Nessa boca sedenta…

Um beijo te queria escrever
Nessa boca sedenta
Onde se desenham palavras loucas
De lábios doce cereja
Que na língua se beija
O mel te prove
Uma vez que seja

José Guerra (2011)

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“JUNTOS PARA SEMPRE” – 6º Excerto do Romance

                                          ( 6º Excerto )

          Seis meses após o internamento de Maria, a enfermeira Celeste comunica-lhe:

         – Vou dar-te uma boa notícia. O Doutor Alberto Carlos disse-me: “diga lá à miúda que lhe vou dar alta durante a próxima semana.”

          Maria começa a preparar novo plano para sair do Hospital sem dar conhecimento a ninguém. Considera ser uma ingrata por não agradecer tudo o que fizeram por ela, mas espera mais tarde ter oportunidade para se justificar.          

          Durante a noite que antecede a saída do Hospital, Maria não consegue dormir. Olha para o relógio da enfermaria minuto a minuto. São sete horas. Levanta-se e veste-se silenciosamente. Sai da enfermaria, percorre o corredor até à escadaria pela qual desce até à porta. Olha em redor. Não vê ninguém. Nervosa, roda a maçaneta, mas não abre. Está trancada. É cedo de mais. Volta para trás e recosta-se na cama que ocupara durante meio ano. Espera ansiosa que a porta seja aberta. Com o cansaço de uma noite em claro, adormece. É acordada por uma freira que entretanto entrara para a levar para o Orfanato. Por momentos pensa viver um pesadelo. Um fogo intenso percorre-lhe o corpo, como se fosse uma bomba pronta a explodir. Senta-se, chorando com as mãos a tapar-lhe a cara. A freira farta-se de esperar e ordena-lhe que se levante e a siga, porque não tem tempo a perder. As companheiras da enfermaria acenam-lhe, desejando-lhe felicidades. Maria está furiosa consigo mesma. Cometeu o erro fatal de não ter dormido durante a noite.

          – Desta vez a culpada sou eu. E agora vou continuar para aqui nesta vida estúpida que nunca mais sai da cepa torta. Que raio de sorte a minha! Estou farta disto! Até já perdi a confiança em mim.

                                                                                        *****

          Para Maria, a sua reentrada no Orfanato foi uma surpresa. As freiras receberam-na com fleumática cordialidade, talvez reconhecendo que foram responsáveis pela doença originada pelas condições sub-humanas em que tinha vivido durante um mês. Permitiram que as raparigas rodeassem Maria, fazendo-lhe perguntas sobre o que lhe tinha acontecido para estar tanto tempo fora. Nem queria acreditar no que estava acontecer. Foi respondendo à curiosidade das colegas. Este inesperado acolhimento fê-la sentir ressarcida pelos momentos dramáticos que tinha vivido naquela Casa. Trinta minutos depois uma freira avisou-as que acabou o recreio.

          Ao fundo da camarata uma rapariga sentada na cama chora, tapando a cara com as mãos trémulas do frio ácido vertido das suas entranhas, provocado pelos remorsos do seu traiçoeiro comportamento. Laurinda tem a certeza que Maria nunca a perdoará.

José Eduardo Taveira

Este livro está à venda na Livraria Barata, Av. de Roma, 11 em Lisboa ou através do site:

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UMA PEDRA E UM GALEGO

Está a ver o que se passa com o remoinho sobre a pedra, que de longe vem o estrangeiro mirá-la?

Mas ela tem um espectador assíduo que lhe faz serão, não se sabe por pressão ou admiração.

É o velho de algures, de ignominia fisionomia e que fala a língua do silêncio e da voz miúda e serena, de palavras pouco significantes, mas de um olhar sábio e enternecedor.

Os seus olhos acompanham os aparatos que ornam a cabeceira do rio, que levemente salpica as suas águas na pedra paisagística e, no lado enfumaçado, sobre a areia franzina que verte da praia deserta.

O seu olhar perplexo ofusca-se nas brancas pedrinhas sob a correnteza suave das águas viventes, e até se contrastam com o vento ocioso, vadio e teimoso, a girar e dançar sobre a pedra turística.

O vento esparge uma doce alegria na beira do rio e as sementes trazidas pelos pássaros que ali residem calidamente e se deitam airosas, frescas e presunçosas, pois sabem que logo, loguinho, naquele cantinho brotarão e, sem disso se aperceber, estarão a trazer vida à natureza.

E ela com o olhar inconfundível do velho abrirá os seus braços para o abraçar gratificantemente.

Sim, é um lugar sábio, afável e doce, até misterioso, assim como o velho galego que para lá emigrou e se dispôs a viver sem restrição à simpleza e às pegadas sutis dos apaixonados pela simetria de uma rocha grosseira, mas atraente pelo seu incomparável padrão artístico.

Rocha mística e irretratável e, para além disso, simplesmente “guapíssima”.

(do livro “Histórias vividas em prosa”, de Marifelix Lopes Saldanha)

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O poço de Urd ( de Danilo Pereira )

Nest post, contarei sobre o poço de Urd, uma espécie de templo sagrado onde é forjada muitas das reliquias nórdicas. O poço, que fica nas profundezas de Niflheim, esconde um segredo na qual somente as fadas conhecem, o místico templo de Uro.

O templo, se esconde no fundo do poço e somente na presença de uma fada ele se levanta, revelando assim inumeros segredos. O poço de Urd, é alcançado somente por aqueles que tem muita fé, que possuem muita força e destreza.

Diz a lenda, que o templo é guardado por uma criatura gigantesca, mas infelizmente, nenhum aventureiro conseguiu voltar com vida para confirmar a tal lenda. Em minha obra, o poço de Urd é citado, pois fora nele que os Vanir e os aesir ( clãs divinos ) forjaram a espada das almas, a lâmina na qual Wolfgang carrega em sua aventura.

 

Ilustração do templo de Uro erguido na presença de um guerreiro acompanhado de uma fada, será que ele encontrou a criatura?

 

Obra, Wolfgang, o guerreiro nórdico.

 

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“JUNTOS PARA SEMPRE” – 5º Excerto do Romance

                              ( 5º Excerto )

          Durante um mês, Maria viveu tormentos que nunca esquecerá. O quarto dos castigos é horroroso. Apenas um olho-de-boi gradeado na parte superior de umas das paredes permite que uma ténue réstia de luz solar penetre na cela. Uma tarimba e um colchão esburacado servem de cama. Duas mantas velhas e bafientas protegem com insuficiência do frio húmido do Inverno. A um canto, dois baldes, um com água e outro para usar como latrina. Ambos são substituídos de três em três dias. Pendurada num prego ferrugento, uma toalha que nunca foi trocada. As refeições, constituídas de pão seco e macarrão cozido, são transportadas em marmitas amolgadas, negras, gordurosas e repelentes. Passou fome e sede, até não sentir vontade de se alimentar. A escuridão da cela, a humidade e o frio provocaram no seu consciente a visão de um corpo inexistente, insensível e exânime. Deitada na tarimba, de mãos coladas ao peito, olhos cerrados, sugere a imagem de um ataúde esquecido e desprezado à espera que o tempo o devore concedendo a Maria a felicidade eterna.

                                                                                       *****

          Terminado o castigo, Maria regressa à camarata. O seu aspecto é deplorável. Está magra e doente. Dominada pelo poder absoluto e arbitrário das freiras, sente-se humilhada e ofendida na sua dignidade. Nestas circunstâncias tudo é indiferente, aconteça o que acontecer.

          – Para quê viver? Que sentido faz ser uma mulher, quando na realidade sou um monte de carne a quem roubaram a inteligência, os sentimentos, o amor?

          Dirige-se à cama para se deitar e parece reconhecer Laurinda numa visão fosca, franzindo os olhos para tentar definir com mais rigor a figura. Sente um impulso fremente de a espancar, mas não tem forças e agravaria a sua situação.

          – Nunca te perdoarei, traidora miserável que destruíste a minha vida. Nunca te perdoarei. Nunca!

         Laurinda não calculara que a sua denúncia causasse castigo tão horrível para Maria. Reconhece o seu erro e desejava pedir-lhe perdão, mas desiste com medo da reacção da colega. Nunca mais se falaram.

          Durante a noite, Maria sente-se mal, com febre, dores no peito e tosse. Como não se levantou ao toque de despertar, uma freira aparece chamando-lhe calaceira. Ao ouvir os sintomas que Maria lhe transmite, vocifera:

          – Tu estás infectada e vais ser transferida imediatamente para o Hospital. Desgraçada, que só nos dás problemas. Que Deus seja louvado. Ámen.

         Chegada ao Hospital e após exames médicos foi diagnosticada uma pneumonia. Maria vai ficar internada durante alguns meses.

          – Apesar de tudo, sempre será melhor estar aqui que no Orfanato. – pensou.

José Eduardo Taveira

Este livro está à venda na Livraria Barata, Av. de Roma, 11 em Lisboa ou através do site:                                                                                                                           www.sitiodolivro.pt

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Ó, nosso general: “A força necessária?!

A mercearia, antiga e tradicional nas suas talhas a mostrarem cereais, com as vitrinas acima a encobrirem parte das paredes, mostrando boiões e garrafas vestidas de pó, ficava no patamar da escada pública que ligava a Lisboa da encosta do Castelo com a cidade plana onde o rio nos séculos atrás chegava. Na época as coisas eram diferentes. As mercearias de bairro vendiam os produtos às gramas; cinquenta gramas de toucinho entremeado, vinte e cinco gramas de banha de porco, (a gordura dos pobres), meio decilitro de azeite. Os produtos eram embalados em papel grosso, (o papel de estraça), e nesse papel lá ficava cinco ou dez gramas do peso…
A escadinha tinha o encanto do colorido dos prédios. Uma escada que recorda passados; lembra pregões de varinas, a característica gaita dos amoladores de tesouras, facas, navalhas e cutelos; e as pessoas, já então velhas, (julgo que nós, os portugueses, raramente fomos novos), deambulam nas suas azáfamas. Os catraios jogavam à bola contrafeitos, descalços, e quando a bola de trapos se escapava degraus abaixo, lá ia a correria de um ou dois, de pés doridos, para a agarrar antes que chegasse aos carros. Tempos de fome sentada. Nas soleiras das portas. A mostrarem-se por entre as vidraças cerzindo com dedos esguios as roupas e as meias. Homens desocupados nas tavernas; um de dois para os menos afortunados, um de três para os abastados do dia; e umas cartadas. Uns olhares de esguelha para as ancas das mulheres mais moças que subiam ou desciam, um cuspo nos dedos para dar as cartas já sebosas. Para quem se chegasse mais para a esquerda e se inclinasse um pouco para a frente, em baixo, no Martim Moniz, pela porta entreaberta da Capela da Senhora da Saúde, talvez se imaginasse um Deus de barbas longas a dormitar nos degraus do altar, junto ao Cristo Crucificado.
O merceeiro, com o seu guarda pó cinzento que lhe cai até aos pés, aberto na frente, a mostrar a corrente de ouro do relógio de bolso metido no colete, encosta-se na parede da fachada do prédio, enquanto conversa com o galego da carvoaria que fica em frente, e que também se apoia na fachada do prédio do seu lado. Falam alto, como é evidente. “Então vossemecê continua a dar por falta das coisas mesmo depois de ter despedido o seu marçano?” – Pergunta o galego. – “É verdade, amigo. Se calhar fiz uma tremenda injustiça ao despedir o rapaz”… “Então e a mulher da limpeza?” – Torna o galego. “Essa não. Nem pensar. Trabalha lá em casa vai para trinta anos. Nem pensar”… “ É estranho!” O merceeiro contrai as sobrancelhas; é como se uma luz se acendesse no seu cérebro. Mas logo diz, como se falasse apenas para si: “É impossível! No entanto”… “teve uma ideia, foi?” “Talvez, vizinho, mas tenho primeiro de ver, pensar melhor, sabe”… O merceeiro voltou para o interior da mercearia.
Nessa mesma tarde, perto da hora do fecho, o cívico entra-lhe no estabelecimento, como é hábito. É um polícia da velha guarda, conhecido de anos. “Viva, amigo António. Perdoe, mas quando chego aqui, é da idade, sabe, esta bexiga.” “Homem, vá à sua vontade, já sabe o caminho!”
Quando o guarda vem da casa de banho, o merceeiro diz-lhe para abrir e mostrar o conteúdo da pasta. O homem fica vermelho. Em silêncio, sem uma palavra, tira da pasta as postas de bacalhau e as latas de conserva. Duas latas, uma posta. Coloca sobre o balcão e, sem uma palavra, sai do estabelecimento. Passados uns segundos um estampido quebra o silêncio da escadinha. Quando António vem à porta o cívico está ali, parte do corpo de bruços nos degraus, um mar de sangue que escorre, uma arma ainda presa na mão…
No dia imediato sai uma pequena e lacónica noticia nos jornais diários. O caso também foi aflorado na rádio…
OS TEMPOS DE HOJE
Vi e fiquei espantado. Foi como se o tempo regredisse, como se a terra ficasse queda, imóvel num espaço eterno. Há mais de quarenta anos que não via tal coisa; que digo, muito mais de quarenta anos, porque, já para o fim da ditadura, semelhantes barbaridades já não se praticavam. Um homem selvaticamente espancado, no meu País, filmado e, possivelmente, posto a correr mundo, a mostrar o que na verdade somos e como somos. Não gostei, sinceramente, é coisa de arrepiar, de ficar com nojo, de recordar um passado que quero esquecer. E depois, no noticiário televisivo, aquele, digo como leigo desses assuntos, aquele general, -só pode ser um general – com aqueles prateados todos a brilharem-lhe por todos os lados; enfeites de farda, ou ouro de tolos, como se queira, a falar de “Força necessária,” como se espancar pessoas fosse, não um regresso ao passado, mas uma “força necessária” para salvar vidas, as não preciosas vidas de uma juventude que se desgarra na ânsia de ter direitos, na vontade de nunca partir, de ficar, na terra que os viu nascer, na terra dos seus, onde estudou, onde se preparou para ser útil, onde está o mundo que conhece, onde acalentaram sonhos de um risonho futuro, a justificar o sacrifício que os pais e os avós fizeram para lhes garantir estudos, cultura, saber.
A Assembleia da Républica, (para quem não sabe, ou simplesmente, não quer saber), é a casa da Democracia, e a Democracia é de todos, e como é de todos é a ela que temos de recorrer sempre que nos negam direitos; e que mais sagrado direito do que o direito ao trabalho, à Pátria, ao Bom nome, à terra onde nascemos?
Dizem que o homem é estrangeiro, um perigoso agitador. Quem sabe. Também Hemingway foi um estrangeiro a combater em Espanha, e, de certo, um perigoso agitador para os franquistas…
Se os nossos tivessem uma terra de leite e de mel, não teríamos certo tipo de agitadores entre nós; seriam gente de outro tipo, possivelmente, bem piores.
O que penso, – e quanto à força necessária e à irreversibilidade da vida e dos sistemas? Penso que as forças necessárias se vão com a idade, e penso que tudo é reversível; é apenas uma questão de tempo. De tempo e de revolta dos Povos a quem os iluminados das certezas roubam o futuro.
Com a perca da força necessária vem, – na maioria das vezes, – o abaixamento de posto. Porque tudo pode ser reversível e de acordo com as conveniências dos poderosos. E um dia, quando o nosso general despido da força e mais experiente das coisas da vida, ao fim de um dia de trabalho, cansado, chegar a casa, – e porque tudo é reversível, a casa de então pode muito bem ser uma parte de casa alugada ali para os lados da Morais Soares, e a esposa lhe disser: “olha, o dinheiro acabou! O último que tinha gastei em banha de porco para a comida! O merceeiro embrulhou num papel que pesa mais do que a banha!” O nosso ex-general, irá dar um giro pelas retretes das mercearias, a saber das latas. Sinceramente, espero muito que me engane!
Só mais um segundo, tenham paciência. No mesmo dia do acontecimento, ou no dia imediato, UM SENHOR DOUTOR ADVOGADO esteve na televisão a falar da legalidade dos agentes policiais infiltrados e à “paisana.” Ainda bem que tais pessoas existem. São pessoas de bem e servem e protegem as sociedades. Mas, sabe, doutor, podem ter vários nomes, consoante as tarefas que estão a desempenhar.
No meu tempo, no primeiro de Maio, ali pelas bandas do Rossio e dos Restauradores, quando arrancávamos as pedras dos passeios para nos defendermos da policia, chamávamos aos “paisanos” esbirros, bufos ou caceteiros! Isso foi no meu tempo; e como tudo pode ser reversível, iremos voltar a esse tempo?

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“A Paixão que Veio do Frio”

“Na imensidão do seu quarto, João dava os primeiros passos amparado por Isabel, ainda debilitado, mas dotado de uma força hercúlea e determinado a vencer a maldita pneumonia que teimava em ficar…” in, “A Paixão que Veio do Frio” disponível na livraria Leya na Barata e Sitio do Livro.

O autor

José Guerra

 

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“JUNTOS PARA SEMPRE” – Romance

 

           (  4º EXCERTO DO ROMANCE )

          Com a chegada do Inverno voltam as chuvas e o frio que penetram nas paredes e agridem as meninas carenciadas de roupa e calor. A solidão é ainda mais amarga. Sentir o frio do Inverno e o gelo do isolamento. Estar entre gente que não se olha nem se fala. Passar horas, dias, semanas, meses num vazio penoso, sem que surja um instante de expectativa para um futuro diferente.

          Maria só pensa em sair dali. E quer que o seu desejo seja realidade. Começa a controlar as entradas e saídas do empregado da mercearia que abastece o Orfanato e a movimentação das freiras. A porta da rua está sempre trancada, mas enquanto decorre a operação logística fica escancarada durante breves minutos.

          – É só esperar pelo momento certo. – decide.

           Maria resolve partilhar com Laurinda o seu segredo. E quem sabe, fugirem as duas. Ela é a única pessoa que considera ser merecedora de saber da sua intenção, mas não mostra entusiasmo pela ideia. Entretanto, sente-se amedrontada, mas tem de resistir. Afinal, é uma mulher! Tenta disfarçar, trocando um sorriso com Laurinda.

                                                                                          *****

          Será hoje.

         O sol tinha nascido radioso como a saudar a partida de Maria. O sino já tocara para o levantar. Sete e meia.A última noite demorou séculos a passar. A partir de hoje deixará de ouvir os malditos sinos e as vozes esgazeadas daquelas mulheres austeras, enfadonhas e por vezes cruéis na forma como tratam as crianças e as jovens. Está cansada. Mas tem de concentrar todas as forças para executar o seu plano. Quando estiver lá fora, verá o que fazer. Olha para Laurinda que parece adormecida. Sente tristeza por não partilhar com ela a emoção que está a viver. Se tudo acontecer como nas últimas semanas, o rapaz da mercearia bate à porta por volta das oito horas da manhã. Uma freira vai abri-la e ele dirige-se três ou quatro vezes à carrinha para buscar os cestos que transporta para a despensa da cozinha. Entretanto a porta fica aberta. A freira encarregada de conferir as compras está na despensa a receber as encomendas. Maria tem tempo suficiente para sair sem que ninguém a observe. Sente quase uma agonia, um aperto na garganta. O seu corpo transpira de agitação. A sua cabeça está cheia de tanta coisa, que não tem espaço para pensar. É uma mistura de sentimentos que ela não compreende nem sabe explicar.

          – São oito e meia e o marçano não aparece. Terá havido algum problema? – sussurra.

             Maria percorre o corredor que dá acesso às escadas que terminam na porta, para a qual olha com ansiedade. Finalmente, ouve retinir o badalo. É o rapaz da mercearia. Vacila, mas tem de reagir. Não pode perder esta ocasião. Espera que a freira acompanhe o merceeiro até à despensa. Lentamente, inicia a descida até à porta aberta, desafiando a sua coragem. Solta alguns suspiros de agitação. Está a um passo de atravessar a fronteira e correr, correr para bem longe dali, para que nunca mais a encontrem. Para continuar a ser infeliz, talvez, mas não ali.

          Maria dá um grito de pavor quando alguém lhe agarra os cabelos com violência. Aterrorizada, vê uma das freiras, que a arrasta para dentro.

           – Sua espertalhona. Com que então queria fugir, a fidalga, a princesa do Orfanato queria ir passear, talvez ver as montras e fazer umas comprinhas para o enxoval!!! Malandra, vais já para o quarto dos castigos. Ficas lá um mês a gozar as regalias exclusivas só concedidas a fidalgas e princesas. Não vai faltar nada a sua majestade!… Vai à minha frente imediatamente, sua imbecil, sua sem-vergonha! Parvalhona, armada em esperta!

           Maria olha para o cimo das escadas e vê Laurinda com um semblante comprometido.

           Não resistindo ao sentimento de revolta, grita para Laurinda:

         – Traidora! Traidora!

José Eduardo Taveira

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“JUNTOS PARA SEMPRE” – Romance

                                                    (3º EXCERTO )

          Maria está cada vez mais triste. Pergunta-se como conseguirá ânimo para continuar a resistir àquela clausura. Na sua cabeça passam ideias, que ela tenta repelir para não cometer erros que lhe provoquem problemas com as freiras.

          O transformar-se em mulher, alertou-a para não sabe bem o quê. Talvez para reflectir, olhar para si mesma, possuidora de uma consciência precocemente amadurecida.

 

          Maria não fala habitualmente com ninguém, excepto com a Laurinda, quatro anos mais velha. Dormem em camas próximas e tomam as refeições sentadas em frente uma da outra. Não será talvez uma grande amizade, mas há empatia entre ambas. Maria não esquece a sua ajuda naquela circunstância complicada e ser-lhe-á eternamente grata por isso.

 

          A relação com as outras raparigas é difícil, porque mostram entre si uma desconfiança e inveja incompreensíveis, talvez devido à atmosfera de hostilidade provocada pelas freiras.

 

          Inveja de quem e de quê? Todas têm as mesmas origens e não possuem nada de seu. Ou será por isso mesmo?

                                                                                            *****

 

          Maria teve um sonho lindo. Tão belo que receou acordar. Sonhara que passeava por jardins cobertos com flores de todas as cores que exalavam perfumes exóticos, onde havia gente feliz a brincar com crianças e um sol tão vivo que apetecia agarrá-lo para aquecer o seu corpo; que saltava à corda e corria gozando a brisa morna que acariciava a sua face jovial; que se banhava sob as águas cristalinas de uma cascata que brotava do Céu; que deitada na relva, olhava as nuvens de várias cores que se divertiam, transformando-se em anjos brincalhões e lhe provocavam sonoras gargalhadas.

                                                                                           *****          

          São sete e meia e o maldito sino badalou para o levantar. Aquele sonho sugeriu-lhe a liberdade que tanto deseja. Fugir para fruir como as outras pessoas o prazer de passear, de brincar, de amar. Fugir sem destino. Fugir para respirar o ar puro que lhe dê força para viver. Fugir para lado nenhum. Mas fugir! Maria, através da janela do refeitório, apenas pode ver aridez e imundice como limite da sua ambição. Da ambição que as freiras querem que seja a das jovens ali fechadas. Não há um único sinal de auto-estima em cada uma das raparigas. Vestem fardas descoloridas, feitas à medida de ninguém.

 

          Naquele cosmos construído pelas arquitectas designadas pelo Altíssimo para difundirem o bem e a moral, a humildade e a subserviência, é proibido pronunciar as palavras rapaz e homem. Apenas existem seres assexuados que devem ter vergonha dos seus corpos. Será que este conceito se aplica às freiras em relação ao padre de aspecto seboso?…

José Eduardo Taveira

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 Com pés de lã, veio o Inverno soprar-nos ao ouvido saudades das férias. Nas ruas vão escorrendo devagar os últimos fiapos de sol ao passo que vão ficando desertas, pontuadas apenas pelas horas de ponta e pelo interminável ciclo do labor diário.
 
Como um bicho que se enrosca, tornamo-nos friorentos, procuramos o aconchego de uma toca, de um cobertor, de uma lareira que espalhe no ar o odor da lenha a lembrar ainda a terra húmida e o sabor a musgo e a orvalho.
Trocaram-se os longos passeios à beira mar pelas roupas quentes e os agasalhos. Trocaram-se as tardes na esplanada do café pelo lume a crepitar de cores quentes e serenas.
 
Apetece as mantas de retalhos das nossas avós, as meias grossas e os pijamas felpudos em frente da lareira. Trocar histórias, ler, escrever ou deixar tombar o comando da televisão, qualquer gesto que combata em nós a hibernação natural do recolher ao nosso interior. Qualquer motivo é válido para continuar a viagem que não se apouca por não ser feita de muitos quilómetros.
Há quem se esqueça a redigir relatórios, quem analise documentos, quem prepare aulas, ou reuniões, ou projectos ou processos. Nesse cantinho de nós, até mesmo o trabalho nos traz o conforto do secreto.
 
O anunciar do Inverno não é senão o nosso regresso ao silêncio primordial das coisas e de nós mesmos, uma nova oportunidade de reflexão e introspecção. Quanto a mim, prefiro mantas de xadrez, o rádio ligado e a lareira acesa.
Há poesia no Inverno. Há uma sensação de suspensão intimista que nos faz redescobrir-nos longe do outro, nos pequenos gestos, nas goteiras dos telhados, na ausência dos risos das crianças nas ruas.
 
Nas frinchas das janelas às vezes ouve-se o vento. Quer falar-nos desse tempo e do que podemos fazer com ele. E se tivermos a manta correcta e soubermos escutar com atenção veremos que o limite do que podemos fazer está (apenas) no alcance da nossa imaginação.
 
Ana Brilha
 
 
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