O senhor dos mares ( de Danilo Pereira )

Nest post, falarei um pouco mais de Aegir, o Deus do mares, do elemeto líquido ligado à natureza. Os vikings, são devotos do tal Deus, pois acreditam que ele os acompanham em suas viagens. Aegir é Deus mais belo do panteão nórdico, sua beleza e sua arte de brincar com as águas, encantam os Deuses que se divertem com suas inúmeras façanhas aquáticas.

Em minha obra, Aegir é citado como um salvador, na qual descreverei desta forma:

” E de facto aconteceu. Das profundezas daquele inferno azul surgiu um gigante formado pela própria água do mar. Era Aegir que viera ajudar o Vormoc, a que já não restavam forças para continuar a navegar. Naquele momento, os homens não conseguiam conter as suas expressões alegres ao ver o Deus que eles tanto veneravam. Eric olhou para o céu e redimiu-se com dizeres em prol de Aegir, que passaria novamente a habitar o seu coração”.

Obra, Wolfgang, o guerreiro nordico.

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…que se morre devagar…

Este vermelho
que se morre devagar
em laranja se desfalece em céu frio
em sol se fez adeus
de nuvem toldado
de saudade eu te abraço

José Guerra (2012)

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“JUNTOS PARA SEMPRE” – (6)

Maria teve um sonho lindo. Tão belo que receou acordar. Sonhara que passeava por jardins cobertos com flores de todas as cores que exalavam perfumes exóticos, onde havia gente feliz a brincar com crianças e um sol tão vivo que apetecia agarrá-lo para aquecer o seu corpo; que saltava à corda e corria gozando a brisa morna que acariciava a sua face jovial; que se banhava sob as águas cristalinas de uma cascata que brotava do Céu; que deitada na relva, olhava as nuvens de várias cores que se divertiam, transformando-se em anjos brincalhões e lhe provocavam sonoras gargalhadas.

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São sete e meia e o maldito sino badalou para o levantar. Aquele sonho sugeriu-lhe a liberdade que tanto deseja. Fugir para fruir como as outras pessoas o prazer de passear, de brincar, de amar. Fugir sem destino. Fugir para respirar o ar puro que lhe dê força para viver. Fugir para lado nenhum. Mas fugir! Maria, através da janela do refeitório, apenas pode ver aridez e imundice como limite da sua ambição. Da ambição que as freiras querem que seja a das jovens ali fechadas. Não há um único sinal de auto-estima em cada uma das raparigas. Vestem fardas descoloridas, feitas à medida de ninguém.

Naquele cosmos construído pelas arquitectas designadas pelo Altíssimo para difundirem o bem e a moral, a humildade e a subserviência, é proibido pronunciar as palavras rapaz e homem. Apenas existem seres assexuados que devem ter vergonha dos seus corpos. Será que este conceito se aplica às freiras em relação ao padre de aspecto seboso?

(Continua)

José Eduardo Taveira

 

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A escassos dias do início de uma das mais antigas convenções do mundo, seria de esperar que o ambiente festivo de um novo ano que se inicia trouxesse consigo o realizar de todas as promessas, de todos os anseios e que o rebrilhar dessa recém-nascida esperança, mais intemporal que os mistérios de todas as religiões,  se cumprisse numa apoteose que não deixasse pedra sobre pedra.
Pois bem, nada mais utópico.
Depois de toda a crença e superstição, resoluções e projectos, deixámos de conseguir analisar esse quotidiano com o distanciamento do alpinista que estuda a montanha antes de a escalar. Deixámo-nos enredar novamente nas rotinas, sejam outras ou as mesmas, e esquecemo-nos que a vida inteira se faz de uma infinda sucessão de instantes, de decisões que vamos acumulando e que não é nunca impermanente, não é nunca um produto
acabado.Colocamos demasiada esperança na distância, no que há-de ou não ser, ao invés de seguirmos viagem e de a vivermos como ela é. Condenamo-nos a viver fora do presente, quando ele é o único momento em que se vive.
Deixemo-nos de escusadas considerações. Ano novo ou não, seja ele europeu ou asiático, o que verdadeiramente importa são os gestos exteriores e internos com que acolhemos o que a vida nos dá ou lutamos por aquilo que é importante para nós.
Construir é a palavra-passe da verdadeira mudança e, para isso, precisamos de bases mais sólidas do que projectos vagos que se constroem sobre um copo de champanhe.
Mais do que a magia do virar de mais uma página do calendário, é a alquimia que se pode passar dentro de nós quando queremos, verdadeiramente, algo na nossa vida.
O segredo é simples, e dos seus ingredientes não consta a viragem do ano: querer, projectar e agir de acordo.
 
 
Ana Brilha
 
 
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“JUNTOS PARA SEMPRE” – (6) – José Eduardo Taveira

Maria teve um sonho lindo. Tão belo que receou acordar. Sonhara que passeava por jardins cobertos com flores de todas as cores que exalavam perfumes exóticos, onde havia gente feliz a brincar com crianças e um sol tão vivo que apetecia agarrá-lo para aquecer o seu corpo; que saltava à corda e corria gozando a brisa morna que acariciava a sua face jovial; que se banhava sob as águas cristalinas de uma cascata que brotava do Céu; que deitada na relva, olhava as nuvens de várias cores que se divertiam, transformando-se em anjos brincalhões e lhe provocavam sonoras gargalhadas.

São sete e meia e o maldito sino badalou para o levantar. Aquele sonho sugeriu-lhe a liberdade que tanto deseja. Fugir para fruir como as outras pessoas o prazer de passear, de brincar, de amar. Fugir sem destino. Fugir para respirar o ar puro que lhe dê força para viver. Fugir para lado nenhum. Mas fugir! Maria, através da janela do refeitório, apenas pode ver aridez e imundice como limite da sua ambição. Da ambição que as freiras querem que seja a das jovens ali fechadas. Não há um único sinal de auto-estima em cada uma das raparigas. Vestem fardas descoloridas, feitas à medida de ninguém.

Naquele cosmos construído pelas arquitectas designadas pelo Altíssimo para difundirem o bem e a moral, a humildade e a subserviência, é proibido pronunciar as palavras rapaz e homem. Apenas existem seres assexuados que devem ter vergonha dos seus corpos. Será que este conceito se aplica às freiras em relação ao padre de aspecto seboso?

(Continua)

José Eduardo Taveira

 

 

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“JUNTOS PARA SEMPRE” – (5)

Maria está cada vez mais triste. Pergunta-se como conseguirá ânimo para continuar a resistir àquela clausura. Na sua cabeça passam ideias, que ela tenta repelir para não cometer erros que lhe provoquem problemas com as freiras.

O transformar-se em mulher, alertou-a para não sabe bem o quê. Talvez para reflectir, olhar para si mesma, possuidora de uma consciência precocemente amadurecida.

Maria não fala habitualmente com ninguém, excepto com a Laurinda, quatro anos mais velha. Dormem em camas próximas e tomam as refeições sentadas em frente uma da outra. Não será talvez uma grande amizade, mas há empatia entre ambas. Maria não esquece a sua ajuda naquela circunstância complicada e ser-lhe-á eternamente grata por isso.

A relação com as outras raparigas é difícil, porque mostram entre si uma desconfiança e inveja incompreensíveis, talvez devido à atmosfera de hostilidade provocada pelas freiras.

Inveja de quem e de quê? Todas têm as mesmas origens e não possuem nada de seu. Ou será por isso mesmo?

(Continua)

José Eduardo Taveira

 

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“NÃO DÁ PARA ACREDITAR” (4)

   “NÃO DÁ PARA ACREDITAR” (4)

Conforme tinha prometido vou partilhar alguns depoimentos  de intelectuais portugueses e brasileiros, sobre o encerramento da Livraria Camões no Rio de Janeiro:

Escritores Maria Teresa Horta, Manuel Alegre e José Manuel Mendes:

-“Acto deplorável que atinge o valor estratégico que é a difusão da língua e cultura portuguesas”.

Professora Gilda Santos, da UFRJ/Real Gabinete Português de Leitura:

– “Caros Colegas de Literatura Portuguesa:

Recebi do nosso amigo José Estrela a informação relativa ao iminente fechamento da Livraria Camões no Rio, por decisão da atual administração da Imprensa Nacional-Casa da Moeda, de Lisboa.

Fiquei chocada com a notícia, posto que, com argumentos que me parecem frágeis, é mais uma presença portuguesa a ser rasurada à nossa volta, corroborando o que penso ser uma acentuada miopia de Portugal face ao Brasil no que tange às questões culturais.

Não sei se partilham de minha perplexidade, mas, em caso positivo, peço que utilizem a capacidade de interlocução que possuem com figuras e entidades portuguesas de modo a questionar o caso e tentar que tal decisão, ao menos, seja reavaliada”.

-“ Nosso pasmo é que, enquanto as editoras Leya e Babel estão entrando com toda força no Brasil, a Imprensa Nacional diz que a Camões está obsoleta. Por que então não a transformam num centro de encomendas via internet? Por que não manter o espaço e reinventar formas de o dinamizar?”

Prof. Doutor Jorge Fernandes da Silveira
(Professor Titular de Literatura Portuguesa da UFRJ- Universidade Federal do Rio de Janeiro):

“De morte natural nunca ninguém morreu” (Jorge de Sena). Nem as palavras nem as coisas. Neste ano mau, mal começou, já são duas as casas portuguesas de cultura assassinadas. A de Eugénio de Andrade, no Porto, e a dos livros Camões, a Livraria, no Rio de Janeiro. Quem lhes escreverá a Crônica de Erros? Euros mal empregados, Eros desempregado, “[p]orque quem não sabe arte, não na estima.” (Os Lusíadas)? Quem lhes devolverá “As Palavras Interditas” (Eugénio de Andrade)? “Sei o que é a rua – diz a casa/ O que é não ter onde ficar/ de noite” (Luiza Neto Jorge). Quem lhes escreverá a Crônica de Erros? “Pertenço a gênero de portugueses/ Que depois de estar a Índia descoberta/ Ficaram sem trabalho (…)” (Álvaro de Campos). Quem há de lhes demonstrar que “(…) os poetas todos/ morrem sempre mais na [portuguesa] língua” (Fiama Hasse Pais Brandão)? Quem, contra a “crise” revoltado, há de lhes inscrever no epítáfio, à maneira de folha-de-rosto: “Nele tudo ousa/ Vai morrer imensamente (ass)assinado.”? (Herberto Helder).

 

Profa. Doutora Maria Lúcia Dal Farra
(Professora Titular de Literatura Portuguesa da Universidade Federal de Sergipe e Pesquisadora 1B do CNPq; ex-professora da Universidade de São Paulo, da Unicamp e de Berkeley, USA).

-“ Venho manifestar-me contra o fechamento da Livraria Camões do Rio de Janeiro e da Casa Eugénio de Andrade no Porto. A Livraria é ponto de referência fundamental, umbigo dos estudantes de Literatura Portuguesa no meu país, desde um tempo em que nenhuma obra portuguesa era editada no Brasil e ela nos supria do que preciso fosse. Lembro-me que foi o Sr. Estrela a pessoa a fazer a ponte entre mim e a Imprensa Nacional Casa da Moeda para a publicação da minha tese de doutoramento, aí editada com o título A Alquimia da Linguagem: leitura da cosmogonia poética de Herberto Helder em 1986 – e veja-se que nem do Rio de Janeiro eu era, mas de São Paulo. Como se observa, a Livraria não era apenas um ponto de venda dos livros de que carecíamos, mas embaixada cultural de Portugal no Brasil. O fechamento da Casa Eugénio de Andrade comprova tristemente o oposto do que a poesia desse emérito Poeta nos assegura: “Os amantes” não vivem “sem dinheiro” – essa a patética constatação dos dias dos euros. Por tudo isso, venho me colocar contra esse estado de coisas que ignora a Cultura, ou que a trata como o primeiro “supérfluo” a ser descartado.

Profa. Doutora Beliza Áurea
(da Universidde Federal da Paraíba -UFPB)

-“Fiquei muito triste.Além do espaço emblemático para os que gostam de cultura lusófona, A Camões foi , durante quase 20 anos, meu chão português quando morei no Rio, foi minha universidade aberta, onde bebia a cultura lusófona . Por lá passava uma ou duas vezes por semana , ficava vendo as novidades e conversando com Sr. Estrela e Donana.
Triste e melancólico fim!

“OH maldito o primeiro que no mundo
Nas ondas velas pos em seco lenho,
Dino da eterna pena do profundo,
Se a justa a justa lei, que sigo e tenho!
Nunca juízo algum alto e profundo,
Nem cítara sonora, ou vivo engenho,
Te dou por isso fama nem memòria,
Mas contigo se acabe o nome e glória.”

Camões.Os Lusíadas. Canto IV -102

 

José Eduardo Taveira

 

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“JUNTOS PARA SEMPRE” (4)

  “JUNTOS PARA SEMPRE”  – (4)

 

Uma noite, Maria acorda em pânico, com uma hemorragia. Grita, confrangida, por socorro. Toda a gente acorda. Aparecem duas freiras que, ao perceberem o motivo do seu desespero, a insultam, chamando-lhe ignorante e desavergonhada. Retiram-se, vociferando pelo facto de terem interrompido o seu celestial sono por causa de uma idiota aos gritos.

Laurinda levanta-se silenciosamente, aproxima-se de Maria e explica-lhe com pormenores o que está a acontecer.

– Como vês não é nada de mal, todas as raparigas passam por isso na tua idade. – diz ela com ar de entendida no assunto.

Maria fica mais calma, mas ainda um pouco confusa, apesar da informação detalhada de Laurinda.

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Como é possível que as freiras, que também são mulheres, não considerem seu dever esclarecer e orientar as jovens nesta fase de transformação dos seus corpos? O que é que existe naquelas cabeças além de exânimes teias de aranha? Ou será que Deus as eximiu desse fenómeno fisiológico? É inexplicável que num Orfanato, que tem como objectivo acolher, educar e ajudar crianças no seu progresso físico e intelectual, existam pessoas que ajam de forma tão reprovável.

Se Deus existe, como permite que mulheres, que passam todo o tempo a rezar de terço nas mãos, tenham comportamentos de tanta frieza, tratando as infelizes raparigas com gratuita severidade e estúpida desumanidade?

Se Deus existe, como permite que se abandonem bebés nas soleiras das portas, ignorando o seu destino?

(Continua)

José Eduardo Taveira

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Retirado de um velho conto encontrado no sótão

QUEM É O CRIMINOSO? (UM CONTO INSÓLITO SOBRE O FANTÁSTICO)
(…) O que saiu daquelas bocas foi um absurdo e um espanto de embasbacar, e por mais que o chefe da polícia, mais o gerente que assistia ao inquérito, procurassem controlar a expressão, os olhos luziam de espanto perante as dúvidas suscitadas quanto ao estapafúrdio dos relatos. Estariam as pessoas a serem vítimas de uma alucinação colectiva? Consta-se que essas situações sucedem, que são coisas que transcendem o nosso bom senso, embora felizmente tão esparsas no tempo que a memória dos homens rapidamente as esquece, – ou então porque o irrealismo das situações põe em causa os nossos mais vulgares hábitos, – é assim a modos como parecer a alguém que viu um bicho tão estranho que o bom senso rejeita tal impossível visão. Pois diziam todas as senhoras, calcule-se, que, acordadas e bem despertas, saídas a tomar o fresco da noite nas amplas varandas dos quartos, molestadas por sentirem um estranho calor, foram acometidas por plantas vindas do exterior, trazidas pelo vento da noite, e com tanta persistência e ardor foram tocadas, que a todas lhes pareceu, – salvo o devido recato, que lhes impunha comedimento na descrição dos factos, – dedos de folhas masculinas a saciarem-se-lhes pelos seios, ou colhendo impressões sobre a dureza das nádegas, e outras sentiram-se tocadas nos lábios como se de beijos lascivos dados por plantas carnudas se tratasse. Apesar da presença do gerente do hotel, pessoa de bons créditos na vila, homem de recatos e de ideias sãs, bom cristão e excelente marido, pelo menos seria o que se constava naquele pequeno meio rural do interior, o senhor chefe da polícia local, amedrontado quanto aos autos de notícia que a partir de tais relatos tinha de elaborar, solicitou a presença de outro ouvinte dos factos, e a escolha recaiu no hóspede que tomara a iniciativa de comandar as primeiras diligências. Pois, de cautelas e rigor se fazem os grandes inquéritos policiais; e aquele era sem sombra de dúvida menor ou maior, um grande mistério que suscitava um grande inquérito. Mas como pôr, – preto no branco, – que a dada altura uma senhora mais desligada dos recatos, da linguagem comedida e dos desconfortos de vitima, dizer que lhe deram um tremendo de um beliscão na nádega esquerda, exactamente onde tinha um sinalzito de nascença, e uns lábios quentes de folhas de azinheira se esmagaram contra os seus lábios, – que lá teria ficado, na boca das folhas, a marca rubra do seu batom, – e que uma voz feita de vento lhe segredara ofertas de amor, pendurada no ramo mais alto da mais alta árvore da montanha, em noite de quarto minguante, em posições de volúpia indescritíveis? Um chefe de polícia cauteloso tem de resguardar o seu bom nome dos escândalos fáceis e das malícias dos seus superiores. E que relato mais predisposto para suscitar malícias e suspeitas do que um auto de noticia recheado de tamanhas histórias sobre o fantástico; onde estava o nosso chefe com a cabeça quando fez esta descrição aqui, está a ver, nosso comissário? Até leva a crer que o nosso homem acredita nestas coisas, – diria um dos seus superiores, – Olhe que até prova em contrário o suspeito é um potencial autor do crime! Exclamaria outro, enquanto o primeiro, o mais graduado de todos, o homem com puderes para tudo decidir, acrescentava ao que tinha dito, recostado no espaldar anatómico das costas da cadeira, meneando o corpo levemente de um lado para o outro: Mesmo assim. Sem dúvida que o caso é complicado, mas, que diabo, tem que prevalecer objectividade na descrição das ocorrências, ou não temos forma de pegar nos casos. Olhe aqui, nosso comissário adjunto, esta descrição, e passou a ler: A senhora (fixou os olhos no nome da testemunha) hum… senhora Graçola? (que raio de nome, disse entre dentes) disse e assinou no seu depoimento, que: Umas mãos de folhas lhe puxaram a nuca suavemente, inclinando-lhe assim a cabeça para trás, enquanto uns lábios carnudos de folhas molhadas de orvalho lhe davam um longo beijo tipo cinéfilo! Que trapalhada esta!
Estes e outros pensamentos fizeram o chefe da polícia local suspirar de alívio, quando o seu subordinado lhe veio comunicar que o cidadão inglês se colocara ao inteiro dispor das autoridades para colaborar em tudo quanto lhe fosse possível.
– Escute também o senhor, – que tão gentilmente se presta a este encargo de auxiliar a autoridade, – as descrições pormenorizadas feitas pelas senhoras vitimas desta… (e aqui o policial hesitou, quanto ao termo a utilizar), digamos, tentativa de sedução florestal por parte de desconhecidas plantas chegadas, trazidas, na brisa da noite, (e o policial nesta parte persignou-se com a mão direita, enquanto dizia baixinho, entre dentes quase cerrados, Valha-nos o Santíssimo), o pobre homem, habituado às lides dos crimes sem história, aqui uma facada dada na mulher, ou na namorada, por razões de ciúmes, coitados dos homens, acontece aos melhores, esta maldita coisa dos ciúmes, e pobres das mulheres que levam as facadas, apenas porque não disseram a tempo que o tipo era um primo afastado, chegado da América, que por estar cansado, em certos casos se deitou ali ao lado, – em cada mil casos existirá um em que a esposa tinha um namoro clandestino a que poderia chamar de “primo da América,” as restantes novecentas e noventa e nove ignoram os motivos da agressão, – ou então as brigas em tascas de aldeias e povoados, generosamente punidas com tabefes, dois encontrões e um pontapé no rabo, uma viagem ao posto, no banco de trás ao lado do agente canino, de barba rija que se lhe via pelo corpo todo, cavalheiro rosnante e mal-encarado, sempre sem paciência para nada, ao lado do qual toda a gente tinha de estar rigorosamente quieta, imóvel como se de estátua de pedra fosse, e ali e agora, naquele precioso momento em que lhe surgia um intrincado crime capaz de o projectar aos níveis mais altos da investigação, logo o criminoso era vegetal! Como interrogar um audaz facínora feito de tenras folhas e de verde vestido? O senhor comandante do posto alisou a barbicha rala caída abaixo do queixo, com mãos nervosas e dedos trémulos, humildemente encarou de frente o senhor estrangeiro na sua frente, um homem na casa dos quarenta e poucos, rosto enérgico, jovial, franco e decidido, e foi como se lhe pedisse compreensão; e o outro, num português de sílabas arrastadas noutra prenuncia, valeu-lhe num conforto de palavras aparentemente desligadas, que noutra altura seriam impróprias e hilariantes, Eu dou…-lhe… conforto… e amor! Não é assim que se diz? O gerente agradeceu no lugar do senhor chefe, e a recolha das queixas continuou. (…)
José Solá

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“NÃO DÁ PARA ACREDITAR” (3ª PARTE)

          “NÃO DÁ PARA ACREDITAR” (3ª PARTE)

Na sequência dos dois artigos anteriores sobre o encerramento da Livraria Camões no Rio de Janeiro, transcrevo algumas das declarações e desabafos do poeta José Estrela:

– “José Sarney, quando era Presidente (1985-1989), frequentava a livraria e Fernando Henrique Cardoso (presidente do Brasil entre 1995-2002) também veio muito aqui”.

– “José Saramago lançou seu primeiro livro no Brasil justamente aqui. O livro “Cartas de Amor”, de Fernando Pessoa, também foi lançado na livraria, com a presença da sobrinha-neta da namorada de Pessoa”.

– “A extensa lista de personalidades que passaram pelo estabelecimento vai de António Lobo Antunes a Mário Soares, e inclui o actor brasileiro José Wilker – leitor assíduo de livros sobre teatro português”.

– “Chegamos a ter livros de 114 editoras. O público era ecléctico. Havia estudantes, professores, gente da área médica e do direito. O público mais geral também procurava muitas edições de bolso de autores de ficção contemporâneos”.

– “Não culpo ninguém. Eu só tenho pena que Portugal faça isso. Talvez a culpa seja um bocado nossa, porque caímos muito em vendas”.

– “Entre os anos de 1984 e 1986, a livraria comercializou mais de 200 mil títulos. No total, mais de dois milhões de livros foram importados pela loja nas suas quatro décadas de existência”.

– “Ajudei muitos estudantes brasileiros interessados em desvendar os mistérios da história e da cultura portuguesas”.

– “Os livros que restam serão todos vendidos, possivelmente a preços abaixo do valor real. Ainda não comecei a fazer contactos, mas devemos oferecer a bibliotecas e livrarias de universidades, que são as que mais compram”.

— “Estou vivendo minha segunda viuvez. (José Estrela perdeu a mulher há 25 anos num acidente de carro), mas jamais imaginaria que tanta gente admirasse o trabalho que fiz nesses 40 anos. Tenho recebido mensagens de carinho de todas as partes. Isso me dá uma alegria que paga todo o sofrimento que eu possa ter agora”.

– “ Percorri com os vendedores todos os estados do Brasil. Saíamos de ônibus e andávamos horas até, por exemplo, Belém do Pará. Chegávamos de madrugada e tínhamos que esperar o comércio abrir. Dormíamos nas estações rodoviárias com as malas amarradas às pernas para ninguém levar”.

-“ Vou viver meus últimos anos. Talvez continue com livros”.

– “Ninguém pode amar o que não conhece.”

José Eduardo Taveira

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