Texto de Ganância, romance (publicado no sitio do livro)

E fiquei com uma ideia precisa dos vossos problemas. Penso que vocês são uma espécie única, penso quese não existissem tínhamos que os inventar. Na vossa história encontram-se facetas que os distinguem de todos os outros povos. Veja você, durante as invasões francesas, quando as tropas invasoras cercavam a fortaleza de Almeida, todas as manhãs saíam pelas portas da cidadela sitiada camponeses com as suas ferramentas agrícolas às costas; quando os franceses os interpelavam respondiam-lhes que iam a tratar das couves e das batatas nas hortas, que tanto lhes fazia que o rei fosse francês ou português, o que lhes interessava era apenas a horta…
– Você foi ao pormenor de ler a nossa história…
– Sim. Cautelas e caldos de galinha nunca fizeram mal ao doente!
Tibério emborcou mais uns tragos da cerveja directamente da garrafa. Comentou a qualidade da bebida, e continuou:
– Toda a vossa história é uma imposição exercida de cima para baixo, a evidenciar o esmagador peso dos poderosos, de bota assente no pescoço de um povo que, por desleixo, por fatalismo, por inércia ou preguiça, nunca foi capaz de tomar nas mãos o destino da terra onde nasceu. Perdoe-me se, como estrangeiro, meto o bedelho nos vossos assuntos, mas é que sou um estrangeiro que vem arriscar dinheiro no vosso país! Assisti às vossas comemorações do centenário da república. As vossas editoras publicaram livros sobre as figuras ilustres da altura. Discursos, actores pelas ruas e praças, vestidos à época. Mas vamos fazer agora uma análise fria dos cem anos da vossa república. Não pense que eu falo por ter tendências monárquicas. Nada disso. De cem temos de excluir quarenta e oito da ditadura mais antiga da Europa, e uma das mais antigas do mundo. Sobejam cinquenta e dois anos. Dezasseis são a primeira república que escancarou as portas à ditadura; faltam trinta e seis, que são a vossa terceira república. Portanto temos, primeiros dezasseis anos, um período em que se lapidam todos os recursos da nação; o povo assaltava os estabelecimentos para roubar a comida, pelas ruas os mais fracos corriam atrás dos mais fortes com facas e alguidares, rompiam as sacas, enchiam os alguidares com o feijão ou o que fosse. Veio a ditadura. Uma classe de comerciantes sem escrúpulos roubou o mais que pode o povo sem privilégios, como sempre, nem o simples direito a comer. Mas o ditador tem o bom senso de amealhar dinheiro. Vem o golpe de estado a que você chama pomposamente de revolução, mas que não passou da única saída possível para uma guerra que foi perdida logo no primeiro dia em que começou. Em onze anos, esbanjados os recursos, a primeira intervenção do Fundo Monetário Internacional na vossa tão preciosa república. Passaram vinte e cinco anos. Nova intervenção do Fundo Monetário Internacional. Pelos meus cálculos, agora que no terreno tomei contacto coma vossa realidade, penso que daqui a vinte anos, talvez menos irá acontecer uma terceira intervenção! Para lhe ser franco não sei onde o meu patrão tem a cabeça para investir neste país! Enfim, o dinheiro é dele e dos seus sócios!
Tibério, com a palma da mão, deu uma palmada amistosa nas costas de Zé Ninguém. Por detrás das lentes escuras adivinhavam-se uns olhos tristes.
– Vá, não pense em tristezas. Há sempre uma saída para a vida que nos corre mal, nem que seja a morte!
– Vire para lá essa boca…

Sobre jsola02

quando me disseram que tinha de escrever uma apresentação, logo falar sobre mim, a coisa ficou feia. Falar sobre mim para dizer o quê? Que gosto de escrever, (dá-me paz, fico mais gente), que escrever é como respirar, comer ou dormir, é sinal que estou vivo e desperto? Mas a quem pode interessar saber coisas sobre um ilustre desconhecido? Qual é o interesse de conhecer uma vida igual a tantas outras, de um individuo, filho de uma família paupérrima, que nasceu para escrever, que aos catorze anos procurou um editor, que depois, muito mais tarde, publicou contos nos jornais diários da capital, entrevistas e pequenos artigos, que passou por todo o tipo de trabalho, como operário, como chefe de departamento técnico, e que, reformado, para continuar útil e activo, aos setenta anos recomeçou a escrever como se exercesse uma nova profissão. Parece-me que é pouco relevante. Mas, como escrever é exercer uma profissão tão útil como qualquer outra, desde que seja exercida com a honestidade de se dizer aquilo que se pensa, (penso que não há trabalhos superiores ou trabalhos inferiores, todos contribuem para o progresso e o bem estar do mundo), vou aceitar o desafio de me expor. Ficarei feliz se conseguir contribuir para que as pessoas pensem mais; ficarei feliz se me disserem o que pensam do que escrevo… José Solá
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