Extraído do romance “A menina dos olhos tristes” (por publicar)

No centro da parede, um crucifixo de grandes dimensões. De madeira negra, com um Cristo de cobre escurecido pelo passar dos anos. Ali estava Deus, inquestionável, eterno, a tomar o seu quinhão de sacrifício para salvação do pecado original e de todos os outros que se lhe seguiram. À direita da sua mão, representado em retrato de fundo negro, um dos seus ministros na Terra. Na sua esquerda, o seu contabilista, o mentor dos seus princípios, vestindo de negro, posto de perfil na fotografia, gravata preta em camisa branca, e ao lado a fotografia de um senhor com farda branca, boné de pala, mostrado de frente, uma figura apagada onde não se percebia inteligência. E era assim a Pátria, posta em três retratos e um crucifixo, produzidos em série e espalhados pelas salas de aula das escolas primárias, de um qualquer centenário, ditado pelas conveniências da História que convinha ao regímen ensinar.
A Pátria, pois, cabia na parede da sala de aula, do lado da porta, umas vezes com uma bandeira de pano gasto, onde o verde já de há muito perdera a esperança, e o vermelho que mais passava por sangue seco, enrugado em meio de um escudo ornamentado de pequenos castelos. A bem dizer uma Pátria pequena. Feita ao jeito deles, ajeitada de modo a caber no cú de Judas em que termina a Europa, a arregalar os olhos com o pavor do mar desconhecido, onde os monstros e as malquerenças abundam.
Antes do “Esquerda direita, um, dois, três, volver,” o professor dissertava da grandeza e do destino de ser português, e para exemplificar, desdobrava um mundo planificado em mapa, com as rotas dos descobrimentos assinaladas a traço negro, terminado em ponta de seta. E lá estava, no cimo, um rectangulozito a coser a Europa com o Mar Oceano. “Vejam a diferença, este mundo tão grande e nós tão pequenos; os gentios a quem mostramos Cristo. As selvas que desbravamos, o conhecimento que transmitimos”.
Depois do pequeno discurso os alunos perfilavam-se. Faziam a saudação à romana, braço esticado para a frente com a palma da mão virada para baixo, a olharem a parede onde estava posta como decoração de montra, a Pátria, umas vezes bafejada por uns raios de Sol, que, peregrinos na própria terra, vinham a ver a marcha dos moços, joelhos levantados em ângulo recto, cabeça erguida, como convêm a um pequeno dono do mundo. Dezassete moços ao todo. Calçados de alpergatas feitas de uma lona que nos lados magoavam os pés, por isso postas apenas para entrar na escola, calçadas para marchar, ao ritmo de uma voz de autoridade inquestiunada, a marcar o ritmo, repetindo: Um, Dois, Três, e voltando a repetir. No final cantavam os hinos. Primeiro o da mocidade, logo o nacional, com uma dona Graciete sentada na frente, quieta, inexpressiva, sempre na mesma posição, sábado a sábado, uns olhos pasmados das olheiras, uns lábios cerrados, sem sorriso, umas mãos esguias e sem vida aparente, dedos entrelaçados, onde se via uma aliança que assinalava um marido que nunca apareceu.
Depois vinha a liberdade de voltar a ser garoto, apenas por uma meia hora, o tempo suficiente para chegar à choupana ou ao barco, nas andanças da faina, no rio, perto da margem. Daquela Pátria que ficara na parede da escola, no lado da porta, ali, pelos arredores do Escaroupim, nem rasto. Como se pode imaginar uma coisa assim, desmesurada, tão grande, com tanto mar, uma enormidade daquelas, a partir de um mundo tão pequeno, saciado de água de rio e de frescas sombras, com um Sol a reflectir-se nas escarpas que descem para as águas, serenas, pinceladas de verde-escuro, nos carreiros de pé posto, feitos ao jeito das andanças dos homens?
Para os moços, o sábado era o melhor dia das aulas. A escola terminava cedo, quer o tempo fosse de Sol ou de caretas de chuva, aí pelo meio da manhã, a tempo das foteboladas e das correrias, dos concursos de ver quem mija mais longe, a fazer arco, sobre as falésias, ou na língua de areia de uma praia estreita, para dentro do rio, sem tocar nas rochas ou nas conchas; concurso assim vinha dos tempos de trás, de muito longe, desde que o governo entendeu por bem abrir por ali uma escola; fora feito passado de pais para filhos, sem palavras, e partilhado mesmo com quem não frequentava a escola. Quem faz o arco mais pequeno é quem mija na cama! Tocar nas rochas também não vale. É coisa de meninas, que só fazem para baixo, nunca para cima. Porque será? Pergunta dos mais ingénuos. Então não sabes, nunca vistes? O quê? A rata! Rata, que rata? A que as raparigas têm! És mesmo ceguinho. Nunca viste, foi? Bem, já, uma vez, assim a espreitar! Não viste nada! Vi, sim, e não era nenhuma rata!
Os moços repartiam-se por grupos. Coisa de simpatias e de amizades, ou mesmo de vizinhanças, até relações de família, primos, mas raramente, irmãos, (vá-se lá saber porque são raros os irmãos que gostam de andar juntos).
O grupo do João Boa Brisa tinha cinco rapazes, o Óscar, pirralho por alcunha, o Licas picha murcha, ele, João, o baixinho, Mário de seu nome, e o Firmino, perna curta, que chegava sempre em último nas correrias, e tinham como principal especialidade o rapinanço de fruta pelos pomares e pelas vinhas de beira de estrada.
Ir à chicha, fazer uma chichada, saber escolher quem vai no dia rapinar, ou quem fica de olho, a avisar do homem; definir as tácticas, estabelecer os horários e determinar os caminhos para a fuga desenfreada, a tirar o rabo do caminho dos bagos do chumbo disparado pelas caçadeiras, era a tarefa atribuída ao Firmino. Trabalho sério este da chicha. Sem uma boa chicha não havia fruta da época, e sem fruta da época não havia vitaminas para se puder crescer. E se não se crescer quem vai conseguir satisfazer os trabalhos árduos que aquela nesga de Pátria posta na parede da escola, por cima da secretária da professora, e ao lado da porta de acesso à sala de aula, exige? Ninguém, claro! Sem chicha não à Pátria! A Pátria escafodeu-se por falta de fruta, não cresceu, antes pelo contrário, minguou. Foi por isso que era tão grande e de repente ficou assim, tão pequena, que cabe naquele pedaço de papel brilhante que se chama mapa, e que o professor Mário desdobra e mostra todos os sábados.
Então o Fuinha (o dono da vinha junto ao carreiro), que antes de gritar dispara o chumbo, é inimigo da Pátria! Pois então, claro que é! Sem moços fortes não temos soldados valentes, dos que vão à guerra e só dão, nunca levam. Primeiro os soldados olham os inimigos (que são gente estranha e diferente por causa da cor da pele), nos olhos, e esfregam dois dedos, o indicador e o do gesto feio, que fica mesmo ao lado, (paredes meias), nos lados do nariz, para os irritar, – Explicava o Firmino, do cimo da sua autoridade de comandante chicheiro, – e depois, há rapazes, vão-se a eles e é só aviar! Soco e pontapé, tiros e navalhadas, até dentadas, gente, que não existe no mundo soldado valente como o português, lá diz o meu pai, que lhe contava o pai dele, que foi à guerra de catorze, a mando da república.

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Texto do conto:”O Combatente com Sonhos (histórias da g. civil espanhola)

(…)
O rasto de fogo das balas saídas do cano da mauser que o militar disparava em intervalos certos, para manter em respeito o adversário, encaixado na trincheira na sua frente, cosido no chão frio da terra revolta, parou, como se aquele republicano convicto tivesse desistido da luta. A noite, ainda no princípio, gelava o corpo dos homens, e era como se lhes encarquilhasse os cérebros.
Juanito rebuscou nos bolsos da farda, por entre as ferramentas da guerra, afastando a bainha da baioneta para chegar ao bolso das calças, desviando as cintas que lhe prendiam as granadas e as cartucheiras ao corpo, aparentemente franzino, quase de mulher, para alcançar e abrir o bolso superior do blusão, e por último, em desespero de causa, retirou o capacete e procurou entre as cintas que mantinham o aço afastado do coiro cabeludo. Nada! Que estúpido esquecimento. Porra! O certo é que lhe era impossível continuar em combate sem fumar um cigarro, um que fosse, para ver se acalmava o estômago, às voltas, como resultado do pedaço de toucinho rançoso ingerido como complemento da ração de combate, comida ao jantar, ainda de dia, na casa do camponês, do povoado que defendiam como posição de elevada estratégia, no entender dos superiores.
Tabaco tinha, estava o maço ali, no bolso direito do blusão, mesmo à mão de semear, mas faltavam-lhe os fósforos. O que faz um soldado, filho legitimo dos ideais da republica, quando, na linha da frente, travando o avanço de um realista qualquer, ali plantado a uma trintena de metros, embebido no chão como ele, sente que lhe falta o carburante dos pulmões para puder continuar? Era a modos como se lhe faltasse o ar, como se o seu único prazer da vida o castiga-se, fugindo para bem longe de si.
Juanito coseu o rosto no chão, abaixo do saco cheio de areia, quando a bala passou zunindo-lhe aos ouvidos e se foi alojar nas carnes de um camarada morto.
– Cabrão! Tem lá calma um minuto, a ver se consigo mijar sossegado! – Gritou.
Do outro lado chegou-lhe um gargalhar divertido, enquanto uma voz forte respondia:
– Um minuto de folga para mijarmos os dois?
– Bom!
Então aquela ideia maluca aflorou-lhe no espírito. E porque não? Do outro lado não estaria um bicho peçonhento, mas sim um homem como ele, apenas separado por ideais diferentes, possivelmente isolado naquela ponta da trincheira, junto a um camarada seu morto, que se recordava de ter atingido alguém que gritou, e o fogo daquele lado tinha amainado.
– Cabrão! Tu fumas? – Perguntou.
– Fumo sim, filho da puta!
– Eu tenho cigarros mas não tenho fósforos!
– Eu tenho fósforos! Troco por cigarros!
– Vamos negociar? – Inquiriu Juanito.
– Vamos! O que propões?
– Um cigarro contra dois fósforos e um pedaço de lixa?
– Não! Três cigarros contra seis fósforos e um lado da lixa da caixa?
– Feito! – Gritou Juanito – E quinze minutos sem fogo para fumar em sossego!
– Aceito! Quando eu contar até três avançamos só com as pistolas e trocamos!
– Feito! – Gritou o outro.
Juanito retirou os três cigarros do maço, acomodou a espingarda escondendo-a sobre o corpo de um camarada morto, retirou a pistola do coldre, engatilhou-a, contou alto até três, e pulou para fora da trincheira, pistola firme apertada na mão.
Do outro lado um homem grande fez o mesmo. A principio um vulto indistinto, apenas se reconhecendo pela cor diferente da farda. Trazia a pistola apontada, e como ele, avançava meio curvado pela chamada terra de ninguém. A mão contrária à da arma vinha de punho cerrado.
Quando se encararam Juanito reparou no aspecto garboso do outro, nos traços finos do rosto, na face bem escanhoada, escondida em parte por uma pintura à base de verdes suaves, nos olhos esverdeados e ao mesmo tempo cândidos, e Juanito sentiu um frémito a varrer-lhe o corpo. Aquele era o rosto do inimigo, e ele fazia questão de o matar na primeira oportunidade, mas isso não o impedia de o apreciar. Juanito tinha gostos inconfessos pelos outros homens.
Trocaram o combinado e ambos se retiraram, no sentido das respectivas trincheiras, encarando-se de frente durante os primeiros metros, olhos fixos nos olhos do adversário, e logo se voltaram e correram ligeiros para dentro da terra.
Juanito acendeu o cigarro e puxou a primeira fumaça com volúpia. Olhando para o outro lado, percebeu o brilho de um cigarro aceso… (…)

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Obscenidades que podem ferir os nossos conceitos de Pátria

“Quem não se sente não é filho de boa gente!” Este um dos tantos ditados tão populares entre nós. E é bem uma verdade incontestada; somos o resultado de alguma coisa que outros antes de nós fizeram. Na verdade, somos o resultado do que todos antes de nós fizeram. Por isso temos um espaço nosso, uma língua através da qual não somente nos exprimimos como pensamos. Temos um pensamento que originou uma cultura: A nossa Cultura. O nosso saber. Os nossos sentimentos; por eles nos veio a Poesia, a Literatura, a Música, e essa arte de ver as “almas por dentro” que é o nosso Teatro. E a nossa Ciência, a nossa Lógica. Talvez que até o nosso eu a que chamamos Alma no sentido de Eterno nos venha também daqueles que antes de nós, mesmo sem o saberem, nos pensaram.
E como agradecermos o que nos deram? Pensando a Pátria. Pensando a História. Pensando um pouco em tudo isto em dias de reflexão que se instituíram e a que chamamos Feriados Nacionais, que recordam factos, feitos, acções de bravura e as datas em que se deram. É assim. São dias de festa. São dias em que somos um todo, uma Voz Única, um Povo que se compõe de todas as suas partes: Os cheiros e as paisagens, as romarias, acima de tudo o Querer Continuar. Somos nós enquanto Nação que vertemos sangue para chegar ao transcendente desse conceito que se chama Pátria.
No dia Primeiro de Dezembro lembramos a nossa Nacionalidade. Hoje os entendidos riscam a data de dentro de nós. Um dia como qualquer outro, um vulgar dia do calendário. Por razões económicas arquivou-se a História. É como se nunca nos libertássemos do jugo e da ocupação estrangeira. E o cinco de Outubro, a Républica? A Nacionalidade e a Républica! É como se despíssemos o fato da dignidade. Ficamos nus envergonhados frente à nossa História. O que somos, afinal? Como diz Sua Excelência o Senhor Presidente da Républica, somos o povo de pastores que, de dia e de noite, sem feriados, dias santos e marcos históricos, incansáveis, nos preocupamos com os rebanhos, (que são a riqueza dos outros), digo eu. E se deslocássemos estes feriados para junto dos fins-de-semana mais próximos, mesmo para os dias de descanso, se necessário, e apenas os actos oficiais ocorressem nas datas, até que se possa restituir à nossa terra o direito de comemorar em plenitude e nas datas os nossos feitos que nos orgulham? É que, sabem, um Povo sem História não é povo, não é nada. É apenas uma massa Utópica para fazer rir o mundo!
Aos nossos ilustres governantes eu digo: “Não é imperioso que viajem mais por imposição do chamado Dever. Os estrangeiros já estão à vontade para nos tirarem o pouco que ainda nos resta!”

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AS TREVAS DO NOSSO FUTURO

(TRABALHO JÁ PUBLICADO NO MEU SITE)
Imaginem vocês milhões de ovelhitas, repartidas por diversos rebanhos, cada um com seu Pastor. Os rebanhos pastam ervas ressequidas, já de pontas amarelas, em resultado de um longo período de secas, e cada Pastor conduz o seu rebanho a subir a Via-Sacra em direcção ao Monte Calvário, onde os rebanhos, (todos sem excepção), vão a ser imolados para apaziguamento das iras de deuses rivais. Os riachos estão secos e as suas águas poluídas, e nos prados ontem férteis já se vêm espaços imensos de terras castanhas e secas, gretadas pela acção do sol.
O Pastor Silva caminha com a ajuda do seu cajado e com o préstimo dos seus cães de pastoreio, animais que respondem ao assobio do dono, amedrontando com latidos e rosnidos os pobres e indefesos bichos.
O Pastor Silva tem por deus a Economia de Mercado, um deus poderoso que se faz representar na terra pelos seus ministros Bancos e pelos seus Pastores, pelas suas indústrias poluentes e pelos dogmas da sua Moral. Assim o Pastor Silva vai, (com o seu sermão), ajudando o seu rebanho a vencer as vertentes íngremes que conduzem ao Monte Calvário. As cruzes pesam e a sede aperta, os lábios dos animais estão gretados, mas nem um bom samaritano, nem uma simples Maria Madalena se encorajam a levar uma celha de barro com água para mitigar a sede aos pobrezitos. Temem os cães, temem o Silva, e acima de tudo não sabem como agir. Dizem, de si para si, a jeito de desculpa, O que posso eu fazer? Sou apenas um. Sei que os outros estão por aí, mas eu não sei onde, nem quem são, não os conheço! Pobres animais, que me fazem tanta pena!
O Pastor Silva prega o seu sermão: Nas veias dos bancos corre o sangue de deus, que nos vai conduzir à salvação eterna. Bem-aventurados os que acreditam, pois deles será o próximo Empréstimo. Salvem os Bancos para que as empresas e as famílias sejam salvas pela agiotagem dos juros. Redimam-se de todos os males que praticaram e trabalhem para salvar os Bancos. Trabalhem muito. Trabalhem mais ainda do que fizeram em toda a vossa vida, para as vossas famílias, para o vosso consumo. Trabalhem para a salvação dos Bancos porque salva-los é como salvar deus, a Economia de Mercado que tudo vê e tudo sabe. Trabalhem para baixar o vosso défice, e quando ele novamente crescer trabalhem mais ainda, e cada vez mais, e muito, muito mais, para comprarem no estrangeiro todo o que precisam e não produzem.
E o rebanho, que já pouca erva encontra para apaziguar o estômago, com os seus bodes cornudos na frente, em circulo, na protecção do seu Pastor Silva, que tanto percebe de Economia de Mercado, lá se vai arrastando pela encosta.
Ao cimo da encosta já se avista o Monte Calvário, já se percebem as cruzes dos outros e os corpos putrefactos dos que não tiveram ninguém para os resgatar. Dentro em pouco haverá mais cruzes (as do rebanho), e o Monte Calvário, um belo Mercado Comum, onde se faz negócio com a madeira das cruzes e com as coroas de espinhos, porque, de Cristos, (aqui se pode dizer que o são todas as ovelhas e todos os velhos bodes), se tem enchido por esses séculos fora. As madeiras e as coroas de espinhos são a matéria-prima que mais abunda. Os vendilhões do templo também. Hoje são Pastores. O Silva, o Sousa, o Filosofo e o outro, um que parece navegar em águas turvas a buscar um rumo.
A tarde sufoca porque de brisa está o tempo ausente. Mas existe um sol a morrer para lá do monte, abrasador, uma leve poeira fina que mesmo sem brisa baila coreografias grotescas a meia dúzia de palmos do solo, e as ovelhas (que os tosquiadores esperam no cimo do Monte) só no último instante antes da morte vão a perder a sua lã.
Não se vislumbra pena na expressão dos Pastores, nem na dos seus tosquiadores. São apenas rostos sem olhos virados para os deuses. E os deuses, de tão concentrados que estão nos seus negócios, nem sequer sabem que existem ovelhas.
De todos os lados sobem rebanhos ao Monte. O Sousa fala da sua Fé, do seu deus, a Igualdade. Como vai ser belo, diz na sua voz exaltada, depois da nossa vitória, um rebanho imenso com lombos de lã lustrosos e de belos tons café com leite, iguaizinhos. Animais do mesmo tamanho, da mesma altura, com o mesmo volume, com um rumo certo que os leva aos pastos da abundância, aos lagos das águas cristalinas, ao saber da cultura, a nossa.
O Filosofo sobe por outra encosta. Aos seus fala de um deus que se chama Socialismo, e que parece que circula por aí em liberdade. É estranho. Se está em liberdade é porque algo de mal fez, e cumpriu pena. Que será que fez? Que interesse tem um deus assim, é confiável, é justo? Quem o pode dizer, se nunca se mostrou porque nunca saiu da gaveta? Mal por mal prefiro o deus do Sousa…
Ao fim de três dias, (para não dizer sete, porque outro já o disse), tudo terminou. O Monte Calvário ficou cheio, e como não foi suficiente em largueza de espaço para conter tanta morte, tanta cruz, a morte desceu as encostas e veio para as planícies, atravessou os rios, rodeou as vilas, os lugares, os sítios, até as cidades. O País é um cemitério, e nem os Pastores e os tosquiadores escaparam, porque em confronto se mataram uns aos outros. Sempre me disseram que os cães não lutam até à morte. Mentiram-me. O fim dos Pastores é disso exemplo e prova.
No dia seguinte, ao nascer do sol, silêncio. Os corvos e outras aves de rapina deleitam-se a saborear os olhos das ovelhas. Apenas um ou outro balido, vindo das poucas que sofrem os últimos espasmos da vida. E essas ainda dizem, baixinho, para não incomodarem a morte, Que podia eu fazer, meu deus?

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Nuvem que se escrevia…

Poesia que se fazia
De uma janela que abria
De uma nuvem que se escrevia
O que a alma sentia

José Guerra (2011)

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JÁ QUE TANTO SE FALA NA LIBIA…

Enfim, o senhor coronel Kadhafi está apeado do poder para finalmente ter um merecido descanso. Sim, porque ser ditador também deve ter os seus males de vida, que o digam certos chefes de família pelo nosso país fora!
Mas, como tudo na vida, é indispensável uma certa dose de experiência sobre coisas, pessoas, e até países, para se falar com algum conhecimento, ainda que muito modesto. Pessoalmente nunca estive na Líbia, mas tenho conhecimento com gente que por lá andou a ganhar a vida.
Quando um nosso compatriota – chamemos-lhe Amadeu, nome fictício – chegou ao país, (então pertença do senhor coronel,) encontrou uma terra com certa sofisticação, no que respeita à organização e respectivos métodos. Para quem ia para permanecer em trabalho, os passaportes ficavam cativos, à guarda das autoridades de fronteira, e só eram devolvidos na altura do regresso, por motivo de férias ou termo do contrato de trabalho.
O nosso amigo entregou o passaporte a um senhor funcionário público comodamente sentado no chão numa sala de dimensões médias, e com total ausência de móveis. O dito funcionário deu-lhe uma senha com um número, e colocou o passaporte em cima de uma das várias pilhas de passaportes, que estavam espalhadas pelo chão. Bem, quanto a mim, até aqui, tudo bem, é de louvar a simplicidade dos métodos, e acima de tudo a louvável economia que os mesmos representam. Já viram se fosse uma das nossas repartições, as burocracias, os formulários a preencher, o devassar a vida íntima de cada um, o recurso a pessoas especializadas para preenchimento dos formulários, as despesas com que não se contava, o tempo perdido, (e tempo é dinheiro, em especial para quem trabalha), as preocupações, será que o passaporte não se perde na imensidão dos arquivos repletos de prateleiras a abarrotar com passaportes? Por lá não! Que simplicidade nos métodos. E simplicidade significa eficiência, sabiam?
Quando terminou o contrato de trabalho, o nosso amigo Amadeu voltou à sala para resgatar o passaporte, entregou a senha, até esse dia religiosamente guardada e fechada a sete chaves. O funcionário procurou, procurou, tanto e por tanto tempo em todas as pilhas de passaportes que, a páginas tantas, também perdeu a senha, e aí, sem número, bom, nada feito! Como se encontra um passaporte bem arrumado no seu respectivo sitio, sem uma senha com um número de referencia? É evidente que não se encontra!
O nosso amigo Amadeu viveu ano e meio no país enquanto o esforçado funcionário continuou em buscas incansáveis, e como havia terminado o contrato, viveu de esmolas, de cotizações feitas entre todos os europeus que no país trabalhavam para diversas empresas dos seus respectivos países, e isso, essa boa vida inesperada, deu-lhe tempo bastante para conviver com os líbios e entender com detalhe o seu modo de vida, a sua civilização.
A Líbia, segundo ele, era à data um país de gente simples e hospitaleira, educada e gentil para com os estrangeiros. Talvez por razões injustificadas, sentimentos incompreensíveis de inferioridade, por vezes fossem excessivamente simples. Mas os líbios tinham dinheiro suficiente nas algibeiras e nos bancos, Essa era uma realidade que Amadeu encontrou, e que ainda lhe rendeu algum bem-estar.
Uma parte significativa da população dispunha de excelentes carrinhas de caixa aberta onde os chefes da família usavam a cabine para eles e para os filhos varões, e na largueza da caixa a descoberto colocavam os seus pertences, a esposa, as filhas, as galinhas e as cabras, de mistura com outros utensílios. Assim era a boa vida na Líbia. Não há bem que sempre dure nem mal que nunca acabe, (diz o ditado); para se ter liberdade, plena, grandiosa, temos que fazer por vezes dolorosos sacrifícios. Os líbios vão a enfrenta-los de rosto erguido. São gente de coragem. Talvez que as consequências da mudança de regímen não sejam assim de grande monta. Possivelmente menos carrinhas, menos dinheiro. Um preço insignificante.
Pelo que dizem as más-línguas, trinta por cento do petróleo vai para a caridosa França, e julgo que mais quarenta por cento também já têm destino. Coisa pouca para tanta liberdade. Nada que uma motoreta de 50 c.c. não resolva a contento. Na motoreta viajam o chefe da família e os seus filhos varões, os pertences inertes fixam-se na pequena bagageira, os vivos, (a esposa, as filhas, as galinhas e as cabras), deslocam-se a correr ao lado da motoreta!
Bem aja a caridosa Europa, a ONU, a NATO, por tamanha caridade e grandeza…

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Orlando Nesperal As Virtudes da Mente

Hoje venho informar o que está a ser noticia sobre o meu Livro  As Virtudes da Mente.  Na Comara  da Sertã  já  por duas vezes faz referência, uma sobre o autor e o seu lançamento em Lisboa na Livraria Barata, agora lembra a todos os seus leitores,  da sessão de autógrafos em Cernache do Bonjardim. A Biblioteca Municipal da Sertã,  na sua agenda cultural. faz incluir como evento a referida sessão de autógrafos.

Neste sentido quero informar a todos os amigos de Cernache do Bonjardim e Nesperal, e a todo o Concelho da Sertã, estão convidados a estarem presentes no evento a realizar no dia 26.11.2011  sábado às 16 horas no Atelier Túlio Vitorino em Cernache do Bonjardim   Quero lembrar que este evento não se trata duma  questão meramente pessoal mas sim um querer do autor  que a Zona do Pinhal, se transforme num local em que as pessoas começam a sentir que alguma novidade vai chegando pelos seus filhos da região.

Quantos mais presentes, mais a região se pode enobrecer com este evento.

Orlando Nesperal

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Texto de Ganância, romance (publicado no sitio do livro)

(…)
membros da família aos valentes apertões das gargantas, a envenenar o pobre do cão, a meter-lhes na cama a cabeça de um cavalo ensanguentada enquanto dormiam, a enviar-lhes um peixe embrulhado num papel de jornal, mas seria possível a eficácia de todos estes processos (amplamente comprovada pelos muitos anos de práticas, mesmo séculos) tratando-se de um governo legitimado pelo voto secreto do povo? E um governo de um país distante, apesar de insignificante, um país com história e uma cultura? Tinha as suas dúvidas. Tibério, se por um lado lhe agradava o poder, a magnitude do poder sem limites, parco de regras, o poder divino transmitido pela força e pela impunidade do dinheiro que tudo permite numa ilógica de força que aparentemente não se vê, é como um fantasma invisível que a todos corrompe, por outro, habituado à obediência cega do cumprimento cabal das ordens, desenvolvera uma consciência pessoal que nunca se imiscuía nos assuntos do trabalho, mas que lhe ditava as regras para uma conduta social razoavelmente aceitável na sociabilidade do mundo dos homens. Tibério, se tivesse constituído família, seria capaz de chegar a casa no final de um dia exaustivo de trabalho, depois de ter apertado o gasganete a um ou dois dos rivais do seu patrão, e num esfregar de olhos passar à figura paternal de um dedicado chefe de família, enérgico na prática das suas obrigações como pai de família, orgulhoso dos êxitos alcançados pela sua prole, marido dedicado e amantíssimo parceiro activo nos assuntos do lar, interveniente nos serões de família, preocupado com os resultados escolares obtidos pelos filhos.
Contudo (e esforçando-se por entender como se processava a governação de determinados povos), não se sentia muito diferente dos governantes do pequeno país onde fora colocado. Também eles eram capazes de chegar a casa após um dia exaustivo de trabalho, dentro de um carro topo de gama, conduzidos por um motorista fardado a rigor, precavido com o conforto da coronha da arma aconchegada junto ao sovaco, confiante da solidez dos vidros e da chaparia anti–bala, um dia em que tinham (por obrigação da arte do seu ofício), minguado os parcos salários da população triste e cansada de dar, dar, dar até ao cerne da alma, dar o que se tem agora e também o que se vier a ter num futuro mais ou menos próximo, dar a vida se preciso fosse, o sangue das veias e o comer dos filhos, dar a sanidade mental que aos poucos vai vencendo os novos escravos, para compensar mais um erro de cálculo feito pela governação.
Qual era então a diferença entre ele e essa rapaziada vestida com fatos importados dos melhores alfaiates do mundo, que na prática apertavam os gasganetes dos seus compatriotas mais desprotegidos (tal como ele, por elementares questões de trabalho, negócios, dever de ofício, nunca por prazeres mórbidos inconfessados o fazia aos inimigos do seu patrão), e logo, paredes dentro do lar, templo sagrado da família, se transformavam ou se reabilitavam aos seus próprios olhos, ou simplesmente se abstraiam dos problemas do trabalho, deliciavam-se com as massagens que as esposas com todos os desvelos que o carinho de gueixas amantíssimas lhes impunha, faziam nos seus ombros contraídos pela dureza do dia.
Não havia portanto, aos seus olhos, qualquer diferença entre o clã a que pertencia e que se dispunha a defender com o sacrifício da vida, e os clãs que se movimentavam nas esferas do poder dos governos das nações. Emprestadores e devedores eram iguais tanto nos comportamentos como nos escrúpulos. O país mais pobre do mundo tinha a maior dívida externa do mundo. Ora se o país mais pobre do mundo o fosse por ser também o credor da maior dívida do mundo seria compreensível, o contrário não. Os governantes discursam pedindo sacrifícios ao povo, quando o correcto era o povo perguntar aos governantes: “Então, se depois de pedirmos tanto dinheiro emprestado, ainda assim empobrecemos desta tão dolorosa maneira, temos o direito de lhes perguntar onde está o dinheiro que devemos, como foi aplicado, e como nos violentam de forma tão selvagem em nome de uma dívida que nenhum de nós fez, e de cuja real dimensão e gravidade nada sabíamos? E a isso os governantes do momento responderiam: “não fomos nós, foram os outros, os do governo anterior!”, e os governantes anteriores, provenientes do partido político A ou B, C ou D, diriam, em defesa da causa própria: “Nós herdamos a situação que os senhores nos deixaram quando estiveram no poder na legislatura anterior à nossa!” E o povo, no seu legítimo direito de ser esclarecido, no sagrado direito de indignação que cabe às pessoas colectivas de bem (ou mesmo às pessoas singulares), em defesa da honra de povo a que o mundo, no seu eterno escárnio e de indiferenças, chama de caloteiro, de improdutivo e de irresponsável, iletrado e sem inteligência colectiva, insistiria na questão simples de saber o motivo porque deixaram passar tantos anos sem que o informassem das monstruosas dívidas a que tem de acudir se quer continuar a ter uma Pátria, uma casa, um lar; e quanto aos supremos juízes da Pátria, esses que nunca comentam o que quer que seja de importante ou não, ou porque não é o lugar devido, ou porque esperam que outro poder fale primeiro , afinal para que servem?
Ainda outra questão martelava nos cérebros cansados dos pacatos e simplórios cidadãos daquele país, e que era tirar a limpo se determinadas agências estavam ou não a ser correctas nas suas avaliações; muitos diziam que não, que se tratava de perseguição, de influências movidas por países rivais, e aqui surgia a premente necessidade de tirar a limpo, de forma cabal e definitiva, se a dívida existia mesmo, se não existia, se se tratava de uma perseguição movida por alguém que não tinha ido com a cara do negociador enviado (essas coisas acontecem), se o valor era assim tão astronómico, e, se confirmasse o montante, ainda faltava averiguar as razões porque o emprestador tinha facultado a uma modesta fabriqueta de tijolos uma quantia digna da grandeza de uma poderosa e moderníssima central atómica. As dúvidas eram muitas e os esclarecimentos nenhuns. A poderosa máquina de propaganda que o povo simples permitira que os políticos ardilosamente montassem ultrapassava a fábrica de mentiras edificada pelo Nacional-socialismo alemão na segunda grande guerra mundial, e com larguíssimos proveitos; cada ministro, secretário de estado, ou subsecretário, cada agente político funcionava como um brilhante e talentoso propagandista, e ao povo cabia apenas o papel de pagar, pagar, pagar, ou revoltar-se e pugnar por todos os meios possíveis pelos seus direitos à vida e ao seu bom nome. (…)

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Texto de Ganância, romance (publicado no sitio do livro)

E fiquei com uma ideia precisa dos vossos problemas. Penso que vocês são uma espécie única, penso quese não existissem tínhamos que os inventar. Na vossa história encontram-se facetas que os distinguem de todos os outros povos. Veja você, durante as invasões francesas, quando as tropas invasoras cercavam a fortaleza de Almeida, todas as manhãs saíam pelas portas da cidadela sitiada camponeses com as suas ferramentas agrícolas às costas; quando os franceses os interpelavam respondiam-lhes que iam a tratar das couves e das batatas nas hortas, que tanto lhes fazia que o rei fosse francês ou português, o que lhes interessava era apenas a horta…
– Você foi ao pormenor de ler a nossa história…
– Sim. Cautelas e caldos de galinha nunca fizeram mal ao doente!
Tibério emborcou mais uns tragos da cerveja directamente da garrafa. Comentou a qualidade da bebida, e continuou:
– Toda a vossa história é uma imposição exercida de cima para baixo, a evidenciar o esmagador peso dos poderosos, de bota assente no pescoço de um povo que, por desleixo, por fatalismo, por inércia ou preguiça, nunca foi capaz de tomar nas mãos o destino da terra onde nasceu. Perdoe-me se, como estrangeiro, meto o bedelho nos vossos assuntos, mas é que sou um estrangeiro que vem arriscar dinheiro no vosso país! Assisti às vossas comemorações do centenário da república. As vossas editoras publicaram livros sobre as figuras ilustres da altura. Discursos, actores pelas ruas e praças, vestidos à época. Mas vamos fazer agora uma análise fria dos cem anos da vossa república. Não pense que eu falo por ter tendências monárquicas. Nada disso. De cem temos de excluir quarenta e oito da ditadura mais antiga da Europa, e uma das mais antigas do mundo. Sobejam cinquenta e dois anos. Dezasseis são a primeira república que escancarou as portas à ditadura; faltam trinta e seis, que são a vossa terceira república. Portanto temos, primeiros dezasseis anos, um período em que se lapidam todos os recursos da nação; o povo assaltava os estabelecimentos para roubar a comida, pelas ruas os mais fracos corriam atrás dos mais fortes com facas e alguidares, rompiam as sacas, enchiam os alguidares com o feijão ou o que fosse. Veio a ditadura. Uma classe de comerciantes sem escrúpulos roubou o mais que pode o povo sem privilégios, como sempre, nem o simples direito a comer. Mas o ditador tem o bom senso de amealhar dinheiro. Vem o golpe de estado a que você chama pomposamente de revolução, mas que não passou da única saída possível para uma guerra que foi perdida logo no primeiro dia em que começou. Em onze anos, esbanjados os recursos, a primeira intervenção do Fundo Monetário Internacional na vossa tão preciosa república. Passaram vinte e cinco anos. Nova intervenção do Fundo Monetário Internacional. Pelos meus cálculos, agora que no terreno tomei contacto coma vossa realidade, penso que daqui a vinte anos, talvez menos irá acontecer uma terceira intervenção! Para lhe ser franco não sei onde o meu patrão tem a cabeça para investir neste país! Enfim, o dinheiro é dele e dos seus sócios!
Tibério, com a palma da mão, deu uma palmada amistosa nas costas de Zé Ninguém. Por detrás das lentes escuras adivinhavam-se uns olhos tristes.
– Vá, não pense em tristezas. Há sempre uma saída para a vida que nos corre mal, nem que seja a morte!
– Vire para lá essa boca…

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Texto de Ganância, romance (publicado no sitio do livro)

– Temos uma razão que justifica isso.
– Qual?
– É que nos roubaram o ódio…
– Não entendo… o ódio não se rouba, justifica-se, mas não se rouba, todos temos ódio por alguma coisa ou por alguém. Olhe, às vezes funciona como um bálsamo que nos prolonga a vida. Nunca lhe apeteceu dizer “não hei-de ir lá para baixo dos torrões sem ver aquele filho da puta ir primeiro?”
– Sim, às vezes é o que me apetece dizer…
Tibério acenou ao empregado com a garrafa da cerveja no ar, a pedir outra; esfregou as mãos.
– Apesar de o café estar aquecido sinto um certo frio. Mas dizia você que lhes roubaram o ódio? Desenvolva-me essa teoria a ver se a entendo…
– A nossa sociedade, durante os longos anos da ditadura, foi solidária no ódio ao ditador. Isso manteve a unidade entre as pessoas. Em especial entre as camadas estudantis e os intelectuais, e em particular uma franja substancial do operariado ,considerada iletrada. E talvez o fosse, porque o sistema reservava o topo do ensino, o universitário, em exclusividade para as camadas com poder económico. Mas havia, sabe, essa coisa que se desenvolve dentro das pessoas quando lhes tentam vendar os olhos para não verem a luz, uma sensibilidade latente, aquela precisão de ver, de se sentir que se tem o direito de ver. Da parte mais abastada dos que se opunham ao regime, ocorreu solidariedade para com os mais fracos. Médicos consultavam doentes pobres gratuitamente aos fins de semana, roubando horas ao seu descanso, juntando amostras de remédios para lhes valer, advogados defendiam nos tribunais os operários perseguidos pelo regime. O regime é o grande mal de todos os males; não existe à face da terra coisa mais medonha do que o sistema. Se os pobres tinham uma vida dura, uma franja da sociedade não pobre estava com eles de corpo e alma. Depois tudo mudou. A tropa levantou–se. Uma revolução, um novo sistema, eleições, democracia, e assim perdeu-se a razão de ser do ódio do povo. Deceparam a cobra e acabou a peçonha. E agora eu pergunto, se as coisas não correm de feição, quem vamos nós crucificar? O mar de rosas esperado é inexistente. A terceira república é igual à primeira que deu origem à segunda, a que levou ao poder o ditador…
Zé Ninguém terminou o seu segundo café quase ao mesmo tempo que Tibério começava com a sua segunda cerveja. Pela vidraça das portas do café antigo filtrava-se a primeira vitória do Sol sobre a neblina teimosa e húmida. Curvado na sua posição de gozar o mundo, o poeta Chiado secava-se do orvalho que a neblina sempre trás consigo. O Pessoa continua a reflectir, dividido pelos seus heterónimos, parecendo sonhar um mundo de flores sem espinhos. O Zé pensava, quase seguro, na obra que não tinha e culpava por isso o mundo. Tudo afinal era perfeito dentro da imperfeição da vida. Como de costume, como sempre, desde que a incoerência do pensamento bafejou o planeta.
Através das lentes escuras, os olhos metálicos do homem musculado viam a luz tardia a lamber de reflexos os vidros das montras. Da sua face inexpressiva percebia-se apenas o mármore vazio de sentimentos.
– Então e depois?
– Depois o quê? – interrogou Zé Ninguém. – Como pensam vocês saldar as dívidas aos ricos?
– Primeiro temos de comprar novos e mais modernos ódios; os antigos já estão desactualizados. Agora só nos resta odiarmo-nos uns aos outros, os que votam e os que não votam, os que vestem de encarnado contra os que vestem de verde. Escolher culpados, entre do vasto campo de ideologias que temos pela frente. O pior é que todos somos culpados. Não pode haver inocentes…

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