Os Ganhões da Estrada (conto) repart: A Questão, O conto,Conclu.

A QUESTÃO

É esta ideia que tenho sobre as coisas do mundo que me leva de quando em vez a recordar o passado. Não para daí tirar lições para entender melhor o presente, nada disso; o presente, quer se goste ou não, é o resultado de pessoas diferentes das que conhecemos outrora, e a maioria das causas que estão subjacentes aos efeitos, são causas novas em relação às do passado. O mundo, fatalmente, ou para melhor ou para pior, evoluiu. O que me leva então a repensar o passado? É a necessidade de rever as razões que, em determinada época, me orientaram para determinado caminho, que hoje reconheço não ter sido a melhor solução. O homem que sou hoje pouco tem a ver com o homem que fui no passado? Em parte sim, e isto porque evoluí, ao que penso, para melhor, e este efeito que resulta das causas que foram alicerçando o meu carácter ao longo dos anos tanto se manifesta na minha personalidade como também nas minhas opções ideológicas. Acima de tudo o reconhecimento dos erros cometidos diz-me que não sou um fanático, nem no plano político-ideológico e muito menos no plano religioso. Não sou, portanto, um homem que aceite os dogmas.
Esta introdução a um simples e modesto conto tem muito a ver com as ideias que estão por de trás da história que decorre em épocas totalmente distintas da actual.
Decorria o período entre mil novecentos e sessenta e dois e mil novecentos e sessenta e seis; eu, um jovem idealista, depois de me ter livrado da guerra do ultramar, repartia-me entre três necessidades avassaladoras, durante as, para mim, escassas vinte e quatro horas do dia; uma, a necessidade de trabalhar para ganhar o modesto pão de cada dia, a outra, a necessidade de escrever, uma necessidade para mim tão importante como respirar, e a terceira, inerente à segunda, o efeito da causa de escrever, ou seja, a necessidade de saber.
Para quem não tem fortuna, quem não se enquadra numa família estruturada, quem nunca frequentou – por impossibilidade material, – uma escola média, liceu, curso industrial ou comercial, quem como base escolar dispõe apenas da instrução básica da altura, a quarta classe obrigatória, o conhecimento só se alcança por duas vias, a primeira a leitura, a segunda, o contacto com as pessoas, a observação das coisas da vida, e para quem trabalha para satisfazer as necessidades básicas mais elementares, comer, por exemplo, e nem sequer dispõe do beneficio da luz eléctrica, a saída única possível para aprender é passar parte da noite a ler à luz de velas, juntar dinheiro para puder passar alguns dias sem trabalhar, e gastá-los a ler nas bibliotecas públicas, do abrir ao fechar das portas.
Foi com estes interesses e estas dificuldades que me habituei a viver a partir dos doze anos de idade. Assim, na altura em que decorre a narrativa deste modesto conto, havia-me transformado num paradoxo; por um lado dispunha de cultura e conhecimento muito acima da média do comum dos meus compatriotas, mas, por outro, trabalhava como trabalhador não qualificado em consequência de uma magistral falta de aptidão para as profissões fabris que o regímen de então reservava transversalmente, para todas as pessoas com as minhas habilitações, digamos, académicas, e é assim que, aí por volta de mil novecentos e sessenta e três, talvez sessenta e quatro, aos vinte e três, vinte e quatro anos de idade, dou por mim sentado num amplo gabinete nas instalações do escritório da empresa Morrison Knudsen, parceiro responsável pelas obras de betão do projecto de concepção e construção da primeira grande ponte sobre o rio Tejo, hoje chamada de ponte vinte e cinco de Abril, isto, como consequência exactamente da cultura que à data já demonstrava; na minha frente, instalado por detrás de uma enorme secretária, um senhor doutor qualquer, dizia-me:” Você não é um servente! Você manifesta uma cultura elevada, tem uma conversação fluente, emprega um português evoluído, e logo, por detrás da sua candidatura ao lugar de servente existem outras motivações que espero, para o seu bem, que não sejam de natureza politica!”
Um funcionário com excesso de zelo, depois de ler o boletim de inscrição que eu tinha acabado de preencher, sem erros, com bonita caligrafia, e depois de ter trocado comigo umas quantas frases, arranjou-me aquele trinta e um, e o seu superior hierárquico, aquele doutor não sei quantos, procedia, como qualquer inquisidor, à averiguação da verdade; à época todos nós, os comuns mortais desta terra, tínhamos medo de qualquer coisa, dos informadores, dos denunciantes, da PIDE (policia internacional de defesa do estado); eu incluía-me nesse grupo, e aquele doutor qualquer coisa suponho que também, para não destoar da época; Assim, ambos teríamos medo em principio, da mesma coisa, ou seja, da polícia política, eu porque de facto não tinha cometido um acto, ou vários actos contra o estado do meu País, realidade essa que a referida polícia desconhecia, e o doutor não sei quantos teria medo do zeloso funcionário, – possivelmente um membro fervoroso da legião portuguesa, inserido na máquina da empresa estrangeira através de qualquer processo matreiro, – e logo desempenhava o papel que lhe cabia por direito e responsabilidade hierárquica.
A conversação foi um tudo-nada trágico-cómica, em determinadas alturas em tom mais elevado para funcionário ouvir, outras, uma amena cavaqueira entre duas pessoas que, em princípio, tinham o seu quê de civilidade.
Tudo terminou com a aceitação da minha candidatura ao lugar de trabalhador não qualificado, e com uma conversa amena entre o doutor e o funcionário com excesso de zelo, em que o primeiro esclareceu que não existia motivo algum para que a minha lealdade ao estado e à Pátria fosse posta em causa; tratava-se apenas e somente de uma pessoa desempregada que procura um emprego temporário para resolução imediata de uma situação anómala e casual, e assim eu saí do escritório do estaleiro da obra, localizado na margem direita do rio, contratado como trabalhador não qualificado, com ordem para me apresentar ao serviço daí a quatro dias, a uma segunda-feira, no turno com inicio às oito horas da manhã.
A construção da primeira travessia de grande dimensão sobre o rio Tejo foi um marco na construção das obras públicas no Portugal de então; mais, para mim, habituado à mediocridade que norteava a vida dentro desta nossa grande e querida quinta, dirigida pela batuta do grande maestro de então, e secundada pela esperança que o benevolente cardeal nos transmitia para quando chegássemos ao céu, foi um rasgar de horizontes.
O inverno desse ano foi trágico em acidentes com perdas de vidas, para os homens formiga que laboriosamente trabalhavam na construção do encontro sul, rasgando acessos nas encostas, mantendo esses acessos operacionais dias e noites a fio, as valetas desimpedidas com o recurso a enxadas, sob as encostas íngremes, vitimas das derrocadas, circulando por um mar de lama onde se enterravam muitas vezes acima dos joelhos, satisfazendo as necessidades em latrinas de madeira com um metro de lado, espalhadas pela obra, invariavelmente no topo das encostas sobranceiras ao rio, correndo riscos de vida quando os aluimentos provocados pelas chuvas arrastavam esses casinhotos encosta abaixo, para o caudal do rio, ou vibrando o betão em equilíbrio sobre malhas de aço colocadas na horizontal, formando quadricula com cinquenta centímetros de lado, arrastando consigo as agulhas de vibração com cinquenta quilos de peso.
Trabalhei na construção da ponte – a bem dizer, – desde o seu inicio até ao dia da sua inauguração. Desempenhei várias tarefas, não apenas as de trabalho não qualificado, e aprendi algumas lições sobre o mundo que à data existia fora da nossa quinta; aprendi que existiam outras formas de capitalismo, que umas dessas formas respeitavam mais as pessoas e a sua condição humana do que as outras; aprendi que soluções simples podem fazer toda a diferença para respeitar a dignidade dos homens, como, um simples guichet para admitir as pessoas que procuram trabalho, sem as obrigar a calcorrear horas a fio a obra, à procura do encarregado, aprendi que as obras podem ser estudadas ao pormenor e planeadas, aprendi que o esforço humano pode não ser brutal se as várias tarefas forem planificadas e estudadas, e é com o sentido de mostrar um pouco a diferença destes mundos, embora ambos capitalistas, que me proponho escrever este conto. Contudo, e porque entendo que as coisas que observamos na vida raramente são objectivas, – nós chegamos à objectividade através de premissas vistas e pensadas na altura, – para mim o mundo é muito mais subjectivo do que objectivo, em muitos e importantes aspectos o mundo dessa época continha imensas verdades que hoje estão esquecidas, e são esses sinais que devemos redescobrir para nos salvaguardarmos como povo independente e com uma realidade nacional.

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Sobre jsola02

quando me disseram que tinha de escrever uma apresentação, logo falar sobre mim, a coisa ficou feia. Falar sobre mim para dizer o quê? Que gosto de escrever, (dá-me paz, fico mais gente), que escrever é como respirar, comer ou dormir, é sinal que estou vivo e desperto? Mas a quem pode interessar saber coisas sobre um ilustre desconhecido? Qual é o interesse de conhecer uma vida igual a tantas outras, de um individuo, filho de uma família paupérrima, que nasceu para escrever, que aos catorze anos procurou um editor, que depois, muito mais tarde, publicou contos nos jornais diários da capital, entrevistas e pequenos artigos, que passou por todo o tipo de trabalho, como operário, como chefe de departamento técnico, e que, reformado, para continuar útil e activo, aos setenta anos recomeçou a escrever como se exercesse uma nova profissão. Parece-me que é pouco relevante. Mas, como escrever é exercer uma profissão tão útil como qualquer outra, desde que seja exercida com a honestidade de se dizer aquilo que se pensa, (penso que não há trabalhos superiores ou trabalhos inferiores, todos contribuem para o progresso e o bem estar do mundo), vou aceitar o desafio de me expor. Ficarei feliz se conseguir contribuir para que as pessoas pensem mais; ficarei feliz se me disserem o que pensam do que escrevo… José Solá
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