A CRÓNICA DA PRODUÇÃO (texto já publicado no meu site)

A CRÓNICA DA PRODUÇÃO
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Muito se tem falado na nossa fraca capacidade de produção; só falta os nossos distintos entendidos nestes negócios de fazer coisas nos dizerem, abertamente, sem tibiezas, olhos nos olhos, com fumo escaldante a sair-lhes das narinas, “ Vocês são uns estupores de uns calões!” Então eu pensei, cá no meu jeito de ver a vida, “este assunto dá uma razoável crónica assim a jeito de fábula”, então meti mãos e cabeça à obra… e aí vai:

Era uma vez, lá para os lados do norte do País, dois homens que sabiam falar. Viviam ambos numa cidade pequena do País, onde, não interessa para o caso, não vão eles por essas bandas ficarem ofendidos, que estas coisas das susceptibilidades são terríveis…
Um dos homens chamava-se Mal Disposto, o outro, magro e de pele macilenta, chamava-se Barnabé. O Mal Disposto tinha um armazém de retalhista que fornecia o comércio local, e também ensacava arroz. O outro, o Barnabé, magro e macilento, trabalhava para o Mal Disposto como ensacador de arroz, de estrema confiança, diga-se de passagem, por ser empregado já de longa data.
Um dia o patrão Mal Disposto, (que sabia falar, como acima se disse), entrou no armazém com um brilho cintilante no olhar, coisa rara nele, que nunca descobria a pólvora, foi à secção de ensacar arroz, chamou o seu homem de confiança à parte, e disse: “Barnabé, tenho sobejas razões para desconfiar que nos andam a roubar arroz dos sacos. Tu, com a tua experiência, sabes quantos bagos de arroz leva um saco?” E o Barnabé, que também sabia falar, como acima de resto já foi dito, respondeu: “Eu não, patrão, eu nunca contei os bagos…” ao que o patrão Mal Disposto respondeu: “Eu sei. E não tinhas nada que contar, porque para pensar e dar ordens cá estou eu!” Foi então que o empregado Barnabé ficou encarregue de contar quantos bagos de arroz leva cada saca das grandes, das que se destinavam para a exportação. O patrão garantira-lhe que, por essa via, ia conseguir aumentar a produção e assim podia aumentar-lhe o ordenado, como chefe de secção, para os quinhentos euros mensais…
No dia a seguir, Barnabé, pé ante pé, escolheu uma sala ao lado do escritório do patrão, estendeu no chão uma manta velha trazida de casa, abriu-lhe por cima um plástico, levou uma cartolina e um lápis, uma saca de arroz, sentou-se no chão de pernas cruzadas e começou a tarefa da contagem dos bagos do arroz.
Barnabé contou bagos dias a fora e noites a dentro, à luz de uma vela durante a noite para poupar electricidade. A cada cem bagos Barnabé fazia um traço com o lápis na folha de cartolina. Depois, com extremo cuidado, carinhosamente, com as mãos ao cutelo, formando concha, metia os bagos dentro de uma das caixas de sapatos que, para o efeito, levara de casa. Com o passar dos dias Barnabé ia ficando cada vez mais cansado. O patrão estimulava-o, dizendo:”Então Barnabé, quando terminas o serviço? Pensa nos quinhentos euros, homem, pensa na boa vida que vais levar com tanto dinheiro, vais parecer um senhor de gravata, como o senhor engenheiro que manda na Associação dos Patrões!” E Barnabé ganhava ânimo, esmerava-se, produzia.
Certa noite, já madrugada dentro, Barnabé teve dúvidas. Não se teria enganado nos riscos feitos na cartolina? E o bago de arroz, o último, tinha-os contado bem? Desconsolado, olhou por longo tempo a quarta caixa de sapatos, meio cheia, e depois encolheu os ombros. Pensou: “Estou aqui sozinho, a hora tão tardia, também, mais bago menos bago, quem vai saber?
Passaram semanas. Barnabé, cada dia mais magro, escanzelado e macilento, com uma pele cada vez menos branca, olheiras profundas e sonhos esquisitos, foi-se finando aos poucos, até que, certa manhã, o encontraram morto no chão de cimento.
Mal Disposto ficou vidrado. Então o tipo não pediu ajuda porquê? Ele tinha posto mais pessoal a ajudar, se fosse preciso. O pior, bem, é que o deixava desprevenido, impossibilitado de arquitectar uma estratégia para aumentar a produção a partir do conhecimento exacto de quantos bagos de arroz levava cada saca. Mas como bom patrão que era, Mal Disposto, não só se encarregou de mandar pagar o mês na íntegra à viúva, como negociou com a florista uma coroa de flores para mandar ao funeral. Viu tamanhos e consultou preços. Foi a várias floristas. Por fim decidiu-se por uma bonita coroa com cinquenta centímetros de diâmetro. Isto, o que conta é a intenção. Pensou. À saída da loja, quando guardou a coroa na bagageira do carro, retirou uma flor, uma rosa, para meter numa jarra com água e dois dias mais tarde a oferecer à esposa que fazia anos…
NOTA:
ACONSELHO OS NOSSOS DOUTOS GOVERNANTES A RECORREREM AO EMPRESÀRIO “MAL DISPOSTO” PARA SANAR DE VEZ O DESEMPREGO!

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“JUNTOS PARA SEMPRE” – Romance

                                     (  2º EXCERTO )

          Uma noite, Maria acorda em pânico, com uma hemorragia. Grita, confrangida, por socorro. Toda a gente acorda. Aparecem duas freiras que, ao perceberem o motivo do seu desespero, a insultam, chamando-lhe ignorante e desavergonhada. Retiram-se, vociferando pelo facto de terem interrompido o seu celestial sono por causa de uma idiota aos gritos.

          Laurinda levanta-se silenciosamente, aproxima-se de Maria e explica-lhe com pormenores o que está a acontecer.

          – Como vês não é nada de mal, todas as raparigas passam por isso na tua idade. – diz ela com ar de entendida no assunto.

            Maria fica mais calma, mas ainda um pouco confusa, apesar da informação detalhada de Laurinda

                                                                                           ****

          Como é possível que as freiras, que também são mulheres, não considerem seu dever esclarecer e orientar as jovens nesta fase de transformação dos seus corpos? O que é que existe naquelas cabeças além de exânimes teias de aranha? Ou será que Deus as eximiu desse fenómeno fisiológico? É inexplicável que num Orfanato, que tem como objectivo acolher, educar e ajudar crianças no seu progresso físico e intelectual, existam pessoas que ajam de forma tão reprovável.

          Se Deus existe, como permite que mulheres, que passam todo o tempo a rezar de terço nas mãos, tenham comportamentos de tanta frieza, tratando as infelizes raparigas com gratuita severidade e estúpida desumanidade?

          Se Deus existe, como permite que se abandonem bebés nas soleiras das portas, ignorando o seu destino?

José Eduardo Taveira

Este livro está à venda na Livraria Barata, 11, em Lisboa ou através  do site :          www.sitiodolivro.pt

 

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O guerreiro nórdico ( de Danilo Pereira )

Na era medieval existiu um homem de cabelos dourados que em vida tinha sido um guerreiro notável. Ele ficou conhecido por ser um profundo conhecedor do aço e por destroçar os seus inimigos no campo de batalha. Certo dia, como capitão do exército de Odin, ele liderou o seu exército rumo à vitória na batalha contra os Jotnar, gigantescas criaturas com força sobrehumana, que sempre se manifestavam em oposição aos Deuses. O seu exército era pequeno e não contava com mais do que cinquenta homens. E então o que parecia ser impossível aconteceu; eles venceram a batalha e Wolfgang tornou-se um líder ambicioso sedento de sangue. Não havendo adversário que chegasse para ele, todos eram aniquilados. Os seus homens mais pareciam seus escravos, pois não havia descanso e muitos deles sucumbiram face aos seus aterrorizantes actos. Eles tinham-se cansado dele.

Numa certa noite, nas encostas das montanhas geladas do norte, ele foi traído pelo seu próprio pai que, não suportando mais as suas atitudes insanas, lhe armou uma emboscada onde acabou por ser morto pelo seu próprio exército. Odin enfureceu-se, baniu-os para o Niflheim e ordenou às Valquírias que levassem Wolfgang até Valhala, onde permaneceu durante anos, guerreando em nome dos Deuses e sacrificando a sua vida miserável a troco de nada. Aquilo tudo tinha-se tornado um pesadelo para ele que, depois de se cansar daquela tortura, implorou aos Deuses que lhe dessem uma segunda chance.

O mundo mudara. Loki, o senhor das trevas, tinha encontrado uma maneira de atravessar as grandes raízes de Yggdrasil, a colossal árvore que ligava os mundos. A grande mãe, como era chamada, tinha enfraquecido com a maldição posta sobre ela por Loki que, como vingança após ter sido aprisionado por Tyr, enviou à terra quatro colossais demónios que cobriram o mundo nórdico coma sua maldade.

Odin tinha falhado e após um longo tempo sem interferir no mundo dos mortais, decidiu recrutar, em Valhala, o único homem capaz de andar sobre a terra carregando a espada das Almas, uma espada cuja lâmina tinha sido forjada pelos Vanir sobre o poço de Urd, e que no passado fora usada para aprisionar os espíritos malignos que ameaçavam o universo. Wolfgang tinha sido o escolhido, a sua alma pecadora iria caminhar mais uma vez sobre aquele mundo perdido onde o seu pesado fardo, imposto pelos Deuses, lhe poderia conceder a tão sonhada segunda chance.

Obra, Wolfgang o guerreiro nórdico.

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“JUNTOS PARA SEMPRE” – Romance

               “JUNTOS PARA SEMPRE”

                    ( Excerto do romance)

     Maria nasceu sozinha, como costuma dizer.

     Nunca conheceu mãe nem pai.  Ninguém.

     Nasceu na soleira da porta do Orfanato “Ninho de Amor”, gerido por freiras, situado numa pequena cidade do interior, no princípio da década de 30. Embrulhada num cobertor velho e sujo, conforme lhe disseram anos depois, Maria estava faminta e em estado de hipotermia. Levaram-na para dentro e juntaram-na às mais de trinta raparigas que tiveram sorte idêntica.

          O Orfanato tem aspecto de casarão abandonado. O jardim que o circunda não tem flores, nem relva. Arbustos raquíticos, matagal e lixo arrastado pelo vento evidenciam a displicência das freiras em proporcionar uma paisagem agradável a quem lá vive. As paredes exteriores sem pintura e com imensas brechas, deixam ver o seu interior de caliça que vai escorrendo com a força da chuva nos invernos rigorosos. As janelas de caixilhos de madeira apodrecidos sustentam com dificuldade as vidraças protegidas por gradeamentos enferrujados, que previnem a evasão de alguma prisioneira. A porta de entrada, decrépita e misteriosa, representa para as raparigas a fronteira entre a liberdade e a reclusão.        

          O interior apresenta uma decadente, descuidada e promíscua ambiência. As camaratas ocupadas pelas raparigas são escuras e respira-se um ar impregnado de lixívia. As camas de ferro, desconchavadas, com colchões de palha, velhos, rotos e bafientos parecem desfazer-se quando as meninas se deitam. O chão de cimento escuro e húmido, tal como as paredes, transformam espaços de repouso em celas prisionais. O refeitório, junto à cozinha, tem duas mesas compridas feitas com tábuas de recorte irregular assentes sobre pipas velhas, que exalam um pútrido cheiro avinagrado. Sob a mesa estão os bancos, quase todos estragados, que servem de assento periclitante, causando, com frequência, quedas durante as refeições. A loiça de alumínio, negra e amolgada pelos anos de uso, provoca náuseas que são reprimidas à custa da falta de alternativas. A dieta alimentar desequilibrada e insípida, carente de minerais e vitaminas indispensáveis ao organismo, causa problemas de desenvolvimento físico e intelectual nas crianças.

          Ao fundo do corredor existe uma capela. No topo, um pequeno altar coberto com uma toalha branca bordada nas extremidades, sobre o qual estão dois círios, o tabernáculo e uma cruz de madeira com Jesus Cristo crucificado. Dois genuflexórios, um confessionário e uma pia de água benta feita em cerâmica completam o mobiliário do espaço exclusivamente dedicado à oração. Aqui, além dos frequentes retiros de reflexão das mulheres consagradas a Deus, todos os domingos é celebrada a missa matinal por um padre de aspecto seboso, admirado pelas freiras que o consideram uma bênção de Deus, talvez pelos gracejos brejeiros que lhes dirige.

          O sino de bronze toca a todas as horas – para levantar, para comer, para orar, para deitar, para reunir, para dispersar. Este regime inflexível, aliado à insensibilidade das freiras e à inexistência de relações humanas, fomentam um clima depressivo que marcará o futuro de todas as jovens.

          A ala reservada ao grupo das cinco freiras exibe uma decoração simples mas confortável, privilegiando o seu bem-estar. As paredes pintadas de branco, repletas de quadros com imagens sagradas, são diariamente veneradas pelas freiras num ritual de obscena trivialidade.

          Dois mundos separados por uma porta que nunca se abre sem a chave que cada freira é possuidora.

José Eduardo Taveira

Este livro está à venda na Livraria Barata, Av. de Roma, 11 em Lisboa ou através do site:

                                                                                                                             www.sitiodolivro.pt

 

 

 

 

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Reestruturação da União Nacional – Utopia ou realidade?

Em miúdo (por volta dos oito anos), lembro-me de passeatas que dava por Alcântara, em dias em que o “povo” acorria ao cais da Rocha, para receber em festa, no regresso ao continente, um qualquer senhor ministro da marinha que chegava de visitas às Províncias do Ultramar Português.
A coisa passava-se mais ou menos assim: as nossas companhias de navegação, a CCN e a CNN, na véspera do acontecimento, informavam os operários e as respectivas chefias das suas oficinas de reparação naval, da tolerância de ponto permitida a quem, de “livre e espontânea vontade,” e com o sacrifício de um dia de “falta ao trabalho” fosse a receber em festa de “bandeirinhas nacionais” e sonoros “Vivas!” O tão esforçado e incansável ministro. É facto que muitos, (como o meu familiar), entravam pelo portão da frente e passado pouco tempo, depois de se mostrarem, saíam por uma pequena porta dos fundos do edifício do Porto de Lisboa…
Ora bem; no outro dia fiquei pasmado quando, por motivos de mais uma tomada de posse, como presidente do Governo da Região Autónoma da Madeira, Sua Excelência o senhor doutor Alberto João, decidiu, (de certo que por bem), nesse dia, dar tolerância de ponto aos funcionários públicos. Há tanto tempo que não apreciava um gesto tão magnânimo. Não fora a penúria do País e a História recente da nossa ditadura, fosse eu um simplório ingénuo, e teria de imediato, ainda que só, saído à rua para ovacionar tal gesto! É que é preciso coragem para duas coisas: uma, trazer à memória colectiva dos Portugueses tais práticas, outra, cuspir-lhes na cara com tal atitude; e ainda mais uma, se me permitem, pôr em “cheque” com desrespeito total quem lhe estende a mão, quem lhe paga as dívidas, (não me parece que o corte nos subsídios nada tenha a ver com as contas da Madeira), ou seja, o seu partido, o Partido Social Democrata. Estranho é que, possivelmente com fleuma, o senhor ministro das finanças, quando questionado, se tenha limitado a dizer que o referido senhor vai depois ter de prestar contas…
Não fosse a minha “memória de elefante” e, possivelmente, ninguém associava as práticas de ontem com as de hoje.
Fico-me por aqui; não sem antes perguntar: Como é possível que uma Democracia tenha tanto receio de recorrer aos referendos para saber como interpreta o Povo determinadas atitudes, e quais os caminhos que o mesmo aponta para as resolver de uma vez por todas?

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Romance “A Paixão que Veio do Frio”

Uma história apaixonante, um amor impossível, uma tragédia vivida numa época conturbada, num local emblemático e sinónimo do romantismo.

À venda na livraria Leya na Barata, Av. Roma em Lisboa e no Sitio do Livro por encomenda directa no Site

http://www.sitiodolivro.pt/pt/livro/a-paixao-que-veio-do-frio/9789892026640/

O autor

José Guerra

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Texto de “O Combatente com sonhos” (sobre a g. civil de Espanha)

(…)
Servir a Pátria requer grandes sacrifícios, grandeza da alma e inusitado desamor da própria vida, mas, quando a Pátria ainda por cima paga bem, corre-se por gosto, e quem corre por gosto nunca se cansa, até porque, por aquela época, servir a Pátria, ou seja, as pedras, as árvores, as montanhas, os rios e as praias, os insectos e tudo o mais, significa de igual modo servir a Deus nas alturas e nas baixuras, pois Ele está em todo o lado, pela parte de cima e pela de baixo, pela esquerda e pela direita, por dentro e por fora, então ganha-se o reino do céu pelo tempo infinito de toda a eternidade, que será tanto, que um dia, fatalmente, iremos suplicar ao Senhor para morrermos em definitivo e de vez.
António palmilhava, apreensivo, uma parte da cidade vinda até hoje dos outros tempos, feita de prédios velhos com corrimões de ferro forjado, assentes em degraus de madeira, gastos nas passadas do tempo, ranjentes de dores velhas de caruncho antigo, de fachadas estreitas com janelas pequenas, medrosas do sol da tarde, com estores de pano caídos de cima para fora das guardas de ferro das sacadas, à moda andaluza, com vasos modestos feitos de barros queimados de muitos sois, com flores lindas de cores fortes enraizadas em terra escura, e prédios sem risos de crianças crescendo descuidadas no dia-a-dia da esperança, sem gatos grandes de pêlo lustroso a lamberem-se ao sol, sem senhoras idosas de sorriso bondoso sentadas entre portas de sacada entreabertas a passajar roupas, sem musica transmutada de dentro das telefonias para fora, sem mulheres jovens de saías rodadas de folhos e floridas, com suas mantilhas postas, caminhando para uma qualquer verbena. Não se sentia amor. O calor humano ausentara-se da vida no pavor do irrealismo da morte. Mas também não havia medo. Porquê medo? Também não percebíamos tristeza. Era, pois, como se os prédios estivessem vazios, defuntos de pé especados à espera de vez para terem a sua sepultura. E se não tinham vida os prédios, como estariam as pessoas, as mulheres e os homens, as crianças e os velhos, os gatos lustrosos e os cães sorridentes ladrando aos intrusos, enfim, onde estava a vida? Na concha da palma da mão de um soldado defunto, como prenda a sua mãe por lhe ter dado a vida, perdida tão cedo, na luta por ideais em tudo parecidos, nos discursos e nas mentiras, na guerra do faz de conta. Na concha da mão do soldado estava apertada a prenda que um dia iria dar à sua velha mãe, com ele guardada sete palmos de terra abaixo, no chão duro, algures por aí, enterrado como um qualquer cão raivoso. Será o soldado o nosso Juanito, lembram-se, morto pelo direito de ter o direito de, livremente e em paz, puder gostar de homens? Quem sabe, a guerra é imprevisível quanto ao sítio onde decide que cada pessoa vai morrer.
António começava a sentir um forte receio. As pessoas, sem outras pessoas por perto, sentem-se como formigas isoladas cada vez mais pequenas, a serem sorvidas por um universo que não compreendem. Para se sossegar pensou em dinheiro, na fortuna que lhe renderia a rede de contrabando que estava a organizar para o futuro, graças aos contactos que a tarefa que levava a cabo lhe permitia ter. A Espanha ia a precisar de tudo, desde maquinaria de toda a espécie, a minérios, tecnologia, remédios, homens para repor as percas, fantasias para os ricos e comida mais ou menos saudável para os pobres. A Espanha, ou as espanhas, se se quiser apostar no futuro de um punhado de povos diferenciados uns dos outros, por via de línguas e hábitos, costumes e tradições, arregimentados no correr dos séculos pela ganância dos reis e dos reizinhos, e esta amalgama de gentes, chegada que fosse a paz da força, teriam tantas e tantas dificuldades, carências, desejos, que seriam capazes de enriquecer o céu só reservado aos pobres sofridos, e do inferno quente como as praias tropicais em tempo do estio, onde os ricos olham pela eternidade fora os traseiros das ricas mulheres, servidos de bandeja e copos pelos diabinhos cornudos e vermelhos, de olhos vesgos e línguas viscosas, que os contam várias vezes ao dia a ver se algum se escapou, para ir lá acima a endrominar os anjos.
Já aqui foi dito que António simplesmente era um fascista suave, não façam confusão com Polícia Politica de Defesa do Estado, que isso é outra coisa, embora parecida, mas António não era caceteiro, mas sim comerciante, que fazia biscates ao regímen em troca de conhecimentos. As ervas daninhas de então, tal como as de hoje, só parecem iguais na aparência, mas não o são; existem nuances, pormenores. Os PIDES são, – ou eram, ou ainda são, pois que nunca se extinguem, – homens do povo que não sabem porque saíram PIDES, se por defeito, se por necessidade, se por mera atracção aos discursos berrados e às fardas bonitas dos militares, que mantêm esta Pátria no poder. Os fascistas são a nobreza da terra, os cérebros, os que dão migalhas aos pobres conforme manda o bom Deus, os pensadores do sistema, os obreiros e a vanguarda do saber, a conveniência dos ricos. E se de rico António tinha muito, também é verdade que, no que respeita a certos sentimentos, se tratava de um rico bom, passe o espanto dos leitores, mas é a mais pura da verdade, ao pé do António não existiam pessoas com fome.
A máquina registadora que lhe preenchia o cérebro trabalhava na soma dos números, mas o seu coração diferenciava-se, por razões da senhora natureza, que nos deixa de quando em vez boquiabertos com as suas ousadas produções. Metade do coração do António era de ouro vinte quilates, e a outra metade eram manhas dos negócios, vá-se lá saber porquê, e foi a parte de ouro fino que lhe deu um baque traduzido por todo o corpo pelo estremeção que até na alma doeu. Aquela criatura de Deus, a dois passos, um farrapo de gente, andrajosa, suja e desgrenhada, de roupas rasgadas, segurando no colo a criança esquelética que causava arrepios, pernas sujas num corpo por onde se esvai a vida, olhos de miúdo que nunca chegará a viver, criança morta fugindo dos lobos do mundo. António chamou a mulher, num espanhol quanto baste, saído de uma garganta seca e rouca, e para seu espanto, mesmo ali, a dez ou doze passos, a criatura olhou para ele sem o ver. António acenou de braço erguido, com um aqui! Aqui! Agora já sonoro a sair-lhe da boca, mas a mulher atravessou a rua, num vagar de espanto, e começou a percorrer o passeio do seu lado com aqueles pés descalços; Problemas auditivos – pensou, – e porque não? Então retirou do bolso a carteira e dela tirou umas três ou quatro mil pesetas, muito dinheiro para a época, e de braço levantado acenou na direcção da criatura, mas ela já não o olhava. Acelerou o passo. Quem tem tanta facilidade de arranjar dinheiro deve ajudar os outros, é uma espécie de compensação para certas maroteiras que se praticam na vida dos negócios. O dinheiro lava a alma dos ricos, e é pena que todos eles não pensem assim, uma grande maioria dos ricos pensa fazer uma pirâmide de notas, encostar-lhe uma escada, subir por ela e chegar à lua, mas António não gostava de coisas tão fáceis, para chegar à lua cheia só de foguetão de sua autoria, pondo em prática a sua engenharia, e enquanto não construía o seu foguetão ia ajudando os outros, por isso pudemos apelida-lo de fascista suave, e vendo a criatura de Deus, como o são todas as criaturas, que o Senhor não distingue, deixai que venham a mim as criancinhas, pois elas são o futuro do mundo, e quando a mulher meteu pela porta de um daqueles prédios cadáveres, de pé por comodidade de espaço, António entrou atrás dela.
Um átrio grande com mosaicos alternados, brancos e pretos, um chão com lixo disperso, uma escada de madeira com guarda de ferro mostrando ferrugem, que tinha início em três degraus que davam para um primeiro patamar, a partir do qual se desenvolvia o primeiro lance; a mulher já ia a meio, e voltou para ele uns olhos chorosos e tristes. António chamou, acenando com as notas, dizendo Senhora! E foi quando a voz chegando do nada lhe disse: Deixa que ela siga o seu destino! Não tens o direito de interferir! António saltou os três degraus que tinha subido, os poucos cabelos que as brilhantinas pouparam bem espetados para o alto, a pele de galinha a gelar-lhe o corpo, venceu correndo o átrio e afastou-se do prédio com passos largos. Da sua incredulidade se faz aqui nota, ele, homem descrente nos benefícios de Deus, mais voltado para os benefícios dos homens, materializado no espírito que o dinheiro dá, percebeu que alguém acabara de falar com ele. Quem? Pelo que dizem Deus não fala assim da miséria humana, aquilo fora uma espécie de chacota. Então quem foi? O diabo? Será que o senhor, por infinita bondade, lhe passa as obras más? Trata tu destes pobrezinhos sem eira nem beira que se andam a portar mal. A criança já nasceu com maleitas de mal querer? Não importa isso, mais vale prevenir do que remediar!
E quando um dia, anos mais tarde, o António, à mesa de jantar, era eu um catraio aí com um metro e vinte levantado do chão, nos contou estes factos, tive a certeza de que o António não mentia, e no meu espírito nasceu uma ideia chata, a cada hora de todos os dias de todos os anos contrariada pelos factos da vida, não estamos sós, quem nos acompanha não sei, este Deus de venda barata não será, nem estes padres de polichinelo que desfloram crianças, nem os juízes que dizem que os julgam, nem a sociedade de fantasia que nos encaminha não se sabe para onde, mas alguém andará por este mundo de crueldade a largar bocas foleiras daquelas… (,,,)

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“JUNTOS PARA SEMPRE” – Romance

 

               “Juntos para Sempre”

 “Juntos para Sempre” conta a história de uma menina, que após ter nascido, foi abandonada à porta de um Orfanato.

Parte da sua vida foi vítima de maus-tratos e humilhações.

Quando se sentiu mulher, planeou a fuga para a liberdade. Este desejo levou-a a sofrer situações dolorosas.

Mas a sua força anímica não a fez desviar dos objectivos que traçou: trabalhar, ter uma casa e família.

Terá ela conquistado o direito a ser feliz?

Este livro está à venda na Livraria Barata, Av.de Roma, 11 em Lisboa

                       ou através do site:   www.sitiodolivro.pt

 

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O que a recente entrevista do deputado Jerónimo de Sousa me fez recordar…

A nossa memória é um arquivo que, por vezes, nos prega partidas. Mas as coisas estão cá dentro, arquivadas algures, em alguma prateleira que pouco usamos.
Quando o senhor Jerónimo de Sousa, (na entrevista que faz poucos dias, deu na televisão), falou do seu professor de português, eu fui catapultado para trás no tempo. Vi-me (em rapazola), por roda dos catorze, quinze anos, quando, no Ginjal, aprendia o ofício de caldeireiro nas oficinas de reparação dos navios da nossa frota bacalhoeira. Lembrei-me da rapaziada da época, dos mestres, do ambiente, das partidas que nós, os principiantes, às escondidas pregávamos uns aos outros. E recordei a reivindicação que, na altura, mais nos motivava A nossa principal luta centrava-se na urgência em melhorar as instalações sanitárias. Isso. Se é que se pode chamar de “instalações sanitárias” aquela coisa asquerosa, que os porcos mais carenciados de certo recusariam como pocilga, mesmo sendo animais. Tentem imaginar: uma série de casinhotos sob um telheiro alto, dispostos em semi-circulo, equipados com bases turcas, com todos os autoclismos avariados, sem portas, fornecidos de pedaços de papel de jornal e de revistas presas a uns ganchos de arame, que em tempos perdidos tão atrás que já ninguém os recordava, teriam portas de vaivém que só encobririam a cabeça e o tórax dos utilizadores, com dejectos visíveis por todo o lado, sem qualquer vestígio de limpeza.
Segui o curso da minha vida. Um dia, (não muito tempo depois), veio-me parar às mãos um pequeno livro, umas trinta ou quarenta páginas, no máximo. Um livro de estudo, utilizado em engenharia, no Instituto Superior Técnico, e presumo que também nas outras faculdades. O autor, presumo que um doto catedrático, explanava conceitos para aumentar a produtividade industrial; e lá estava, a descrição de instalações sanitárias pouco limpas e onde parte do corpo dos utilizadores fosse visível, como método infalível para minimizar o tempo perdido pelos operários nas retretes…
Isto faz tanto tempo. É evidente que Portugal entretanto evoluiu! Mas, será que é mesmo assim? Vocês apostam ou teimam? Que tal apostar uma bica?
Ora vamos lá. Anos atrás, (talvez quê? Quinze, não mais do que dezassete ou dezoito). Uma reunião de Produção numa importante empresa do País. Assunto em discussão? Avaliar as condições de alojamento dos operários nas obras; ficara combinado que, cada engenheiro responsável por uma obra, levaria fotografias das suas instalações, ditas sociais, para se avaliar da qualidade das mesmas e escolher uma que servisse de modelo para o futuro. O director responsável pega numa das fotografias e exclama: “Esta sim. Para mim é a melhor de todas. Vamos seguir esta como modelo para o futuro!”
Sabem que fotografia escolheu, sabem? Não estavam lá, e portanto não podem saber. Querem apostar mais qualquer coisa sobre a qualidade das instalações eleitas pelo senhor director? Que tal mais uma bica? Não? Bom, adiante; o senhor director escolheu uma fotografia de uma das camaratas de um campo de concentração nazi, tirada durante umas férias por um dos engenheiros, já farto dos conceitos da nossa bondade nacional!
Somos afinal uma Pátria que tem todas as razões para se orgulhar e agradecer às suas elites todo o bem-estar que lhe trazem, com tanto esforço e tanto carinho. Bem-haja as nossas elites! Bem-haja as benfeitorias que tantos e tão esforçados governos nos têm oferecido, assim, de mão beijada, a nós, os que vivemos acima das nossas possibilidades, os que malbaratamos o dinheiro!
Amigos e camaradas “mal-agradecidos”: Que tal fazermos uma vigília de desagravo, a favor destas elites tão generosas?

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Norna ( de Danilo Pereira )

Entre os Deuses e Deusas da mitologia nórdica, há uma entidade sagrada que cuida de todos eles, ela é  conhecida como Norna, a Deusa do destino. Sua função é controlar o presente, o passado e o futuro, quer dos homens quer dos Deuses, zelar pelos clãs aesir, vanir, os elfos, os humanos e os anões.

Norna é cega e enxerga por uma bola de cristal, que emite luz e a faz ver atravéz dos tempos. Ela está sempre encapuzada e vive num dos ramos da árvore Yggdrasil, onde consegue prever e mudar o destino de todos.

Outra curiosidade desta entidade sagrada, é que ela pode demonstrar em seu rosto, o que sua bola de cristal lhe mostra, como por exemplo, por meio de lágrimas. Quando a norna derramar lágrimas de sangue, significa que a morte virá, quando ela derramar apenas lágrimas, significa que a vida continuará.

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