10 MANDAMENTOS PARA 1 ESPECTADOR DE TEATRO

 

 

 

 

 

Mário Viegas foi um dos grandes actores trágico-cómicos do teatro português.

Como encenador dirigiu obras de autores clássicos como Anton Tchekov, Luigi Pirandello, Samuel Beckett, Peter Shaffer, entre muitos outros.

Recebeu vários prémios pelo seu fulgurante talento: Casa da Imprensa, Prémio Garrett, Associação Portuguesa de Críticos de Teatro, Festival de Teatro de Sitges e Festival Europeu de Cinema Humorístico da Corunha.

O seu último trabalho teatral foi a peça “Europa Não! Portugal Nunca!”, em 1995.

Criou três companhias de teatro. A última foi a Companhia Teatral do Chiado fundada em 1990 em parceria com Juvenal Garcês, actual director artístico e encenador. A partir de 1996 passou a ser designado Teatro Estúdio Mário Viegas.

Em Santarém, sua terra natal, existe um espaço denominado Fórum Actor Mário Viegas.

Ainda em vida, doou todo o seu valioso espólio artístico ao Museu Nacional do Teatro.

No vigésimo aniversário da Companhia Teatral do Chiado, Juvenal Garcês homenageou o seu grande amigo e companheiro de trabalho com a peça “Amor com Amor se Paga” (um acto teatral para Mário Viegas).

O jornalista Viriato Teles entrevistou o actor em 1992, da qual merecem ser transcritas partes do preâmbulo e de algumas das respostas de Mário Viegas:

– Preâmbulo: O homem que agora se senta à minha frente está destinado a vencer a morte. Fala muito e em ritmo acelerado, mas nunca fala por falar. Os olhos não param quietos, mesmo quando se dirigem para nós. Pontua a conversa com gestos largos, próprios de quem sabe o que quer e tem pressa de o concretizar. A sua vida é um corrupio de cenas e emoções, poemas e paixões, amigos e bebedeiras. Olho-o e penso que poucos actores conseguem aguentar um ritmo de trabalho tão intenso como este Mário Viegas, mas menos ainda são capazes de que a essa intensidade corresponda uma tão grande dose de prazer”. (….)

(…) “A vida em alta velocidade” foi o título, quase premonitório, que na altura dei a esta entrevista. A doença incurável que, escassos quatro anos depois, acabaria por vitimá-lo, ainda não se havia manifestado, e Mário Viegas estava no cume da sua criatividade. Mas não parava. Como se tivesse receio de não conseguir concretizar tudo o que tinha para fazer.” (…)

           Alguns extractos das respostas de Mário Viegas:

(…) – “A formação da Companhia surgiu na “ressaca” de uma coisa que me deu imenso trabalho e imenso prazer, o programa “Palavras Vivas”, realizado pelo Nuno Teixeira. Foi um trabalho muito espaçado, de meses. Era para começar a ser transmitido em Dezembro, mas por causa das eleições presidenciais isso só aconteceu a partir do dia 19 de Janeiro. E foi na sequência disto tudo que tive a ideia – penso que, até agora, feliz – de formar a Companhia com um grupo de amigos e de jovens actores”. (…)

          (…) – “Durante anos, sempre trabalhei em coisas de humor, sempre disse poesia e fiz espectáculos a solo. E, tanto nestes como nos recitais de poesia, metia sempre poemas ou pequenos textos do Mário-Henrique, que é um dos muitos autores que gosto muito de dizer e que têm a ver comigo. Geralmente só escolho textos que gostaria de ter escrito…” (…)

         (…) -“ É por isso que é muito errado pensar-se que as pessoas não vão perceber, que este ou aquele texto é muito difícil para elas. Essas coisas que se dizem como se nós fôssemos os doutores, nós é que sabemos, é que temos o acesso à cultura. Isso passa-se, também, com os textos do Samuel Beckett, de que tenho em cena três peças em um acto. Há quem diga que é muito elitista, mas já fiz várias peças dele e tenho tido reacções extraordinárias de pessoas muito simples que me vão ver sem qualquer tipo de preconceito pseudo-intelectual. E que, por vezes, percebem as coisas mais rapidamente que muitos universitários que aqui aparecem já com ideias feitas sobre o Beckett sem nunca terem visto nada dele e só tendo lido algumas “caganças” sobre o assunto”.(…)

         (…) – “A maioria das recordações é boa. Fiz as coisas boas e más na altura em que tinha de as fazer. Claro que as melhores recordações que tenho da minha carreira (não gosto muito de utilizar a palavra carreira, mas enfim) são as coisas que concretizei principalmente fora de Lisboa, por norma as menos publicitadas. Faço regularmente centenas de espectáculos, recitais de poesia e é aí que tenho realizado as coisas de forma mais livre, mesmo antes do 25 de Abril. “O Manifesto Anti-Dantas”, do Almada Negreiros, “0 Operário em Construção”, do Vinícius de Moraes… Comecei a dizê-los aos 20 anos e foram noites e momentos memoráveis. (…) Paralelamente, tinha uma carreira mais ou menos institucional no teatro. Isto depois do 25 de Abril, porque antes estive proibido muito tempo de actuar em público, por causa da censura. (…) Mas todas as viagens que fiz, todas as paixões que tive, as aventuras agradáveis e loucas que aconteceram na minha vida estão todas ligadas ou ao teatro ou à recitação de poesia.” (…)

         (…) “Isso de se dizer que os jovens estão muito mais libertos… Não sei. Falta-lhes um incentivo, uma coisa por que lutar. E foi isso que deu origem a que a nossa geração formasse os chamados grupos de teatro independente que, afinal, são praticamente os únicos que continuam. Com perspectivas, com sonhos, não é aquela coisa ultrapassada e passadista, “lá vêm os quarentões, lá vêm os anos 60”. De facto são essas as pessoas que têm ainda hoje energia para estar no teatro. E são as mesmas pessoas que criam as oportunidades para a malta mais nova. A coisa que mais me choca quando vou passear à noite (e eu sou um homem que gosta da noite e conheço Lisboa muito bem à noite) é ver uma série de jovens de 16, 17, 18 anos sem quaisquer perspectivas. Porque se nós nos embebedávamos, se fazíamos as nossas loucuras próprias da adolescência, o que acho muitíssimo bem, era com um objectivo “anarqueirante”, era contra o regime, tudo isso. Agora não é com objectivo absolutamente nenhum, parece-me ser só o desespero pelo desespero. Depois, dizem que estamos velhos e que lutámos por um ideal que não resultou. Mas a verdade é que tivemos uma perspectiva, uma ideia de sociedade que nós não vimos falhar. Que alegria maior pode haver, para nós que temos 30 e tal ou 40 anos, que vivemos o período de passagem do fascismo para a democracia e que, 17 anos depois, vivemos em total liberdade, sem o fantasma terrível da guerra colonial? Isso é uma coisa que se deve muito a nós. (…) A verdade é que tenho ido a universidades e a escolas dizer poesia e, às vezes, nem o Camões sabem quem é… (…)

         (…) – Mas olha que não estou nada pessimista, antes pelo contrário. E vou dar-te um exemplo relacionado com a Companhia Teatral do Chiado: nas primeiras representações de “A Birra do Morto”, quarenta por cento dos bilhetes que vendemos foi para estudantes. E acho que o espectáculo corresponde à “onda” de que eles estavam à espera. Há ali, uma ideologia, tal como há no “Mário Gin Tónico”, e que passa por brincar com os valores instituídos como a política, a Igreja, a morte. Porque os espectáculos do vazio, do esteticismo pelo esteticismo, pós-modernismos a imitar modas que, lá fora, até já passaram (se é que alguma vez chegaram a sê-lo), isso não me interessa nada…”

Mário Viegas era um homem de carácter, que não se submetia aos diversos poderes instituídos para obter benesses. Ficará na História do Teatro como actor único, insubstituível, de talento inesgotável.

É de justiça realçar a lealdade e o respeito de Juvenal Garcês, que mantém, com sucesso, a ideia original da Companhia na sua programação teatral.

A seguir deliciemo-nos com o humor acutilante de Mário Viegas, num artigo de opinião que escreveu em 1995 e publicado no Diário Económico, jornal onde colaborava:

 10 MANDAMENTOS PARA 1 ESPECTADOR DE TEATRO

NÃO CHEGARÁS ATRASADO, incomodando a concentração daqueles que estão a Representar e dos outros (que chegaram religiosamente a horas) que estão a assistir ao Santo Sacrifício do Teatro.

 2º NÃO FALARÁS BAIXINHO com o ou a acompanhante; incomodando com a tua inclinação de cabeça o Espectador de trás, e distraindo os Actores celebrantes do Santo Sacrifício do teatro.

 3º NÃO ADORMECERÁS NEM RESSONARÁS, dando marradas para a frente ou para trás, ou pondo a mão nos olhos para os outros pensarem que estás muito concentrado no Santo Sacrifício do teatro.

NÃO TOSSIRÁS NEM TE ASSOARÁS com grande ruído, escolhendo as melhores pausas dos celebrantes do Santo Sacrifício do Teatro.

 5º NÃO TE ABANARÁS constantemente com o programa, distraindo os que estão, religiosamente, ao teu lado e, irritando os que estão no palco a celebrar o Santo Sacrifício do Teatro.

 6º NÃO COMERÁS rebuçados, pipocas, caramelos, chocolates, pastilhas, comprimidos; tirando-os muito devagarinho, fazendo com o papel e as pratinhas o mais diabólico, satânico e herético ruído numa sala de espectáculos em que se celebra o Santo Sacrifício do Teatro.

NÃO LEVARÁS relógios com pipis electrónicos, telemóveis e sacos de plástico que andarás constantemente a pôr, ora entre as pernas, ora no colo, perturbando os que celebram o Santo Sacrifício do Teatro.

 8º NÃO LERÁS OU FOLHEARÁS o programa durante a celebração do Santo Sacrifício do Teatro para tentar saber qual é o nome de determinado Actor, ou para tentar perceber a sequência do Santo Sacrifício do Teatro.

 9º NÃO PEDIRÁS borlas ou insistirás em descontos, a que não tens direito, para assistir à celebração do Santo Sacrifício do Teatro.

  10º NÃO OLHARÁS «com umas grandes ventas» para o vizinho do lado, que achou religiosamente Graça ao que tu não achaste, ou que, piamente e cheio de Fé, se levantou logo para aplaudir, enquanto tu bates palmas por frete e já a pensar ir a correr tirar a porcaria do teu carrinho, ou a porcaria do teu sobretudo do bengaleiro, mais cedo do que os outros.

ASSIM: SUBIRÁS PURO AOS CÉUS!
OU
ASSIM: PODERÁS IR A 13 DE MAIO À COVA DA IRIA
OU
ASSIM: PODERÁS IR E COMUNGAR NO CASAMENTO REAL

de Sua Majestade Sereníssima Dom Duarte Pio João Miguel Gabriel Rafael De Bragança, chefe da Sereníssima Casa de Bragança, Duque de Bragança, de Guimarães e de Barcelos, Marquês de Vila Viçosa, Conde de Arraiolos, de Ourém, de Barcelos, de Faria, de Neiva e de Guimarães; e de sua Augusta Noiva Isabel Inês De Castro Corvello de Herédia.
IDE E ESPALHAI A BOA NOVA!

 “A minha vida é o Teatro e o Teatro é a minha vida”  – Mário Viegas

 

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Sobre José Eduardo Taveira

Nasci no Porto. Trabalhei em diversas empresas nacionais e multinacionais, exercendo cargos directivos. Actualmente estou liberto de compromissos profissionais, usufruindo a liberdade de viver como gosto e quero. Publiquei três livros intitulados: "Juntos para Sempre","Histórias de Pessoas que Decidi Divulgar" e "Viagem ao Princípio da Vida". Os dois primeiros em Portugal e o último no Brasil.
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