Extraído do romance: A Menina dos Olhos Tristes ( em preparação)

Já mordeu um! E João Boa Brisa corre para a cana, presa e fixada no descanso, à ré da fragata. Demorou tempo mas temos peixe! Retira a cana do suporte e começa a enrolar o fio no carreto. O fio retesa-se, mas vem, entre pequenos esticões, modestos, feitos de peixe pequeno, que resiste, luta. Fora de água ainda não se entrega. É faneca! Exclama João. Peixe que come de tudo, que anda à cata de babugem mesmo perto dos esgotos. Peixe sujo. Pudera, a esta distância da barra e como a água do rio está, o peixe de águas limpas não se aventura. Foge. Distantes vão os tempos em que as tainhas saltavam das águas, vaidosas dos seus corpos prateados, luzidios, e até camarão havia, e gostoso, grado, bonito de se ver, e os golfinhos se mostravam aos pares, como namorados, e as gaivotas vinham de cima, em voos e grasnidos, a saber do peixe; havia que chegava para todos, e em abundância. Com a melhoria da qualidade das águas as coisas estão melhorando, não fora as toneladas de mercúrio depositadas no leito do estuário do rio e tudo caminhava para melhor. Mais para cima, – diz João, – para os lados de Santa Apolónia, talvez que mordesse uma corvina, das gradas, com tamanho que dá para uma casa de família, mas aqui não, já estamos afastados das reservas do rio, para os lados de Alcochete. Poucas cidades se podem orgulhar de ter às portas reservas tão ricas, com linguados e robalos. Este rio ainda tem lampreia e sevelha; e o pescado vai até Constância. O que seria séculos atrás, com a cidade mais pequena e sem poluição. Que riqueza, de fome não morreriam os homens dessa época, não fora os senhores da terra marcarem o seu espaço, como os predadores nas selvas. Aqui ninguém pesca. É espaço que liga à minha propriedade. Este pedaço do rio tem dono, sou eu, por direito de sangue e favores do rei nosso senhor, que o deu ao meu trisavô, como paga pelos feitos de guerra, que levou os favores da caridade cristã aos gentios, e esse feito ficou para mim, que nada fiz, e para os meus filhos que nada vão fazer, porque não têm necessidade, tiveram um tetravô guerreiro.
Para os lados da cidade uma névoa dessas que chegam no tempo quente, ainda deixa ver um lusco-fusco de rastos de ouro que fogem para os lados do ocaso. No céu uma lua cheia já ganha imagem sólida em tecido que vai escurecendo. João põe mais isco no anzol. Atira-o para longe.
A água é como uma mãe que agita o berço de madeira onde descansa o filho. João prendeu a cana no suporte e voltou para a proa. Jantou. Está uma noite quente sob um céu de estrelas que vão aparecendo, a rasgar um azul ainda lívido, onde a Lua cheia tenta derrotar um Sol teimoso, que agarra e não larga todo o céu, no seu abraço feito de infinitos tempos. Ao longe um motor se denuncia em roncos cansados de barco velho. Vem subindo o rio. Agora se vê, o rasto de fumo negro que suja o céu. É como uma tosse de homem velho que expele de si as dores da vida que já farta. João senta-se no travessão de madeira que corre de proa à ré e onde os homens se firmam de pés descalços, quando o vento falta, e a água é pouco funda, a cravar a vara que se empurra de ombros e braços para trás, para o barco avançar. Parece que se vêem, um a estibordo e outro a bombordo, com vozes firmes a marcar o compasso da força. Ó é, ó é! E da ré voltam à proa, centenas de metros de rio, uma vida toda, sem lamúrias, sem queixas, que a vida é o que é, nem boa nem má, somos o que aprendemos a ser, fizeram de nós o que somos, não sabemos ser outra coisa, é impedimento ser o que não se sabe, o que nunca se viu, o que para nós não existe. A traineira vem da barra e é como se o rio não fosse plano, mas sim inclinado e escorregadio, por isso o seu grande esforço. Entre a pequena cabine e a proa um homem de barrete escuro, como sentinela, a ver as margens. Gente de Alcochete, murmura João, e ergue a mão quando o outro lhe acena, coisa de gente do mar que cumprimenta o camarada quando o encontra, solitário, sobre o afago das águas. Do norte Lisboa parece que sorri para a traineira que morre aos poucos a subir o rio. Do sul a proa da Menina dos Olhos Tristes é como se lhe lançasse um olhar de bom agoiro, em jeito de amizade entre barcos.
João inclina-se sobre o tampo do caixote que lhe serve de mesa, e escolhe o melhor ângulo para ler, à luz do petromax, como faz todas as noites. Do seu lado esquerdo vem um ruído, ligeiro, leve, mais brisa que se agita na calmaria daquele rio, hoje de bons humores, que o levam a gostar dos homens. É Gabriela Amor Perfeito, de cabelos de negro azeviche, soltos, caídos em desalinho, quietos, parados pelos ombros, porque não corre brisa. Afadiga-se no asseio da fragata, descalça, de sorriso posto nos lábios carmesins, a mostrar a alegria que lhe ilumina a face, os olhos negros que se misturam com a noite, não fora o Lampião que é aquela Lua que parece tão baixa que apetece saltar e agarrá-la, e os olhos de Gabriela mais se viam, com todo o seu brilho, e assim mais não seriam que estrelas que brincam, travessas, naquele plano azul agora forte.
João Boa Brisa começa a ler, em tom pausado e nítido. Gabriela senta-se no outro lado e apoia a cabeça nas mãos, escuta. Mais à frente, as linhas de Lisboa aparecem no silêncio do tempo, as suas muralhas que se sucedem, em fileira, o derrame da luz difusa dos candeeiros, os becos, de janelas onde o orvalho se vai infiltrando nas plantas, nas flores que se aninham na terra preta dos vasos, e se fecham para passar a noite. É como se João lê-se para todos. Para Gabriela, para Lisboa, para as muralhas, os becos, os vasos onde as flores adormecem a escutar a sua voz, aquele céu e aquela Lua, as estrelas às quais os olhos de Gabriela se uniram e aninharam, o mundo, e o rio, aquele grande rio, de águas agora vestidas de negro, brilhantes por via do reflexo da claridade que vem da Lua, onde os olhos dos homens se enchem de água quando os navios zarpam, e resplandecem quando voltam…

Por quanto tempo João leu, o que disse, os juízos que teceu, ou terá adormecido, ou está neste instante sonhando, ou já acordou, em sobressalto, com o som pequeno daquela voz de criança que escutou, ténue, quase sussurro, murmúrio, talvez queixume. Do outro lado da fragata Gabriela continua ali, na mesma posição, cabeça apoiada nas mãos, expressão terna. Não foi Gabriela quem falou, porque ela nunca fala com voz de criança, o céu contínua mudo, como sempre, em noites de calmaria como nas outras, as estrelas só guardam os segredos dos sonhos dos homens, ou lhes ditam os destinos, como dizem, “está escrito nas estrelas” Que não será só um boato, alguma verdade terá, alguém por lá encontrou o destino, ou lho apontaram, Vê, ali, daquele lado, o pontinho luminoso que mal se distingue; está o teu destino escrito por Deus no brilho daquela estrela, que é um mistério como Ele o faz, assim tão perfeitinho, e que se vai cumprir, tu verás, por muito que esperes nunca desesperes. Mas as estrelas não falaram, que nunca falam, só servem para guardar destinos e mostrar como o Universo se veste, quando não se cobre de nuvens nas noites frias, e se acoita nos sonhos que guarda dos homens, para esquecer as mágoas de eternamente sentir o sofrer do mundo. João está desperto. No seio da noite se prolonga a calmaria, e Gabriela Amor Perfeito ali continua, de sorriso travesso e bem-disposta, não se pôs a caminho lá para onde costuma ir, que não lhe responde quando lho pergunta, quando o vê assim, desperto, sem aquele estado febril que o atormenta por uma vida longa; nessas alturas ela vai a caminhar sobre as águas, e nunca olha para trás, para ele, para o barco, e ele também nada lhe diz, guarda-lhe o respeito que lhe deve por nunca o abandonar.
Em redor dele apenas a noite e a água de reflexos suaves, a mostrarem ternura, como se o rio fosse gente. Mais distantes as luzes difusas da cidade, de um lado, para o norte, que para o sul a mancha imprecisa da terra, nua de montanhas, vai dormitando a sono solto, e na quietude do sono se ajeita nos braços do rio, e se beijam, num amplexo de volúpia.
– Pai, sou eu!
João erguesse e apoia-se no mastro. Está desperto, perplexo e irritantemente lúcido. Ao seu redor fica a noite, a imagem muda da mulher, a fragata com as luzes de presença acesas no topo do mastro.
– Filha Gabriela?
– Não, pai. A minha irmã morreu. Eu sou a outra, que tu também fizeste, por tanto tempo. Anos, noites de serão e de amor, lembras-te, a tua Menina.
– Menina?
– Sim. A Menina dos Olhos Tristes!
João sente um frémito gélido a correr-lhe o corpo. É coisa de espanto, senão de medo, aquela de uma fragata falar, mas também é coisa estranha viver com a presença de quem se diz que já não está entre nós, e Gabriela está ali, tão perto que lhe podia sentir a respiração, o cheiro, o hálito. E é tão estranho como estar vivo entre os vivos, mas estar só como se estivéssemos mortos. Se pensarmos bem é o que nos acontece a todos, de uma maneira ou de outra, o mundo que nos rodeia e com o qual interagimos é o mundo dos outros, a nós cabe-nos o papel de o vermos de dentro para fora e de fazermos dele real. Na verdade a nossa única realidade somos nós. João levanta-se. Olha e vê Gabriela já longe, a deslizar pelas águas, e desta vez não se volta, afasta-se e perde-se a pouco e pouco, na claridade da luminosa noite. Apoia-se no mastro. Volta a sentar-se. Se susto teve, é de alegria que agora se sente. É um homem novo porque não está só, tem uma relação directa com a vida, mesmo que de uma ligação material se trate. Quanto não dariam, (se dinheiro tivessem), os velhos deste mundo moderno, feito de supostas igualdades, se um familiar, um amigo, um confidente, dispensasse algum tempo de conversa, mesmo que barco fosse, fragata ou não, que para tagarelar um pouco só os ricos dispõem de gente, e porque podem pagar. Nem no fim da linha da vida existe uma réstia de igualdade entre os homens. Os que nada têm morrem mudos e quedos, depois de uma vida passada a darem até à saciedade o pouco que vão conseguindo, e no fim, quando o inevitável medo chega, se querem dizer um simples e modesto adeus, é para si que devem falar. São como heróicos combatentes a morrerem entre os inimigos, no campo de bravatas que é a guerra.

Sobre jsola02

quando me disseram que tinha de escrever uma apresentação, logo falar sobre mim, a coisa ficou feia. Falar sobre mim para dizer o quê? Que gosto de escrever, (dá-me paz, fico mais gente), que escrever é como respirar, comer ou dormir, é sinal que estou vivo e desperto? Mas a quem pode interessar saber coisas sobre um ilustre desconhecido? Qual é o interesse de conhecer uma vida igual a tantas outras, de um individuo, filho de uma família paupérrima, que nasceu para escrever, que aos catorze anos procurou um editor, que depois, muito mais tarde, publicou contos nos jornais diários da capital, entrevistas e pequenos artigos, que passou por todo o tipo de trabalho, como operário, como chefe de departamento técnico, e que, reformado, para continuar útil e activo, aos setenta anos recomeçou a escrever como se exercesse uma nova profissão. Parece-me que é pouco relevante. Mas, como escrever é exercer uma profissão tão útil como qualquer outra, desde que seja exercida com a honestidade de se dizer aquilo que se pensa, (penso que não há trabalhos superiores ou trabalhos inferiores, todos contribuem para o progresso e o bem estar do mundo), vou aceitar o desafio de me expor. Ficarei feliz se conseguir contribuir para que as pessoas pensem mais; ficarei feliz se me disserem o que pensam do que escrevo… José Solá
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