A contração económica e as medidas de sempre…

É evidente que estes tempos são difíceis e que temos de mudar radicalmente de vida. Se queremos continuar como gente com terra própria temos de engolir em seco e aceitar o que vem aí. Não temos escapatória. Mas também é evidente a protecção ignóbil que os sucessivos governos vêm dando aos mais ricos dos ricos deste país.
Se abandonarmos a cegueira que tem sido sempre, ao longo dos séculos da nossa história, a tradição que nos amarra ao obscurantismo e à miséria, se metermos a mão na consciência, como é usual dizer-se, facilmente encontramos os verdadeiros culpados de tudo o que se vem passando, e esses, afinal, somos nós, quer individualmente, com a nossa costumeira preguiça mental, quer colectivamente, com a incapacidade que demonstramos ter e que nos impede de respeitar regras e deveres sociais indispensáveis para o futuro do país. Os governos são sempre dos mesmos e fazem sempre as mesmas coisas e das mesmas maneiras. Como a crise é uma Instituição Nacional, e como tem sempre como causa a baixa produtividade, quem a paga é o povo, mas como o povo é pobre porque aufere salários baixos porque produz pouco, e produz pouco porque tem salários baixos, e porque o investimento em novos e modernos processos de produção é quase zero, e como os ricos não aceitam pagar a mandriice dos pobres que produzem pouco, porque os governos não recebem os impostos devidos pelas mesmas razões que levam os ricos a não pagar a crise, e porque nada faz para os receber, resta-lhes a classe média de sempre que tudo paga e tudo consente, porque, (ninguém percebe), não aparece um menino Jesus com mau feitio que dê um murro em cima da mesa e parta toda a loiça.
Uma solução seria mudarmos de idioma e passarmos a pensar, em consequência, com outra lógica. Não é possível, como é evidente, por um lado ainda poucos de nós (incluindo eu) sabem falar português com correcção. Só os investigadores muito letrados que vivem uma vida entre as poeiras e os bafios das bibliotecas o devem saber, por outro, porque, como povo ainda apegado aos três efes, (Fátima, fado e futebol), não alcançámos ainda a “ginástica cerebral” precisa para voos mentais mais audazes.
No entanto parece-me indispensável que se adquira outras lógicas. Julgo mesmo que é uma questão de sobrevivência enquanto povo com uma Pátria, com uma nacionalidade. Sim, porque independência económica e politica já há muito que a perdemos…
Na verdade, os portugueses que trabalham e pertencem à classe média têm de perceber duas realidades, é que, se o dinheiro não tem cor nem Pátria, os ricos e os pobres por razões de genética também não. Uns vivem onde lhes dão mais lucros, os outros pedem e ambos roubam onde melhor lhes convêm, e nós não temos porque continuarmos a pagar até à consumação dos séculos a uns e a outros.
Uns dias atrás assisti a um programa de televisão que elucida bem estes meus raciocínios. Tratava-se do roubo de cabos de cobre por esses campos fora. Da esquerda para a direita, a encararem as câmaras, tínhamos, a jornalista entrevistadora, (uma senhora bem conhecida na televisão), ao seu lado um ex senhor inspector da Policia Judiciária, seguido de vários agricultores como vítimas dos roubos e dos respectivos estragos provocados nas suas propriedades, dois sacerdotes, vitimas, (eles e os seus paroquianos) de sistemáticos roubos de sinos, alguns deles datados de épocas relacionadas ou próximas dos Descobrimentos, (pela minha óptica relíquias nacionais), e a terminar a “carreira” um senhor engenheiro representante da EDP; este o panorama, a moldura humana do programa, que, devo dizer-vos, de elevado interesse foi, mesmo sobre o ponto de vista psicológico ou mesmo sociológico.
A senhora entrevistadora introduziu o tema da conversa, dialogando inicialmente com o senhor ex inspector da Policia Judiciária, inquirindo-o acerca de eventuais milícias populares, ao que o senhor respondeu, e bem, pela sua óptica policial, que devem ser as policias exclusivamente, (pelas razões inerentes às responsabilidades e aos meios), a conduzirem todo o processo de investigação e captura dos meliantes. E mais disse. Falou da complexidade de todo o processo. Contou de um senhor Juiz que mandou um culpado embora porque tinha lucrado com o furto apenas trezentos euros. Falou dos receptadores e dos sucateiros. E tudo quanto disse, sobre a sua óptica policial é mais do que evidente que está correcto.
Depois a entrevistadora começa a dialogar com os restantes participantes, e aqui principia a funcionar a velha lógica nacional. É que, se o senhor doutor inspector disse que as coisas estão em boas mãos quando entregues às autoridades, quem somos nós, modestos mortais, para contrariar estes princípios. É evidente que, não fora os prejuízos provocados pelos meliantes, que em determinados casos ascendem a valores da ordem dos cem mil euros, e tudo estaria bem neste reino da fantasia!
Por último fala o senhor engenheiro representante da EDP, e aqui é que a “porca torce o rabo,” quando nos é dito que a empresa pensa substituir o material de cobre por material de alumínio, e que os prejuízos causados pelos roubos já ascendem a qualquer coisa como sete milhões de euros, e quando nós sabemos que quem paga isto somos nós, os mesmos de sempre, e quando muitos dos meliantes vivem em casas fornecidas pelo Estado e recebem rendimentos ditos mínimos, que na verdade são insignificantes, mas que são pagos por nós, os de sempre, os rendimentos, as casas, e tudo o mais que muito bem apeteça a este Estado dar; quando o ladrão é mandado em liberdade porque este “trabalhou por pouco dinheiro” foram esquecidos os prejuízos causados aos agricultores e aos outros portugueses, e a nós, através dos impostos, e que para variar de fado e de métodos, só por isso, por uma vez que seja, na vida, queremos JUSTIÇA!
Perante a inoperância das polícias e dos tribunais, não tem este povo, de uma vez por todas, o direito de não se deixar roubar e utilizar todos os meios e processos que estejam ao seu alcance?
Agora, e já que estamos com “a mão na maça” vamos continuar. As medidas impostas pelo governo são indispensáveis. Ultrapassam os objectivos traçados por essa coisa que dá pelo nome de Troika, o que os dispõe bem. Estão esperançosos que Portugal volte aos mercados. Assim vamos voltar a comprar-lhes as mercadorias que não produzimos porque não nos deixam, rapidamente voltamos a estender a mão à caridade, os ciclos completam-se, e ficamos todos felizes, na abençoada paz desta Europa onde uns mandam e os restantes obedecem!
Mas, temos uma questão na qual estes doutos senhores ainda não pensaram, ou por escassez de tempo, ou por excesso de confiança nos métodos que utilizam e que julgam infalíveis. É simples, é que os períodos de crise cada vez são mais próximos uns dos outros. Os ciclos têm tendência a rolar cada vez mais, e mais depressa. E isto porque, cada vez que temos um pico de miséria ficamos com mais pobres, mais indefesos, o que me leva a pensar (sim, não se espantem, os pobres também pensam), que a solução reside em conseguirmos, ao mesmo tempo que travamos o deficit, estruturar e levantar a economia ao ponto de se conseguir produzir mais do que se consome, independentemente do que pensem os chamados “países amigos do peito,” ou da onça, como quiserem. E como vamos conseguir isto? Aumentando os transportes e impossibilitando os nossos jovens desempregados, alguns licenciados, de se deslocarem onde necessário em busca de emprego, isto num país onde os empregos de qualidade praticamente não existem no interior, nem mesmo em determinadas periferias, por exemplo, da capital? Lembro-lhes, para termo de comparação, que em determinado país nosso parceiro comunitário, cujo nome não vou citar por ser demasiado óbvio, os desempregados NÃO PAGAM NOS TRANSPORTES PUBLICOS. Esse país concorda plenamente que em Portugal os transportes, não apenas subam o preço dos bilhetes, e que também se eliminem carreiras. (Andamos metidos com boa gente, não tenhamos duvida). Então, temos de eliminar esta via do aumento dos transportes como uma solução eficaz porque paralisa o país, e se o governo, sensibilizado pelo sofrimento dos pobrezinhos, pensa resolver o caso pela via do IRS, que se lembre atempadamente do tal dirigente desportivo, um presidente de um dos grandes clubes da capital, que pagava os mínimos de IRS, embora se desloca-se em carros de luxo e tivesse os filhos nos mais caros e luxuosos colégios…
Pela via da redução das comparticipações dos medicamentos, ou do corte nas prestações de reforma, também não. Isso é, pura e simplesmente, roubar. Pessoalmente, eu trabalhei cinquenta e um anos, exerci uma profissão técnica de desgaste, com vinte e duas dioptrias em um dos olhos, (para que tenham um termo de comparação a cegueira são cerca de trinta dioptrias), e na outra vista a visão é praticamente zero. Logo, por via da redução das reformas e do corte das comparticipações dos medicamentos sem contrapartidas de genéricos, quem o fizer, mais do que total ausência de moral, acima de tudo é gente não grata!
Então como proceder? A verdade é que é humanamente impossível continuar a viver nestes sobressaltos de escravatura. Assim, como sair da crise? É simples, com dinheiro! Não entrou dinheiro a “rodos” neste país, dinheiro esse que é agora aplicado aos milhões nos paraísos fiscais? Então, nada mais simples e fácil do que aplica-lo da maneira correcta. E se o governo da Nação não pode tocar-lhes com um dedo, por causa das normas legais, uma ASSOCIAÇÃO DE CIDADÃOS INDIGNADOS pode.
Não se trata de bater na polícia, organizar manifestações convocadas pelo telemóvel ou pelo facebook. Nada disso. Trata-se de cidadãos (a exemplo do que sucedeu pelo mundo em relação aos criminosos nazis), fartos, patriotas, responsáveis, que investiguem certas vidas de endinheirados e os levem à barra do tribunal.

Sobre jsola02

quando me disseram que tinha de escrever uma apresentação, logo falar sobre mim, a coisa ficou feia. Falar sobre mim para dizer o quê? Que gosto de escrever, (dá-me paz, fico mais gente), que escrever é como respirar, comer ou dormir, é sinal que estou vivo e desperto? Mas a quem pode interessar saber coisas sobre um ilustre desconhecido? Qual é o interesse de conhecer uma vida igual a tantas outras, de um individuo, filho de uma família paupérrima, que nasceu para escrever, que aos catorze anos procurou um editor, que depois, muito mais tarde, publicou contos nos jornais diários da capital, entrevistas e pequenos artigos, que passou por todo o tipo de trabalho, como operário, como chefe de departamento técnico, e que, reformado, para continuar útil e activo, aos setenta anos recomeçou a escrever como se exercesse uma nova profissão. Parece-me que é pouco relevante. Mas, como escrever é exercer uma profissão tão útil como qualquer outra, desde que seja exercida com a honestidade de se dizer aquilo que se pensa, (penso que não há trabalhos superiores ou trabalhos inferiores, todos contribuem para o progresso e o bem estar do mundo), vou aceitar o desafio de me expor. Ficarei feliz se conseguir contribuir para que as pessoas pensem mais; ficarei feliz se me disserem o que pensam do que escrevo… José Solá
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