O que a recente entrevista do deputado Jerónimo de Sousa me fez recordar…

A nossa memória é um arquivo que, por vezes, nos prega partidas. Mas as coisas estão cá dentro, arquivadas algures, em alguma prateleira que pouco usamos.
Quando o senhor Jerónimo de Sousa, (na entrevista que faz poucos dias, deu na televisão), falou do seu professor de português, eu fui catapultado para trás no tempo. Vi-me (em rapazola), por roda dos catorze, quinze anos, quando, no Ginjal, aprendia o ofício de caldeireiro nas oficinas de reparação dos navios da nossa frota bacalhoeira. Lembrei-me da rapaziada da época, dos mestres, do ambiente, das partidas que nós, os principiantes, às escondidas pregávamos uns aos outros. E recordei a reivindicação que, na altura, mais nos motivava A nossa principal luta centrava-se na urgência em melhorar as instalações sanitárias. Isso. Se é que se pode chamar de “instalações sanitárias” aquela coisa asquerosa, que os porcos mais carenciados de certo recusariam como pocilga, mesmo sendo animais. Tentem imaginar: uma série de casinhotos sob um telheiro alto, dispostos em semi-circulo, equipados com bases turcas, com todos os autoclismos avariados, sem portas, fornecidos de pedaços de papel de jornal e de revistas presas a uns ganchos de arame, que em tempos perdidos tão atrás que já ninguém os recordava, teriam portas de vaivém que só encobririam a cabeça e o tórax dos utilizadores, com dejectos visíveis por todo o lado, sem qualquer vestígio de limpeza.
Segui o curso da minha vida. Um dia, (não muito tempo depois), veio-me parar às mãos um pequeno livro, umas trinta ou quarenta páginas, no máximo. Um livro de estudo, utilizado em engenharia, no Instituto Superior Técnico, e presumo que também nas outras faculdades. O autor, presumo que um doto catedrático, explanava conceitos para aumentar a produtividade industrial; e lá estava, a descrição de instalações sanitárias pouco limpas e onde parte do corpo dos utilizadores fosse visível, como método infalível para minimizar o tempo perdido pelos operários nas retretes…
Isto faz tanto tempo. É evidente que Portugal entretanto evoluiu! Mas, será que é mesmo assim? Vocês apostam ou teimam? Que tal apostar uma bica?
Ora vamos lá. Anos atrás, (talvez quê? Quinze, não mais do que dezassete ou dezoito). Uma reunião de Produção numa importante empresa do País. Assunto em discussão? Avaliar as condições de alojamento dos operários nas obras; ficara combinado que, cada engenheiro responsável por uma obra, levaria fotografias das suas instalações, ditas sociais, para se avaliar da qualidade das mesmas e escolher uma que servisse de modelo para o futuro. O director responsável pega numa das fotografias e exclama: “Esta sim. Para mim é a melhor de todas. Vamos seguir esta como modelo para o futuro!”
Sabem que fotografia escolheu, sabem? Não estavam lá, e portanto não podem saber. Querem apostar mais qualquer coisa sobre a qualidade das instalações eleitas pelo senhor director? Que tal mais uma bica? Não? Bom, adiante; o senhor director escolheu uma fotografia de uma das camaratas de um campo de concentração nazi, tirada durante umas férias por um dos engenheiros, já farto dos conceitos da nossa bondade nacional!
Somos afinal uma Pátria que tem todas as razões para se orgulhar e agradecer às suas elites todo o bem-estar que lhe trazem, com tanto esforço e tanto carinho. Bem-haja as nossas elites! Bem-haja as benfeitorias que tantos e tão esforçados governos nos têm oferecido, assim, de mão beijada, a nós, os que vivemos acima das nossas possibilidades, os que malbaratamos o dinheiro!
Amigos e camaradas “mal-agradecidos”: Que tal fazermos uma vigília de desagravo, a favor destas elites tão generosas?

Sobre jsola02

quando me disseram que tinha de escrever uma apresentação, logo falar sobre mim, a coisa ficou feia. Falar sobre mim para dizer o quê? Que gosto de escrever, (dá-me paz, fico mais gente), que escrever é como respirar, comer ou dormir, é sinal que estou vivo e desperto? Mas a quem pode interessar saber coisas sobre um ilustre desconhecido? Qual é o interesse de conhecer uma vida igual a tantas outras, de um individuo, filho de uma família paupérrima, que nasceu para escrever, que aos catorze anos procurou um editor, que depois, muito mais tarde, publicou contos nos jornais diários da capital, entrevistas e pequenos artigos, que passou por todo o tipo de trabalho, como operário, como chefe de departamento técnico, e que, reformado, para continuar útil e activo, aos setenta anos recomeçou a escrever como se exercesse uma nova profissão. Parece-me que é pouco relevante. Mas, como escrever é exercer uma profissão tão útil como qualquer outra, desde que seja exercida com a honestidade de se dizer aquilo que se pensa, (penso que não há trabalhos superiores ou trabalhos inferiores, todos contribuem para o progresso e o bem estar do mundo), vou aceitar o desafio de me expor. Ficarei feliz se conseguir contribuir para que as pessoas pensem mais; ficarei feliz se me disserem o que pensam do que escrevo… José Solá
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