“NÃO DÁ PARA ACREDITAR…”

                    “NÃO DÁ PARA ACREDITAR”

A Livraria Camões inaugurada em 1972 no Rio de Janeiro no âmbito da assinatura de um acordo cultural entre os dois países, vai fechar as portas para sempre.

Esta decisão, enviada através de uma carta da Imprensa Nacional- Casa da Moeda, provocou estupefacção nos meios culturais brasileiros.

O poeta José Estrela, responsável pela Livraria, considera que era um meio fundamental para a promoção do nosso património cultural e em condições financeiras equilibradas, esforçando-se por promover a língua e a cultura portuguesas no estrangeiro.

O mesmo responsável declara que os motivos alegados para o encerramento da Livraria são “de que é um espaço pequeno e que actualmente a internet e outros meios são mais activos e que podem substituir o trabalho que a Livraria Camões fazia”.

Os escritores Lídia Jorge, Agustina Bessa Luís e José Saramago, lançaram os seus primeiros livros na Livraria Camões.

José Estrela refere ainda: “É uma perda para o Brasil e é uma perda para Portugal. Era uma lança que nós tínhamos aqui. Eu concordo com o presidente da Imprensa Nacional  que isto, de facto, é pequeno, mas mais vale termos uma coisa pequena do que não ter nada”.

A Livraria Camões era frequentada por Presidentes da República, como José Sarney e Fernando Henrique Cardoso. Professores e investigadores eram visitas frequentes.

José Estrela revelou também que já algum tempo que não recebe livros de Portugal.

Em 40 anos, foram vendidos mais de dois milhões de livros.

Reitera-se que a Livraria Camões foi mandada encerrar pela Imprensa Nacional- Casa da Moeda, uma empresa do Estado.

Não existe ninguém no governo que tenha a pasta da diplomacia cultural?

 

 

 

 

 

DÁ PARA ACREDITAR”

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“IRMÃ LÚCIA”

                                        “IRMÃ LÚCIA”

Lúcia de Jesus dos Santos, mais conhecida por Irmã Lúcia do Coração Imaculado, foi uma das maiores escritoras do Século XX.

São conhecidas as suas obras, repletas de acontecimentos que lhe marcaram a sua vida de permanente avidez pelo conhecimento humano e interesse pelas novas tecnologias. São elas:

– Memórias da Irmã Lúcia I

– Memórias da Irmã Lúcia II

– Apelos da mensagem de Fátima

– Irmã Lúcia – Como vejo a mensagem através dos tempos e dos acontecimentos.

Para ilustrar a qualidade literária destas obras, destaca-se um fragmento muito interessante:

“Ao aproximar-se a hora, lá fui, com a Jacinta e o Francisco, entre numerosas pessoas que a custo nos deixavam andar. As estradas estavam apinhadas de gente. Todos nos queriam ver e falar. Ali não havia respeito humano. Numerosas pessoas, e até senhoras e cavalheiros, conseguindo romper por entre a multidão que à nossa volta se apinhava, vinham prostrar-se, de joelhos, diante de nós, pedindo que apresentássemos a Nossa Senhora as suas necessidades. Outros, não conseguindo chegar junto de nós, chamavam de longe:

– Pelo amor de Deus! Peçam a Nossa Senhora que me cure meu filho, que é aleijadinho!

Outro:

– Que me cure o meu, que é cego!

Outro:

– O meu, que é surdo!

– Que me traga meu marido…

– … meu filho, que anda na guerra!

– Que me converta um pecador!

– Que me dê saúde, que estou tuberculoso!

Etc., etc.

Ali apareciam todas (as) misérias da pobre humanidade. E alguns gritavam até do cimo das árvores e paredes, para onde subiam, com o fim de nos ver passar. Dizendo a uns que sim, dando a mão a outros para os ajudar a levantar do pó da terra, lá fomos andando, graças a alguns cavalheiros que nos iam abrindo passagem por entre a multidão.

Chegámos, por fim, à Cova de Iria, junto da carrasqueira e começamos a rezar o terço com o povo. Pouco depois, vimos o reflexo da luz e a seguir Nossa Senhora sobre a azinheira.

– Continuem a rezar o terço, para alcançarem o fim da guerra. Em Outubro virá também Nosso Senhor, Nossa Senhora das Dores e do Carmo, S. José com o Menino Jesus para abençoarem o Mundo. Deus está contente com os vossos sacrifícios, mas não quer que durmais com a corda; trazei-a só durante o dia.

– Têm-me pedido para Lhe pedir muitas coisas: a cura de alguns doentes, dum surdo-mudo.

– Sim, alguns curarei; outros não. Em Outubro farei o milagre, para que todos acreditem.

E começando a elevar-se, desapareceu como de costume.

Irmã Lúcia

 

 

 

 

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ESTA CARTA NÃO É DA MINHA AUTORIA

JULGO QUE TEM INTERESSE DIVULGAR, E ASSIM VOU ENVIAR TAMBÉM PARA O BRASIL. É IMPORTANTE QUE O MUNDO PERCEBA COMO SE DESTRÓI UM PAÍS COM NOVE SÉCULOS DE HISTÓRIA. É QUE PODE ACONTECER A TODAS AS PESSOAS SÉRIAS POR ESSE MUNDO FORA, E EM QUALQUER OUTRO PAÍS, CAÍREM NAS MÃOS DESTE TIPO DE GENTE…
Exmo. Senhor Primeiro Ministro: Começo por me apresentar, uma vez que estou certa que nunca ouviu falar de mim. Chamo-me Myriam. Myriam Zaluar é o meu nome de guerra. Basílio é o apelido pelo qual me conhecem os meus amigos mais antigos e também os que não sendo amigos, se lembram de mim em anos mais recuados. Nasci em França, porque o meu pai teve de deixar o seu país aos 20 e poucos anos. Fê-lo porque se recusou a combater numa guerra contra a qual se erguia. Fê-lo porque se recusou a continuar num país onde não havia liberdade de dizer, de fazer, de pensar, de crescer. Estou feliz por o meu pai ter emigrado, porque se não o tivesse feito, eu não estaria aqui. Nasci em França, porque a minha mãe teve de deixar o seu país aos 19 anos. Fê-lo porque não tinha hipóteses de estudar e desenvolver o seu potencial no país onde nasceu. Foi para França estudar e trabalhar e estou feliz por tê-lo feito, pois se assim não fosse eu não estaria aqui. Estou feliz por os meus pais terem emigrado, caso contrário nunca se teriam conhecido e eu não estaria aqui. Não tenho porém a ingenuidade de pensar que foi fácil para eles sair do país onde nasceram. Durante anos o meu pai não pôde entrar no seu país, pois se o fizesse seria preso. A minha mãe não pôde despedir-se de pessoas que amava porque viveu sempre longe delas. Mais tarde, o 25 de Abril abriu as portas ao regresso do meu pai e viemos todos para o país que era o dele e que passou a ser o nosso. Viemos para viver, sonhar e crescer. Cresci. Na escola, distingui-me dos demais. Fui rebelde e nem sempre uma menina exemplar mas entrei na faculdade com 17 anos e com a melhor média daquele ano: 17,6. Naquela altura, só havia três cursos em Portugal onde era mais difícil entrar do que no meu. Não quero com isto dizer que era uma super-estudante, longe disso. Baldei-me a algumas aulas, deixei cadeiras para trás, saí, curti, namorei, vivi intensamente, mas mesmo assim licenciei-me com 23 anos. Durante a licenciatura dei explicações, fiz traduções, escrevi textos para rádio, coleccionei estágios, desperdicei algumas oportunidades, aproveitei outras, aprendi muito, esqueci-me de muito do que tinha aprendido. Cresci. Conquistei o meu primeiro emprego sozinho. Trabalhei. Ganhei a vida. Despedi-me. Conquistei outro emprego, mais uma vez sem ajudas Trabalhei mais. Saí de casa dos meus pais. Paguei o meu primeiro carro, a minha primeira viagem, a minha primeira renda. Fiquei efectiva. Tornei-me personna non grata no meu local de trabalho. És provavelmente aquela que melhor escreve e que mais produz aqui dentro. Disseram-me Mas tenho de te mandar embora porque te ris demasiado alto na redacção. Fiquei Aos 27 anos conheci a prateleira. Tive o meu primeiro filho. Aos 28 anos conheci o desemprego. Não há-de ser nada, pensei. Sou jovem, tenho um bom currículo, arranjarei trabalho num instante. Não arranjei. Aos 29 anos conheci a precariedade. Desde então nunca deixei de trabalhar mas nunca mais conheci outra coisa que não fosse a precariedade. Aos 37 anos, idade com que o senhor se licenciou, tinha eu dois filhos, 15 anos de licenciatura, 15 de carteira profissional de jornalista e carreira congelada. Tinha também 18 anos de experiência profissional como jornalista, tradutora e professora, vários cursos, um CAP caducado, domínio total de três línguas, duas das quais como nativa. Tinha como ordenado fixo 485 euros x 7 meses por ano. Tinha iniciado um mestrado que tive depois de suspender pois foi preciso escolher entre trabalhar para pagar as contas ou para completar o curso. O meu dia, senhor primeiro-ministro, só tinha 24 horas. Cresci mais. Aos 38 anos conheci o mobbying. Conheci as insónias noites a fio. Conheci o medo do amanhã. Conheci, pela vigésima vez, a passagem de bestial a besta. Conheci o desespero. Conheci felizmente! Também outras pessoas que partilhavam comigo a revoltam. Percebi que não estava só. Percebi que a culpa não era minha. Cresci. Conheci-me melhor. Percebi que tinha valor. Senhor primeiro-ministro, vou poupá-lo a mais pormenores sobre a minha vida. Tenho a dizer-lhe o seguinte: faço hoje 42 anos. Sou doutoranda e investigadora da Universidade do Minho. Os meus pais, que deviam estar a reformar-se, depois de uma vida dedicada à investigação, ao ensino, a crescimento deste país e das suas filhas e netos, os meus pais, que deviam estar a comprar uma casinha na praia para conhecerem algum descanso e descontracção, continuam a trabalhar e estão a assegurar aos meus filhos aquilo que eu não posso. Material escolar. Roupa. Sapatos. Dinheiro de bolso. Lazeres. Actividades extra-escolares. Quanto a mim, tenho actualmente como ordenado fixo 405 euros X 7 meses por ano. Sim, leu bem, senhor primeiro-ministro. A universidade na qual lecciono há 16 anos conseguiu mais uma vez reduzir-me o ordenado. Todo o trabalho que arranjo é extra e a recibos verdes. Não sou independente, senhor primeiro-ministro. Sempre que tenho extras tenho de contar com apoios familiares para que os meus filhos não fiquem sozinhos em casa. Tenho uma dívida de mais de cinco anos à Segurança Social que, por sua vez, deveria ter fornecido um dossier ao Tribunal de Família e Menores há mais de três a fim que os meus filhos possam receber a pensão de alimentos a que têm direito pois sou mãe solteira. Até hoje, não o fez. Tenho a dizer-lhe o seguinte, senhor primeiro-ministro: nunca fui administradora de coisa nenhuma e o salário mais elevado que auferi até hoje não chegava aos mil euros. Isto foi ainda no tempo dos escudos, na altura em que eu enchia o depósito do meu Renault clio com cinco contos e ia jantar fora e acampar todos os fins-de-semana. Talvez isso fosse viver acima das minhas possibilidades. Talvez as duas viagens que fiz a Cabo-Verde e ao Brasil e que paguei com o dinheiro que ganhei com o meu trabalho tivessem sido luxos. Talvez o carro de 12 anos que conduzo e que me custou 2 mil euros a pronto pagamento seja um excesso, mas sabe, senhor primeiro-ministro, por mais que faça e refaça as contas, e por mais que a gasolina teime em aumentar, continua a sair-me mais em conta andar neste carro do que de transportes públicos. Talvez a casa que comprei e que devo ao banco tenha sido uma inconsciência mas na altura saía mais barato do que arrendar uma, sabe, senhor primeiro-ministro. Mesmo assim nunca me passou pela cabeça emigrar Mas hoje, senhor primeiro-ministro, hoje passa. Hoje faço 42 anos e tenho a dizer-lhe o seguinte, senhor primeiro-ministro: Tenho mais habilitações literárias que o senhor. Tenho mais experiência profissional que o senhor. Escrevo e falo português melhor do que o senhor. Falo inglês melhor que o senhor. Francês então nem se fale. Não falo alemão mas duvido que o senhor fale e também não vejo, sinceramente, a utilidade de saber tal língua. Em compensação falo castelhano melhor do que o senhor. Mas como o senhor é o primeiro-ministro e dá tão bons conselhos aos seus governados, quero pedir-lhe um conselho, apesar de não ter votado em si. Agora que penso emigrar, que me aconselha a fazer em relação aos meus dois filhos, que nasceram em Portugal e têm cá todas as suas referências? Devo arrancá-los do seu país, separá-los da família, dos amigos, de tudo aquilo que conhecem e amam? E, já agora, que lhes devo dizer? Que devo responder ao meu filho de 14 anos quando me pergunta que caminho seguir nos estudos? Que vale a pena seguir os seus interesses e aptidões, como os meus pais me disseram a mim? Ou que mais vale enveredar já por outra via (já agora diga-me qual, senhor primeiro-ministro) para que não se torne também ele um excedentário no seu próprio país? Ou, ainda, que venha comigo para Angola ou para o Brasil por que ali será com certeza muito mais valorizado e feliz do que no seu país, um país que deveria dar-lhe as melhores condições para crescer pois ele é um dos seus melhores e cada vez mais raros valores: um ser humano em formação. Bom, esta carta que, estou praticamente certa, o senhor não irá ler já vai longa. Quero apenas dizer-lhe o seguinte, senhor primeiro-ministro: aos 42 anos já dei muito mais a este país do que o senhor. Já trabalhei mais, esforcei-me mais, lutei mais e não tenho qualquer dúvida de que sofri muito mais. Ganhei, claro, infinitamente menos. Para ser mais exacta o meu IRS do ano passado foi de 4 mil euros. Sim, leu bem, senhor primeiro-ministro. No ano passado ganhei 4 mil euros. Deve ser das minhas baixas qualificações. Da minha preguiça. Da minha incapacidade. Do meu excedentaríssimo. Portanto, é o seguinte, senhor primeiro-ministro: emigre você, senhor primeiro-ministro. E leve consigo os seus ministros. O da mota. O da fala lenta. O que veio do estrangeiro. E o resto da maralha. Leve-os, senhor primeiro-ministro, para longe. Olhe, leve-os para o Deserto do Sahara. Pode ser que os outros dois aprendam alguma coisa sobre acordos de pesca. Com o mais elevado desprezo e desconsideração, desejo-lhe, ainda assim, feliz natal OU feliz ano novo à sua escolha, senhor primeiro-ministro e como eu sou aqui sem dúvida o elo mais fraco, adeus
Myriam Zaluar, 19/12/2011

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O Enterro

COMO TIPO QUE GOSTA DE ESCREVER NÃO POSSO DEIXAR PASSAR ESTA DATA FACTIDICA EM CLARO. PORTUGAL ESTÁ DE LUTO. NÃO FALA. FICOU MUDO. NÃO PENSA. ROUBARAM-LHE A ÚNICA DIGNIDADE QUE LHE RESTAVA, O DIREITO DE PENSAR NA SUA PRÓPRIA LINGUA.
Ontem, dia trinta e um de Dezembro do ano de dois mil e dez, vesti o fato mais escuro que tenho, pôs uma velha gravata preta e fui a um enterro. Não estive só. Havia outras pessoas mas não lhes consegui descortinar os rostos; pareceram-me disformes, tristes e distantes. O falecido foi o meu País, que foi a sepultar no mar dentro de uma urna transparente feita de vendavais. Estava bem, o corpo. Tinha jasmim e rosmaninho espalhados ao seu redor dentro da urna, vestia de branco e tinha um pequeno ramalhete de malmequeres preso na lapela. Os olhos pareceram-me mais castanhos e vivos, tal como os percebia sempre que, em miúdo, do quinto andar onde morava, espreitava a Pátria pelas vidraças da janela. Levava os cabelos pretos em desalinho e tinha um sorriso de catraio a mostrar-se entre os lábios. Não morreu de morte natural, coitado, que até foi novo. Também não provocou a morte, não foi suicídio não senhor, mesmo que muitos o digam. Aquilo foi crime. Assassínio, para ser directo e preciso. No peito estava cravada uma faca de diamante onde se conseguia ler: prenda do acordo ortográfico.
Eu não sei, não comento, não afirmo nem desminto, apenas vejo, escuto e olho. Mas, fazendo fé nos sentidos que a vida ainda me dá, entendo o que dizem por aqui e por ali, que foi um tipo insignificante, um caixeiro-viajante que vende absurdos porta a porta, por esse imenso mundo de Deus, quem foi o autor de tamanha proeza. Mas eu? Não sei, não me comprometo, não digo que sim ou que não. Apenas estou velho, tenho medo de falar muito, canso-me, tenho desalento, e só espero não demorar muito por cá agora que fiquei tão só…

José Solá

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“O ANEL DE DIAMANTES”

O ANEL DE DIAMANTES

Madame Constança está irritadíssima. Não encontra em lado nenhum o anel que um amigo do coração lhe oferecera na passagem de Ano. Até o marido ficou estupefacto. Um anel com diamantes, valioso e de grande estimação.

Ela pensou, pensou, até ficar exausta, sobre quem poderia ter roubado o anel. Tem a certeza que não o perdeu. Disso ela não tem dúvidas. Alguém foi ao seu guarda-jóias e sacou o anel. E logo aquele anel. Oferecido por um amigo que andara a estudar com ela na primária. Agora é um homem importante, poderoso, milionário. Accionista de um banco falido.

Levanta-se do sofá energicamente. Chama pela empregada doméstica. Ela vem a correr. A madame Constança despede-a, acusando-a de lhe ter roubado o anel. Não aceita ouvir explicações.

A madame não tem dúvidas: só gente pobre é que tem a ousadia de roubar! Só gente pobre!

José Eduardo Taveira

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A Revolução dos Cravos

ANTES DE…
Antes existia País, feito de coisa pouca. Terra de gente vencida, conformada, feita de saberes tristes e de fomes pequenas. No Alentejo, na pequena cidade de Moura, os ganhões, (trabalhadores agrícolas contratados à jorna), sentavam-se no chão encostados à empena do mercado Municipal, porque corpo deitado aguenta melhor a fome. Os novos combatem em África pelas necessidades da Pátria de poucos. Uns morrem e muitos ficam por lá, cadáveres, em terra estranha; outros voltam, ou como cadáveres, que podem pagar o transporte, ou como deficientes, para mendigar por trabalho nas casas dos ricos, ou vazios de alma porque doutores no horror do medo do que viram e viveram. Portugal esventra-se na sua miséria de séculos, acobarda-se frente ao puder dos falsos lideres. Portugal não existe. É apenas um nome, um pedaço de terra empurrado para o mar…
LIBERDADE DE SER DE NOVO GENTE…
Na madrugada tépida movimentam-se homens. Gente simples, modesta, feita de esperanças de vencer. Trazem armas mas não querem guerra, vêm por paz de ser, de viver, de não sofrer. Por balas trazem cravos que florescem nos canos, vermelhos do sangue que não se derramou. Vêm sós, em carros cinzentos e velhos de guerras, saídos das brumas das vãs glórias da morte. Lutar sim, mas por esta terra nossa. Aqui estamos, amigos, irmãos, que todos nos recusamos a morrer por nada, pelo que não temos, pelo que não sentimos, pelo que não queremos nosso porque nosso não é. E esses rapazes vencem a morte por querer viver. O Povo que espreita da janela, como sempre, vem depois, em deslumbres de prazer pela vitória que na bandeja de prata aqueles moços trouxeram. Sorrisos. Abraços. Beijos. A Alegria de voltar a ser gente, o prazer de pensar, de sonhar, de viver. A Pátria voltou a ser, livre das moléstias dos vendilhões de poeiras de uma falsa História sem modéstias, inventada nas mentes torpes dos que, por tantos e tão longos anos, negaram ao Povo o direito de ser Povo. A Vitória chega, sorri e vence. As gentes renascem das trevas, e são tantas, que julgo que os mortos das tumbas vieram, para viverem felizes, livres, um dia que seja, com a dignidade que de direito cabe ao ser Humano. As ruas, as praças, as vielas deste país de séculos, encheram-se então, dos vivos e dos mortos, irmanados no sonho da Quimera de ter identidade como gente…
HOJE…
Milhares de mortos depois, por essa África distante abandonada à sua sorte, impreparada, nunca emancipada, a esmolar saberes por falta de tudo, de universidades, de intelectuais, de quadros, aqui estamos de novo, na miséria de ser gente quieta e pequena, vitima dos netos dos mesmos que, durante tantos anos, nos ditaram as normas de saber, por decreto, como e o que se pode pensar. Os cravos murcharam nos canos das armas. Morreram os cravos, ficaram os canos. O Povo volta a espreitar pelas vidraças das janelas, por entre as frestas das cortinas, se vê ao longe a tropa que vem pela estrada, dentro dos seus carros cinzentos. Mas a tropa está teimosa, agora acomodada em outros saberes, e é como se diz, pensa, agora é a vossa vez. E o Povo responde: Para que queremos a nossa tropa, se não para fazer as revoluções nossas. Somos quietinhos e os nossos ganhões voltam a sentar-se no chão, de encosto às empenas dos mercados, dos palácios, das casas dos ricos, para aguentar a fome, por falta das fábricas que não temos, porque alguém as vendeu para fazer dinheiro fácil. Jogamos à bola nos estádios de que não precisamos, mas que fizemos, na estupidez da grandeza de querer parecer, não de ser. Pátria que se foi de novo, quietinha, de mordaça posta, a resguardar-se no aconchego de novos contos de fada. Pátria triste, sem cravos, sem tropa, sem carros cinzentos.
Portugal já não é, de novo, terra. É nome que se desconhece no mundo gigante, perdido na bruma de uma qualquer memória que leu algures que existiu em tempos…
Portugal já não é, de novo, terra de gente…

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“SORRISOS”

                                             SORRISOS

          Uma velhinha procurava nos caixotes do lixo, restos de comida, que foi comprada por excesso para os festejos natalícios. Ela abria e fechava os contentores retirando deles aquilo que para ela serviria para se alimentar durante alguns dias.

          Indiferente a quem passava, lá ia enchendo o seu saco de plástico. Cada coisa que guardava, sorria como se tivesse tido a sorte de tão boa colheita.

          Que significado terá o sorriso de uma mulher que não tem nada nem ninguém na vida?

          Vindo de outra direcção, um homem de meia idade, com aspecto doentio, movia-se com dificuldade. Também fazia a ronda dos caixotes do lixo. Mas, com um braço deficiente, a dificuldade de abrir as tampas era evidente.

          A velhinha pára e observa-o com ar de compaixão. Dirige-se ao homem. Conversam durante uns minutos. Ela decide ajudá-lo.

          Abre o saco onde guarda as suas “compras” e divide-as com o homem.

          Ambos sorriram!

José Eduardo Taveira

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A Táctica (já publicado no meu site)

A TÁCTICA

Faz dias assisti a uma entrevista num canal televisivo feita por Herman José ao líder do PSD, doutor Pedro Passos Coelho. O entrevistador perguntou ao entrevistado como encarava o facto de serem as pessoas mais humildes da população que menos fogem ao pagamento dos impostos, ao que o entrevistado, prosaicamente, respondeu que assim sucede porque são esses os que menos possibilidades têm de fuga.
Quando se sabe a forma feroz que determinados países usam para dissuadir a fuga aos impostos, (caso dos Estados Unidos, entre outros), fico perplexo com a resposta. Será assim, a exemplo dos fados e dos destinos marcados nas linhas das palmas das mãos, que os mais humildes dos portugueses devem encarar a sina da pobre vida que os espera, num futuro bastante próximo, quando este senhor seguir o que está escrito nas estrelas do céu, e aparecer qual guerreiro vingativo, montado no seu cavalo de pau, com um elmo de papel de jornal, e a espada de madeira dos escravos gladiadores, libertos por César, na mão, a salvar a Pátria Lusa? Tenho dúvidas, porque a Pátria Lusa, a meu ver, (e isto é uma mera opinião pessoal), dificilmente pode salvar-se.
Isto levou-me a pensar na táctica que os deuses da política lusitana terão engendrado para se libertarem dos apertos que lhes podem advir da governação anterior, a qual, por sua vez, as herdou da anterior, ou seja, dos mesmos que se preparam agora para os substituir. É simples, como tudo o que é prático e eficiente nesta vida. Se o FMI entrar no país atempadamente, vai passar para ele a impopularidade resultante do mal-estar social que resultar de mais e maior aperto do cinto, a chamada fominha de rabo, o sacrifício da vida para salvar a Pátria ameaçada, e garantir a engorda dos sacrossantos bancos internacionais que a exploram, e a governação eleita, pura e simplesmente, lava as suas santas e puras mãos, a exemplo de Pilatos, porque, pela sua óptica, herdou uma situação.
Se acontecer assim, eu pergunto, (tanto aos que saem como aos que entram), então e nós, (como diz o nosso povo: ou há moralidade ou comem todos), os que vivem do trabalho quando o conseguem, depois de muito esmolarem para o ter, meus senhores, deuses na arte de roubar vidas, as vidas dos que nada têm e à custa dos quais os digníssimos senhores têm vivido, como vamos a ficar, para mais sabendo que o Banco Central Europeu, só espera o primeiro raio de Sol, o primeiro folgo de vida, para levantar os juros e aumentar por essa via as prestações das casas?
Pessoalmente, penso que, se num acto de coragem, nos livrarmos dos governos, ficamos bem a viver em auto-gestão…

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Os números de 2011

Os duendes de estatísticas do WordPress.com prepararam um relatório para o ano de 2011 deste blog.

Aqui está um excerto:

A sala de concertos da Ópera de Sydney tem uma capacidade de 2.700 pessoas. Este blog foi visitado cerca de 16.000 vezes em 2011. Se fosse a sala de concertos, eram precisos 6 concertos egostados para sentar essas pessoas todas.

Clique aqui para ver o relatório completo

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“PAZ E POBREZA”

                                                             PAZ E POBREZA

          A Paz não significa simplesmente ausência de guerra. A reflexão séria sobre este tema é cada vez mais uma urgência na agenda dos politicos, dos responsáveis pelas diferentes religiões e das organizações que se dedicam às causas sociais.

          Para que a paz se construa assente em valores humanitários, é preciso a coragem de combater a pobreza e a miséria. Milhões de seres humanos vivem em condições indignas, inaceitáveis. O fosso entre ricos e pobres torna-se cada vez mais evidente, mesmo nos países mais desenvolvidos.

          A miséria é geradora de violência e alimenta conflitos armados. A Paz será sempre uma utopia, enquanto os líderes mundiais não tiverem a consciência clara que chegou o tempo de combaterem o lucro desenfreado. O controlo dos negócios escuros, da escravidão de milhões de pessoas que trabalham horas infindáveis sem justa remuneração, dos grupos financeiros que actuam como abutres, roubando os mais pobres.

          Considerando que a religião tem sobre os diferentes povos e governos, influência e capacidade para liderar movimentos fortes de mudança, é legitimo apelar às quatro maiores religiões do mundo que derrubem os muros que impedem ver a existência de crianças que morrem de fome e de doença, esquecidas , desprezadas pelos gananciosos, criminosos, que nunca serão julgados por qualquer juiz terreno.

         – “Cristãos, islamitas, hindus e budistas: os milhões de pobres que acreditam e veneram os vossos Deuses, esperam que sejais capazes, definitivamente, de contribuir para a construção da PAZ!”

José Eduardo Taveira

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