EXCERTOS DA HISTÓRIA Nº 20

              Cácá, Dódó e Lúlú formam um trio de amigos inseparáveis, detentores de poderes esotéricos. Cácá exerce a profissão de enfermeiro. (…) Está sempre disponível para ajudar, mesmo que não seja preciso. Trabalha por conta própria, mas ao contrário dos outros, passa recibo, porque considera um dever patriótico contribuir para o desenvolvimento do País. (…) Dia e noite não larga a sua pochette onde transporta pó de talco com abundância, algodão, adesivos, álcool, mercúrio, gazes e pouco mais.

– São os primeiros socorros. – diz com sentido profissional.

Tem um problema desde miúdo: não pode ver sangue que desmaia imediatamente. Lúlú é outro dos seus amigos que recorre aos serviços de enfermagem facultados por Cácá, e também é cliente do Dódó nas massagens de “relax”. (…)

Noutro dia, enquanto conversava com Lúlú, Cácá sugeriu que gostava de lhe fazer uma confidência.

– Só eu e o Dódó é que sabemos. É um segredo entre os dois, mas posso contar-te, porque o Dódó deu licença. Lúlú, nem eu nem o Dódó falámos a ninguém sobre o que te vou contar. Tu sabes como são as pessoas, começam logo a gozar, porque são umas ignorantes que só pensam em dizer mal dos outros. Têm as mentes poluídas e não percebem nada destas coisas que só estão ao alcance de pessoas com poderes sobre os naturais.

– Cácá, conta-me tudo, que estou a rebentar de curiosidade.

– Lúlú, ouve bem, eu sou médio. Desde pequenino que eu tenho esse dão que Deus me deu. Eu encarno espíritos e o Dódó é que fala e ouve o que eles dizem, enquanto eu estou possuído. Lúlú, tu sabes o que é estar possuído?

– Oh! Cácá, então não sei…

– Lúlú, eu não vejo e não oiço nada. O Dódó é que me conta tudo, depois de vir dos tratamentos, coitadinho. (…) O meu grande problema, Lúlú, é que só me aparecem espíritos maus e o pobrezinho do Dódó, vê-se aflito para se livrar deles. O Dódó sofre mais do que eu, podes crer.

– Ai, Cácá, conta-me tudo.

– A minha avozinha também era média, mas encarnava espíritos bons e muito meiguinhos. Ela tinha uma grande aurela de luz. E ter uma grande aurela de luz é muito importante, sabes Lúlú?

– Ai que coisa, Cácá, então a tua avó estava ligada à electricidade?

– Lúlú, não é essa luz, estás a perceber? Não sei como hei-de explicar, mas é uma luz que vem não se sabe de onde. Vem de um sítio misterioso, que ainda não consegui entender, percebes? (…) Pois, a minha avozinha tinha tanta luz que à noite nem precisava de acender o candeeiro do quarto, vê lá tu. Como a avozinha gostava de fado e folclore encarnava fadistas muito conhecidos e chegou a haver grandes noitadas de fado, pois eram aos montes os fadistas a encarnar na avozinha. Claro que ela ficava cheia de rouquidão, porque às vezes estava encarnada mais de duas horas seguidas, sempre a cantar.

– Olha, Cácá, eu até fico oirado ao ouvir o que me estás a contar!

– Uma vez a avozinha até encarnou um rancho folclórico completo, que tinha morrido quando a camioneta se amandou por uma ribanceira abaixo. Traziam pandeiretas e acordeão e as mulheres cantavam todas esganiçadas. Era uma barulheira tão grande que a badalhoca da vizinha de cima começou a bater com o cabo da vassoura e a gritar que ia chamar a polícia. Se ela soubesse o que a minha avozinha sabia, devia era estar calada. É que uma noite encarnou o marido dela que contou tudo o que ela lhe fez para ele morrer, desgraçado do homem. Ordinária. Ela que levante cabelo que ainda sou capaz de contar tudo à policia. Ai, sou, sou. Ou eu não me chame Cácá. (…) A minha avozinha ficou tão cansada com a encarnação do rancho que esteve quase um mês de cama, coitadinha. Que Deus lá tenha em descanso, que ela bem precisa. (…) Olha, Lúlú, vou contar-te coisas que eu próprio fico de cabelos em pé. (…)

JOSÉ EDUARDO TAVEIRA

 

Sobre José Eduardo Taveira

Nasci no Porto. Trabalhei em diversas empresas nacionais e multinacionais, exercendo cargos directivos. Actualmente estou liberto de compromissos profissionais, usufruindo a liberdade de viver como gosto e quero. Publiquei três livros intitulados: "Juntos para Sempre","Histórias de Pessoas que Decidi Divulgar" e "Viagem ao Princípio da Vida". Os dois primeiros em Portugal e o último no Brasil.
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