“JUNTOS PARA SEMPRE” (3)

          “JUNTOS PARA SEMPRE” (3)

Não há nenhuma metodologia pedagógica com o pressuposto de preparar as crianças a defrontar a vida fora daquele edifício. Além das aulas de leitura, escrita e aritmética, não é proporcionado qualquer outro conhecimento que contribua para a sua cultura geral. Não há autorização para nada que exceda as regras estabelecidas. Seja Verão ou Inverno, a hora de ir para a cama é às sete e meia. Depois não é permitido ler ou falar. Não há espelhos na área ocupada pelas raparigas. As freiras consideram que eles servem para estimular a vaidade e esquecer o dever de amar Nosso Senhor, que lhes dá cama, comida e educação, sem receber nada em troca. As que já sabem ler, apenas têm para escolha livros que tratam de religião, da vida de Santinhos que se sacrificaram dando a vida pelos outros. A Bíblia é de leitura obrigatória. Raramente saem à rua, para evitar que tenham contactos com pessoas que as desviem do rumo traçado pelas leis do Orfanato. Quando ocorrem situações bem definidas, como a ida ao Hospital, são acompanhadas por uma ou duas freiras.

(Continua)

José Eduardo Taveira

 

 

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Banquete e revolução

O BANQUETE
Faz muitos anos, muitos mesmo, morreu um velho arquitecto, monárquico por herança de sangue mas lúcido, e por consciência republicano. Na empresa de Construção Civil de sua propriedade (onde mais tarde eu ensaiei os meus primeiros passos como técnico,) as pessoas, – todas as pessoas, – dos engenheiros técnicos que formavam os seus quadros ao mais humilde operário, todos, pelo que me contaram, ficaram perplexos quanto ao futuro. Sucede, sempre que se perde um bom líder.
Deixou herdeiros. Dois filhos. Educados na rigidez tradicional deste velho País, no tempo em que os pais moldavam os filhos como homens e mulheres preparados para receberem a dureza do que tem sido, ao desfiar dos séculos, a nossa vida. Dinheiro, nunca lhes terá chegado aos bolsos enquanto estudantes, mas princípios e disciplinas sim. Cigarros só os que pedinchavam aos velhos operários. Livros, todos os necessários para se formarem como futuros lideres e bons profissionais. Com a herança de tamanha fortuna, a sua cabeça de gente nova delirou. Deram um banquete de arromba. Diz quem soube que foi coisa em grande estilo.
Sobre uma enorme mesa posta com todos os luxos da época, com a opulência e a ostentação dos muito ricos, a sobressair de entre as iguarias, uma enorme tina cheia de champanhe com uma jovem espampanante, loura, e toda nua, metida dentro. Quem quisesse que se servisse. Liberdade e libertinagem. Festa é festa. Orgia, bacanal. Tudo o que se queira. Dois dias e duas noites, ao que me contaram. Depois acabou. A educação, a responsabilidade, o dever de cumprir e honrar o futuro. Saíram da mesma massa que fabricou o pai. Empreendedores e honestos, que continuaram uma velha empresa onde todos nos sabíamos respeitar e conviver, onde existia consciência social, civismo, e muito apego às responsabilidades do trabalho…
A REVOLUÇÃO
A nossa chamada “revolução” funcionou (com as devidas distâncias), ou mal comparado, como é hábito dizer-se, como uma herança para os políticos. E que herdaram? Um País! Um Povo que se vestiu de esperanças e foi à rua, para comprar liberdade quanto baste, que dure até ao consumar dos séculos. A política é o brinquedo que se chama poder, e eu digo que também é a orgia de todos os sentidos. Não admira assim que se tenha comemorado com festa rija, após tantos e tão longos anos de jejum. Na política, por imposição da sociedade, devem estar os melhores, e para os nossos melhores, (que nos vão a garantir o futuro,) nós todos também queremos o melhor. Assim compreendemos a festa. O que não compreendemos é que, depois ou durante, os nossos políticos folgazões, se tenham enfiado nos casinos, se tenham viciado na roleta, e que, passados tantos anos, continuem a esbanjar o nosso dinheiro na jogatina. Também nos interrogamos: São estes os nossos melhores? Se são, como serão os nossos piores?
Pelo que me é dado perceber, a festa ainda não terá posto os pés no adro da Igreja, e como o meu sentido critico avalia o que aí vem pelos primeiros carros alegóricos, pelo foguetório, pela pregação do padre no púlpito, sinto que, para susto, esta amostragem da festança rija já nos chega! Dinheiro não falta. É só escrever um decreto. Com boa vontade nem isso é preciso. É folhear o livro das leis, e lá está, uma lei de há setenta ou oitenta anos atrás, que ainda serve muito bem. Mas se, em última instância, não se conseguir cheta para os confeitos, as bombinhas de mau cheiro, as bisnagas, as caraças e os “Zés Ninguém,” não temos crise, que o Povo é sereno! Umas horas de trabalho não remunerado resolvem o caso à ”fartazana,” (perdoem o termo erudito, proveniente do meu sétimo ano de praia). Pois, já me esquecia. Falta falar do nosso símbolo, a caravela quinhentista. É que, com os nossos ricos a darem de “frosques,” Portugal vai de vela!
José Solá

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Frazes dos que sabem pensar

Numa comunidade espiritualmente desenvolvida nem o próprio Deus pode prosperar
Jung

O senhor Juan de Robres
Com caridade sem igual
Mandou fazer este hospital
Mas antes fez os pobres…

Poeta anónimo
Extraído do livro Peregrinação Interior, de António Alçada Baptista

Enquanto não alcançares a verdade
Não poderás corrigi-la. Porém, se
A não corrigires, não a alcançarás.
Entretanto, não te resignes.

Do livro dos conselhos
Extraído do livro Cerco de Lisboa, de José Saramago

A paz não pode ser mantida à força.
Só pode ser alcançada pela compreensão.

Albert Einstein

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“JUNTOS PARA SEMPRE” (2)

     “JUNTOS PARA SEMPRE”   (2)

Maria completou treze anos, tantos quantos viveu desde o dia em que foi abandonada na soleira da porta do Orfanato.

Nunca comemorou o dia do seu aniversário. As freiras fazem questão de festejar estas datas com um horário sobrecarregado de orações para glorificar Deus, agradecendo a prerrogativa de terem nascido.

– Treze anos! Quanto tempo mais serei obrigada a viver neste inferno? – pensou.

Todos os dias as freiras, especialistas em lavagens ao cérebro, repetem a mesma ladainha:

– Para vocês, raparigas, o principal da vossa educação é aprenderem a cuidar das tarefas domésticas, serem humildes, obedientes e respeitarem os vossos superiores e as pessoas importantes. Nunca, mas nunca, ofenderem com palavras ou actos Deus Nosso Senhor, o Espírito Santo, Nossa Senhora ou os seus representantes na Terra. Quem o fizer sofrerá os castigos que a vontade Superior do Senhor determinar. Deveis rezar, rezar, dia e noite, para salvação das vossas impuras almas. Deus criou-vos para O servirdes. Não deveis pensar no que se passa para lá destas paredes, onde só existe podridão que ofende Deus Nosso Senhor. E vós quereis ofender Deus Nosso Senhor? Respondam comigo: Não!

E um coro de vozes submissas repete: Não!

Glória ao Pai e ao Filho

E ao Espírito Santo

Como era no princípio, Agora e sempre. Ámen.

(continua)

José Eduardo Taveira

 

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“NÃO DÁ PARA ACREDITAR” (2ª parte)

NÃO DÁ PARA ACREDITAR (2)

Na sequência do meu artigo anterior, darei a conhecer a posição pública de alguns intelectuais brasileiros sobre o encerramento da Livraria Camões, no Rio de Janeiro.

Hoje transcrevo a carta enviada em 6 de Dezembro de 2011 pela Imprensa Nacional-Casa da Moeda ao gerente da Livraria Camões:

Exmo. Senhor

José Estrela

Rua Bittencourt da Silva, 12-loja C

Rio de Janeiro-Brasil

Assunto: Encerramento da Livraria Camões

Exmo. Senhor

Ao abrir a Livraria Camões No Rio de Janeiro, durante a década de 60 do séc. teve a INCM por objectivo promover a divulgação no Brasil das suas próprias edições e de outras obras essenciais da literatura e cultura portuguesas, num tempo em que as Livrarias Tradicionais e o livro impresso constituíam, por excelência, os veículos ideais dessa divulgação.

Nessa época em que os contactos eram mais difíceis e a divulgação cultural estava muito dependente daquela actividade tradicional, a Livraria Camões desempenhou, sob a direcção directa do Senhor José Estrela um papel cujo mérito é conhecido.

Entretanto, a evolução tecnológica, social e cultural verificada ao longo deste tempo com especial evidência nas duas últimas décadas, fizeram evoluir o contexto em que se inscreve a missão com que a Livraria Camões foi inicialmente constituída.

Por outro lado, os obstáculos associados ao transporte e comercialização de livros e a representação da INCM numa única livraria no vasto território brasileiro, limitaram fortemente a divulgação das nossas obras no Brasil e comprometeram irremediavelmente a situação económico-financeira da Livraria Camões.

Ao mesmo tempo, a situação financeira internacional e os reflexos de natureza restritivas sobre a nossa perspectiva orçamental não permitem manter a situação de desequilíbrio económico-financeira da livraria, que aliás, possa ser invertida a prazo.

Nestas circunstâncias, venho informar V.Exa. da deliberação de encerramento da Livraria Camões, a ser concretizada no próximo dia 31 de Janeiro de 2012, solicitando-lhe que do mesmo facto dê conhecimento aos demais colaboradores da livraria.

Para tal desiderato, a INCM irá designar um representante legal que em seu nome, providenciará junto dos trabalhadores e das entidades públicas e privadas todas as diligências requeridas pelo encerramento da livraria, destacando-se, em particular, todas as obrigações legais do foro laboral.

No momento em que é tomada a decisão de encerrar a actividade no Rio de Janeiro o Conselho de Administração não esquece o trabalho que, apesar de todas as dificuldades, foi desenvolvido pela Livraria Camões e por todos quantos nela trabalharam ao longo do tempo.

A todos, em nome da INCM e cientes que esta medida será compreendida, em face da situação vivida pelo país e pela livraria em particular, onde os problemas, ainda não totalmente identificados, são muitos, endereçamos uma palavra de apreço e reconhecimento

Ao Sr. José Estrela pedimos toda a colaboração para que esta decisão seja implementada de modo a provocar o menor transtorno possível a todos os envolvidos.

Com os meus cumprimentos

O Presidente do Conselho de Administração

(Estevão de Moura)

 

José Eduardo Taveira

 

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O Enterro (publicado em tempos no meu site)

COMO TIPO QUE GOSTA DE ESCREVER NÃO POSSO DEIXAR PASSAR ESTA DATA FACTIDICA EM CLARO. PORTUGAL ESTÁ DE LUTO. NÃO FALA. FICOU MUDO. NÃO PENSA. ROUBARAM-LHE A ÚNICA DIGNIDADE QUE LHE RESTAVA, O DIREITO DE PENSAR NA SUA PRÓPRIA LINGUA.
Ontem, dia trinta e um de Dezembro do ano de dois mil e dez, vesti o fato mais escuro que tenho, pôs uma velha gravata preta e fui a um enterro. Não estive só. Havia outras pessoas mas não lhes consegui descortinar os rostos; pareceram-me disformes, tristes e distantes. O falecido foi o meu País, que foi a sepultar no mar dentro de uma urna transparente feita de vendavais. Estava bem, o corpo. Tinha jasmim e rosmaninho espalhados ao seu redor dentro da urna, vestia de branco e tinha um pequeno ramalhete de malmequeres preso na lapela. Os olhos pareceram-me mais castanhos e vivos, tal como os percebia sempre que, em miúdo, do quinto andar onde morava, espreitava a Pátria pelas vidraças da janela. Levava os cabelos pretos em desalinho e tinha um sorriso de catraio a mostrar-se entre os lábios. Não morreu de morte natural, coitado, que até foi novo. Também não provocou a morte, não foi suicídio não senhor, mesmo que muitos o digam. Aquilo foi crime. Assassínio, para ser directo e preciso. No peito estava cravada uma faca de diamante onde se conseguia ler: prenda do acordo ortográfico.
Eu não sei, não comento, não afirmo nem desminto, apenas vejo, escuto e olho. Mas, fazendo fé nos sentidos que a vida ainda me dá, entendo o que dizem por aqui e por ali, que foi um tipo insignificante, um caixeiro-viajante que vende absurdos porta a porta, por esse imenso mundo de Deus, quem foi o autor de tamanha proeza. Mas eu? Não sei, não me comprometo, não digo que sim ou que não. Apenas estou velho, tenho medo de falar muito, canso-me, tenho desalento, e só espero não demorar muito por cá agora que fiquei tão só…

José Solá

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O canto de uma elfa ( de Danilo Pereira )

Através daquela luz, uma doce voz invadiu os ouvidos de todos. Era uma espécie de canto que vinha dos lábios de uma mulher. Wolfgang sentiu-se atemorizado, ficou sem acção e nada pôde fazer a não ser esperar pelo cessar da ardente luz. Aquela mulher não poderia ser um demônio. Se o fosse, certamente já os teriam aniquilado.

O gigante dourado sabia disso, e então ele perguntou num tom pouco amistoso:

– Quem és tu? O que queres, mulher?

Daquele intenso brilho ela respondeu:

– Sou Aurehen, do clã Vanir! Não tenhas medo. Estou aqui para ajudá-los.

– Por Freya! Estes homens estão a morrer e precisam de abrigo!

– Não te preocupes com eles. Serão levados até Valelfa, onde descansarão. – murmurou a doce Aurehen que se mostrou por inteiro, revelando uma beleza estonteante.

Trecho de minha obra, Wolfgang, o guerreiro nórdico.

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“JUNTOS PARA SEMPRE” (1)

 

Maria nasceu sozinha, como costuma dizer. Nunca conheceu mãe nem pai. Ninguém.

Nasceu na soleira da porta do Orfanato “Ninho de Amor”, gerido por freiras, situado numa pequena cidade do interior, no princípio da década de 30. Embrulhada num cobertor velho e sujo, conforme lhe disseram anos depois, Maria estava faminta e em estado de hipotermia. Levaram-na para dentro e juntaram-na às mais de trinta raparigas que tiveram sorte idêntica.

O Orfanato tem aspecto de casarão abandonado. O jardim que o circunda não tem flores, nem relva. Arbustos raquíticos, matagal e lixo arrastado pelo vento evidenciam a displicência das freiras em proporcionar uma paisagem agradável a quem lá vive. As paredes exteriores sem pintura e com imensas brechas, deixam ver o seu interior de caliça que vai escorrendo com a força da chuva nos invernos rigorosos. As janelas de caixilhos de madeira apodrecidos sustentam com dificuldade as vidraças protegidas por gradeamentos enferrujados, que previnem a evasão de alguma prisioneira. A porta de entrada, decrépita e misteriosa, representa para as raparigas a fronteira entre a liberdade e a reclusão. Por cima, destaca-se uma placa de madeira, na qual se lê em letras brancas: “Ninho de Amor”. Uma evidência de humor sórdido…

O interior apresenta uma decadente, descuidada e promíscua ambiência. As camaratas ocupadas pelas raparigas são escuras e respira-se um ar impregnado de lixívia. As camas de ferro, desconchavadas, com colchões de palha, velhos, rotos e bafientos parecem desfazer-se quando as meninas se deitam. O chão de cimento escuro e húmido, tal como as paredes, transformam espaços de repouso em celas prisionais. O refeitório, junto à cozinha, tem duas mesas compridas feitas com tábuas de recorte irregular assentes sobre pipas velhas, que exalam um pútrido cheiro avinagrado. Sob a mesa estão os bancos, quase todos estragados, que servem de assento periclitante, causando, com frequência, quedas durante as refeições. A loiça de alumínio, negra e amolgada pelos anos de uso, provoca náuseas que são reprimidas à custa da falta de alternativas. A dieta alimentar desequilibrada e insípida, carente de minerais e vitaminas indispensáveis ao organismo, provocava problemas de desenvolvimento físico e intelectual nas crianças.

Ao fundo do corredor existe uma capela. No topo, um pequeno altar coberto com uma toalha branca bordada nas extremidades, sobre o qual estão dois círios, o tabernáculo e uma cruz de madeira com Jesus Cristo crucificado. Dois genuflexórios, um confessionário e uma pia de água benta feita em cerâmica completam o mobiliário do espaço exclusivamente dedicado à oração. Aqui, além dos frequentes retiros de reflexão das mulheres consagradas a Deus, todos os domingos é celebrada a missa matinal por um padre de aspecto seboso, admirado pelas freiras que o consideram uma bênção de Deus, talvez pelos gracejos brejeiros que lhes dirige.

O sino de bronze toca a todas as horas – para levantar, para comer, para orar, para deitar, para reunir, para dispersar. Este regime inflexível, aliado à insensibilidade das freiras e à inexistência de relações humanas, fomentam um clima depressivo que marcará o futuro de todas as jovens.

A ala reservada ao grupo das cinco freiras exibe uma decoração simples mas confortável, privilegiando o seu bem-estar. As paredes pintadas de branco, repletas de quadros com imagens sagradas, são diariamente veneradas pelas freiras num ritual de obscena trivialidade.

Dois mundos separados por uma porta que nunca se abre sem a chave que cada freira é possuidora.

(Continua)

José Eduardo Taveira

 

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“FÁTIMA, TERRA DE MILHÕES”

Janeiro 2004: Adjudicação da 1ª empreitada da Igreja da Santíssima Trindade.

Discurso do Reitor do Santuário, padre Luciano Guerra:

– “Dou graças a Deus, pelo Coração de sua Santíssima Mãe, e pela mediação dos pastorinhos Francisco e Jacinta, por nos encontrarmos hoje aqui, na Capelinha das Aparições, para assinarmos o contrato da empreitada inicial da igreja da Santíssima Trindade. Fez em Agosto oitenta e seis anos que, pela primeira e única vez, nas suas seis aparições, Nossa Senhora achou por bem ser instada a falar de dinheiro e de construções materiais. Quando a pequena Lúcia, na aparição dos Valinhos, lhe perguntou o que haviam de fazer às esmolas que as pessoas iam deixando na Cova da Iria, a celeste Visão respondeu: «Façam dois andores: um leva-o tu com a Jacinta, e mais duas meninas vestidas de branco; o outro, que o leve o Francisco, com mais três meninos. O dinheiro dos andores é para a festa de Nossa Senhora do Rosário, e o que sobrar é para ajuda duma capela que hão-de mandar fazer.»

O Reitor continua a dissertar sobre a grande obra:

– “Parece evidente que esta indicação tinha um carácter simbólico. Nossa Senhora sabia que a sua capelinha da Aparições sempre e só seria um símbolo. Sabia também o primeiro Bispo de Leiria, D. José, ao lançar a primeira pedra da actual basílica, que ela nunca albergaria todos os que já então, em 1928, e sobretudo nos dias 13, enchiam esta bendita Cova. Também nós sabemos que a futura construção, com os seus nove mil lugares sentados, não vai poder ser usada para acolher os peregrinos dos grandes dias de Fátima. A igreja propriamente dita deste santuário continuará a ser – assim Deus o queira ao menos enquanto cada um de nós viver – este imenso espaço sagrado, a que chamamos Recinto de Oração”.

A seguir os habituais agradecimentos:

– “Ao Senhor Bispo de Leiria-Fátima, a quem coube a última palavra neste projecto, aos membros e assessores do SEAC, ao Conselho de Pastoral do Santuário, a todos os colaboradores, assalariados e voluntários, à equipa projectista, à FASE, a todos os que estão connosco, mesmo com opiniões divergentes, a nossa gratidão e a certeza de uma oração que vamos continuar para que possam, quando a obra estiver concluída, connosco dar graças a Deus: ou porque não errámos quase nada, louvor que com certeza não mereceremos, ou porque, apesar dos erros, conseguimos um resultado aceitável”.

A terminar:

-“E já que estamos a iniciar um lugar de culto em louvor da Santíssima Trindade, deixai que termine com a doxologia que sempre nos conduziu neste projecto, ao longo dos anos: Glória ao Pai, e ao Filho e ao Espírito Santo”.

Setembro 2007:

Declaração do reitor do Santuário, padre Luciano Guerra:

– “ Os custos da nova Igreja da Santíssima Trindade, em Fátima, já contabilizados os acessos, deverão ascender a 80 milhões de euros, o dobro do inicialmente estimado.”

Dezembro de 2011:
Declarações do padre Carlos Cabecinhas, Reitor do Santuário de Fátima:

– “ Sobre a crise: os católicos estão obrigados a ajudar quem precisa. Por muita necessidade que cada um de nós tenha, pode sempre ajudar alguém. E esse será um desafio não só para aqueles que são peregrinos de Fátima mas também um desafio lançado por Nossa Senhora a todos que partilham a mesma fé. Os recursos financeiros são insuficientes para atender os pedidos. O Santuário não tem capacidade para responder a todas as solicitações e não pretende ser a solução para esses problemas”.

“PORQUE GASTAIS O DINHEIRO NAQUILO QUE NÃO É PÃO? (Isaias 55.2)

José Eduardo Taveira

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Lucidez e Naufrágio

ESTA COISA DA LUCIDEZ É DISCUTIVEL, COMO TUDO NA VIDA. TENHO A MINHA, E NÃO QUERO SOBREPÔ-LA NEM IMPÔ-LA AOS OUTROS. APENAS E SOMENTE A PARTILHO. PENSO QUE É A PRIMEIRA VEZ QUE A PARTILHO CONVOSCO. SE ACASO ME ENGANO, PERDOEM-ME!
LUCIDEZ
(…) João escuta o silêncio do quarto. É como uma toada monótona e sem fim. Do lado esquerdo da cama adivinha um quadro com uma Virgem sofredora a receber nos braços o corpo de um filho morto. Um Filho a quem o mundo que o matou chama Deus, ou Filho também de Deus, que o fez sem o pecado da carne. Como se o amor consentido fosse pecado. É esta a moral dos homens. Alguma coisa ou alguém virá por aí para nos salvar. Mas salvar do quê, de quem? Salvar de nós próprios, pois claro. Num raciocínio de bom senso, isto é como se alguém não fizesse ideia do que afinal anda por aqui a fazer. Afinal, tudo o que a Humanidade quer é simplesmente impunidade. Impunidade entre nações e crenças, impunidade porque se apropria um vizinho daquilo que é do outro vizinho, porque rouba, porque escraviza, porque destrói, porque humilha, porque espezinha, porque assassina, porque desonra. Impunidade e perdão. Afinal a Humanidade quer tudo e, para sua cómoda vantagem, quer tudo dado por Alguém não humano a quem atribui as culpas de a ter, (por desvario de um momento de solidão), Criado. Olhando em redor, esta Humanidade de conveniências e de interesses, lembra-se das suas crenças. Pois, está ali o culpado. Deus, que ainda por cima cometeu o “pecado” de fazer o Homem, (este estafermo facilmente corruptível), à sua Imagem. Ali está então quem vai pagar as “favas” todas, Ele e o Diabo, numa conflitualidade onde se chocam os interesses do Bem e do Mal. Mas que rica prenda é esta Humanidade, beata por fora, maldosa por dentro, ardilosa, conflituosa e interesseira, e ao mesmo tempo extremosa pelos seus filhos povos, que a apaparicam e a mimam, lhe afagam os cabelos e lhe chamam mãe. Em verdade vos digo que estes povos são mesmo filhos da mãe, ou saem a esta mãe porque nela se revêem. Que forma tão bem engendrada que esta Humanidade arranjou para se desculpar, afinal, daquilo que na verdade é, (…)
NAUFRÁGIO
QUANDO OCORRE UM NAUFRÁGIO, OS PRIMEIROS A ABANDONAR O BARCO SÃO OS RATOS. METEM-SE DENTRO DOS SALVA VIDAS, ESCONDIDOS POR TODOS OS CANTOS; ENTRAM PARA AS BALSAS, E LÁ CONSEGUEM SOBREVIVER. CONTO TRÊS ESPÉCIES DE RATOS: OS QUE CHAFURDAM NA IMUNDICIE, QUE VIVEM NUM CHAVASCAL DE PORCARIA E TRAZEM COM ELES CARRADAS DE PESTE. E OS OUTROS, QUE SÃO: OS FANÁTICOS DA RATARIA, QUE SÃO COMO OS PRIMEIROS, MAS SÃO CONSCIENTES E ZELOSOS DA ESPECIE. SÃO OS RATOS OPUS DEI. DEPOIS VÊM OS ULTIMOS, OS SECRETOS, OS RATOS MAÇONS. É CERTO QUE ESTES ULTIMOS, SENDO EM TUDO SEMELHANTES AOS OUTROS, SÃO UM POUCO MAIS EVOLUIDOS, PORQUE NÃO ACREDITAM EM DOGMAS, MAS, PORQUE SÃO CLANDESTINOS, SECRETOS, NÃO SE DISTINGUÉM DOS DEMAIS. CERTO DIA, DURANTE UM NAUFRÁGIO, UM RATO CONSCIENTE (COMO SE TAL SEJA POSSIVEL), AO DESCER PARA O SALVA VIDAS, NUM RASGO DE CONSCIÊNCIA, GRITOU: “ENTÃO E OS OUTROS?” E OUTRO RATO, QUE, MAIS ACIMA, DESCIA PELA MESMA CORDA, RESPONDEU: “Ó PÁ, A GENTE SAFA-SE E OS OUTROS QUE SE DESUNHEM!”

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