“NÃO DÁ PARA ACREDITAR” (4)

   “NÃO DÁ PARA ACREDITAR” (4)

Conforme tinha prometido vou partilhar alguns depoimentos  de intelectuais portugueses e brasileiros, sobre o encerramento da Livraria Camões no Rio de Janeiro:

Escritores Maria Teresa Horta, Manuel Alegre e José Manuel Mendes:

-“Acto deplorável que atinge o valor estratégico que é a difusão da língua e cultura portuguesas”.

Professora Gilda Santos, da UFRJ/Real Gabinete Português de Leitura:

– “Caros Colegas de Literatura Portuguesa:

Recebi do nosso amigo José Estrela a informação relativa ao iminente fechamento da Livraria Camões no Rio, por decisão da atual administração da Imprensa Nacional-Casa da Moeda, de Lisboa.

Fiquei chocada com a notícia, posto que, com argumentos que me parecem frágeis, é mais uma presença portuguesa a ser rasurada à nossa volta, corroborando o que penso ser uma acentuada miopia de Portugal face ao Brasil no que tange às questões culturais.

Não sei se partilham de minha perplexidade, mas, em caso positivo, peço que utilizem a capacidade de interlocução que possuem com figuras e entidades portuguesas de modo a questionar o caso e tentar que tal decisão, ao menos, seja reavaliada”.

-“ Nosso pasmo é que, enquanto as editoras Leya e Babel estão entrando com toda força no Brasil, a Imprensa Nacional diz que a Camões está obsoleta. Por que então não a transformam num centro de encomendas via internet? Por que não manter o espaço e reinventar formas de o dinamizar?”

Prof. Doutor Jorge Fernandes da Silveira
(Professor Titular de Literatura Portuguesa da UFRJ- Universidade Federal do Rio de Janeiro):

“De morte natural nunca ninguém morreu” (Jorge de Sena). Nem as palavras nem as coisas. Neste ano mau, mal começou, já são duas as casas portuguesas de cultura assassinadas. A de Eugénio de Andrade, no Porto, e a dos livros Camões, a Livraria, no Rio de Janeiro. Quem lhes escreverá a Crônica de Erros? Euros mal empregados, Eros desempregado, “[p]orque quem não sabe arte, não na estima.” (Os Lusíadas)? Quem lhes devolverá “As Palavras Interditas” (Eugénio de Andrade)? “Sei o que é a rua – diz a casa/ O que é não ter onde ficar/ de noite” (Luiza Neto Jorge). Quem lhes escreverá a Crônica de Erros? “Pertenço a gênero de portugueses/ Que depois de estar a Índia descoberta/ Ficaram sem trabalho (…)” (Álvaro de Campos). Quem há de lhes demonstrar que “(…) os poetas todos/ morrem sempre mais na [portuguesa] língua” (Fiama Hasse Pais Brandão)? Quem, contra a “crise” revoltado, há de lhes inscrever no epítáfio, à maneira de folha-de-rosto: “Nele tudo ousa/ Vai morrer imensamente (ass)assinado.”? (Herberto Helder).

 

Profa. Doutora Maria Lúcia Dal Farra
(Professora Titular de Literatura Portuguesa da Universidade Federal de Sergipe e Pesquisadora 1B do CNPq; ex-professora da Universidade de São Paulo, da Unicamp e de Berkeley, USA).

-“ Venho manifestar-me contra o fechamento da Livraria Camões do Rio de Janeiro e da Casa Eugénio de Andrade no Porto. A Livraria é ponto de referência fundamental, umbigo dos estudantes de Literatura Portuguesa no meu país, desde um tempo em que nenhuma obra portuguesa era editada no Brasil e ela nos supria do que preciso fosse. Lembro-me que foi o Sr. Estrela a pessoa a fazer a ponte entre mim e a Imprensa Nacional Casa da Moeda para a publicação da minha tese de doutoramento, aí editada com o título A Alquimia da Linguagem: leitura da cosmogonia poética de Herberto Helder em 1986 – e veja-se que nem do Rio de Janeiro eu era, mas de São Paulo. Como se observa, a Livraria não era apenas um ponto de venda dos livros de que carecíamos, mas embaixada cultural de Portugal no Brasil. O fechamento da Casa Eugénio de Andrade comprova tristemente o oposto do que a poesia desse emérito Poeta nos assegura: “Os amantes” não vivem “sem dinheiro” – essa a patética constatação dos dias dos euros. Por tudo isso, venho me colocar contra esse estado de coisas que ignora a Cultura, ou que a trata como o primeiro “supérfluo” a ser descartado.

Profa. Doutora Beliza Áurea
(da Universidde Federal da Paraíba -UFPB)

-“Fiquei muito triste.Além do espaço emblemático para os que gostam de cultura lusófona, A Camões foi , durante quase 20 anos, meu chão português quando morei no Rio, foi minha universidade aberta, onde bebia a cultura lusófona . Por lá passava uma ou duas vezes por semana , ficava vendo as novidades e conversando com Sr. Estrela e Donana.
Triste e melancólico fim!

“OH maldito o primeiro que no mundo
Nas ondas velas pos em seco lenho,
Dino da eterna pena do profundo,
Se a justa a justa lei, que sigo e tenho!
Nunca juízo algum alto e profundo,
Nem cítara sonora, ou vivo engenho,
Te dou por isso fama nem memòria,
Mas contigo se acabe o nome e glória.”

Camões.Os Lusíadas. Canto IV -102

 

José Eduardo Taveira

 

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Sobre José Eduardo Taveira

Nasci no Porto. Trabalhei em diversas empresas nacionais e multinacionais, exercendo cargos directivos. Actualmente estou liberto de compromissos profissionais, usufruindo a liberdade de viver como gosto e quero. Publiquei três livros intitulados: "Juntos para Sempre","Histórias de Pessoas que Decidi Divulgar" e "Viagem ao Princípio da Vida". Os dois primeiros em Portugal e o último no Brasil.
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