Texto do conto:”O Combatente com Sonhos (histórias da g. civil espanhola)

(…)
O rasto de fogo das balas saídas do cano da mauser que o militar disparava em intervalos certos, para manter em respeito o adversário, encaixado na trincheira na sua frente, cosido no chão frio da terra revolta, parou, como se aquele republicano convicto tivesse desistido da luta. A noite, ainda no princípio, gelava o corpo dos homens, e era como se lhes encarquilhasse os cérebros.
Juanito rebuscou nos bolsos da farda, por entre as ferramentas da guerra, afastando a bainha da baioneta para chegar ao bolso das calças, desviando as cintas que lhe prendiam as granadas e as cartucheiras ao corpo, aparentemente franzino, quase de mulher, para alcançar e abrir o bolso superior do blusão, e por último, em desespero de causa, retirou o capacete e procurou entre as cintas que mantinham o aço afastado do coiro cabeludo. Nada! Que estúpido esquecimento. Porra! O certo é que lhe era impossível continuar em combate sem fumar um cigarro, um que fosse, para ver se acalmava o estômago, às voltas, como resultado do pedaço de toucinho rançoso ingerido como complemento da ração de combate, comida ao jantar, ainda de dia, na casa do camponês, do povoado que defendiam como posição de elevada estratégia, no entender dos superiores.
Tabaco tinha, estava o maço ali, no bolso direito do blusão, mesmo à mão de semear, mas faltavam-lhe os fósforos. O que faz um soldado, filho legitimo dos ideais da republica, quando, na linha da frente, travando o avanço de um realista qualquer, ali plantado a uma trintena de metros, embebido no chão como ele, sente que lhe falta o carburante dos pulmões para puder continuar? Era a modos como se lhe faltasse o ar, como se o seu único prazer da vida o castiga-se, fugindo para bem longe de si.
Juanito coseu o rosto no chão, abaixo do saco cheio de areia, quando a bala passou zunindo-lhe aos ouvidos e se foi alojar nas carnes de um camarada morto.
– Cabrão! Tem lá calma um minuto, a ver se consigo mijar sossegado! – Gritou.
Do outro lado chegou-lhe um gargalhar divertido, enquanto uma voz forte respondia:
– Um minuto de folga para mijarmos os dois?
– Bom!
Então aquela ideia maluca aflorou-lhe no espírito. E porque não? Do outro lado não estaria um bicho peçonhento, mas sim um homem como ele, apenas separado por ideais diferentes, possivelmente isolado naquela ponta da trincheira, junto a um camarada seu morto, que se recordava de ter atingido alguém que gritou, e o fogo daquele lado tinha amainado.
– Cabrão! Tu fumas? – Perguntou.
– Fumo sim, filho da puta!
– Eu tenho cigarros mas não tenho fósforos!
– Eu tenho fósforos! Troco por cigarros!
– Vamos negociar? – Inquiriu Juanito.
– Vamos! O que propões?
– Um cigarro contra dois fósforos e um pedaço de lixa?
– Não! Três cigarros contra seis fósforos e um lado da lixa da caixa?
– Feito! – Gritou Juanito – E quinze minutos sem fogo para fumar em sossego!
– Aceito! Quando eu contar até três avançamos só com as pistolas e trocamos!
– Feito! – Gritou o outro.
Juanito retirou os três cigarros do maço, acomodou a espingarda escondendo-a sobre o corpo de um camarada morto, retirou a pistola do coldre, engatilhou-a, contou alto até três, e pulou para fora da trincheira, pistola firme apertada na mão.
Do outro lado um homem grande fez o mesmo. A principio um vulto indistinto, apenas se reconhecendo pela cor diferente da farda. Trazia a pistola apontada, e como ele, avançava meio curvado pela chamada terra de ninguém. A mão contrária à da arma vinha de punho cerrado.
Quando se encararam Juanito reparou no aspecto garboso do outro, nos traços finos do rosto, na face bem escanhoada, escondida em parte por uma pintura à base de verdes suaves, nos olhos esverdeados e ao mesmo tempo cândidos, e Juanito sentiu um frémito a varrer-lhe o corpo. Aquele era o rosto do inimigo, e ele fazia questão de o matar na primeira oportunidade, mas isso não o impedia de o apreciar. Juanito tinha gostos inconfessos pelos outros homens.
Trocaram o combinado e ambos se retiraram, no sentido das respectivas trincheiras, encarando-se de frente durante os primeiros metros, olhos fixos nos olhos do adversário, e logo se voltaram e correram ligeiros para dentro da terra.
Juanito acendeu o cigarro e puxou a primeira fumaça com volúpia. Olhando para o outro lado, percebeu o brilho de um cigarro aceso… (…)

Sobre jsola02

quando me disseram que tinha de escrever uma apresentação, logo falar sobre mim, a coisa ficou feia. Falar sobre mim para dizer o quê? Que gosto de escrever, (dá-me paz, fico mais gente), que escrever é como respirar, comer ou dormir, é sinal que estou vivo e desperto? Mas a quem pode interessar saber coisas sobre um ilustre desconhecido? Qual é o interesse de conhecer uma vida igual a tantas outras, de um individuo, filho de uma família paupérrima, que nasceu para escrever, que aos catorze anos procurou um editor, que depois, muito mais tarde, publicou contos nos jornais diários da capital, entrevistas e pequenos artigos, que passou por todo o tipo de trabalho, como operário, como chefe de departamento técnico, e que, reformado, para continuar útil e activo, aos setenta anos recomeçou a escrever como se exercesse uma nova profissão. Parece-me que é pouco relevante. Mas, como escrever é exercer uma profissão tão útil como qualquer outra, desde que seja exercida com a honestidade de se dizer aquilo que se pensa, (penso que não há trabalhos superiores ou trabalhos inferiores, todos contribuem para o progresso e o bem estar do mundo), vou aceitar o desafio de me expor. Ficarei feliz se conseguir contribuir para que as pessoas pensem mais; ficarei feliz se me disserem o que pensam do que escrevo… José Solá
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