QUE MAIS NOS IRÁ ACONTECER?

Foi aprovada uma directiva da União Europeia, ignorada pela comunicação social em Portugal, que se sintetiza no seguinte texto:

– “Correspondendo aos apelos dos autores e editoras da União Europeia, no sentido de acautelar os direitos de autor e de combate à pirataria, foi decidido aplicar a directiva que regulará a comercialização de livros em idiomas estrangeiros em todos os países da Comunidade. Assim, a partir de 15 de Abril de 2012, será proibida a tradução para as línguas nacionais de cada país de todas as obras escritas na língua original.”

Concluindo, isto significa que no caso de Portugal, deixaremos de poder ler as obras de grandes escritores mundiais, a não ser que todos saibamos francês, inglês, alemão, castelhano, russo, etc.

Que mais nos irá acontecer?

José Eduardo Taveira

 

 

 

 

 

 

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TanTumPim PamPemPum’Pinga de fogo


TanTanTam, é fogo sempre constante

TanTanTam, derrete tudo por dentro

TanTanTam, por fora arde errante

TanTanTam, jaz nas cinzas do relento

 

TunTunTum, ter implodido na alma

TunTunTum, uma força resultante

TunTunTum, tremenda mas muito calma

TunTunTum, neste inferno de Dante

 

PimPimPim, e numa gota se forma

PimPimPim, de pouca água pura

PimPimPim, pinga, tudo acalenta

 

PamPamPam, desgaste faz-se por norma

PemPemPem, fervura que assim dura

PumPumPum, tu perguntas ! Não rebenta ?

 

                                                                                                                                       B)’iL

 

LINK: Soneto do AoSol’ÉqueSeEstáBem…

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Chove…

Chove, chovem trovões, aluviões
chovem mágoas de tempestade e muitas desilusões
chove por chover sem se querer
chove assim copiosamente na mais bela forma de ser

in “Palavras Por Dizer”, José Guerra (2012)

http://www.sitiodolivro.pt/pt/livro/palavras-por-dizer/9789899770706/

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O milagre de Eir ( de Danilo Pereira )

Quando o mar se agitou naquela manhã e as ondas que provinham dele trouxeram para as encostas do reino de Midgard uma bela jovem de orelhas pontiagudas, o nórdico se encantou com tamanha formosura. Seus olhos brilharam, pareciam nunca terem visto uma mulher antes, talvez nenhuma como aquela que era tão bela quanto uma Deusa.

A moça se encontrava num sono profundo, inconsciente, pálida como a neve e sua expressão era de dor e sofrimento. O que poderia tê-la trazido até ali? Wolfgang não ousou pensar, estava encantado, admirado, fascinado por aqueles lábios carnudos que por breves e longos momentos sentiu um desejo incontrolável de beijá-los. O aesir apesar de desejá-la, sabia que se tratava de uma elfa e não de uma mulher comum, em sua terra, os elfos eram descritos como seres perigosos, que usavam sua magia para enfeitiçar os guerreiros que se aventuravam nas florestas.

Tudo poderia ser verdade, não descartou, mas seu espírito aventureiro lhe dizia para ir mais longe, para se aventurar, vivenciar as maravilhas daquele mundo fantástico repleto de fantasia. Então ele a tocou no rosto, sentiu por entre seus dedos rudes a maciez daquela pele branca que pareceu reagir ao toque.

A elfa dava sinais de que iria despertar, o aesir, adimirado e receoso ao mesmo tempo, recuou e viu aqueles lindos olhos se abrirem como se fossem duas lindas pedras preciosas. O brilho daquele olhar lhe ofuscou os olhos, era intenso, vibrante, verde como uma folha de lorien. Aquela expressão triste não existia mais, a elfa se levantou num pulo e abriu um sorriso tão maravilhoso, que foi capaz de deixar Wolfgang paralisado, sem ação, completamente sem reação.

A alegria daquele ser era mesmo contagiante, seus longos cabelos de cor amarelada se esvoaçavam em demasia pelo ar como sereias pelo mar, sua sensualidade era tanta, que bastava um único movimento dos quadris para enlouquecer até o mais forte dos guerreiros, quem sabe até mesmo um Deus.

O nórdico ficou com medo, pensou que aquilo poderia ser bruxaria ou algo parecido e de todas as maneiras tentou desviar seu olhar, mas a elfa queria encantar, atiçar aquele gigante do norte que demonstrando sua fraqueza, fez com que a delicada moça se manifestasse.

– Por que não olha para mim, não gosta do que vê?

Sem titubear, respondeu:

– Nunca vi cabelos tão bonitos, quem é você mulher, como veio parar aqui?

A elfa parecia querer brincar, não disse sequer seu nome e disparou sem rumo em meio à aquele mundaréu de terra. Ela corria depressa, seus pés descalços percorriam aquele território como se fossem os de uma criança travessa, inocente, sem culpa. Então Wolfgang correu atrás dela, a seguiu até uma floresta onde a viu sumir por entre aquela mata. Naquele momento o aesir pensou estar delirando, de estar vendo coisas, de estar apaixonado por alguém que poderia não existir. Era uma tentação, assim pensou, uma miragem, uma maldição enviada por Hel que alegrava-se com a morte.

O nórdico tentou recuar, estava crente que aquilo tudo não passava de um encanto maligno mas seu coração e seu espirito aventureiro lhe diziam para se aventurar, para se aprofundar naquelas folhagens que pareciam querer lhe mostrar algo. Então ele penetrou naquele mato, desembainhou o aço e percorreu cada centimetro daquela terra como se fosse um predador faminto, não encontrou nem rastro da elfa, que misteriosamente desapareceu no meio daquele mundo florestal.

O desespero começou a tomar conta da situação, Wolfgang havia se perdido e se viu num labirinto grandioso ao fitar aquelas colossais árvores que se entrelaçavam em meio à aquele verde infinito. Não havia viva alma ali, concluiu o aesir, estava sozinho, abandonado e por um breve momento, pensou não haver saída e que tudo não havia passado de um maldito feitiço. Por outro lado, a elfa bem que podia ser real, tão real, que ao fechar os olhos, pode ouvir um canto doce que pareceu sair dos lábios daquela doce criatura.

Seria realidade ou fantasia? Ele não tinha certeza, tinha apenas a certeza de que aquela suave melodia continuava a ecoar por aquela floresta que subitamente revelou algo surpreendente. De algum lugar daquele matagal, uma pequena luz tênue de cor esverdeada serpenteou entre as árvores e pairou no ar ficando frente a frente com o nórdico que murmurou ao recuar.

– Sagrado seja Odin!Que diabos é isso!

A luz não cessou, foi de encontro ao guerreiro e revelou-se.

– Não tenha medo, sou uma simples fada e preciso de sua ajuda, depressa!

Sem perder tempo, Wolfgang a seguiu, penetrou numa parte escura da floresta e cruzou um enorme feixe de raízes que haviam se entrelaçado num corpo. Era a elfa que estava ali, desacordada, sufocada por aquelas plantas que pareciam ter vida. Então, o gigante dourado com toda sua força, agarrou aquele monte de raizes e as puxou com muita violencia, libertando a moça daquele sofrimento.

Wolfgang a pegou nos braços, a abraçou e não sentiu calor algum naquele corpo meigo que até então se encontrava gelado como as montanhas do norte. A fada, não conteve sua emoção e derramou um rio de lágrimas sobre aquele solo maldito que milagrosamente, se encheu de pontos brilhantes que deixaram aquela pequenina criatura eufórica.

– Veja! São folhas de Lorien, depressa guerreiro, vamos rezar por Aurehen!

Meio sem jeito, o aesir apanhou uma das folhas, olhou para o alto e pediu aos Deuses que não a levassem.

Então, do alto daqueles titânicos arvoredos desceu uma imagem, uma imagem encapuzada trajando uma canga e uma folha de Lorien na cintura. O nórdico olhou espantado, parecia estar vendo um fantasma e com toda sua devoção, emocionou-se ao pronunciar:

– Eir!

Era a Deusa da cura que havia deixado Asgard para salvar Aurehen da morte, a elfa havia se perdido de seu povo e nas terras de Midgard, ela não passava de uma mera mortal. A Deusa, tocou em seu coração e com uma luz divina, fez com que aqueles olhos brilhantes brilhassem mais uma vez por aquela imensidão esverdeada. A elfa havia acordado e Wolfgang, com ela ainda em seus braços, a beijou e sentiu o doce gosto daquele beijo que o fez perder o fôlego.

 

Personagens da obra, Wolfgang, o guerreiro nórdico.

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PARABÉNS, ALEXANDRE HERCULANO !

 

 

 

 

 

Alexandre Herculano nasceu em Lisboa, no dia 28 de Março de 1810 e viveu até 13 de Setembro de 1877.

Foi escritor, jornalista, poeta e historiador e um dos grandes nomes do romantismo português.

Estudou Humanidades na Congregação do Oratório.

Com dezoito anos já se declarava o seu talento literário. Estudou francês, alemão e latim. Frequentou as tertúlias literárias de Marques de Alorna, que viria s ser sua conselheira.

Em 1831 envolveu-se numa conspiração contra o regime miguelista e teve de exilar-se em Inglaterra e depois em França.

No ano seguinte regressa a Portugal, participando no desembarque das tropas liberais em Mindelo. Foi nomeado segundo-bibliotecário da biblioteca do Porto. Quatro anos depois, demitiu-se deste cargo por divergências com o governo Setembrista.

Foi director das bibliotecas reais das Necessidades e da Ajuda, a convite do Rei D. Fernando.

Em 1840 é eleito deputado pelo Partido Cartista. Após um ano demitiu-se, decepcionado com a actividade parlamentar.

Em 1851 voltou à política, mas depressa se desiludiu com a Regeneração, discordando de Fontes Pereira de Melo.

Foi um dos fundadores do Partido Progressista Histórico.

Em 1855 foi nomeado Vice-Presidente da Academia Real das Ciências e convidado para uma tarefa importante: recolher documentos históricos anteriores ao século XV. Este trabalho foi publicado com o nome “Portugaliae Monumenta Historica”.

Foi o fundador dos jornais “O País” e “O Português” e colaborador da “Revista Universal Lisbonense”.

Dirigiu a revista literária “O Panorama” que foi considerada a mais importante publicação do Romantismo português.

Teve vários conflitos com o clero: manifestou discordância relativamente à Concordata de Roma; questionou o milagre de Ourique, que deu origem à publicação dos opúsculos “Eu e o Clero” e “Solemnia Verba”; participou na redacção do primeiro Código Civil Português, defendendo o casamento civil; publicou o livro “História da Origem e Estabelecimento da Inquisição em Portugal”.

Em 1871 escreveu uma carta sobre o encerramento das Conferências do Casino. Estas conferências foram uma iniciativa do grupo do Cenáculo, que integrava Antero de Quental, Manuel Arriaga, Guerra Junqueiro, Eça de Queirós, Jaime Batalha Reis e Salomão Sáragga. O objectivo era debater a aproximação de Portugal aos países modernos, a nível de pensamento político, social, pedagógico e científico como a França, a Inglaterra e Alemanha.

Em 1867, desiludido com a vida pública, retirou-se para a sua quinta em Vale de Lobos onde se dedicaria à vida rural.

Da sua vasta obra, destacam-se, aleatoriamente, as seguintes: “História de Portugal” (4 volumes); “Poesias”, “Voz do Profeta”,“Os Infantes em Ceuta”, “O Bobo”,“O Fronteiro de África”, “O Pároco de Aldeia”,“Eurico, o Presbítero”,“O Monge de Cister”, “Lendas e Narrativas”, diversos “Opúsculos”, etc.

Nesta simples homenagem a Alexandre Herculano no dia do seu aniversário, um excerto do poema: “Tristezas do Desterro”

Ai, que és tu, existência?! Um pesadelo,
Um sonho mau, de que se acorda em trevas,
Na vala dos cadáveres, em meio
Da única herança que pertence ao homem,
Um sudário e o perpétuo esquecimento.
(…)
E da pátria a saudade, em sonho triste,
Imóvel, do viver me tece a noite.

 Algumas citações de Alexandre Herculano:

“O homem é mais propenso a contentar-se com as ideias dos outros, do que a reflectir e a raciocinar.”

– “Querer é quase sempre poder: o que é excessivamente raro é o querer.”

– “Eu não me envergonho de corrigir os meus erros e mudar de opinião, porque não me envergonho de raciocinar e aprender.”

– “O segredo da felicidade é encontrar a nossa alegria na alegria dos outros.”

-“Saber resistir à violência é forte, mas vulgar; saber resistir à calúnia e aos motejos é maior esforço e mais raro”.

Que a tirania de dez milhões se exerça sobre um indivíduo, que a de um indivíduo se exerça sobre dez milhões, é sempre tirania, é sempre uma coisa abominável”.

– “A ingratidão é o mais horrendo de todos os pecados.”

– “Debaixo dos pés de cada geração que passa na terra dormem as cinzas de muitas gerações que a precederam”.

(José Eduardo Taveira)

 

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… a gregântica pena da agnóstico’anarquica espiritualidade…

… AoSol’É’queSeEstáBem …

Não é um livro para se entender… é um livro para sentir… e para se ir entendendo…

Obrigado                                                                                    

                                                                                                                                            B)’iL

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A R’evolução está para breve…

AoSol’ÉqueSeEstáBem… a R’evolução está para breve…

… e se não gostas “É” porque não estar a ver bem…

 

Se observares “Bem”, vais ver que não será o “fim do mundo”, mas o fim de um tipo de mundo.

Não nos restam dúvidas que a nossa civilização está à beira do colapso. Prova maior disso é a actual crise financeira mundial e o aumento das catástrofes naturais, além do agravamento da violência e distúrbios psicológicos.

Qualquer um que usar a inteligência e fizer uma análise sobre os fatos mundiais que ocorrem actualmente, deve compreender que se não houver uma mudança radical na nossa forma de viver, a nossa sociedade não “terá” como sobreviver por muito tempo.

 

Não sou certamente dos poucos que pensa assim, porque há muitos mais “que olham o céu e as estrelas”… e não será certamente só isso, o que interessa nesta vida, mas sim, observar em pormenor as coisas boas e belas que nos rodeiam e que nos passam ao lado… e porquê? 

É simples… o pior cego, É aquele que não quer ver…

Eu não sou mais do que alguém para sentir o que digo, porque acho (acho não, tenho a certeza), que tenho sido obrigado a ver o que se está a passar, e, a continuar a acreditar que a R’evolução das mentes, será um processo obrigatório para quem gosta de estar vivo, para quem gosta de amar e para quem gosta de si próprio. Pois só assim poderá gostar do seu semelhante e deixar que o outro lhe passe à frente se for a vez “dele”.

Parece um pouco confuso o que aqui digo, mas é algo dito com uma consciência tranquila que acredita num amanhã melhor. Se quase nada nesta vida é impossível… se o avanço é tão grande e “e’vidente”, porque não mudarmos certos “pre’conceitos”? Dar é o melhor que se tem para fazer nesta vida.

Mudar de vida é mudar tudo… é utópico, mas é possível… tanto possível como substituirmos o conceito “utópico” pelo conceito de “pleno”.

 Basta para isso deixar de estar em “cima” (utópico) e passar a estar ao “lado” (pleno)… e nunca te sentirás em baixo…

… e sem querer ser chato, mais uma vez, reservo todos os meus direitos… e os esquerdos também… porque não me canso… porque resistir É vencer…

 

                                                                                                                                                                 B)’iL

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10 MANDAMENTOS PARA 1 ESPECTADOR DE TEATRO

 

 

 

 

 

Mário Viegas foi um dos grandes actores trágico-cómicos do teatro português.

Como encenador dirigiu obras de autores clássicos como Anton Tchekov, Luigi Pirandello, Samuel Beckett, Peter Shaffer, entre muitos outros.

Recebeu vários prémios pelo seu fulgurante talento: Casa da Imprensa, Prémio Garrett, Associação Portuguesa de Críticos de Teatro, Festival de Teatro de Sitges e Festival Europeu de Cinema Humorístico da Corunha.

O seu último trabalho teatral foi a peça “Europa Não! Portugal Nunca!”, em 1995.

Criou três companhias de teatro. A última foi a Companhia Teatral do Chiado fundada em 1990 em parceria com Juvenal Garcês, actual director artístico e encenador. A partir de 1996 passou a ser designado Teatro Estúdio Mário Viegas.

Em Santarém, sua terra natal, existe um espaço denominado Fórum Actor Mário Viegas.

Ainda em vida, doou todo o seu valioso espólio artístico ao Museu Nacional do Teatro.

No vigésimo aniversário da Companhia Teatral do Chiado, Juvenal Garcês homenageou o seu grande amigo e companheiro de trabalho com a peça “Amor com Amor se Paga” (um acto teatral para Mário Viegas).

O jornalista Viriato Teles entrevistou o actor em 1992, da qual merecem ser transcritas partes do preâmbulo e de algumas das respostas de Mário Viegas:

– Preâmbulo: O homem que agora se senta à minha frente está destinado a vencer a morte. Fala muito e em ritmo acelerado, mas nunca fala por falar. Os olhos não param quietos, mesmo quando se dirigem para nós. Pontua a conversa com gestos largos, próprios de quem sabe o que quer e tem pressa de o concretizar. A sua vida é um corrupio de cenas e emoções, poemas e paixões, amigos e bebedeiras. Olho-o e penso que poucos actores conseguem aguentar um ritmo de trabalho tão intenso como este Mário Viegas, mas menos ainda são capazes de que a essa intensidade corresponda uma tão grande dose de prazer”. (….)

(…) “A vida em alta velocidade” foi o título, quase premonitório, que na altura dei a esta entrevista. A doença incurável que, escassos quatro anos depois, acabaria por vitimá-lo, ainda não se havia manifestado, e Mário Viegas estava no cume da sua criatividade. Mas não parava. Como se tivesse receio de não conseguir concretizar tudo o que tinha para fazer.” (…)

           Alguns extractos das respostas de Mário Viegas:

(…) – “A formação da Companhia surgiu na “ressaca” de uma coisa que me deu imenso trabalho e imenso prazer, o programa “Palavras Vivas”, realizado pelo Nuno Teixeira. Foi um trabalho muito espaçado, de meses. Era para começar a ser transmitido em Dezembro, mas por causa das eleições presidenciais isso só aconteceu a partir do dia 19 de Janeiro. E foi na sequência disto tudo que tive a ideia – penso que, até agora, feliz – de formar a Companhia com um grupo de amigos e de jovens actores”. (…)

          (…) – “Durante anos, sempre trabalhei em coisas de humor, sempre disse poesia e fiz espectáculos a solo. E, tanto nestes como nos recitais de poesia, metia sempre poemas ou pequenos textos do Mário-Henrique, que é um dos muitos autores que gosto muito de dizer e que têm a ver comigo. Geralmente só escolho textos que gostaria de ter escrito…” (…)

         (…) -“ É por isso que é muito errado pensar-se que as pessoas não vão perceber, que este ou aquele texto é muito difícil para elas. Essas coisas que se dizem como se nós fôssemos os doutores, nós é que sabemos, é que temos o acesso à cultura. Isso passa-se, também, com os textos do Samuel Beckett, de que tenho em cena três peças em um acto. Há quem diga que é muito elitista, mas já fiz várias peças dele e tenho tido reacções extraordinárias de pessoas muito simples que me vão ver sem qualquer tipo de preconceito pseudo-intelectual. E que, por vezes, percebem as coisas mais rapidamente que muitos universitários que aqui aparecem já com ideias feitas sobre o Beckett sem nunca terem visto nada dele e só tendo lido algumas “caganças” sobre o assunto”.(…)

         (…) – “A maioria das recordações é boa. Fiz as coisas boas e más na altura em que tinha de as fazer. Claro que as melhores recordações que tenho da minha carreira (não gosto muito de utilizar a palavra carreira, mas enfim) são as coisas que concretizei principalmente fora de Lisboa, por norma as menos publicitadas. Faço regularmente centenas de espectáculos, recitais de poesia e é aí que tenho realizado as coisas de forma mais livre, mesmo antes do 25 de Abril. “O Manifesto Anti-Dantas”, do Almada Negreiros, “0 Operário em Construção”, do Vinícius de Moraes… Comecei a dizê-los aos 20 anos e foram noites e momentos memoráveis. (…) Paralelamente, tinha uma carreira mais ou menos institucional no teatro. Isto depois do 25 de Abril, porque antes estive proibido muito tempo de actuar em público, por causa da censura. (…) Mas todas as viagens que fiz, todas as paixões que tive, as aventuras agradáveis e loucas que aconteceram na minha vida estão todas ligadas ou ao teatro ou à recitação de poesia.” (…)

         (…) “Isso de se dizer que os jovens estão muito mais libertos… Não sei. Falta-lhes um incentivo, uma coisa por que lutar. E foi isso que deu origem a que a nossa geração formasse os chamados grupos de teatro independente que, afinal, são praticamente os únicos que continuam. Com perspectivas, com sonhos, não é aquela coisa ultrapassada e passadista, “lá vêm os quarentões, lá vêm os anos 60”. De facto são essas as pessoas que têm ainda hoje energia para estar no teatro. E são as mesmas pessoas que criam as oportunidades para a malta mais nova. A coisa que mais me choca quando vou passear à noite (e eu sou um homem que gosta da noite e conheço Lisboa muito bem à noite) é ver uma série de jovens de 16, 17, 18 anos sem quaisquer perspectivas. Porque se nós nos embebedávamos, se fazíamos as nossas loucuras próprias da adolescência, o que acho muitíssimo bem, era com um objectivo “anarqueirante”, era contra o regime, tudo isso. Agora não é com objectivo absolutamente nenhum, parece-me ser só o desespero pelo desespero. Depois, dizem que estamos velhos e que lutámos por um ideal que não resultou. Mas a verdade é que tivemos uma perspectiva, uma ideia de sociedade que nós não vimos falhar. Que alegria maior pode haver, para nós que temos 30 e tal ou 40 anos, que vivemos o período de passagem do fascismo para a democracia e que, 17 anos depois, vivemos em total liberdade, sem o fantasma terrível da guerra colonial? Isso é uma coisa que se deve muito a nós. (…) A verdade é que tenho ido a universidades e a escolas dizer poesia e, às vezes, nem o Camões sabem quem é… (…)

         (…) – Mas olha que não estou nada pessimista, antes pelo contrário. E vou dar-te um exemplo relacionado com a Companhia Teatral do Chiado: nas primeiras representações de “A Birra do Morto”, quarenta por cento dos bilhetes que vendemos foi para estudantes. E acho que o espectáculo corresponde à “onda” de que eles estavam à espera. Há ali, uma ideologia, tal como há no “Mário Gin Tónico”, e que passa por brincar com os valores instituídos como a política, a Igreja, a morte. Porque os espectáculos do vazio, do esteticismo pelo esteticismo, pós-modernismos a imitar modas que, lá fora, até já passaram (se é que alguma vez chegaram a sê-lo), isso não me interessa nada…”

Mário Viegas era um homem de carácter, que não se submetia aos diversos poderes instituídos para obter benesses. Ficará na História do Teatro como actor único, insubstituível, de talento inesgotável.

É de justiça realçar a lealdade e o respeito de Juvenal Garcês, que mantém, com sucesso, a ideia original da Companhia na sua programação teatral.

A seguir deliciemo-nos com o humor acutilante de Mário Viegas, num artigo de opinião que escreveu em 1995 e publicado no Diário Económico, jornal onde colaborava:

 10 MANDAMENTOS PARA 1 ESPECTADOR DE TEATRO

NÃO CHEGARÁS ATRASADO, incomodando a concentração daqueles que estão a Representar e dos outros (que chegaram religiosamente a horas) que estão a assistir ao Santo Sacrifício do Teatro.

 2º NÃO FALARÁS BAIXINHO com o ou a acompanhante; incomodando com a tua inclinação de cabeça o Espectador de trás, e distraindo os Actores celebrantes do Santo Sacrifício do teatro.

 3º NÃO ADORMECERÁS NEM RESSONARÁS, dando marradas para a frente ou para trás, ou pondo a mão nos olhos para os outros pensarem que estás muito concentrado no Santo Sacrifício do teatro.

NÃO TOSSIRÁS NEM TE ASSOARÁS com grande ruído, escolhendo as melhores pausas dos celebrantes do Santo Sacrifício do Teatro.

 5º NÃO TE ABANARÁS constantemente com o programa, distraindo os que estão, religiosamente, ao teu lado e, irritando os que estão no palco a celebrar o Santo Sacrifício do Teatro.

 6º NÃO COMERÁS rebuçados, pipocas, caramelos, chocolates, pastilhas, comprimidos; tirando-os muito devagarinho, fazendo com o papel e as pratinhas o mais diabólico, satânico e herético ruído numa sala de espectáculos em que se celebra o Santo Sacrifício do Teatro.

NÃO LEVARÁS relógios com pipis electrónicos, telemóveis e sacos de plástico que andarás constantemente a pôr, ora entre as pernas, ora no colo, perturbando os que celebram o Santo Sacrifício do Teatro.

 8º NÃO LERÁS OU FOLHEARÁS o programa durante a celebração do Santo Sacrifício do Teatro para tentar saber qual é o nome de determinado Actor, ou para tentar perceber a sequência do Santo Sacrifício do Teatro.

 9º NÃO PEDIRÁS borlas ou insistirás em descontos, a que não tens direito, para assistir à celebração do Santo Sacrifício do Teatro.

  10º NÃO OLHARÁS «com umas grandes ventas» para o vizinho do lado, que achou religiosamente Graça ao que tu não achaste, ou que, piamente e cheio de Fé, se levantou logo para aplaudir, enquanto tu bates palmas por frete e já a pensar ir a correr tirar a porcaria do teu carrinho, ou a porcaria do teu sobretudo do bengaleiro, mais cedo do que os outros.

ASSIM: SUBIRÁS PURO AOS CÉUS!
OU
ASSIM: PODERÁS IR A 13 DE MAIO À COVA DA IRIA
OU
ASSIM: PODERÁS IR E COMUNGAR NO CASAMENTO REAL

de Sua Majestade Sereníssima Dom Duarte Pio João Miguel Gabriel Rafael De Bragança, chefe da Sereníssima Casa de Bragança, Duque de Bragança, de Guimarães e de Barcelos, Marquês de Vila Viçosa, Conde de Arraiolos, de Ourém, de Barcelos, de Faria, de Neiva e de Guimarães; e de sua Augusta Noiva Isabel Inês De Castro Corvello de Herédia.
IDE E ESPALHAI A BOA NOVA!

 “A minha vida é o Teatro e o Teatro é a minha vida”  – Mário Viegas

 

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Margarida e os Ensinamentos Sábios da sua Filha Joana

    A situação daquela casa, tinha uma Energia Mágica… uma vista deslumbrante, um ambiente duma grande tranquilidade e o barulho das ondas, transmitia vários tipos de melodia… ora calma, serena… ora de grande agressividade… mas ambas, duma IMPONÊNCIA E GRANDIOSIDADE como TODA A NATUREZA.

PARA ENCOMENDAR

http://www.sitiodolivro.pt/pt/livro/margarida-e-os-ensinamentos-sabios-da-sua-filha-joana/9789899737549/

OBRIGADA

Rita Lacerda

 

 

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Memória curta…

COELHO GABIRÚ, PORQUE NÃO EMIGRAS TÚ? Esta dica que li num dístico de um dos (possivelmente) estudantes de Coimbra, é digna de antologia. É a maneira que a nossa gente tem de gozar com o óbvio.
E porque não tenho a memória curta, recordei essa outra triste figura, gente de má memória, que nessa mesma cidade, Coimbra, quando caminhava sobre as capas dos estudantes, estes se divertiam a puxá-las, e o dito cujo se desequilibrava, para gáudio da assistência, tentando desesperadamente manter a compostura de um Presidente da Republica de um Estado ditatorial, de miséria extrema, onde o desrespeito pela dignidade das pessoas escandalizava o mundo civilizado.
Esse tipo de ontem dava pelo nome de Tomás, e isso (o nome e a figura do homem) faz-me recordar da fome e da tristeza, das barracas onde viviam (?) pessoas, paredes meias com o flagelo da tuberculose, gente sem norte, que passava a monte as montanhas que nos separavam da Civilização e depois, mercê do seu amor à terra e aos que por cá ficavam, sustentavam com as suas remessas de divisas a nojenta ditadura.
Infelizmente, não sou dos que têm a memória curta. Seria muito mais feliz se assim não fosse. A carga policial que agrediu a manifestação dos Indignados fez-me lembrar os dias de antes, no Primeiro de Maio, a bruteza de uma policia rude e analfabeta, comandada por carrascos, as vezes que o povo arrancava as pedras dos passeios para se defender à pedrada, das lutas que quem trabalha e que não teve a culpa de nascer neste país, travava por um pouco de pão e uma réstia de dignidade, na tentativa de se afirmar na qualidade de seres humanos e nunca na de escravos.
É verdade que os jovens manifestantes de hoje provocaram a polícia, pelo que diz quem viu. Mas que se espera desta juventude sem rumo, sem futuro, e que todos os dias vê as injustiças que são praticadas por uma classe de empresários incompetentes, que nada garantem a quem trabalha, e os grupelhos de políticos incapazes que os apoiam? Talvez agradasse mais aos tipos do governo ver os jovens manifestantes cantarem cânticos de louvor à gloriosa Pátria, e levarem ramos de malmequeres para oferecerem aos policias, para que estes, à noite, os desfolhassem com as esposas, na cama, a brincar ao mal – me – quer – bem – me – quer?
Porque não tenho a memória curta recordo a ceifeira de Baleizão, no Alentejo, morta a tiro pela Guarda Republicana, por um certo assassino de farda, preocupado apenas com a defesa dos feudos, propriedade dos Senhores Donos da Terra; penso nos homens sentados nos muros do mercado de Moura, (porque corpo sentado aguenta melhor a fome), na espera que os Donos da Terra os escolhessem (como faziam com o gado), para trabalhar; lembro as histórias dos imigrantes, em terras de França, que à noite se juntavam encostados num muro sobre uma auto-estrada, para defecar, e por cá, os consecutivos “balões” que atiravam os operários para o desemprego, a sofrida tristeza espelhada na expressão dura dos meus compatriotas, arrastados quais mortos – vivos pelas sepulturas da vida, envergonhados da sua condição de mendigos.
E hoje, fico perplexo sempre que os sucessivos governos de direita, culpabilizam os comunistas pelo desassossego que grassa no País; antes comiam criancinhas, hoje, além de antropófagos, são também perigosos agitadores.
Não sou comunista, por questões de nunca antes perceber que, neste triste mundo, não existem sistemas políticos perfeitos; a imperfeição e o erro está em tudo o que o homem faz e pensa.
Mas, e porque não tenho a memória curta, nem moldada às conveniências da corrupção, (porque não sou corrupto), recordo que sempre encontrei nos comunistas amigos confiáveis, e presentes em todos os momentos de crise, ao lado de quem sofre.
A ideologia comunista deu cartas nos séculos dezanove e vinte, porque demonstrou até à saciedade que, apostando na educação, é possível ao Homem emancipar-se e pegar nas suas mãos o rumo do destino, quer individual, ou colectivo.
Lembro-me de ler, num Diário das Sessões da Assembleia do tempo da, (de má memória), União Nacional, o líder da única oposição consentida, o doutor Sá Carneiro, comparar os comunistas, pelo seu constante espírito de sacrifício, aos primeiros cristãos, quando o sistema de então os atirava aos leões; hoje são eles que continuam a luta, sem apego a fortunas nem a privilégios, mantendo os níveis de vencimentos que, (antes de serem nomeados para o serviço publico), auferiam no exercício dos seus misteres profissionais. Por isso os considero gente decente e com ideais honestos. São o contrário dos outros, dos das manigâncias, dos truques, das baboseiras. A decência se continua, como sempre, nos partidos da esquerda, enquanto o império das máfias, esse polvo medonho que nos devora e nos rouba, fragmenta este País, (como eu escrevi e publiquei em livro), em pedaços, e vende os mais rentáveis ao estrangeiro.
Para terminar este meu desabafo, agradeço à juventude indignada, (talvez a maior dor de cabeça deste estado torto e não de direito), porque vocês, por todo o mundo, são o rosto da descrença e da desilusão em todos os sistemas que hoje envergonham o planeta. Que nunca se resignem e que lutem sempre, (assim eu ainda tivesse forças para aparecer fisicamente ao vosso lado). O AMANHÃ É VOSSO, A TERRA VOS PERTENCE POR DIREITO DE HERANÇA! POR FAVOR NUNCA VERGUEM E LUTEM, LUTEM SEMPRE.NÃO SE ACOBARDEM COMO NÓS!
José Solá

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