Extraído de “As Agruras do Mal” por publicar

Carminho da Silva e Maria Luísa não sendo da mesma idade, – Carminho tinha mais perto de cinco anos, – por mero acaso eram do mesmo mês e dia, e tinham saído ao mesmo tempo e na mesma hora. A Maria Luísa perdida de amores por um magala do quartel da Graça, bom moço, e impedido do capitão, lá conseguiu por essa via emprego numa pequena fábrica de corte e prensagem de chaparia para vários fins.
Mas ela, Helena Carmo da Silva, a quem tratavam por Carminho, como não tivera magala bom que lhe valesse, acabou na vida chamada fácil.
A Maria Luísa por força do hábito, duas vezes por minuto puxava o travão da prensa, acabou andando pelas ruas com o tique de fazer gestos com a mão direita que mais pareciam pequenos manguitos, e esse tique valeu-lhe a alcunha de levanta vergas. A ela, Carminho, chamavam-lhe simplesmente a puta…
Mas pouco temos falado da Maria Luísa. Assim como a Carminho também era filha de pai incógnito, a bem dizer igualmente o era de mãe. Não tinha recordações algumas da infância. Diziam-lhe as madres que seria de origem espanhola, pois a única coisa que existia na alcofa onde a encontraram, deixada que havia sido à porta do asilo por alguém que tocou o badalo já alta ia a noite, e por isso tocou três vezes a curtos intervalos, e depois, quando escutou as pesadas trancas a rangerem e a chave a começar a dar as voltas, terá fugido em correria desenfreada, pernas para que vos quero, que ainda o vulto viu na volta da esquina, a senhora madre abadessa, que às pressas se metera no hábito, sem cordões e com o hábito atrás sem ter caído todo, parte preso na cintura, por tal modo que mostrava uma das pernas até à dobra do joelho. Na alcofa, ela, claro, berrando como alma penada a quem haviam negado as portas do céu abertas, nua por baixo de um pedaço de manta velha e aquele bilhete. O bilhete, depois de uma lamúria sobre a vida arrematava por fim dizendo: um dia virei por ela.
E assim Maria Luísa Aparecida, Maria Luísa da parte da madre abadessa que a viu primeiro, Aparecida por via do santo nome da virgem, que lhe podia ter calhado das Aflições, dos Mártires, das Chagas de Cristo, ou da divina virtude, – não sabemos se em algum lugar da terra foi atribuído este nome á Santa Virgem, – mas encontrada, por ser nome mais apropriado mas pouco cristão não vingou, Aparecida sim.
O padre Francisco, capelão que dizia a missa todos os dias na igreja do asilo por volta das seis, ainda o Sol estava todo para lá, homem entendido naquelas coisas dos bilhetes, conhecedor do país ao lado, dizia que lhe parecia tratar-se de um escrito típico da linguagem andaluza. Não se sabe porque não lhe chamaram Maria Luísa Aparecida Andaluza, o que sempre iria escamotear ou esconder um pouco a falta de apelido do pai, pelo menos até à verificação do bilhete de identidade. Seria como que Aparecida por parte da mãe e Andaluza por parte do pai. Mas não. Maria Luísa Aparecida ficou até que um dia se finasse.
E Maria Luísa ficou sem o auxílio do seu magala bondoso quando ele terminou as sortes no quartel da Graça. Um dia virei a buscar-te. Agora devo voltar à terra a ver dos meus pais e das coisas que virão a ser minhas por herança. A terra, a vaca leiteira, o cavalo ruço, o arado, as árvores de fruto, as oliveiras, os porcos, a criação, a casa e até o cão. Juras que vens por mim? Juro. Vamos ter a nossa casinha no campo e vamos ser muito felizes. Até esse dia tens o teu emprego, e se tiveres problemas deixo-te a morada e o número de telefone do meu capitão. Fala com a senhora dele que ela protege-te! Mas juras que me vens a buscar? Claro que sim, tontinha, não te esqueças de que foste minha pela tua primeira vez…
E lá se foi, o bom do Arnaldo, por certo que cheio de boas intenções, a caminho da Beira Baixa no comboio saído de Santa Apolónia, a ver da família e do cão e da restante parte que seria a herança.
Ora, juras são juras, e as de amor, tal como as outras, são palavras e às palavras leva-as o vento.
Assim passaram os dias e os meses, os anos, o que para quem sofre males de amor é osso difícil de roer.
A Maria Luísa Aparecida ficava-lhe o consolo de ter a Carminho por amiga e confidente, e por isso vinha da rua da Rosa, no Bairro Alto, do quartito onde morava que ficava perto do trabalho, àquele lugar estafado, se dispunha aos dichotes dos homens que procuravam mulheres fáceis, e aos seus convites nojentos. Tu quanto levas? E porque a resposta não vinha, quando ela apressava o passo, A gaja é puta fina. Nem diz o preço!
Ver a Carminho ali, a ficar mais velha de dia para dia, sem sombra do sorriso gaiato de outros tempos, os tempos travessos em que se escondiam das freiras para brincarem às mamas com as marafonas que faziam ás escondidas, com os restos dos tecidos que conseguiam surripiar da aula de costura, era um dó de alma e um grito por misericórdia, divina ou não. Aqui del rei que me tiram deste mundo!
E o pedido de socorro caía no saco roto do vazio. Do não divino não vinha socorro. As pessoas desta terra não se socorrem umas às outras, antes se apedrejam. Do divino, bom, Deus nosso senhor em virtude da idade já não ouve muito bem e os anjos andam muito distraídos…
Maria Luísa uma vitória conseguiu. Com a senhora da casa de passe onde a sua amiga pernoitava e utilizava momentaneamente várias vezes ao dia convenceram Carminho a pôr a milhas o Alfredo chulo. Houve ameaças, mas a importância e a influência no meio da senhora da casa levaram a que todas caíssem nas chamadas águas de bacalhau. A ideia era que ambas juntassem o dinheiro suficiente para viverem juntas em casa própria.
E assim, naquela Lisboa, mulher bela deitada de costas ao longo do rio onde pelas manhãs se banha, olhos esverdeados umas vezes, outras cinzentos ou castanhos, por vezes mesmo pretos, mercê da luminosidade que espanta quem pela primeira vez a vê, naquele pedaço da cidade do país que já foi império, da babel daquelas casas amontoadas a esmo segundo o capricho das gentes que as construíram, com o ventre rasgado pelos sulcos que são as ruelas, as vielas e as escadinhas, onde não se dorme dia e noite por via de tantas gentes vindas de outras terras, negros de sangue quente e escuros como o pau-santo, outros cor de ébano por serem um pouco mais claros, chineses e paquistaneses, indianos, romenos e ucranianos, ateus, hereges por chalacearem dos crentes, islamistas e cristãos, adoradores de Vichi ou tibetanos, sérios e honrados, ladrões e chulos, de tudo havia menos portugueses.
Há quem se afoite a lá entrar, porque sair é incerto, e uns vêm dizer que a imundice e o lixo ultrapassa o crível, à quem se injecte na rua, quem defeque nas escadinhas, quem grite por não saber falar baixo ou para se fazer ouvir. Há de tudo. Benza Deus a globalização que engrandece esta pátria e os que a crêem como sacrossanta, mas nunca visitam tais lugares…

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Orlando Nesperal As Virtudes da Mente

Certamente que todos nós, aqueles que gostam de escrever, seguem uma linha de pensamento a qual dizemos que é a minha, ou temos a capacidade de ser mais abrangentes e diversificar os temas.  Neste contexto, e no caso concreto o livro As Virtudes da Mente, passou a ser a minha palavra de ordem nestes dias,  primeiro por ser o meu primeiro livro editado, ao qual investi,  tempo de vida para o poder tornar público.

Mas  porque este titulo e este conteúdo? O titulo  é vulgaríssimo, quanto as temas, e ao falar deles com os possíveis leitores, a quem divulgo a minha obra, todos são parentórios em afirmar; “confesso que até tenho algum receio em falar sobre estes assuntos”,  …mas porquê? … pela polémica que pode gerar, e ser mal entendido. Estou pensativo e fico preocupado, como vai o interior dos portugueses, sobretudo o mais comum cidadão.

Ao  acabar de  o escrever, outros pensamentos me ocorreram em mente, para uma melhor compreensão deste livro. Certamente que todos estamos a ser invadidos com publicidade a oferecer formação profissional, a qual entendo como louvável e desejável. Mas  a questão que coloco, é se em verdade estas pessoas não estejam mais a precisar; isso sim, de uma achega de conhecimento  sobe um plano de motivação pessoal e de um esclarecimento sobre a emoção. Estarmos a ensinar como fazer, e a nossa mente ainda não estar preparada para receber essa formação.

Para podermos ter bons trabalhadores, com qualidades e performances, acima da média, temos que ter primeiro seres humanos, que se conheçam, um pouco mais de si próprios e coloquem a si, grandes metas na vida. Como neste momento não é difícil dizer, que cada trabalhador é um numero, e esse numero terá que responder a uma quantidade e essa quantidade é quanto vales.

Bem sei que estou a chegar pela porta traseira, ou simplesmente a querer passar pelo buraco da agulha,  … não vou estar em momento algum arrependido por me colocar nesta vanguarda, mas começo a sentir o peso da minha liberdade, infelizmente já me disseram : …agora que a maioria dos teus amigos já estão na reforma, tu acordas  fazendo do novo dia, um dia novo!

A felicidade é o caminho que nos propomos, … neste sentido sou um Homem feliz!

Orlando Nesperal

 

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Nos teus cabelos…

Mergulho nos teus cabelos
descubro os dias que não tive
arranco-te o perfume em silêncio
com o desejo de um beijo
que se percorre cego

José Guerra (2011)

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EXTRAIDO DO TEXTO DO ROMANCE GANÂNCIA

O turismo veio de maré cheia a arrastar consigo uma vida incomportável nos custos, que se foi infiltrando de norte a sul, cidade a cidade, vila a vila, aldeia a aldeia, praia a praia, e as pessoas na verdade habituaram-se sim a passar de largo, a ver a felicidade de brilho posto nos rostos dos de fora. O povo do país de Tal passou a ser de gente que já nem quer ser feliz, apenas pede que a deixem viver. E para viver vale tudo, sem regras, sem princípios, sem morais. O povo afunda-se no lamaçal do “Sim senhor” dito pelos seus governantes a tudo o que lhes mandam fazer os governos de fora. O país deixou de ser uma terra específica, com realidades inerentes ao seu jeito de ser, às suas particularidades, aos hábitos característicos do seu modo de vida. A independência esfuma-se com as dívidas que sobem, e é exactamente quando os juros da dívida externa se aconchegam na multiplicação sem limites, que um presumível salvador arregimenta no seu cérebro conceitos e princípios que diz servirem na perfeição para a solução de todos os males, todas as maleitas que minam por dentro a vida da sociedade que se desmorona. E se, de país, passássemos a uma confederação de sítios ligados por uma língua comum? Como assim, perguntam os angustiados políticos honestos que restam, (poucos, contam-se pelos dedos de uma mão), o povo acomodado pelas ruas, os muito poucos industriais honestos que já não aguentam pagar mais impostos, (tão poucos que temos de percorrer as ruas de candeia acesa em pleno dia para os descobrir). É simples, – diz o mais recente salvador da pátria, – auto-dividimo-nos em talhões e vendemo-nos aos países de quem somos devedores. Desta maneira saldamos a cem por cento o nosso monstruoso défice, e o que sobra, (sim, porque um país – maravilha como o nosso vale bom dinheiro), vai permitir que continuemos este nosso viver. Então e depois? Perguntam os políticos, o povo, os poucos industriais, todos os que restam de gente séria. Depois?! Bom, deixem-me pensar, dêem-me tempo! Não sou uma máquina de produzir ideias brilhantes! Sou uma simples e modesta pessoa que se considera esperta! E o nosso homem das ideias pensou, pensou, e depois de passado algum tempo, disse: Depois temos duas soluções que me parecem bastante viáveis! Ou nos continuamos a subdividir, – o que me parece o mais conveniente, – ou imigramos e por essa forma voltamos a dar novos mundos ao mundo. De qualquer modo o que mais interessa é que a nossa raça continue, e isso está largamente assegurado, desde que continuemos a dispor de gente com ideias, assim como eu. Os políticos honestos, o povo, os poucos industriais bons, olharam uns para os outros, franziram as testas e começaram a pensar, até que um importante politico, (um homem ligado às finanças e ao governo, não dos de quem acima se falou), disse, como se apenas para si falasse: bom, na verdade tem de se começar por algum lado, e porque não esse? E para implementarmos essa ideia o que é preciso fazer? Quis saber o povo. O nosso politico pensou novamente e disse: Primeiro é preciso votar para aprovar a ideia, (não nos podemos esquecer que somos uma democracia), depois, bem, depois, o governo em vigor deve de propor que alguém se responsabilize em formar uma comissão que irá elaborar os estudos necessários para tornar exequível a divisão do país em talhões! Outra comissão? Interpelaram-se as gentes do povo em surdina. Então, – diziam uns, – eles lá sabem, não foram eles que estudaram? Não são eles que têm os livros? Só nos faltava agora, depois de tanto termos descontado para a educação, que fossemos nós, os iletrados, os burros, a termos de tomar uma decisão…
De diz que não diz e torna a dizer, foi o dia passando, entre as modorras malandras do sol quente do país de Tal, refinado de cheiros de maresias ou de pólen de flores, ou de encharcados bafos de pinhal a descerem das terras altas. Veio a noite. Todos foram para casa, (todos quer dizer, todos os que ainda tinham casa), confortados com a ideia passada pelo ministro que aquela comissão ia a cumprir com todos os objectivos que lhe fossem mandados fazer…
Veio a manhã do dia seguinte, uma manhã de névoas profundas como se finalmente o dom Sebastião acabasse de desembarcar nas praias da quimera, uma manhã às avessas do dia anterior, solarengo que fora, quente de sobra para satisfazer os corpos, para permitir uma noite descansada a todos quantos dormem na rua. Se el rei dom Sebastião havia desembarcado ou não, ninguém sabia. Por um lado porque a madrugada ainda era uma menina de olhos fechados ligada ao cordão umbilical da mãe terra, por outro, o povo não vive de coisas concretas, vive de subterfúgios, de um viver de faz de conta, de pensar um dia de cada vez, o que virá depois se verá. E se o dom Sebastião chegou, bom, ele que venha por bem se trouxer dinheiro vivo; haverá alegria nas praças, o povo vai cantar e rir, o governo vai dar um profundo suspiro de alívio porque se quebrou o enguiço, finalmente alguém que chegou com dinheiro!
Com o avançar da madrugada, que de nevoenta e gélida se foi tornando mais amiga, um rasgos feitos lá por cima, entre as nuvens, como se um amigo tivesse soprado um sopro quente das alturas, umas nesgas de azul mostraram uns medrosos fios aloirados a largar luz; para quem sonhou com o regresso do rei, ao erguer-se da cama e espreitar às vidraças embaciadas da janela, não foi preciso pôr um pé na rua para saber que o jovem monarca não tinha chegado. Ele nunca vem quando a visibilidade é, pelo menos razoável, para não dizer boa; então, se o rei dom Sebastião não chegou com uma saca cheia de moedas de oiro, roubado aos sarracenos infiéis, o país não está a salvo das injustiças feitas pelos outros, os de fora. Estamos na mesma, como ontem, no dia anterior, nos anos passados, nos muitos séculos que já se foram. Pobres de nós, gente simples do povo, ou rufias do polvo em que o poder se tornou. (Também que condição aquela, de só chegar numa manhã de denso nevoeiro…)
NÃO SENDO ADIVINHO…
Sobre este pequeno texto do romance Ganância (livro pouco divulgado e menos lido, porque as pessoas gostam de se sentirem importantes e nunca por nunca se espreitam no espelho da alma), temos uma visão nada poética sobre o nosso futuro.
Os talhões em que nos dividimos para facilitar a auto-venda não são, – como é evidente, – os quintais ou as hortas de um qualquer senhor António com gosto esmerado pela agricultura, são antes pedaços desta Pátria velha de séculos, construídos com esforço e engenho. São a TAP, os Estaleiros Navais de Viana do Castelo, a EDP, as Águas de Portugal, a Carris, o Metropolitano, a Transtejo, a CP, e tudo o mais que os “calhordas” a quem damos o nome de políticos e de Governo entendam que vale a pena vender porque lhes traz lucro. Portugal é apenas uma modesta feira da Ladra propriedade de gente sem escrúpulos, medíocres, e tudo nos diz que também desonestos. A verdade é que todos estes talhões já dispõem de compradores. É isto a grande Europa, terra de civilização e de cultura. Mas, – pergunto, – será que a Europa tem a obrigação de respeitar e auxiliar um País que vendeu ao desbarato todos os seus meios de produção? Pessoalmente, digo:”É evidente que não!”. Antes vendemos mulheres e homens para construírem a terra dos outros, e com o envio de divisas externas permitirem a continuidade da ditadura, hoje vendemos pedaços do chão que nos devia ser Sagrado, gotas do nosso sangue, lágrimas do esforço que tantos fizeram para levantar do chão esta Terra. E também vendemos mulheres e homens, os nossos filhos, hoje preparados e instruídos o necessário para fazer um País melhor e, finalmente, moderno e justo!
Quem somos, afinal? Um Povo que deu ao Mundo os tais mundos novos, gente que foi grande mas hoje se encolheu, ou gente que, – ao longo dos séculos, – acreditou em histórias da “carochinha”? Talvez nem uma coisa nem outra. Somos um punhado de milhões que sofre de preguiça mental, e se assim é, teremos o direito de ter uma Nacionalidade, uma Pátria, um Chão? Aqui fica esta pergunta para nos fazer pensar!
Os outros povos sabem o que querem. Vejam se eles demonstram interesse numa possível compra do arquipélago da Madeira? Só um louco teria interesse nessa parcela do nosso, (ainda) território nacional.
Ontem cheguei do sul, mais exactamente de Monte Gordo. Sabem que o comércio local é, na sua quase totalidade, propriedade de indianos e de chineses? E os produtos que vendem? São fabricados na China e na Índia! Isto, para um País de desempregados, com um Chefe de Estado que fala em credibilidade perdida no estrangeiro, é de rir até às lágrimas!
Aos setenta e um anos de idade tenho vergonha, muita vergonha, da minha Nacionalidade, da língua em que me exprimo e do povo a que pertenço.

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Do livro “Histórias vividas em prosa”, de Marifelix Saldanha

– NÃO POSSO DIZER ADEUS –
As folhas desfalcadas pela sinuosidade da ventania voavam preguiçosamente, como as penas leves e brancas dos pássaros, que acidentalmente se enganchavam nos galhos e
dispersavam as coloridas penugens. Levemente uma folha seca roçou nas minhas pestanas e com delicadeza a devolvi à natureza.
Uma borboleta cor de bonina, deteve-se para me retirar da minha total insensibilidade às retratadas minúcias imprescindíveis, à beleza da vida.
Levantei o olhar a passos leves, como se devagar subisse os degraus de uma escada. Tentei de maneira amigável desculpar-me com as ternas oferendas que se nos dá o
ambiente versátil e surreal dos campos sortidos de velhas árvores.
Árvores, mães oculares de grandes histórias e de copas e troncos já curvados pelo desgaste dos anos.
Aos poucos, entreguei-me à quietude impregnada daquele lugar.
Dentro de mim havia uma demanda de cantigas similares, acontecidas em tempos de outrora. Sentia-as plenamente e percebia até mesmo a sua cor. Era um tom verde
e que inseria no meu apetite um gosto a limão. E fazia-me degustar uma limonada que cheirava a cravo envolvido no mel.
Um som tocava serenamente os meus ouvidos, e aquela música fazia-me bem à alma.
Porque sim, era-me devido ser presenteada com “Fallaste Corazón”, ao som da Brasilian Tropical Orchestra.
Senti-me leve, pura, nada tinha a oferecer. Senti-me nua, vazia, apenas restava a minha alma que soluçava desconsoladamente um choro convulsivo.
O meu espírito mergulhava nas águas mansas de um rio imaginário.
Rio em estado arquejante e febril, de tanto escutar e ocultar confissões queixosas e tristes de sonhos interrompidos, talvez pela presença marcante do destino.
Sobre o tronco de uma árvore, caída no chão, sentei-me, e cada parte do meu corpo repelia o azul sistêmico no ar, pois ele confundia-me com aquilo que é, ou deverá ser.
Eis-me, portanto, confusa, mais emotiva que racional.
Pensei: “Será pois, o momento certo?”
Não, não estou ainda preparada para me ir embora.
Por isso:
Ainda Não Posso Dizer ADEUS!

(Do livro “Histórias vividas em prosa”, de Marifelix Saldanha)

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A água sagrada ( de Danilo Pereira )

Na era em que os Deuses guerreavam contra os gigantes de Utgar ( lar dos titãs ) Odin, o Deus supremo do panteão nórdico, encontrou um gigante que guardava um segredo. Seu nome era Mimir, o rei de Utgard, que se tornou muito sábio após beber a água sagrada de sua tão cobiçada fonte.

Odin, querendo se tornar o mais sábio dos Deuses, matou mimir e bebeu da água sagrada, tornando-se assim, o Deus supremo entre os Aesir. Mimir havia caido, mas sua cabeça, fora embalsamada e levada até as profundezas de Niflheim, onde os Deuses e heróis nórdicos a consultam como uma especie de oráculo.

Mimir acabou se tornando um aliado dos Deuses e sua cabeça, uma espécie de relíquia que é guardada pelas raízes de Yggdrasil. 

 

 

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Orlando Nesperal autor As Virtudes da Mente

As razões que me levaram a escrever este livro, As virtudes da Mente foram : A necessidade que senti, em ter e criar em mim uma estrutura mental forte, aplicada duma forma consciente. Foi assim que nasceram  as minhas sete virtudes: Fé, saúde, felicidade, sorte, riqueza, abundância e sucesso. Estou certo, …mesmo convencido, que este livro é para mim e no meu entender, um novo pensamento, que irá entrar na literatura portuguesa e por outro lado a necessidade de termos de actualizar a nossa linguagem, tanto na forma como na utilização das palavras, para definirmos o que queremos na realidade.

Depois de adquirir algum conhecimento, sobre os temas, comecei a pô-los em prática, e com alguma persistência ia fazendo as coisas, ao mesmo tempo que ia tendo resultados. Pelos quais, estou eternamente agradecido a Deus, pois foi quem me colocou neste caminho.

A lição que eu retirei depois de ter escrito, As Virtudes da Mente e à Luz da mensagem Divina, é que o conhecimento deve ser partilhado. Já assim pensava quando em tempo, alguns  me conheceram, não me lembro de caso algum que não estivesse pronto para  ajudar ou esclarecer. Mas a intensidade e a emoção com que  o fazia, era duma forma inconsciente, para poder hoje afirmar que faço exactamente as mesmas coisas mas duma forma consciente.

Sobre o livro em si, não devo falar, mas posso declarar, que em cada tema, está um pouco de cada um dos meus amigos, porque foi com eles, que aprendi e retirei as maiores lições de vida. Apenas só tive o cuidado de as ordenar e agora cada um pode desfrutar com alegria a vossa e a minha caminhada. Ao lerem e poderem  aplicar os conceitos a cada um individualmente.

– O meu muito obrigado a todos por terem adquirido  As Virtudes da Mente.

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A letra do teu nome…

A letra do teu nome perdi-a no leito
mataste a prosa que te havia feito
magoaste o verbo, não tinhas o direito
partiste um dia assim sem jeito
usaste a carne de que sou feito
apenas deixaste dor no meu peito

José Guerra (2011)

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OS GRANDES DESIGNIOS QUE ALDRABAM OS POVOS

Isto, nesta coisa que é a politica moderna, é como no ilusionismo. De tempos a tempos torna-se indispensável renovar os truques, o que está certo, porque tudo tem os seus limites.
É imperioso que os povos tenham os seus objectivos para alcançar. Os povos não podem pura e simplesmente ser pequenos, modestos, sossegados, tranquilos, amigos do seu amigo, simplesmente morenos e franzinos, apenas senhores de uma paz de espírito feita de uma certa pequinês. Não. Os políticos não deixam. É porque não tem “pica” alguma. Que “sainete” dá governar povos assim? Nenhum! Um politico que se preze só consegue acordar maldisposto! Os povos têm que ser grandes, majestosos, fortes, grandiosos, importantes em qualquer coisa, mesmo que inventada ao borralho da lareira nas longas noites do Inverno. Já alguém viu um símbolo nacional representado não por uma estátua equestre, com um cavaleiro garboso cheio de espadas e de penachos, mas sim por um velho e anquilosado corcunda, vergado ao peso da marreca, de nariz adunco e com cara de fome?
É incrível! Os disparates que este homem volta e meia escreve! Dizem vocês. Mas isso é porque, para além da História Pátria que ao longo dos séculos vai sendo da conveniência dos vencedores contar-lhes, não são capazes de ler mais nada! Pois, meus amigos. Não acreditem piamente em tudo o que lhes dizem. Há Pátrias que foram feitas mais por baixos do que por altos. Outras existem que são como os discos. Só têm duas faces. Quando uma acaba volta-se o disco porque se admite que a música desse lado foi esquecida.
É assim que, (ainda o Estado Social não saiu e fechou a porta) e já o outro mito vem entrando, sorridente, transportando a sua mala das fantasias. De quem falamos? Do Mar Português, como é evidente! Esse Mar de sal e lágrimas, de facto rico e nobre, tão soberbo, tão tranquilo, mas também tão violento quando se exalta.
O que mais me comove no Mar Português é a profunda tristeza que transparece nos olhos dos peixes. Andam cabisbaixos, caidinhos de todo. Até parece que não são altivos e magnânimos como o são os portugueses humanos.
Investiguei o porquê dessa tristeza e penso que descobri o “busílis” da questão.
Ora cheguem-se para cá, que estas coisas não se podem dizer alto! Não vão as gentes indiscretas descobrir que eu tenho conversas destas! Cruzes canhoto! Essas pessoas de bem são piores do que “o deus te livre!” Por favor, batam três vezes com os nós dos dedos num tampo de madeira, de preferência de uma mesa redonda com pés de galo! Os nossos peixes descobriram que andam a urinar-lhes na água! Isso, xixi feito à descarada, sem o mínimo recato. São os barcos, os petroleiros estrangeiros, que aproveitam as nossas águas para lavar os tanques. Vejam só o descaramento dos desavergonhados!
E quando todo o cavername está sem vestígios da pegajosa nafta, limpo e brilhante, a tripulação reúne-se na amurada, abre a braguilha, alivia-se, e depois, conforme as velhas tradições das marinhas de todo o mundo, enfileirados e perfilados, erguem ao céu as barretinas e gritam: “Mar Português! Hurra! Mar Português! Hurra! Três vezes, como manda as regras do mar. Por isso os nossos peixes sentem tanta tristeza e vergonha que já começam nas andanças da imigração!
E nós, que não lhes podemos valer, nem um gesto de solidariedade, nem um conforto, um amem de amigo, umas sandes para o caminho, nada! Por falta efectiva de estaleiros produtivos e dinâmicos, mau grado os esforços dos nossos eficientes e competentes gestores, só uns barquitos a remos, guarnecidos pelos poucos e velhos polícias marítimos, já perto da reforma, vão por aí a fora, mar a dentro, sempre que as embarcações estão guarnecidas pelos respectivos remos; e, coitados, por muito que se esforcem chegam sempre tarde!
Que pena que sinto dos nossos peixes, de os ver partir assim, desta maneira tão triste…

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Donzelas do norte ( de Danilo Pereira )

Na vasta região gelada do norte, as donzelas de neve como tambem são conhecidas pelos bárbaros, surgem das tempestades de gelo para seduzir os mais fracos.

Com toda sua sensualidade e beleza, uma donzela de neve é capaz de destruir qualquer guerreiro que se apaixonar por seus encantos. Em dias de tempestade, os bárbaros e nórdicos evitam subir as montanhas geladas do norte, pois sabem que suas espadas podem cair diante das perigosas curvas de uma donzela de neve.

 

Obra: Wolfgang, o guerreiro nórdico.

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