino e que toda vez que o sino é tocado, alguém morre.

Deixe um comentário

HISTÓRIAS DE PESSOAS QUE DECIDI DIVULGAR

  EXCERTO DA HISTÓRIA Nº 17

           Carlito Falácio começou a interessar-se por futebol animado pelo seu pai, que ambicionava viver à custa dos rendimentos do filho, aliás como toda a família. Ainda mal sabia andar e já o obrigava a chutar numa bola maior que o miúdo. 

        – Tens de ser futebolista, meu filho. Não és menos que os outros. Não te obrigo a estudar, porque não é preciso. Tens é de jogar à bola, estás a compreender, meu filho?

        A mãe não concordava com a ideia do marido e pôs o miúdo na escola. E o Carlito foi crescendo a sentir todos os dias a mesma pressão:

           – Tens de ser jogador de futebol, meu filho. O teu futuro, e vá lá, o nosso, passa pelo teu sucesso. Olha para os craques que estão cheios de dinheiro, filho. Olha que o teu pai sabe do que fala. O teu pai não é parvo, sabe bem do que fala.

              Carlito foi obrigado a ver todos os jogos de futebol na televisão. E o pai assinalava os jogadores que ganhavam muito dinheiro, tinham casas e carros topo de gama e andavam com miúdas que pareciam bonecas insufláveis. Enfim, coisas que a Carlito lhe davam algum entusiasmo.  Foi inscrito como sócio num grande Clube da 2ª Liga e começou a treinar na equipa de futebol júnior.

           – Meu filho, marcar golos é que dá dinheiro. Todos os clubes do mundo vão querer contratar-te. Acredita no teu pai, que sabe muito bem o que diz, rapaz! Carlito começou a treinar mas era uma desgraça. (…)

JOSÉ EDUARDO TAVEIRA

Publicado em Opiniões, testemunhos | Deixe um comentário

A contração económica e as medidas de sempre…

É evidente que estes tempos são difíceis e que temos de mudar radicalmente de vida. Se queremos continuar como gente com terra própria temos de engolir em seco e aceitar o que vem aí. Não temos escapatória. Mas também é evidente a protecção ignóbil que os sucessivos governos vêm dando aos mais ricos dos ricos deste país.
Se abandonarmos a cegueira que tem sido sempre, ao longo dos séculos da nossa história, a tradição que nos amarra ao obscurantismo e à miséria, se metermos a mão na consciência, como é usual dizer-se, facilmente encontramos os verdadeiros culpados de tudo o que se vem passando, e esses, afinal, somos nós, quer individualmente, com a nossa costumeira preguiça mental, quer colectivamente, com a incapacidade que demonstramos ter e que nos impede de respeitar regras e deveres sociais indispensáveis para o futuro do país. Os governos são sempre dos mesmos e fazem sempre as mesmas coisas e das mesmas maneiras. Como a crise é uma Instituição Nacional, e como tem sempre como causa a baixa produtividade, quem a paga é o povo, mas como o povo é pobre porque aufere salários baixos porque produz pouco, e produz pouco porque tem salários baixos, e porque o investimento em novos e modernos processos de produção é quase zero, e como os ricos não aceitam pagar a mandriice dos pobres que produzem pouco, porque os governos não recebem os impostos devidos pelas mesmas razões que levam os ricos a não pagar a crise, e porque nada faz para os receber, resta-lhes a classe média de sempre que tudo paga e tudo consente, porque, (ninguém percebe), não aparece um menino Jesus com mau feitio que dê um murro em cima da mesa e parta toda a loiça.
Uma solução seria mudarmos de idioma e passarmos a pensar, em consequência, com outra lógica. Não é possível, como é evidente, por um lado ainda poucos de nós (incluindo eu) sabem falar português com correcção. Só os investigadores muito letrados que vivem uma vida entre as poeiras e os bafios das bibliotecas o devem saber, por outro, porque, como povo ainda apegado aos três efes, (Fátima, fado e futebol), não alcançámos ainda a “ginástica cerebral” precisa para voos mentais mais audazes.
No entanto parece-me indispensável que se adquira outras lógicas. Julgo mesmo que é uma questão de sobrevivência enquanto povo com uma Pátria, com uma nacionalidade. Sim, porque independência económica e politica já há muito que a perdemos…
Na verdade, os portugueses que trabalham e pertencem à classe média têm de perceber duas realidades, é que, se o dinheiro não tem cor nem Pátria, os ricos e os pobres por razões de genética também não. Uns vivem onde lhes dão mais lucros, os outros pedem e ambos roubam onde melhor lhes convêm, e nós não temos porque continuarmos a pagar até à consumação dos séculos a uns e a outros.
Uns dias atrás assisti a um programa de televisão que elucida bem estes meus raciocínios. Tratava-se do roubo de cabos de cobre por esses campos fora. Da esquerda para a direita, a encararem as câmaras, tínhamos, a jornalista entrevistadora, (uma senhora bem conhecida na televisão), ao seu lado um ex senhor inspector da Policia Judiciária, seguido de vários agricultores como vítimas dos roubos e dos respectivos estragos provocados nas suas propriedades, dois sacerdotes, vitimas, (eles e os seus paroquianos) de sistemáticos roubos de sinos, alguns deles datados de épocas relacionadas ou próximas dos Descobrimentos, (pela minha óptica relíquias nacionais), e a terminar a “carreira” um senhor engenheiro representante da EDP; este o panorama, a moldura humana do programa, que, devo dizer-vos, de elevado interesse foi, mesmo sobre o ponto de vista psicológico ou mesmo sociológico.
A senhora entrevistadora introduziu o tema da conversa, dialogando inicialmente com o senhor ex inspector da Policia Judiciária, inquirindo-o acerca de eventuais milícias populares, ao que o senhor respondeu, e bem, pela sua óptica policial, que devem ser as policias exclusivamente, (pelas razões inerentes às responsabilidades e aos meios), a conduzirem todo o processo de investigação e captura dos meliantes. E mais disse. Falou da complexidade de todo o processo. Contou de um senhor Juiz que mandou um culpado embora porque tinha lucrado com o furto apenas trezentos euros. Falou dos receptadores e dos sucateiros. E tudo quanto disse, sobre a sua óptica policial é mais do que evidente que está correcto.
Depois a entrevistadora começa a dialogar com os restantes participantes, e aqui principia a funcionar a velha lógica nacional. É que, se o senhor doutor inspector disse que as coisas estão em boas mãos quando entregues às autoridades, quem somos nós, modestos mortais, para contrariar estes princípios. É evidente que, não fora os prejuízos provocados pelos meliantes, que em determinados casos ascendem a valores da ordem dos cem mil euros, e tudo estaria bem neste reino da fantasia!
Por último fala o senhor engenheiro representante da EDP, e aqui é que a “porca torce o rabo,” quando nos é dito que a empresa pensa substituir o material de cobre por material de alumínio, e que os prejuízos causados pelos roubos já ascendem a qualquer coisa como sete milhões de euros, e quando nós sabemos que quem paga isto somos nós, os mesmos de sempre, e quando muitos dos meliantes vivem em casas fornecidas pelo Estado e recebem rendimentos ditos mínimos, que na verdade são insignificantes, mas que são pagos por nós, os de sempre, os rendimentos, as casas, e tudo o mais que muito bem apeteça a este Estado dar; quando o ladrão é mandado em liberdade porque este “trabalhou por pouco dinheiro” foram esquecidos os prejuízos causados aos agricultores e aos outros portugueses, e a nós, através dos impostos, e que para variar de fado e de métodos, só por isso, por uma vez que seja, na vida, queremos JUSTIÇA!
Perante a inoperância das polícias e dos tribunais, não tem este povo, de uma vez por todas, o direito de não se deixar roubar e utilizar todos os meios e processos que estejam ao seu alcance?
Agora, e já que estamos com “a mão na maça” vamos continuar. As medidas impostas pelo governo são indispensáveis. Ultrapassam os objectivos traçados por essa coisa que dá pelo nome de Troika, o que os dispõe bem. Estão esperançosos que Portugal volte aos mercados. Assim vamos voltar a comprar-lhes as mercadorias que não produzimos porque não nos deixam, rapidamente voltamos a estender a mão à caridade, os ciclos completam-se, e ficamos todos felizes, na abençoada paz desta Europa onde uns mandam e os restantes obedecem!
Mas, temos uma questão na qual estes doutos senhores ainda não pensaram, ou por escassez de tempo, ou por excesso de confiança nos métodos que utilizam e que julgam infalíveis. É simples, é que os períodos de crise cada vez são mais próximos uns dos outros. Os ciclos têm tendência a rolar cada vez mais, e mais depressa. E isto porque, cada vez que temos um pico de miséria ficamos com mais pobres, mais indefesos, o que me leva a pensar (sim, não se espantem, os pobres também pensam), que a solução reside em conseguirmos, ao mesmo tempo que travamos o deficit, estruturar e levantar a economia ao ponto de se conseguir produzir mais do que se consome, independentemente do que pensem os chamados “países amigos do peito,” ou da onça, como quiserem. E como vamos conseguir isto? Aumentando os transportes e impossibilitando os nossos jovens desempregados, alguns licenciados, de se deslocarem onde necessário em busca de emprego, isto num país onde os empregos de qualidade praticamente não existem no interior, nem mesmo em determinadas periferias, por exemplo, da capital? Lembro-lhes, para termo de comparação, que em determinado país nosso parceiro comunitário, cujo nome não vou citar por ser demasiado óbvio, os desempregados NÃO PAGAM NOS TRANSPORTES PUBLICOS. Esse país concorda plenamente que em Portugal os transportes, não apenas subam o preço dos bilhetes, e que também se eliminem carreiras. (Andamos metidos com boa gente, não tenhamos duvida). Então, temos de eliminar esta via do aumento dos transportes como uma solução eficaz porque paralisa o país, e se o governo, sensibilizado pelo sofrimento dos pobrezinhos, pensa resolver o caso pela via do IRS, que se lembre atempadamente do tal dirigente desportivo, um presidente de um dos grandes clubes da capital, que pagava os mínimos de IRS, embora se desloca-se em carros de luxo e tivesse os filhos nos mais caros e luxuosos colégios…
Pela via da redução das comparticipações dos medicamentos, ou do corte nas prestações de reforma, também não. Isso é, pura e simplesmente, roubar. Pessoalmente, eu trabalhei cinquenta e um anos, exerci uma profissão técnica de desgaste, com vinte e duas dioptrias em um dos olhos, (para que tenham um termo de comparação a cegueira são cerca de trinta dioptrias), e na outra vista a visão é praticamente zero. Logo, por via da redução das reformas e do corte das comparticipações dos medicamentos sem contrapartidas de genéricos, quem o fizer, mais do que total ausência de moral, acima de tudo é gente não grata!
Então como proceder? A verdade é que é humanamente impossível continuar a viver nestes sobressaltos de escravatura. Assim, como sair da crise? É simples, com dinheiro! Não entrou dinheiro a “rodos” neste país, dinheiro esse que é agora aplicado aos milhões nos paraísos fiscais? Então, nada mais simples e fácil do que aplica-lo da maneira correcta. E se o governo da Nação não pode tocar-lhes com um dedo, por causa das normas legais, uma ASSOCIAÇÃO DE CIDADÃOS INDIGNADOS pode.
Não se trata de bater na polícia, organizar manifestações convocadas pelo telemóvel ou pelo facebook. Nada disso. Trata-se de cidadãos (a exemplo do que sucedeu pelo mundo em relação aos criminosos nazis), fartos, patriotas, responsáveis, que investiguem certas vidas de endinheirados e os levem à barra do tribunal.

Deixe um comentário

 


 

Estão já longe os dias de sol, de praia e mar a perder de vista, quando os nossos passos e os nossos risos se partilham com os amigos.Os laços que se ataram, nem o Outono os desata, mesmo quando se começa a adivinhar o frio e as folhas a tombarem das árvores.Ficam saudades, memórias e mesmo novos começos, nessa sensação adiada da vida que se fecha lá fora.Tornaram-se às rotinas de velocidade, aos papéis brancos ou amarelecidos, ao caminhar diário e periférico que responde ao compassar de um relógio que nos impele sempre para diante.Reencontrar quem também nos deixou saudades e que partilha oito horas diárias de risos ou angústias. Descobrimos tudo igual e diferente, a tristeza dos que vão, a alegria dos que ficam, o olhar posto na esperança da vida que muda sem o notarmos.Depois de enchermos a alma de azul, de tanto mar, do carinho daqueles que amamos, sabe bem tornar às rotinas, sentir os dias que se tornam pequenos e tirar das gavetas a roupa de inverno.Mais um passo em frente. Para o ano estaremos todos juntos outra vez, a rir, a conversar, em dez quilómetros de praia cuja memória ficará sempre, sem medida.

 
 
Ana Brilha
Publicado em por Intermitências da escrita | Deixe um comentário

HISTÓRIAS DE PESSOAS QUE DECIDI DIVULGAR

Excertos da História Nº 9

O Padre C. é natural de uma aldeia no Norte de Portugal, onde vive com a tia A.
Antes, morava na casa da mãe, que era uma pessoa que trabalhava arduamente na pequena herdade de onde provinham os produtos básicos para a sua alimentação e alguns para venda na feira que se realizava todas as semanas. Um dia, indo… a mãe no seu burrito, com dois cântaros de barro buscar água à fonte, o animal escorregou e ela, desgraçadamente, caiu e aconteceu o pior. Paz à sua alminha! (…) Nas paredes do quarto do Padre C. estão colados “posters” de várias “santas”, algumas das quais ainda não canonizadas, tais como a Santa Elísia das Mioleiras, que morreu depois de ter ingerido mioleira de cabrito fora do prazo de validade, a “Santa” Ermenegilda Arremelgada e a “Santa” Otília Pasmadiça, que foram raptadas por seres “extraterrestres”. (…) O Padre C. gosta de ajudar as jovens “santinhas” em começo de carreira (…) Ele é o dinamizador do CRSM – “Centro de Recrutamento de Santinhas Milagreiras” (…)
 
José Eduardo Taveira
 
 
Deixe um comentário

Comentário a “Retratos Dispersos” de Diogo F. P. D. Ferreira

Como “trave mestra” da escrita é na verdade assim. Sem dúvidas, sem argumentos. Contudo, não se pode ignorar que falamos de uma actividade que, a par dos vários saberes da Ciência, se debruça sobre o ser mais complexo, mais estranho, que habita este Planeta: o Homem, e, em particular do Homem Escritor, peça rara e difícil de encontrar hoje em dia. Como disse João Lobo Antunes, em todo o mundo, por este conturbado tempo, talvez que se encontrem aí uns meros cinco escritores, daqueles que merecem um E grande e um “Muito obrigado, Mestre.” E porquê? Pergunta difícil esta! Talvez porque o escritor, (a exemplo de os outros seres humanos), na vida, passe por três estágios bem demarcados: Principio, Meio e Fim. No Principio, o escritor descobre-se a si próprio, como Homem e, principalmente, como Homem Social. È por essa altura que se encontra como principiante a escritor, por ser gente que se preocupa com os outros, que os escalpeliza com o estilete do seu raciocínio, que os classifica na medida do possível. O escritor jovem não passa de uma frágil flor que espreita o Sol a medo. Depois vai para o mundo. Na verdade não são as universidades que fazem os escritores, (embora ajudem), são as experiências da vida, os baldões da sorte, o sortilégio do sonho que esbarra na vileza do seu quotidiano. A dona Natália Correia dizia, falando de poetas: Fazem-se na fome da vida; que comam pastéis de bacalhau com copos de vinho pelas tascas de Lisboa; que trabalhem à jorna, que passem frio calcorreando as nossas ruas, que escrevam versos em guardanapos de papel, que corram os jornais a mendigar a publicação de um conto, uma crónica, um artigo. É indubitavelmente as experiências da juventude que marcam quem escreve. Vejam como as crónicas de Baptista Bastos são o reflexo da sua vida.
Mas, quando não existem jornais onde publicar contos, crónicas ou artigos, quando os críticos já não lêem, quando não andam por aí Editores em busca de talentos, quando as Editoras se venderam ao estrangeiro, quiçá ao desbarato, enfim, quando as novas gentes, ou não lêem, nem jornais, ou não trazem nos bolsos dinheiro que chegue para os livros, quando um copo de cerveja tomado num bar ou num parque permite a um miúdo de treze anos engatar e engravidar uma miúda da mesma idade, quando, por fim, já não somos mais do que uma sombra de nós, para que queremos continuar a ser gente?
Afinal não passamos de marionetas articuladas por cordas puxadas pelos novos donos do Mundo…

Deixe um comentário

O lar dos elfos ( de Danilo Pereira )

 

Os elfos eram uma raça que se diferenciava das demais existentes em Midgard. Eles eram imortai e queriam apenas viver em paz entre si. Os humanos, divididos em várias classes, rejeitavam–nos, pois pensavam que aqueles seres de orelhas ponteagudas fossem apenas meros arqueiros que usavam as suas habilidades para caçar e sobreviver naquelas florestas. Mas nem todos pensavam assim. Wolfgang conhecia bem a tradição dos elfos e sabia que aquela raça era muito poderosa, e que Freya os tinha ensinado nas artes da magia. Ele pouco sabia sobre isso. A sua origem era Aesir e estava ligada ao combate, à guerra, ao aço e aos poderosos Deuses que balançavam a terra. O respeito que ele tinha por Freya era imenso. Era inimaginável, pois a rainha dos Vanir estava a guiá-lo até junto de Odin e Tyr. Então ele sentiu-se em casa ao pisar solo élfico.

O lar daquelas criaturas místicas era fantástico. Aquela cidade mais parecia um conto de fadas. Aurehen tinha-os finalmente levado até Valelfa, a cidade imortal, onde Wolfgang ficou encantado ao entrar por aquela magnífica e obscura floresta. O lugar era belo, grandioso, repleto de monumentos e casas construídas sobre gigantescas árvores que os tinham seus largos troncos entrelaçados por escadarias em espiral, que levavam até aos…

 

Obra, Wolfgang, o guerreiro nordico.

Deixe um comentário

A poesia é apenas perfume…

A poesia é apenas perfume
Exalado das palavras mudas
De um coração que se padece enfermo
Da palavra amor
Que se morre, morrendo
Beijando a dor

José Guerra (2011)

Deixe um comentário

HISTÓRIAS DE PESSOAS QUE DECIDI DIVULGAR

 
 
José Eduardo Taveira
 
Excertos da História Nº2
A. B., antropólogo, tem no seu arquivo centenas de frases que ouve e escreve para memória futura. Muitas delas mal construídas com dívida à gramática, algumas incluindo expressões injuriosas, proferidas por quem julga ser moderno, original e importante e que revelam o desrespeito por quem trabalha honestamente; (…) que abandonam os mais velhos considerando-os socialmente excedentários; que ignoram os verdadeiros carecidos de pão e de afectos. São os “yuppies” e os frustrados da economia, da justiça, da cultura, da política, da comunicação social, que desprezam tudo o que tenha a ver com a ética, o conhecimento e o carácter. (…) Mas o seu grande orgulho é o espólio do convívio com gente simples, que sente, por vezes, uma timidez inexplicável perante ela. Histórias contadas com fluência de uma cultura herdada de pais e avós, orgulhosa da sua história e das suas memórias. (…) Falam da solidariedade desinteressada para com os vizinhos doentes e necessitados de ajuda; da reverência pelos rituais ancestrais em períodos de festa e meditação. O sentimento profundo da vida em comunidade.
Publicado em Opiniões, testemunhos | 2 comentários