Os Ganhões da Estrada- página 9 a 11 inclusive

mão, e a bucha presa pela mão do braço em que levava o toro, o Joaquim Silva transportava a pedra com algum esforço e o Jaime Narciso, mais prático, só transportava a comida porque escolhera o chão como assento.
Instalaram-se de novo em círculo, mas desta vez um círculo mais apertado, e o Jaime Narciso disse: “Olhem que temos de estar atentos à estrada, não vá o filho da puta vir aí.” E o Joaquim Silva retorquiu: “ Eu estou virado para lá, não se preocupem que o cabrão não se escapa desta vez!”
Fez-se silêncio. Os dois homens olharam fixos para o companheiro, enquanto as cabeças se aproximavam o mais que era possível.
– Pois, sabem, de nós três sou o mais velho, e até já tenho uma netinha. É uma senhorita, com doze anos, mas já uma moçoila que parece ter uns quinze ou dezasseis, e foi essa a desgraça!
– Então não nos diga que alguém fez mal à mocinha!
– Pois então é mesmo isso! Vossemecê acertou em cheio, compadre, o malandro do professor! Andou, andou, seguiu a moça e acabou por conseguir desgraça-la!
– E como foi que vocês descobriram? – Inquiriu o Joaquim Silva, enquanto mastigava a última sardinha a cavalo na fatia do pão escuro. O Jaime Narciso pescava com um miolo do pão um dos últimos pedaços de bacalhau cru, de mistura com um fio de azeite, no fundo da vasilha de plástico, e o António Manuel, o homem da saca, antes de responder à pergunta sobre a desdita que acontecera à neta, olhava para ele a dizer: “ Com este calor é mesmo uma punheta de bacalhau desfiado que sabe bem, desde que não esteja muito salgado”… – e logo depois continuava com o assunto da neta.
– Foi a minha filha que deu pelo sangue da miúda. Sabem, o meu genro está emigrado em França a bem dizer desde que a miúda tinha dois anos, o meu compadre, o pai dele, está entrevado porque lhe deu uma coisa má já lá vão uns quatro anos, assim o homem que veste as calças na família toda sou eu…
– Então e a catraia disse que tinha sido o professor?
– Acabou por contar à mãe!
– E a guarda? Não foram à guarda?!
– Não querem lá ver, a ir fomos, mas o que é que vocês pensam? O homem é professor, tem estudos, é da cidade, anda sempre com os grandes, ora com o presidente da Câmara, o gerente do banco, o cabo da guarda, até há quem diga que é oficial da legião portuguesa! E nós? Quem somos nós? Uns pobres coitados que não temos eira nem beira. Às páginas tantas tive de o apanhar sozinho, e quando o consegui enfiei-lhe a navalha no bucho duas vezes, e à ultima fiz assim, olhem, – e o António Manuel fez o gesto com a mão de quem torce um cabo…
– E fez vossemecê muito bem feito. Desde que se tenha a certeza, não à que saber, é arrimar-lhe com a naifa no bucho! – Falou o Joaquim Silva, com os olhos brilhantes; – Eu tenho filhos e por isso sei o que custa, são carne da nossa, e nesta terra se não somos nós a fazer a justiça…
– Pois claro, – disse o Jaime Narciso, – eu fazia exactamente o mesmo. E o tipo, foi-se?
– Acho que não; parece que o cabrão safou-se, mas eu não fiquei para saber… Então e vocês? Ainda nem sequer sabemos os nomes uns dos outros; só aqui o amigo de Moura é que disse alguma coisa…
– Pois, eu sou o Joaquim Silva, como acho que já lhes disse, e puseram-me a alcunha de Pirralho, como sou assim franzino e magro, a rapaziada lá de Moura é assim que me chama, e ando a ver se ganho algum para mandar para a mulher e os filhos, coitados, que estão a sobrecarregar os meus sogros que são velhotes. Agarro-me a tudo o que aparecer, o que é preciso é ganhar dinheiro…
– Eu sou o Jaime Narciso e não tenho assim nada de importante para lhes dizer. Chamam-me o tocador de concertinas, porque lá em Cuba toco nos bailaricos pela noite dentro; não ganho dinheiro com isso, toco porque gosto, e também canto no grupo da casa do povo; e também eu ando por aqui por causa da maldita crise. Em Cuba está tudo parado, até a água falta, neste tempo…
– Por falar em água, – disse o António Manuel – já repararam no calor que faz? Devem de estar perto dos quarenta graus! E depois esta poeira constante, cada vez que passa um carro ou um camião, eu agora tomava era um banho, se pudesse…
– Também eu, compadres, se pudesse, já ontem não me consegui lavar… não consegui arranjar poiso; e hoje vai pelo mesmo caminho, estava a contar com o alojamento na camarata da obra, mas esse gajo não à meio de aparecer.
Na estrada os homens já tinham retomado o trabalho. Os cilindros avançavam com a lentidão própria dos lentos caracóis, os pinches águadeiros de cântaro ao ombro não tinham mãos a medir, acorriam ao chamamento dos homens, com o púcaro de alumínio preso por uma pequena corrente ao braço dos cântaros, o suor misturava-se com a poeira que dançava no ar, constantemente levantada pela circulação dos camiões, carregados de pedras ou de saibro grosso, a quietude dos pinheirais mostrava a calmaria do tempo, os homens improvisavam chapéus com os lenços com as pontas atadas, colocados por baixo dos capacetes amarelos, a cor dos operários não qualificados, ou utilizavam-nos para proteger a boca, tipo máscara. Na distância via-se um jipe parado na berma e um homem de capacete branco a espreitar pelo óculo do aparelho nivelador montado num tripé, enquanto o porta miras corria com a mira para os pontos indicados pelo topógrafo, uma bolsa com estacas presa na cintura e uma pequena marreta pendurada no cinto. Outro homem segurava um amplo chapéu-de-sol sobre o aparelho, nada preocupado em proteger o topógrafo da canícula.
– Olhem aquele ali deixa o coitado do homem destapado! – Exclamou o António Manuel.
– É mesmo assim. – Esclareceu o Jaime, – o aparelho é que tem de ser protegido porque custa uma pipa de massa e não pode desnivelar para não errar os pontos!
– Vossemecê percebe da poda!
– É que já trabalhei de porta miras…
– Pois, então vossemecê é gente instruída!
– Qual quê, homem de Deus, aquilo é fácil, é só ter a mira direita, estar sempre com os olhos na bolha da água do nível, que tem de estar sempre no centro, e estar também com atenção aos sinais que o mestre faz, bater a estaca a direito e depois pregar o prego, com as indicações do mestre… É uma vida descansada comparada com a nossa.
– Olhe o compadre que, com essa complicação toda, da mira, da estaca e do prego, não era serviço que prestasse para mim; eu sirvo para as coisas mais simples, guardar rebanhos com o meu gabiru a ajudar…
– Gabiru, compadre António? – Perguntou o Jaime.
– É o meu cão que é um bicho esperto… – e o António Manuel ajeitou melhor o corpo encostado ao tronco do pinheiro, – guardar o gado com aquele cão é ter vida sossegada; vou talhando uns bonecos em madeira, falo com as árvores, cheiro o mato, vejo as horas pelo virar do Sol e bebo uma pouca de água que tirei do meu poço e, olhe, durmo às vezes uma pequena cesta porque o diacho do cão é tão bom que trabalha para mim…
O Pirralho afastou a vista do grupo e olhou para trás, para os homens caminhando em equilíbrio sobre as pedras grandes, colocando-as acamadas, o melhor possível, umas de encontro às outras, ou então vergados com o peso das pás, espalhando o saibro sobre as camadas de enroncamento da base.
O calor da tarde era tanto que parecia que do chão vinham vapores, o Sol reflectido no branco das pedras até fazia chorar os olhos de alguns, e os pinches, rapazolas à roda dos doze ou treze anos metiam dó, vergados ao peso dos cântaros de alumínio contendo água.
O Pirralho

Sobre jsola02

quando me disseram que tinha de escrever uma apresentação, logo falar sobre mim, a coisa ficou feia. Falar sobre mim para dizer o quê? Que gosto de escrever, (dá-me paz, fico mais gente), que escrever é como respirar, comer ou dormir, é sinal que estou vivo e desperto? Mas a quem pode interessar saber coisas sobre um ilustre desconhecido? Qual é o interesse de conhecer uma vida igual a tantas outras, de um individuo, filho de uma família paupérrima, que nasceu para escrever, que aos catorze anos procurou um editor, que depois, muito mais tarde, publicou contos nos jornais diários da capital, entrevistas e pequenos artigos, que passou por todo o tipo de trabalho, como operário, como chefe de departamento técnico, e que, reformado, para continuar útil e activo, aos setenta anos recomeçou a escrever como se exercesse uma nova profissão. Parece-me que é pouco relevante. Mas, como escrever é exercer uma profissão tão útil como qualquer outra, desde que seja exercida com a honestidade de se dizer aquilo que se pensa, (penso que não há trabalhos superiores ou trabalhos inferiores, todos contribuem para o progresso e o bem estar do mundo), vou aceitar o desafio de me expor. Ficarei feliz se conseguir contribuir para que as pessoas pensem mais; ficarei feliz se me disserem o que pensam do que escrevo… José Solá
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