Texto de Ganância, romance (publicado no sitio do livro)

– Temos uma razão que justifica isso.
– Qual?
– É que nos roubaram o ódio…
– Não entendo… o ódio não se rouba, justifica-se, mas não se rouba, todos temos ódio por alguma coisa ou por alguém. Olhe, às vezes funciona como um bálsamo que nos prolonga a vida. Nunca lhe apeteceu dizer “não hei-de ir lá para baixo dos torrões sem ver aquele filho da puta ir primeiro?”
– Sim, às vezes é o que me apetece dizer…
Tibério acenou ao empregado com a garrafa da cerveja no ar, a pedir outra; esfregou as mãos.
– Apesar de o café estar aquecido sinto um certo frio. Mas dizia você que lhes roubaram o ódio? Desenvolva-me essa teoria a ver se a entendo…
– A nossa sociedade, durante os longos anos da ditadura, foi solidária no ódio ao ditador. Isso manteve a unidade entre as pessoas. Em especial entre as camadas estudantis e os intelectuais, e em particular uma franja substancial do operariado ,considerada iletrada. E talvez o fosse, porque o sistema reservava o topo do ensino, o universitário, em exclusividade para as camadas com poder económico. Mas havia, sabe, essa coisa que se desenvolve dentro das pessoas quando lhes tentam vendar os olhos para não verem a luz, uma sensibilidade latente, aquela precisão de ver, de se sentir que se tem o direito de ver. Da parte mais abastada dos que se opunham ao regime, ocorreu solidariedade para com os mais fracos. Médicos consultavam doentes pobres gratuitamente aos fins de semana, roubando horas ao seu descanso, juntando amostras de remédios para lhes valer, advogados defendiam nos tribunais os operários perseguidos pelo regime. O regime é o grande mal de todos os males; não existe à face da terra coisa mais medonha do que o sistema. Se os pobres tinham uma vida dura, uma franja da sociedade não pobre estava com eles de corpo e alma. Depois tudo mudou. A tropa levantou–se. Uma revolução, um novo sistema, eleições, democracia, e assim perdeu-se a razão de ser do ódio do povo. Deceparam a cobra e acabou a peçonha. E agora eu pergunto, se as coisas não correm de feição, quem vamos nós crucificar? O mar de rosas esperado é inexistente. A terceira república é igual à primeira que deu origem à segunda, a que levou ao poder o ditador…
Zé Ninguém terminou o seu segundo café quase ao mesmo tempo que Tibério começava com a sua segunda cerveja. Pela vidraça das portas do café antigo filtrava-se a primeira vitória do Sol sobre a neblina teimosa e húmida. Curvado na sua posição de gozar o mundo, o poeta Chiado secava-se do orvalho que a neblina sempre trás consigo. O Pessoa continua a reflectir, dividido pelos seus heterónimos, parecendo sonhar um mundo de flores sem espinhos. O Zé pensava, quase seguro, na obra que não tinha e culpava por isso o mundo. Tudo afinal era perfeito dentro da imperfeição da vida. Como de costume, como sempre, desde que a incoerência do pensamento bafejou o planeta.
Através das lentes escuras, os olhos metálicos do homem musculado viam a luz tardia a lamber de reflexos os vidros das montras. Da sua face inexpressiva percebia-se apenas o mármore vazio de sentimentos.
– Então e depois?
– Depois o quê? – interrogou Zé Ninguém. – Como pensam vocês saldar as dívidas aos ricos?
– Primeiro temos de comprar novos e mais modernos ódios; os antigos já estão desactualizados. Agora só nos resta odiarmo-nos uns aos outros, os que votam e os que não votam, os que vestem de encarnado contra os que vestem de verde. Escolher culpados, entre do vasto campo de ideologias que temos pela frente. O pior é que todos somos culpados. Não pode haver inocentes…

Sobre jsola02

quando me disseram que tinha de escrever uma apresentação, logo falar sobre mim, a coisa ficou feia. Falar sobre mim para dizer o quê? Que gosto de escrever, (dá-me paz, fico mais gente), que escrever é como respirar, comer ou dormir, é sinal que estou vivo e desperto? Mas a quem pode interessar saber coisas sobre um ilustre desconhecido? Qual é o interesse de conhecer uma vida igual a tantas outras, de um individuo, filho de uma família paupérrima, que nasceu para escrever, que aos catorze anos procurou um editor, que depois, muito mais tarde, publicou contos nos jornais diários da capital, entrevistas e pequenos artigos, que passou por todo o tipo de trabalho, como operário, como chefe de departamento técnico, e que, reformado, para continuar útil e activo, aos setenta anos recomeçou a escrever como se exercesse uma nova profissão. Parece-me que é pouco relevante. Mas, como escrever é exercer uma profissão tão útil como qualquer outra, desde que seja exercida com a honestidade de se dizer aquilo que se pensa, (penso que não há trabalhos superiores ou trabalhos inferiores, todos contribuem para o progresso e o bem estar do mundo), vou aceitar o desafio de me expor. Ficarei feliz se conseguir contribuir para que as pessoas pensem mais; ficarei feliz se me disserem o que pensam do que escrevo… José Solá
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