Extraído de “As Agruras do Mal” por publicar

Carminho da Silva e Maria Luísa não sendo da mesma idade, – Carminho tinha mais perto de cinco anos, – por mero acaso eram do mesmo mês e dia, e tinham saído ao mesmo tempo e na mesma hora. A Maria Luísa perdida de amores por um magala do quartel da Graça, bom moço, e impedido do capitão, lá conseguiu por essa via emprego numa pequena fábrica de corte e prensagem de chaparia para vários fins.
Mas ela, Helena Carmo da Silva, a quem tratavam por Carminho, como não tivera magala bom que lhe valesse, acabou na vida chamada fácil.
A Maria Luísa por força do hábito, duas vezes por minuto puxava o travão da prensa, acabou andando pelas ruas com o tique de fazer gestos com a mão direita que mais pareciam pequenos manguitos, e esse tique valeu-lhe a alcunha de levanta vergas. A ela, Carminho, chamavam-lhe simplesmente a puta…
Mas pouco temos falado da Maria Luísa. Assim como a Carminho também era filha de pai incógnito, a bem dizer igualmente o era de mãe. Não tinha recordações algumas da infância. Diziam-lhe as madres que seria de origem espanhola, pois a única coisa que existia na alcofa onde a encontraram, deixada que havia sido à porta do asilo por alguém que tocou o badalo já alta ia a noite, e por isso tocou três vezes a curtos intervalos, e depois, quando escutou as pesadas trancas a rangerem e a chave a começar a dar as voltas, terá fugido em correria desenfreada, pernas para que vos quero, que ainda o vulto viu na volta da esquina, a senhora madre abadessa, que às pressas se metera no hábito, sem cordões e com o hábito atrás sem ter caído todo, parte preso na cintura, por tal modo que mostrava uma das pernas até à dobra do joelho. Na alcofa, ela, claro, berrando como alma penada a quem haviam negado as portas do céu abertas, nua por baixo de um pedaço de manta velha e aquele bilhete. O bilhete, depois de uma lamúria sobre a vida arrematava por fim dizendo: um dia virei por ela.
E assim Maria Luísa Aparecida, Maria Luísa da parte da madre abadessa que a viu primeiro, Aparecida por via do santo nome da virgem, que lhe podia ter calhado das Aflições, dos Mártires, das Chagas de Cristo, ou da divina virtude, – não sabemos se em algum lugar da terra foi atribuído este nome á Santa Virgem, – mas encontrada, por ser nome mais apropriado mas pouco cristão não vingou, Aparecida sim.
O padre Francisco, capelão que dizia a missa todos os dias na igreja do asilo por volta das seis, ainda o Sol estava todo para lá, homem entendido naquelas coisas dos bilhetes, conhecedor do país ao lado, dizia que lhe parecia tratar-se de um escrito típico da linguagem andaluza. Não se sabe porque não lhe chamaram Maria Luísa Aparecida Andaluza, o que sempre iria escamotear ou esconder um pouco a falta de apelido do pai, pelo menos até à verificação do bilhete de identidade. Seria como que Aparecida por parte da mãe e Andaluza por parte do pai. Mas não. Maria Luísa Aparecida ficou até que um dia se finasse.
E Maria Luísa ficou sem o auxílio do seu magala bondoso quando ele terminou as sortes no quartel da Graça. Um dia virei a buscar-te. Agora devo voltar à terra a ver dos meus pais e das coisas que virão a ser minhas por herança. A terra, a vaca leiteira, o cavalo ruço, o arado, as árvores de fruto, as oliveiras, os porcos, a criação, a casa e até o cão. Juras que vens por mim? Juro. Vamos ter a nossa casinha no campo e vamos ser muito felizes. Até esse dia tens o teu emprego, e se tiveres problemas deixo-te a morada e o número de telefone do meu capitão. Fala com a senhora dele que ela protege-te! Mas juras que me vens a buscar? Claro que sim, tontinha, não te esqueças de que foste minha pela tua primeira vez…
E lá se foi, o bom do Arnaldo, por certo que cheio de boas intenções, a caminho da Beira Baixa no comboio saído de Santa Apolónia, a ver da família e do cão e da restante parte que seria a herança.
Ora, juras são juras, e as de amor, tal como as outras, são palavras e às palavras leva-as o vento.
Assim passaram os dias e os meses, os anos, o que para quem sofre males de amor é osso difícil de roer.
A Maria Luísa Aparecida ficava-lhe o consolo de ter a Carminho por amiga e confidente, e por isso vinha da rua da Rosa, no Bairro Alto, do quartito onde morava que ficava perto do trabalho, àquele lugar estafado, se dispunha aos dichotes dos homens que procuravam mulheres fáceis, e aos seus convites nojentos. Tu quanto levas? E porque a resposta não vinha, quando ela apressava o passo, A gaja é puta fina. Nem diz o preço!
Ver a Carminho ali, a ficar mais velha de dia para dia, sem sombra do sorriso gaiato de outros tempos, os tempos travessos em que se escondiam das freiras para brincarem às mamas com as marafonas que faziam ás escondidas, com os restos dos tecidos que conseguiam surripiar da aula de costura, era um dó de alma e um grito por misericórdia, divina ou não. Aqui del rei que me tiram deste mundo!
E o pedido de socorro caía no saco roto do vazio. Do não divino não vinha socorro. As pessoas desta terra não se socorrem umas às outras, antes se apedrejam. Do divino, bom, Deus nosso senhor em virtude da idade já não ouve muito bem e os anjos andam muito distraídos…
Maria Luísa uma vitória conseguiu. Com a senhora da casa de passe onde a sua amiga pernoitava e utilizava momentaneamente várias vezes ao dia convenceram Carminho a pôr a milhas o Alfredo chulo. Houve ameaças, mas a importância e a influência no meio da senhora da casa levaram a que todas caíssem nas chamadas águas de bacalhau. A ideia era que ambas juntassem o dinheiro suficiente para viverem juntas em casa própria.
E assim, naquela Lisboa, mulher bela deitada de costas ao longo do rio onde pelas manhãs se banha, olhos esverdeados umas vezes, outras cinzentos ou castanhos, por vezes mesmo pretos, mercê da luminosidade que espanta quem pela primeira vez a vê, naquele pedaço da cidade do país que já foi império, da babel daquelas casas amontoadas a esmo segundo o capricho das gentes que as construíram, com o ventre rasgado pelos sulcos que são as ruelas, as vielas e as escadinhas, onde não se dorme dia e noite por via de tantas gentes vindas de outras terras, negros de sangue quente e escuros como o pau-santo, outros cor de ébano por serem um pouco mais claros, chineses e paquistaneses, indianos, romenos e ucranianos, ateus, hereges por chalacearem dos crentes, islamistas e cristãos, adoradores de Vichi ou tibetanos, sérios e honrados, ladrões e chulos, de tudo havia menos portugueses.
Há quem se afoite a lá entrar, porque sair é incerto, e uns vêm dizer que a imundice e o lixo ultrapassa o crível, à quem se injecte na rua, quem defeque nas escadinhas, quem grite por não saber falar baixo ou para se fazer ouvir. Há de tudo. Benza Deus a globalização que engrandece esta pátria e os que a crêem como sacrossanta, mas nunca visitam tais lugares…

Sobre jsola02

quando me disseram que tinha de escrever uma apresentação, logo falar sobre mim, a coisa ficou feia. Falar sobre mim para dizer o quê? Que gosto de escrever, (dá-me paz, fico mais gente), que escrever é como respirar, comer ou dormir, é sinal que estou vivo e desperto? Mas a quem pode interessar saber coisas sobre um ilustre desconhecido? Qual é o interesse de conhecer uma vida igual a tantas outras, de um individuo, filho de uma família paupérrima, que nasceu para escrever, que aos catorze anos procurou um editor, que depois, muito mais tarde, publicou contos nos jornais diários da capital, entrevistas e pequenos artigos, que passou por todo o tipo de trabalho, como operário, como chefe de departamento técnico, e que, reformado, para continuar útil e activo, aos setenta anos recomeçou a escrever como se exercesse uma nova profissão. Parece-me que é pouco relevante. Mas, como escrever é exercer uma profissão tão útil como qualquer outra, desde que seja exercida com a honestidade de se dizer aquilo que se pensa, (penso que não há trabalhos superiores ou trabalhos inferiores, todos contribuem para o progresso e o bem estar do mundo), vou aceitar o desafio de me expor. Ficarei feliz se conseguir contribuir para que as pessoas pensem mais; ficarei feliz se me disserem o que pensam do que escrevo… José Solá
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4 respostas a Extraído de “As Agruras do Mal” por publicar

  1. Muito actual, …até parece, na minha infância Bairro Alto que hoje é chique, mas não esconde o que foi o meu. Por curiosidade eu também beirão, e o quartel da Graça, que também irá entrar em cena, quando publicar o mui livro ” Mas … que tropa” anos 1068/1971. Os meus parabéns pelas recordações que me levaram aos meus 20 anos.

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  2. Obrigado pelo seu comentário! Eu morava na rua dos Lagares, num quinto andar, era miudo de sacristia por via de uma avó filha de um falecido oficial de cavalaria do rei, e, (hoje sou erege), ajudava à missa aos domingos no largo das Olarias e num asilo de miudas no jardim dos Anjos. É nessas recordações que nasce o romance. Os amores entre dois padres e duas miudas desse asilo. Talvez as que me assobiaram uma vez, quando fui buscar um apetrecho da missa esquecido na sacristia. São recordações, sinal de que ainda estamos vivos! Um abraço!

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    • Creio, que não andamos longe duma realidade em comum, 1961, Rua de S. Paulo, numas águas furtadas. Trabalhador-estudante na Veiga Beirão, Cais Sodré sempre a cheirar-me os pés. Aprendi a escrever cartas à família, que morava na Beira Baixa. Nasceu em mim as saudades do campo, que passei a escrever e tornar-me um viciado na leitura e escrita. Se me pedirem para deixar de escrever, …morrerei no dia seguinte. Parabéns, … quem escreve nunca está só. Viver e continuar vivo, será o melhor de nós próprios.

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  3. Amigo:parece-me que ambos pertencemos aquele diminuto grupo dos que olham em frente, e muito pouco reparamos no umbigo! Os do outro grupo, só não beijam os respectivos umbigos porque não são acrobatas, mas que são artistas de circo, bem, lá isso são. Vamos andando por aí, a conversar de vez em quando, a escrever, quanto mais não seja porque queremos continuar a viver. Agora olhe, vou a despejar o lixo que a mestra cá de casa já me olha com um olhar fulminante; um olho em mim, outro no rolo da massa! De facto, eu não posso estar sempre a escrever! Um abraço!

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