Memória curta…

COELHO GABIRÚ, PORQUE NÃO EMIGRAS TÚ? Esta dica que li num dístico de um dos (possivelmente) estudantes de Coimbra, é digna de antologia. É a maneira que a nossa gente tem de gozar com o óbvio.
E porque não tenho a memória curta, recordei essa outra triste figura, gente de má memória, que nessa mesma cidade, Coimbra, quando caminhava sobre as capas dos estudantes, estes se divertiam a puxá-las, e o dito cujo se desequilibrava, para gáudio da assistência, tentando desesperadamente manter a compostura de um Presidente da Republica de um Estado ditatorial, de miséria extrema, onde o desrespeito pela dignidade das pessoas escandalizava o mundo civilizado.
Esse tipo de ontem dava pelo nome de Tomás, e isso (o nome e a figura do homem) faz-me recordar da fome e da tristeza, das barracas onde viviam (?) pessoas, paredes meias com o flagelo da tuberculose, gente sem norte, que passava a monte as montanhas que nos separavam da Civilização e depois, mercê do seu amor à terra e aos que por cá ficavam, sustentavam com as suas remessas de divisas a nojenta ditadura.
Infelizmente, não sou dos que têm a memória curta. Seria muito mais feliz se assim não fosse. A carga policial que agrediu a manifestação dos Indignados fez-me lembrar os dias de antes, no Primeiro de Maio, a bruteza de uma policia rude e analfabeta, comandada por carrascos, as vezes que o povo arrancava as pedras dos passeios para se defender à pedrada, das lutas que quem trabalha e que não teve a culpa de nascer neste país, travava por um pouco de pão e uma réstia de dignidade, na tentativa de se afirmar na qualidade de seres humanos e nunca na de escravos.
É verdade que os jovens manifestantes de hoje provocaram a polícia, pelo que diz quem viu. Mas que se espera desta juventude sem rumo, sem futuro, e que todos os dias vê as injustiças que são praticadas por uma classe de empresários incompetentes, que nada garantem a quem trabalha, e os grupelhos de políticos incapazes que os apoiam? Talvez agradasse mais aos tipos do governo ver os jovens manifestantes cantarem cânticos de louvor à gloriosa Pátria, e levarem ramos de malmequeres para oferecerem aos policias, para que estes, à noite, os desfolhassem com as esposas, na cama, a brincar ao mal – me – quer – bem – me – quer?
Porque não tenho a memória curta recordo a ceifeira de Baleizão, no Alentejo, morta a tiro pela Guarda Republicana, por um certo assassino de farda, preocupado apenas com a defesa dos feudos, propriedade dos Senhores Donos da Terra; penso nos homens sentados nos muros do mercado de Moura, (porque corpo sentado aguenta melhor a fome), na espera que os Donos da Terra os escolhessem (como faziam com o gado), para trabalhar; lembro as histórias dos imigrantes, em terras de França, que à noite se juntavam encostados num muro sobre uma auto-estrada, para defecar, e por cá, os consecutivos “balões” que atiravam os operários para o desemprego, a sofrida tristeza espelhada na expressão dura dos meus compatriotas, arrastados quais mortos – vivos pelas sepulturas da vida, envergonhados da sua condição de mendigos.
E hoje, fico perplexo sempre que os sucessivos governos de direita, culpabilizam os comunistas pelo desassossego que grassa no País; antes comiam criancinhas, hoje, além de antropófagos, são também perigosos agitadores.
Não sou comunista, por questões de nunca antes perceber que, neste triste mundo, não existem sistemas políticos perfeitos; a imperfeição e o erro está em tudo o que o homem faz e pensa.
Mas, e porque não tenho a memória curta, nem moldada às conveniências da corrupção, (porque não sou corrupto), recordo que sempre encontrei nos comunistas amigos confiáveis, e presentes em todos os momentos de crise, ao lado de quem sofre.
A ideologia comunista deu cartas nos séculos dezanove e vinte, porque demonstrou até à saciedade que, apostando na educação, é possível ao Homem emancipar-se e pegar nas suas mãos o rumo do destino, quer individual, ou colectivo.
Lembro-me de ler, num Diário das Sessões da Assembleia do tempo da, (de má memória), União Nacional, o líder da única oposição consentida, o doutor Sá Carneiro, comparar os comunistas, pelo seu constante espírito de sacrifício, aos primeiros cristãos, quando o sistema de então os atirava aos leões; hoje são eles que continuam a luta, sem apego a fortunas nem a privilégios, mantendo os níveis de vencimentos que, (antes de serem nomeados para o serviço publico), auferiam no exercício dos seus misteres profissionais. Por isso os considero gente decente e com ideais honestos. São o contrário dos outros, dos das manigâncias, dos truques, das baboseiras. A decência se continua, como sempre, nos partidos da esquerda, enquanto o império das máfias, esse polvo medonho que nos devora e nos rouba, fragmenta este País, (como eu escrevi e publiquei em livro), em pedaços, e vende os mais rentáveis ao estrangeiro.
Para terminar este meu desabafo, agradeço à juventude indignada, (talvez a maior dor de cabeça deste estado torto e não de direito), porque vocês, por todo o mundo, são o rosto da descrença e da desilusão em todos os sistemas que hoje envergonham o planeta. Que nunca se resignem e que lutem sempre, (assim eu ainda tivesse forças para aparecer fisicamente ao vosso lado). O AMANHÃ É VOSSO, A TERRA VOS PERTENCE POR DIREITO DE HERANÇA! POR FAVOR NUNCA VERGUEM E LUTEM, LUTEM SEMPRE.NÃO SE ACOBARDEM COMO NÓS!
José Solá

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Sobre jsola02

quando me disseram que tinha de escrever uma apresentação, logo falar sobre mim, a coisa ficou feia. Falar sobre mim para dizer o quê? Que gosto de escrever, (dá-me paz, fico mais gente), que escrever é como respirar, comer ou dormir, é sinal que estou vivo e desperto? Mas a quem pode interessar saber coisas sobre um ilustre desconhecido? Qual é o interesse de conhecer uma vida igual a tantas outras, de um individuo, filho de uma família paupérrima, que nasceu para escrever, que aos catorze anos procurou um editor, que depois, muito mais tarde, publicou contos nos jornais diários da capital, entrevistas e pequenos artigos, que passou por todo o tipo de trabalho, como operário, como chefe de departamento técnico, e que, reformado, para continuar útil e activo, aos setenta anos recomeçou a escrever como se exercesse uma nova profissão. Parece-me que é pouco relevante. Mas, como escrever é exercer uma profissão tão útil como qualquer outra, desde que seja exercida com a honestidade de se dizer aquilo que se pensa, (penso que não há trabalhos superiores ou trabalhos inferiores, todos contribuem para o progresso e o bem estar do mundo), vou aceitar o desafio de me expor. Ficarei feliz se conseguir contribuir para que as pessoas pensem mais; ficarei feliz se me disserem o que pensam do que escrevo… José Solá
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