Texto de “O Combatente com sonhos” (sobre a g. civil de Espanha)

(…)
Servir a Pátria requer grandes sacrifícios, grandeza da alma e inusitado desamor da própria vida, mas, quando a Pátria ainda por cima paga bem, corre-se por gosto, e quem corre por gosto nunca se cansa, até porque, por aquela época, servir a Pátria, ou seja, as pedras, as árvores, as montanhas, os rios e as praias, os insectos e tudo o mais, significa de igual modo servir a Deus nas alturas e nas baixuras, pois Ele está em todo o lado, pela parte de cima e pela de baixo, pela esquerda e pela direita, por dentro e por fora, então ganha-se o reino do céu pelo tempo infinito de toda a eternidade, que será tanto, que um dia, fatalmente, iremos suplicar ao Senhor para morrermos em definitivo e de vez.
António palmilhava, apreensivo, uma parte da cidade vinda até hoje dos outros tempos, feita de prédios velhos com corrimões de ferro forjado, assentes em degraus de madeira, gastos nas passadas do tempo, ranjentes de dores velhas de caruncho antigo, de fachadas estreitas com janelas pequenas, medrosas do sol da tarde, com estores de pano caídos de cima para fora das guardas de ferro das sacadas, à moda andaluza, com vasos modestos feitos de barros queimados de muitos sois, com flores lindas de cores fortes enraizadas em terra escura, e prédios sem risos de crianças crescendo descuidadas no dia-a-dia da esperança, sem gatos grandes de pêlo lustroso a lamberem-se ao sol, sem senhoras idosas de sorriso bondoso sentadas entre portas de sacada entreabertas a passajar roupas, sem musica transmutada de dentro das telefonias para fora, sem mulheres jovens de saías rodadas de folhos e floridas, com suas mantilhas postas, caminhando para uma qualquer verbena. Não se sentia amor. O calor humano ausentara-se da vida no pavor do irrealismo da morte. Mas também não havia medo. Porquê medo? Também não percebíamos tristeza. Era, pois, como se os prédios estivessem vazios, defuntos de pé especados à espera de vez para terem a sua sepultura. E se não tinham vida os prédios, como estariam as pessoas, as mulheres e os homens, as crianças e os velhos, os gatos lustrosos e os cães sorridentes ladrando aos intrusos, enfim, onde estava a vida? Na concha da palma da mão de um soldado defunto, como prenda a sua mãe por lhe ter dado a vida, perdida tão cedo, na luta por ideais em tudo parecidos, nos discursos e nas mentiras, na guerra do faz de conta. Na concha da mão do soldado estava apertada a prenda que um dia iria dar à sua velha mãe, com ele guardada sete palmos de terra abaixo, no chão duro, algures por aí, enterrado como um qualquer cão raivoso. Será o soldado o nosso Juanito, lembram-se, morto pelo direito de ter o direito de, livremente e em paz, puder gostar de homens? Quem sabe, a guerra é imprevisível quanto ao sítio onde decide que cada pessoa vai morrer.
António começava a sentir um forte receio. As pessoas, sem outras pessoas por perto, sentem-se como formigas isoladas cada vez mais pequenas, a serem sorvidas por um universo que não compreendem. Para se sossegar pensou em dinheiro, na fortuna que lhe renderia a rede de contrabando que estava a organizar para o futuro, graças aos contactos que a tarefa que levava a cabo lhe permitia ter. A Espanha ia a precisar de tudo, desde maquinaria de toda a espécie, a minérios, tecnologia, remédios, homens para repor as percas, fantasias para os ricos e comida mais ou menos saudável para os pobres. A Espanha, ou as espanhas, se se quiser apostar no futuro de um punhado de povos diferenciados uns dos outros, por via de línguas e hábitos, costumes e tradições, arregimentados no correr dos séculos pela ganância dos reis e dos reizinhos, e esta amalgama de gentes, chegada que fosse a paz da força, teriam tantas e tantas dificuldades, carências, desejos, que seriam capazes de enriquecer o céu só reservado aos pobres sofridos, e do inferno quente como as praias tropicais em tempo do estio, onde os ricos olham pela eternidade fora os traseiros das ricas mulheres, servidos de bandeja e copos pelos diabinhos cornudos e vermelhos, de olhos vesgos e línguas viscosas, que os contam várias vezes ao dia a ver se algum se escapou, para ir lá acima a endrominar os anjos.
Já aqui foi dito que António simplesmente era um fascista suave, não façam confusão com Polícia Politica de Defesa do Estado, que isso é outra coisa, embora parecida, mas António não era caceteiro, mas sim comerciante, que fazia biscates ao regímen em troca de conhecimentos. As ervas daninhas de então, tal como as de hoje, só parecem iguais na aparência, mas não o são; existem nuances, pormenores. Os PIDES são, – ou eram, ou ainda são, pois que nunca se extinguem, – homens do povo que não sabem porque saíram PIDES, se por defeito, se por necessidade, se por mera atracção aos discursos berrados e às fardas bonitas dos militares, que mantêm esta Pátria no poder. Os fascistas são a nobreza da terra, os cérebros, os que dão migalhas aos pobres conforme manda o bom Deus, os pensadores do sistema, os obreiros e a vanguarda do saber, a conveniência dos ricos. E se de rico António tinha muito, também é verdade que, no que respeita a certos sentimentos, se tratava de um rico bom, passe o espanto dos leitores, mas é a mais pura da verdade, ao pé do António não existiam pessoas com fome.
A máquina registadora que lhe preenchia o cérebro trabalhava na soma dos números, mas o seu coração diferenciava-se, por razões da senhora natureza, que nos deixa de quando em vez boquiabertos com as suas ousadas produções. Metade do coração do António era de ouro vinte quilates, e a outra metade eram manhas dos negócios, vá-se lá saber porquê, e foi a parte de ouro fino que lhe deu um baque traduzido por todo o corpo pelo estremeção que até na alma doeu. Aquela criatura de Deus, a dois passos, um farrapo de gente, andrajosa, suja e desgrenhada, de roupas rasgadas, segurando no colo a criança esquelética que causava arrepios, pernas sujas num corpo por onde se esvai a vida, olhos de miúdo que nunca chegará a viver, criança morta fugindo dos lobos do mundo. António chamou a mulher, num espanhol quanto baste, saído de uma garganta seca e rouca, e para seu espanto, mesmo ali, a dez ou doze passos, a criatura olhou para ele sem o ver. António acenou de braço erguido, com um aqui! Aqui! Agora já sonoro a sair-lhe da boca, mas a mulher atravessou a rua, num vagar de espanto, e começou a percorrer o passeio do seu lado com aqueles pés descalços; Problemas auditivos – pensou, – e porque não? Então retirou do bolso a carteira e dela tirou umas três ou quatro mil pesetas, muito dinheiro para a época, e de braço levantado acenou na direcção da criatura, mas ela já não o olhava. Acelerou o passo. Quem tem tanta facilidade de arranjar dinheiro deve ajudar os outros, é uma espécie de compensação para certas maroteiras que se praticam na vida dos negócios. O dinheiro lava a alma dos ricos, e é pena que todos eles não pensem assim, uma grande maioria dos ricos pensa fazer uma pirâmide de notas, encostar-lhe uma escada, subir por ela e chegar à lua, mas António não gostava de coisas tão fáceis, para chegar à lua cheia só de foguetão de sua autoria, pondo em prática a sua engenharia, e enquanto não construía o seu foguetão ia ajudando os outros, por isso pudemos apelida-lo de fascista suave, e vendo a criatura de Deus, como o são todas as criaturas, que o Senhor não distingue, deixai que venham a mim as criancinhas, pois elas são o futuro do mundo, e quando a mulher meteu pela porta de um daqueles prédios cadáveres, de pé por comodidade de espaço, António entrou atrás dela.
Um átrio grande com mosaicos alternados, brancos e pretos, um chão com lixo disperso, uma escada de madeira com guarda de ferro mostrando ferrugem, que tinha início em três degraus que davam para um primeiro patamar, a partir do qual se desenvolvia o primeiro lance; a mulher já ia a meio, e voltou para ele uns olhos chorosos e tristes. António chamou, acenando com as notas, dizendo Senhora! E foi quando a voz chegando do nada lhe disse: Deixa que ela siga o seu destino! Não tens o direito de interferir! António saltou os três degraus que tinha subido, os poucos cabelos que as brilhantinas pouparam bem espetados para o alto, a pele de galinha a gelar-lhe o corpo, venceu correndo o átrio e afastou-se do prédio com passos largos. Da sua incredulidade se faz aqui nota, ele, homem descrente nos benefícios de Deus, mais voltado para os benefícios dos homens, materializado no espírito que o dinheiro dá, percebeu que alguém acabara de falar com ele. Quem? Pelo que dizem Deus não fala assim da miséria humana, aquilo fora uma espécie de chacota. Então quem foi? O diabo? Será que o senhor, por infinita bondade, lhe passa as obras más? Trata tu destes pobrezinhos sem eira nem beira que se andam a portar mal. A criança já nasceu com maleitas de mal querer? Não importa isso, mais vale prevenir do que remediar!
E quando um dia, anos mais tarde, o António, à mesa de jantar, era eu um catraio aí com um metro e vinte levantado do chão, nos contou estes factos, tive a certeza de que o António não mentia, e no meu espírito nasceu uma ideia chata, a cada hora de todos os dias de todos os anos contrariada pelos factos da vida, não estamos sós, quem nos acompanha não sei, este Deus de venda barata não será, nem estes padres de polichinelo que desfloram crianças, nem os juízes que dizem que os julgam, nem a sociedade de fantasia que nos encaminha não se sabe para onde, mas alguém andará por este mundo de crueldade a largar bocas foleiras daquelas… (,,,)

Sobre jsola02

quando me disseram que tinha de escrever uma apresentação, logo falar sobre mim, a coisa ficou feia. Falar sobre mim para dizer o quê? Que gosto de escrever, (dá-me paz, fico mais gente), que escrever é como respirar, comer ou dormir, é sinal que estou vivo e desperto? Mas a quem pode interessar saber coisas sobre um ilustre desconhecido? Qual é o interesse de conhecer uma vida igual a tantas outras, de um individuo, filho de uma família paupérrima, que nasceu para escrever, que aos catorze anos procurou um editor, que depois, muito mais tarde, publicou contos nos jornais diários da capital, entrevistas e pequenos artigos, que passou por todo o tipo de trabalho, como operário, como chefe de departamento técnico, e que, reformado, para continuar útil e activo, aos setenta anos recomeçou a escrever como se exercesse uma nova profissão. Parece-me que é pouco relevante. Mas, como escrever é exercer uma profissão tão útil como qualquer outra, desde que seja exercida com a honestidade de se dizer aquilo que se pensa, (penso que não há trabalhos superiores ou trabalhos inferiores, todos contribuem para o progresso e o bem estar do mundo), vou aceitar o desafio de me expor. Ficarei feliz se conseguir contribuir para que as pessoas pensem mais; ficarei feliz se me disserem o que pensam do que escrevo… José Solá
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