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Como perder 48h.
Dás por ti no ponto em que começaste. A ouvir os barulhos da noite, um carro parado com o motor ligado, um jogo de futebol na TV e os ruídos que são os mesmos dos últimos dez anos.
 
As pessoas vieram, foram, ficaram. Compraste coisas, deitaste coisas fora, mas a inquietação é a mesma.
Para onde vais?
 
Ao longe passam as luzes de mais um carro, uma corda pendurada numa árvore depois de os pássaros terem ido dormir.
Há tudo menos silêncio.
 
Acreditou-se, desacreditou-se, mas a agenda diz que tens de estar num sítio qualquer amanhã às 9h30, impreterivelmente às 9h30.
 
Porquê a essa hora e não a outra qualquer?
 
Há dois anos atrás talvez pedisses uma cerveja: ajuda a pensar. Mas hoje já só bebes cerveja sem álcool, café sem cafeína, caminhada sem corrida, tudo pela metade.
 
Quando se é novo vive-se no limite, depois acomodamo-nos ao que diz o médico, ao que diz o patrão, ao que dizem os outros. Deixamos de viver para nós, deixamos de ir ouvir os barulhos das onze horas da noite a uma esplanada de uma rua qualquer só porque ajuda a poesia a escorrer melhor da caneta.
 
Desde que morreste que julguei que deixaria de viver pelo seguro, arriscar sorrir ou chorar ou doer. Importava apenas que eu soubesse que estava viva.
 
Hoje sei que me acomodei outra vez às rotinas. Sei-o porque estou aqui a esta hora a ouvir o motor daquele carro há mais de dez minutos.
Voltei ao ponto de partida, o que não é necessariamente uma coisa má. Faz-nos bem, às vezes, carregarmos no pause e refletirmos para onde estamos a ir. Muitas vezes são essas tomadas de consciência que nos trazem a verdadeira mudança – ou a aparência dela.
 
É nestes instantes que, na maioria das vezes, descobrimos para onde temos de ir, o que temos e fazer, que mudanças internas são necessárias para trazermos à nossa vida os sonhos que queremos realizar.
 
Com isto em mente, acabo de beber, consulto o relógio e pelo adiantado da hora apresso-me a pagar a conta.
 
Sei bem onde tenho de ir – tenho de ir dormir! Amanhã tenho onde estar às 9h30.
 
Ana Brilha
 
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O canário…

O canário…

ANDA POR AÍ UM CERTO CANÁRIO QUE, CANTANDO BEM, NÃO SEI PORQUÊ NÃO ME ALEGRA; O CANÁRIO TEM NOME DE GENTE: É QUALQUER COISA PARECIDA COMO PACHECO.

E o canário, seguro do conforto da sua gaiola de porta aberta, onde nunca falta alpista, água limpa, onde beber e esparramar as penas, para se livrar de possíveis parasitas, ufano de sua lustrosa plumagem, esvoaçou para o poleiro e trinou seus altissonantes gorjeios. Traduzido para linguagem de gente, o gorjeio, (não traduzido à letra), fala de coisas; pessoas, manifestações, conceitos, critica, políticas e, ainda, mitologia grega.

O canário ficou tristinho, quando, no palanque de uma gigantesca manifestação, (a maior de que há memória neste Portugal humilhado), os organizadores cantaram, a plenos pulmões, o hino da Internacional Socialista.

Pois, sabe, não é propriamente (ou apenas) um hino de feição comunista; é sim, mais, o hino que demarca os pobres de todo o mundo dos ricos que os pisam; falando em termos de pessoas, (sabe o que são pessoas?), identifica o pedido de socorro gritado pelos moribundos, no deserto, quando vislumbram nos céus os abutres que aguardam a hora chegada para os devorarem, ou para afugentar os corvos, que se abeiram dos corpos dos já falecidos para lhes devorarem os olhos.

Eu e os meus camaradas, também o cantámos em exercícios militares, pelos montes das Beiras, como maneira de expurgar uma morte estúpida, em terras que não as nossas, ao serviço de conceitos dos gananciosos fascistas que, na época, nos dominavam.

E, (ainda sobre o hino da Internacional Socialista), a melhor maneira, a única, de o silenciar de vez, é arredar das pessoas desta terra a fome, o desemprego, a miséria, a mentira sobre um futuro melhor que nunca chega, (mais parece uma cenoura presa na ponta de uma vara, para fazer correr o burro que puxa a carroça, sem o emprego do chicote), é ter respeito pelos outros, é aniquilar os burlões que, ao serviço dos interesses estrangeiros, nos devoram até ao cerne da alma. É produzir, é construir, é deixar de uma vez por todas o povo viver e ser feliz. E isso, é tudo o que os canários deste País nunca fizeram. Porquê? – Pergunto. – Sim, mas porquê? E a resposta tarda, apenas e unicamente, porque, na verdade, nem os grandes passarões desta pobre Lusitânia a sabem, quanto mais um simples, insignificante, ignorante e absurdo canário.

Vivemos em Democracia, e, a Democracia, para mim, é a montra onde o POVO escolhe os ideários políticos; para a Democracia, são todos iguais, (ou devem ser, num mundo de sãs atitudes). Então, como pode e deve o Soberano POVO escolher? Preterindo o que não deu provas pelo que ainda não teve o privilégio, de receber nas urnas a honra de, pela primeira vez, ser chamado pelo todo de uma maioria eleita por sufrágio universal, para aplicar na prática o seu ideário politico. O processo democrático pode e deve funcionar, através dos resultados eleitorais; mas também pode impor-se nas ruas, sempre que o POVO se veja espoliado dos seus sagrados direitos: o direito ao trabalho com direitos, o direito à justiça, o direito à felicidade, o direito à saúde, o direito à cultura, o direito a uma Pátria livre do esbulho do estrangeiro permitido pelo relapso de quem governa, mantendo-se no poder anos e anos, com recurso às práticas insidiosas do engano, ou de uma alternância que em tudo, parece combinada. Para que todos os princípios democráticos sejam integralmente respeitados, o País dispõe de uma Constituição, e de um Presidente que a jurou cumprir, e que tem o dever de a fazer cumprir, com recurso ao parecer dos restantes órgãos de soberania, sempre que as dúvidas de interpretação eventualmente surjam; ainda que o Presidente seja (pela Constituição), parco em direitos decisórios; o que, de todo, não invalida que, na posse de todas as suas faculdades mentais e da sua inteligência, não tenha o recurso à palavra.

Mas, (se mo perguntarem), e se tudo isso falhar? – Eu respondo, – O POVO continua a ser Soberano! Tem as ruas, tem a Legalidade Revolucionária, pela pura e simples razão que, o POVO é tudo. È a Pátria, e é a Inteligência Colectiva da Pátria, é o Bom Nome da Pátria, é o Trabalho e, implicitamente, a riqueza, é a cultura; e se algo falha em tudo isto, é porque governos inconsequentes e irresponsáveis, (ou eivados de péssimas intenções), lhe negaram um ensino cuidado, pensado para dar ao Todo que é o POVO a qualidade necessária à sua grandeza.

Por tudo isto, (e para enfim terminar este meu desabafo), eu lhe digo, meu amigo Canário: abra as suas asas, saia da sua gaiola dourada onde nada lhe falta, faça-se à vida, vá em busca de emprego nesta época de calamidade nacional, para perceber de uma vez por todas o que custa a vida aos que sofrem! E depois, sim, depois, fale com conhecimento de causa!

José Solá

 

 

 

 

 

 

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O Vicio do Artesão Orlando Nesperal

Continuação:

 

 

 

Dicas

 

               As ideias: –Toda a criação vem do pensamento, embora seja uma afirmação contraditória para os materialistas, como idealista que sou, busco no pensamento as ideias com que faço os meus trabalhos. Não representam obras-primas mas apresentam algum avanço pessoal na forma de criar arte. As ideias são importantes, sem elas, jamais é possível fazer alguma coisa que possa ser apreciada por outros.

Como é possível dar seguimento a uma ideia, é claramente, torná-la visível, e ser apreciada por outros. Tenho sempre presente que, cada passo leva sempre a outra ideia e cada ideia se vai transformando em resultados.

Se me perguntarem como nasce as ideias, certamente que as mesmas são produto do sentimento e das emoções como vemos as coisas, as apreciamos e lhe damos valor sentimental ou crítico. Não se pode fazer aquilo que não gostamos e menos ainda, não colocarmos emoção na realização.

As ideias dão bons ou maus frutos consoante amamos e sentimos essas ideias. Ninguém espere ter novas ideias se não possuir graus de elevado sentimento tanto pelas coisas como pelas pessoas, não tenho culpa; ”Amar de mais as pessoas e ter sentimentos pelas coisas”. Esta frase foi escrita por mim, creio pelos meus 25 anos. Neste contexto de dicas de um artesão não posso dizer que tudo isto é válido, mas cada um vai cavando e alargando a sua própria estrada.

O que me leva a escrever é; primeiro porque o faço com prazer, a segunda, muitos se queixam de querer saber e gostavam de frequentar cursos, mas deparam-se que por escrito há pouco ou nada e práticos não estão por perto ou não são acessíveis, e mesmo fora da bolsa de quem não tem. Acrescento que muito dos artesões, ao desenvolver a sua atividade, acabam por não acompanhar a escrita e muito menos não terem hábitos da mesma o que resulta uma baixa existência de manuais sobre este assunto. Contudo já existe muita coisa a avulso ou em vídeos na internet. Saber utilizar esta ferramenta nos dias de hoje é o passo para a comunicação e conhecimento Universal.

O grande passo é: –Ao criar a ideia é colocá-la de imediato por escrito. A memória não é o lugar próprio para a guardar. Mas sim o caderno de bolso, que deve andar sempre consigo, para o registo ser imediato. … Em qualquer momento estes registos vão servir de apoio ou mesmo levá-lo à sua concretização, renovando essa ideia ou juntando outra.

                Os desenhos: – São a transformação da ideia, como sinal da existência da mesma, pode ser tosco ou desajeitado, mas para o quem fez, lê perfeitamente e encontra um permanente resultado para uma concretização. Tenho por princípio, que não sou capaz de partir para fazer o quer que seja, sem esboçar num papel, mesmo simples, para que se torne num guia durante a execução.

Como o fazer; ou temos alguma capacidade para o desenho ou nos limitamos a fazer coisas de cópias e limitamos a reproduzir esses originais nos materiais, com os quais pretendemos trabalhar. Nestes casos o decalque, com o já a desaparecer do mercado, o papel químico, é o método ainda muito usado e fazem-se trabalhos admiráveis. A forma mais original é sem dúvida fazermos nós o nosso próprio diretamente no local onde desejamos projetar a ideia.

Bem sei que um desenho, é algo que é próprio para o pintor, mas o artesão na prática é sempre uma mistura de conhecimentos, daí estar sempre a aprender. Mas também se pode recorrer ao modelo ou à amostra que encontramos ou nos facultam para a execução, é estas situações que devemos enfrentar e possuir, uma visão clara das coisas para que o resultado se torne bem feito objetivo e transparente.

Sendo o desenho uma das suas capacidades, deve mesmo recorrer a ele, tal como eu faço questão de todo o texto dos meus trabalhos sejam de minha autoria, não recorrendo a frases ou coias do género, que não estejam relacionados como sendo da minha lavra.

Portanto o desenho faz parte integrante do processo laboral, ao qual devemos coloca—lo como, parte integrante e bem assim será sempre a primeira moldura onde podemos observar parte do trabalho final.

            As dimensões: -São os formatos em que nos propomos fazer os trabalhos, e são estas formas muito importantes a ter em consideração, começando primeiro por ter em atenção as grossuras das madeiras, na gira “tirar as grossuras”, quando estejamos a fazer uma caixa mesmo simples que seja.

Os formatos devem estar sempre muito bem equilibrados, para que haja um bom senso, tanto ao olhar como na utilidade, mas sobretudo numa gravura-entalhe, a mesma deve–se enquadrar ao tamanho que a madeira tem, para existir uma boa receção à vista e estar diretamente proporcional em todos os ângulos ou distâncias, é muito importante, estas constantes, e se aplica seja qualquer que seja a arte.

Daí sempre que se inicie uma obra devemos ter já no desenho mencionado as medidas corretas para que os cortes e distâncias fiquem como se pensou e sobretudo para não se correr o risco de chegar ao fim, termos uma exclamação: -Não gosto, é o pior que me pode acontecer, a harmonia deve ser absoluta e definitiva, razão de termos o plano bem feito e sobretudo a nossa mente já ter visualizado o resultado do final.

Dou grande importância a esta relação, figura espaço onde está inserida, como tamanho com o fim a que se destina. Que tudo esteja ajustado e agradável à vista e que a harmonia se enquadre, o que se passou a chamar: – “ De bom gosto!”.

           A segurança: – Nos dias de hoje, está na ordem do dia, já não se encontra uma ferramenta seja mecânica ou elétrica que não venha em grande destaque, um conjunto de normas de segurança que devem ser aplicadas. Falar delas, creio ser despropositado, mas é neste momento, me parece ser importante realçar, se nos estamos preparados para receber no nosso corpo algumas mazelas.

Claramente que não, dai termos que ter a grande capacidade de durante o trabalho usarmos as proteções adequadas, como as mesmas produzem alguns efeitos de desconforto muitas vezes desprezamos as utilizações, dai ter lido num “Site” sobre este assunto a necessidade, de termos aulas de “artes marciais”, para estarmos preparados a alguma recetividade ao desconforto. Até mesmo quando a “martelada” no dedo, a dor seja compensada pela preparação mental. Algum tempo atrás na minha mente isto não fazia sentido, hoje já recomendo.

Mesmo com todos os cuidados que devemos ter, é sempre possível alguma coisa ser imprevisível e lá acontece, a questão da roupa é outra das minhas bandeiras, ela deve ser bem adequada, larga o suficiente e de alguma resistência, e estarmos mentalizados que em qualquer momento termos uma cerimónia e lá temos que ir com um dedo entrapado.

Esta nova forma de trabalhar, não tem sido recebida muito bem pela classe operária, dado o tal desconforto, e retirando alguma sensibilidade a alguns trabalhos mais minuciosos. Mas tem baixado a sinistralidade, sobretudo a mais ligeira, com relevo para a visão e audição que se vai observando duma forma lenta mas progressiva, muitas vezes já sem possibilidades de repor algumas melhoras.

A importância deste tema, é revelante para nos manter e ser duma aparência e estado físico bem no seu exterior, aquilo que se passou a convencionar; “Bem-parecido!”

               A execução: -Chegamos ao momento da reunião entre as ferramentas e os materiais, “madeiras” o meu caso, este encontroem manusear as ferramentas para transformar a madeira em arte, é na verdade o momento em que começa a ver-se, mais em que um pau ou tabua; tosca, pela ação do humano, e o auxílio de ferramenta se vai transformando em arte.

As ferramentas devem ser muito bem estudadas, saber bem o que fazem ou o que podemos fazer com elas e sobretudo umas afinadas outras afiadas. A escolha para um trabalho, é saber para que servem e o que se pode fazer com elas, os diversos tamanhos terão que estar adequados ao trabalho que se executa, tendo sempre em conta, a textura da madeira e a sua natureza, bem assim qual o sentido das fibras. Como se pode observar cada árvore tem o seu crescimento próprio e depois de seca sofre alterações consideráveis, que um simples corte mal dado, pode acabar ali, a continuidade do trabalho, que estava estiando a fazer.

Devemos ter sempre em consideração antes de partir para um trabalho saber quais as ferramentas que vamos utilizam, é de primordial importância, bem-estar enquadrado com as texturas da madeira.

O primeiro detalhe, é a moldagem da madeira ao desenho que devemos ter por perto e de fácil consulta, tanto para as medidas como ir observando a moldagem que está no desenho, para não nos afastarmos do projeto. É importante adquirir alguma destreza, para que muitas vezes conseguir melhorar o que inicialmente se estabeleceu. Se não conseguir o melhor é seguir o padrão.

A recomendação-mãe é: -Não deveram iniciar seja o que for sem fazer a experiência num pedaço de madeira igual “sobra”, para testar a dureza das mesmas e qual o comportamento da ferramenta que escolhemos para a realização e ajustar a pressão ou o bater adequado, consoante seja elétrica ou mecânica. Com esta recomendação evitamos muitos desgostos, de ter por de lado, algo que já consumiu muitas horas de trabalho.

Nesta fase o artesão, está a praticar atos constantes de aprendizagem, é neste verdadeiro momento em que entra em profunda meditação entre o que está a fazer e o mais íntimo e no mais profundo do seu ego. A sua opção já não vacila entre o que gosta e não gosta, entrou com a alma no que está a fazer deixou de estar em comunicação com o exterior.

Quanto mais vai praticando, mais gosta de si e do que vai fazendo, não tem horas, esquecendo-se completamente do tempo. Sabemos que ele-tempo vai avançando, mas as horas, essas são apenas e tão só, momentos de vida de plena felicidade.

O acabamento: É a fase do embelezamento, o grande momento de aprofundar e dar relevo à madeira, “ meu caso” e tirar dela o seu encanto natural; os veios, as cores e as diferentes sombras que tem, são valores acrescidos ao nosso trabalho.

Nesta fase, temos que saber aplicar com elevado grau de eficiência, quais os acessórios se deve ter em consideração. Podemos estar em presença de fazer algum desbaste maior, aqui ter as limas de diversos grãos, para dar um aspeto mais uniforme e agradável à vista. Mas são as lixas que desempenham um papel relevante, devemos iniciar com um gão, mais grosso e ir reduzindo consoante a madeira, até ela estar, aquilo que se chama na gira “amaciar”, tornando-a lisa, macia é como a sua beleza se pode destacar.

Com esta operação, podemos dar por concluído o trabalho, ficando tal como é a madeira. Mas existe muitos produtos com os quais podemos alterar a apresentação, consoante os gostos. Desde a aplicação de produtos anti fungos ou bicho da madeira, como a utilização de vernizes para dar e melhorar um acabamento final. É interessante saber-escolher, porque o mercado está invadido com uma variedade, que muitas vezes nos podem confundir.

Creio que estar a dizer o que existe no mercado ou o que deve ser utilizado ou não, terá que ser feito por quem goste destes assuntos, que não se podem ensinar, mas terá que ser os utilizadores descobrirem por si, o que melhor ou fica melhor em determinada peça. A diferença de gostos e diferentes opiniões, produzem resultados diferentes, logo mais harmonia e bom gosto.

Sou apenas um elemento de alerta ou de informação genérica, para que o iniciado. É interessante que também comece a sentir e entrar com o sua aprendizagem e a por em pratica o conhecimento, na feitura e na procura dos materiais.

O acabamento muitas vezes tem algumas contradições, estamos à espera de melhorar, mas não aplicamos convenientemente determinado produto e acabamos por criar uma peça, bonita mas pode ter um final infeliz. Daí não entrar rapidamente no acabamento final, sem um reflexão sobre e de que maneira como se irá dar o toque final.

A Obra: – Pouco posso acrescentar a esta dica, talvez um texto de ordem mais poético venha a ornamentar tudo o que ficou para traz dito:

“ O madeiro tosco, desuni-forme, sem jeito ou qualquer graça, encontrado na mata sujeito às intempéries, à espera de apodrecer, deixado pelo madeireiro, que nem para lenha servia, dado o aspeto difícil de manusear. Um homem vulgar mas de sentimentos, reconhece quão valor no mesmo foi encontrado, levando consigo para lhe fazer companhia. Eis senão quando olha para ele, e nele vê a mais bela escultura, que alguma vez viu ou sonhou; arregaçou as mangas da camisa, e colocou as mãos nas apropriadas ferramentas e iniciou a sua tarefa.

Primeiro, limpa o troco tirando as partes não necessárias, dando-lhe formas, em seguida rasga-lhe os membros, molda-lhe e alisa-lhe os pés e as mãos, faz a cintura e cria-lhe o tronco, por fim talha-lhe a cabeça, nasce cabelo, abre os olhos, afila-lhe o nariz, simboliza a boca e o detalhe dos lábios, veste-lhe um manto simples mais requintado gosto, pouco a pouco, podemos ver a escultura esbelta, fina, agradável à vista e apreciada, talvez mais, a imagem sagrada e pronta para colocar num altar. “

Certamente que é esta imagem, mais aproximada que tenho onde se simboliza o que o artesão é capaz de fazer …a sua paixão é transformar criando, onde não havia nada, passou a existir.

 

FIM

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Tempos difíceis

Tempos difíceis

Pequeno conto, de José Solá

Conheci o senhor Gaspar vai para muitos anos, e assim como as nossas vidas num dado momento se entrecruzaram, também depois se afastaram, a bem dizer de um dia para o outro, e o que fica é um processo enriquecedor, ou não, que inevitavelmente marca o contacto entre as pessoas.

O amigo Gaspar, na primeira impressão, (e nestas coisas do social é quase sempre o que conta), não cativava muito os outros, não porque fosse pessoa antipática, daquele lote de pessoas irritantes que logo ficamos ansiosos para os ver pelas costas, não, mas porque mais parecia do género do tipo mosca morta, com má dicção, temas de conversa pouco atractivos para os mortais mais comuns; o homem não se interessava muito por desporto, e muito menos pelo chamado desporto rei, não manifestava interesse pelas músicas pimbas que facilmente nos ficam presas no ouvido, da canção nacional dizia tratar-se de um rosário de fatalismos e de tristezas, uma autentica desgraçaria, um desfiar de destinos feitos de propósito para suprir as necessidades de um povo empurrado para uma má qualidade de vida.

De uma certa maneira Gaspar conseguia prender-me a atenção. Talvez pela sua figura, pela sua presença que se impunha de maneira despropositada e mesmo estranha. Era como se fica-se para sempre preso na nossa retina. E quando encontramos pessoas como esta pelos caminhos da vida, a nossa curiosidade desperta. Quem será? Como terá vivido? De que mundos é feito o seu mundo? E todas estas questões aproximam-nos cada vez mais dessas pessoas, como moscas presas na teia da aranha. Foi o caso. Com as conversas e o tempo, fomos ganhando confiança, as nossas raízes entenderam-se por baixo dessa capa de verniz que pomos para mostrar aos outros, e daí até às confidências foi um salto feito de um desconhecido para outro. Na verdade, ambos carecíamos de um confidente, para vazar o mútuo desgosto de vivermos num mundo feito de interesses pequenos, minúsculos, insignificantes. A imperativa vontade de descascar na sociedade acabou por nos unir.

Começamos por falar de temas de interesse comum, como literatura; primeiro os antigos, os gregos, que foram a pedra de toque para esta nossa civilização do ocidente; depois os recentes, (da nossa época), de Albert Camus, de Jean Paul Sartre, e também daqueles que cimentaram este nosso mundo pequeno, o Eça, o Camilo, para acabarmos com o Alçada Baptista, o Lobo Antunes, e como não podia deixar de ser, o Saramago, à época ainda no inicio. Falámos ainda de pintura, de música, desta coisa de desabafar para o papel, à falta de dispor de quem tenha pachorra para nos escutar, e por fim, como não podia deixar de acontecer, de nós, das raízes que nos fixam à terra, da meninice, dos pecados, (pelo menos dos pequenos, daqueles que permitimos aos outros saber), e dos êxitos, das conquistas, dos amores, das lágrimas que ficam cá dentro enquanto a cara sorri.

E foi assim que o livro do senhor Gaspar se abriu mostrando o conteúdo, a história, a intriga, a comédia da vida.

Gaspar veio da rua, um entre milhões de portugueses que nasceram sem berço nem eira, e fez-se de abandonos e dores, pelas ruas de uma Lisboa dos pobres, e fez tudo quanto havia que fazer para sobreviver à tortura de quem, – por imperativo da natureza, – tem de arranjar que comer no dia-a-dia. Fez recados, foi carregador de carros de mudanças, foi aprendiz de ofícios, trabalhou nas limpezas das ruas, vendeu coisas porta a porta, distribuiu produtos farmacêuticos pelos consultórios médicos, engraxou sapatos, vendeu livros em quiosques, trabalhou nas obras; de tudo fez um pouco na vida, menos roubar ou perder o respeito que o ser gente sempre lhe mereceu, e aqui, neste ponto, o de se respeitar como pessoa, foi contra o normativo da época vigente. Pessoa é pessoa, mas relativamente. Tudo depende de como nos é permitido ser pessoa. Na altura, – e vendo a situação de cima para baixo, – em cima, no topo da pirâmide, existia a Pessoa, como deus, imperativo no mando por ser omnipotente, todo-poderoso por ordem directa de si, – em primeiro lugar, – em segundo lugar dos seus apoiantes. Depois, a uma curta distância da Pessoa, assentavam arraiais na vida as Pessoas, que por desvelo, convicção ou conveniência, coadjuvavam a Pessoa, na feitura das leis ou na execução das obras, a segurarem o leme da grande nau, ou a proteger e afastar as almas dos pecados. Estas pessoas eram gente de berço, com marca de origem registada. Logo a seguir, na escala hierática da organização, vinham os cidadãos de primeira que, obviamente, também eram pessoas, mas, não havendo reticências a apontar quanto à sua natureza humana, se distinguiam das demais porque aceitavam, tacitamente e sem dúvidas ou discussões desnecessárias, a certeza inequívoca de que a Pessoa mandava e prevalecia sobre todas as restantes, nascidas ou por nascer. E por último, já na base da pirâmide, mesmo, mesmo, a roçar o lajedo frio do chão, aparecia o restante da espécie, com roupagens de massa ordeira e herdeira da boa e velha cepa, mas nunca muito de fiar, pois podiam, em resultado de desmandos e desencaminhamentos de agentes externos infiltrados, descarrilar, sair dos eixos, fazer a carruagem estancar. Podemos dizer, de todos estes milhões de almas, que também e de igual modo com o grupo acima, eram cidadãos, mas com algumas reticências. Uns cidadãos sobre os quais se tornara imperativamente preciso exercerem sempre uma determinada vigilância. E neste grupo se incluía o agora meu amigo senhor Gaspar.

– Meu caro, – dizia-me Gaspar, – vivíamos, e você sabe, porque é dessa altura, uma época de improbabilidades de fuga possível ao lugar de “pouca gente”, ou de “gente que não sabe pensar”, que o poder nos reservava. Servíamos para arrotear os campos, ir ao mar apanhar peixe e, nas cidades, fazer pela vida dos outros, dos de cima…

– Então como é que você se interessou pelas coisas da cultura?

– Olhe, pelo imperativo de não ser estúpido por mais tempo! De alguma forma tive a intuição de perceber o que o futuro me predestinara se não conseguisse evoluir…

Na verdade, – e voltando ao conceito de pessoas como escala para definir as classes da altura, – o nosso tipo de pessoas, posicionadas como base da pirâmide, fazia-nos servir apenas como suporte por um lado, por outro, como escada para os outros treparem, e a quietude dos milhões de obreiros que serviam na quinta da Pessoa, a podar as árvores de fruto, ou a abanar o Ser Superior nos dias mais quentes do estio, nada abonava de favorável no que respeita às qualidades pensantes destes milhões. Foi quando, – em breve susto, me sobressaltei com a palmada vigorosa que o meu amigo Gaspar acabava de dar no tampo de mármore da mesa do café Brasileira, ali no largo do Chiado.

– Nem você sabe da missa a metade… – Disse.

– Então? – Quis saber.

– Pois, vou-lhe contar o que nunca contei a ninguém!

– Diga.

– Você tem a certeza que sabe o que é passar fome?

– Alguma, sim. Naquela altura tocou a todos nós…

– Isso… Isso é verdade. Mas quando eu digo fome falo de fome a sério, fome de morrer, fome mesmo de ir roubar para comer!

– Bem; assim tanto também não. O dizer a verdade, fome de causar morte, em Portugal, mesmo nessa altura, custa-me um bocado a crer…

– Pois acredite, meu caro, acredite… Eu conto…

Gaspar ficou calado, com os olhos escuros a olhar para o nada, o vazio. Talvez recorda-se momentos por demais dolorosos, momentos dos que guardamos para levar para o túmulo, coisas que se não as afastamos de nós são bem capazes de nos levar à loucura.

– Você conhece a frase: Quem não viu Lisboa não viu coisa boa? – Perguntou-me.

– Quem não conhece! – Exclamei.

– É porque não estava em Lisboa comigo, naquela noite…

E o homem, finalmente, começou a falar:

– Eu tinha uns dezasseis, quase dezassete anos. Um miúdo, franzino, extremamente magro, o que me fazia parecer tremendamente alto. Na altura não tinha casa. Ficava por aqui e por ali, mais na margem sul do rio do que na margem norte. E naquela noite estava em Lisboa. Tinha fome. Sabe o que é a fome de quatro ou cinco dias, em que apenas se bebeu água pelos bebedouros dos jardins? Abanei a cabeça em sentido negativo. Pois, eu calculei, Disse, e prosseguiu: A noite estava escura mas estrelada, o que só se via nos jardins da cidade, onde não chega a claridade das luzes. Tinha uma barba de cinco ou seis dias, um cabelo extremamente comprido, andava andrajoso e devia de cheirar mal, a ajuizar pela maneira como as pessoas me evitavam. Nos pés uns sapatos em que, a bem dizer, só existiam a parte de cima, quase nada de sola. Sentia por isso o contorno das pedras nas plantas dos pés, se bem me recordo mais no pé esquerdo, e tudo isso impedia-me de conseguir trabalho, mesmo nas obras. Um moinante. Diriam os encarregados. Outros pensariam, Como se pode empregar um indivíduo com semelhante aspecto, o que não diria o engenheiro quando por cá aparecesse. Estas questões de ajuizar os outros pelo aspecto exterior têm muito que se lhe diga. Não é fácil. Mas a verdade é que mesmo nos que estão bem vestidos não se lhes consegue ver a alma, e no entanto é assim, e até eu, que passei por isto, hoje julgo os outros pelo seu aspecto. Não devia de o fazer. Só que temos de ter um critério para nos avaliarmos uns aos outros, e este, apesar de tudo, parece-me melhor do que o outro. Adiante.

– O que tentava você encontrar, na altura? – Atrevi-me a perguntar.

– Não sei. Talvez um amigo, um desconhecido, um sinal qualquer vindo não sei de onde, se de Deus, se dos Homens, ou de alguma coisa até aí desconhecida. Não faço ideia. Sei que, aos poucos, fui indo em direcção da parte nobre da cidade, para os lados do Rossio.

A cidade de então era assim como a cidade de agora. Julgo até que as cidades por esse mundo fora, umas mais coloridas do que as outras, com maior ou menor movimento, acabam sendo muito iguais. Sabe, são sítios onde se passa mais do que se vive. O homem, para viver, precisa de um canto seu, não de um inóspito pedaço de chão onde todos se atropelam e se confrontam, numa concorrência feroz. De qualquer modo eu, na altura, não reparava em nada nem em ninguém. Tentar comer era a necessidade que não deixa a gente pensar em mais nada. Fome de quatro a cinco dias, noites passadas à espera das manhãs, para que o Sol nos livre do frio do orvalho. Uma pessoa fica um farrapo. Andei por ali, pela hora em que as forças do trabalho voltam ao ninho a ver do jantar. Passei tempo frente ao teatro dona Maria II a ver se aparecia algum amigo, depois, sem saber porquê, fui parar ao passeio interior das arcadas do palácio da Independência, e por ali estive um bocado, a ver o movimento constante, o rio de gente que regressa a casa afadigados pela pressa; as pessoas das cidades têm outra característica, é que passam a vida a correr, a bem dizer desde que se levantam até que se deitam, nunca se arranja tempo para ver a vida, se é que a vida dos pobres tem alguma coisa para se ver. Bem. Adiante. Quando me dei conta alguém falava para mim. Uma rapariga aproximada à minha altura, vestindo casaco preto, calças ou saias, já não me recordo, e blusa branca. Uma rapariga de cabelos negros, aspecto de modesta empregada, uns olhos grandes de esperanças, um rosto de traços bonitos, uma voz de tom suave mas firme. Sei que devo ter corado quando percebi o que me estava a dizer. Tenha ânimo, não perca a esperança, a vida dá muita volta. Meteu-me na mão uma moeda de vinte e cinco tostões. Desculpe, disse, é tudo o que posso. Boa Sorte! Eu, que nunca pedi fosse o que fosse aos outros, fiquei vidrado. Antes a morte do que pedir. E morte de gente, como os homens, de armas na mão, não morte de poucochinhos, Morte de acabar a livrar o mundo das pestes. Gostava de a voltar a encontrar, para lhe beijar a mão, agradecer-lhe e oferecer-lhe um ramo de flores. De cravos vermelhos e rosas. É que salvou-me a vida, sabe…

– Na época vinte e cinco tostões não dariam para muito…

– Figos, meu amigo. Figos secos. Ainda eram alguns. Foi o que comi, mais uma carcaça.

– Se fosse hoje as coisas seriam diferentes. – Disse.

– Porquê? Mudaram os homens, o povo mudou?!

– Não. Mas…

– Se, se não mudam os homens como quer você que as coisas mudem?

– Pelo tempo, talvez.

– Os homens, se não são os pais são os filhos. E a quem saem os filhos, senão aos pais? O País tem um povo mole. Pacifico de séculos. Gente que vai no mar das conveniências dos outros, e até gente, porque não dizer, feita de muita inveja e de pouca inteligência. Bem, eu vou indo. Até outro dia!

Apertamos as mãos e Gaspar afastou-se. No outro dia não voltou na hora tardia da nossa cavaqueira. Nunca mais voltou, não sei se é vivo, se morto. Amiudadas vezes recordo o tipo, não muito alto mas também não muito baixo, um rosto vulgar, afinal um homem como tantos outros. Dou por mim em certas alturas a recordá-lo. Os homens não mudam. Os homens nunca mudam; nem os homens nem o País. É sempre igual, só muda um pouco porque a vida é composta de mudanças, como fala a cantiga, mas no fundo, mesmo no fundo, este nosso País é terra de gente vencida, recalcada, apimentada por muita ingenuidade e uma pitada de inveja para dar um gosto, como na culinária. Por isso, este nosso País é uma chatura…

José Solá

 

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“Amor Proibido”

Um amor impensável que a sociedade lhe chamou proibido….foi assim, o lançamento de mais uma obra da minha autoria no passado dia 25 de Novembro, foto gentilmente cedida pela Livraria Leya na Barata, onde esta obra se encontra disponível. Este livro poderá também ser encomendado em qualquer livraria, ou através do Sitio do Livro, ou em alternativa contactando o autor no email jmbguerra@gmail.com

Leya

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Reflexões

Reflexões

O Antes e o depois

O ANTES

Extracto do livro: “O Filho de Ester” de: Jean Sasson

(…) Os aviadores que largavam a sua carga mortífera não se preocupavam com a população civil da Polónia. Aqueles homens tinham sido instruídos para acreditar piamente na sua missão.

Nos dias que precederam o ataque da Luftwaffe e antes de os exércitos alemães invadirem a fronteira polaca, Adolf Hitler fez um discurso aos seus generais num esforço supremo para fortalecer o seu apetite decrescente pela guerra.

As palavras de Hitler foram enfáticas, as suas ordens específicas. “ Fechem os vossos corações à piedade! Ajam com brutalidade! Oitenta milhões de pessoas devem ter o que é de seu direito e o homem mais forte tem razão. Devem ser cruéis e não ter quaisquer remorsos, insensibilizando-se perante sinais de compaixão! Quem quer que tenha meditado sobre este mundo sabe que o seu sentido reside no sucesso dos melhores através da força.”

O destino do sentido de Hitler era contagiante, como uma doença infecciosa, e contaminou rapidamente toda a Alemanha militar.

E, como lutadores excepcionais que eram, os soldados alemães acataram as suas ordens. (…)

O DEPOIS

Sessenta e sete anos depois da vitória da decência sobre a imoralidade, a dona Consciência sacode a sua habitual preguiça e afoita-se a trabalhar; é uma mulher magra, mesmo esquelética, com uns olhinhos pequenos e redondos, indefinidos quanto à cor, apáticos. Tem faces rugosas onde sobressai uma pele terrosa, amarelada, e quanto à idade, ficamos incapazes de dar palpites; é talvez eterna, como ninguém o é, logo, uma improbabilidade da lógica humana…

Consciência é serviçal no Arquivo Morto onde se guardam volumes e volumes da História da Imoralidade Humana, em pacotes etiquetados por assuntos e depois atados com atilhos, ou embalados em papel grosso vedado com fita-cola transparente. Trabalha num casebre perdido algures numa montanha gigante rodeada por florestas densas e perigosas, e acomoda-se num cubículo sem janelas contíguo à sala das reuniões onde, agora, encostada ao cabo da vassoura tenta vencer a sua preguiça, derrotar a eterna inércia que a caracteriza, e assim satisfazer as suas obrigações profissionais.

A sala é quadrada e de razoáveis dimensões. Não tem janelas. Uns móveis velhos de portas envidraçadas e, no seu interior, prateleiras repletas de pastas de cartolina; no chão uma carpete gasta pelo uso. No centro, – sobre a carpete – uma mesa de pé de galo, rodeada de cadeiras de costas altas. É admissível supor que ali se reúnem os anfitriões e utentes do arquivo, dado a existência de etiquetas brancas com letras pretas coladas nas costas das cadeiras, pelo lado contrário do assento. Dizem: Religiões, Hipocrisia, Arrogância, Mediocridade, Fanatismo, Ideologias e Ganância. É ainda admissível supor que a sala se destina a práticas espíritas, face à mesa com pé de galo, e ao que está escrito no seu centro: “Refugio das crendices”…

Dona Consciência, (que transpira suores frios e sente náuseas, fruto do imenso esforço que despendeu), passa pela testa um lenço encardido e repleto de nódoas; ela, afinal, não passa de uma Consciência comprometida com a sujidade natural desta vida. Varreu o lixo em volta da carpete, ao redor da sala, sobre um chão acabado a velhos tacos de pinho, e o distribuiu por três montículos, todos de razoável dimensão; depois colocou sobre cada um uma placa, para os identificar, conforme as superiores e rigorosas instruções que as chefias lhe tinham transmitido. As placas dizem: Cem milhões de Mortos, Falta de Escrúpulos, e na última, Remorsos. A serviçal Consciência sente, mais uma vez, falta de forças nas pernas magras, esqueléticas, que por nada acatam as ordens vindas do cérebro, fruto de um imensurável esforço; sente-se derrotada, incapaz de assumir atitudes. De soslaio olha os sacos onde deve colocar os montículos do lixo, cada qual em seu saco, para os levar de imediato para o exterior do casebre, e aí os atirar para dentro dos caixotes do lixo. “Com o frio que deve de estar lá fora, nem por sombras, ainda que perca o emprego.” Num último e insano rasgo de energia, Consciência levanta a carpete e varre o lixo, cada montículo para seu canto; entre os seus dentes pobres, num murmúrio cansado, diz: “longe da vista, longe do coração”…

Entram na sala seis figurões altos que se adivinham esqueléticos por baixo das túnicas negras que os cobrem da cabeça aos pés. Trazem capuzes pontiagudos que lhes escondem os rostos. São eles quem arquitecta as directrizes responsáveis pelo destino do mundo, que se reúnem amiúde para deliberar sobre o futuro. Sentam-se. Dão as mãos. Inclinam as cabeças para o centro da mesa e parecem rezar.

Dona Consciência, silenciosa, passa despercebida por outra porta lateral e entra no seu cubículo; atira-se para cima da cama. Dos seus velhos lábios sai uma frase: “Enfim, finalmente só e tranquila,”e logo adormece…

José Solá

 

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Este Natal Ofereça:

Uma narrativa emocionante na primeira pessoa, que certamente cativará o leitor desde o início…

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O Vicio do Artesão Orlando Nesperal

Continuação:

  O mergulho no silêncio

Estava confortado com o que já tinha escrito sobre, “O Vício do Artesão”, mas outra dimensão a nível mais interior de cada um, nasceu o título deste capítulo, ” o mergulho no silêncio”, mesmo que seja entendido um elemento fora do contexto, não tenho a mesma opinião. Pois o ser humano é para mim a perfeição mais conseguida, que tenho observado no meu pequeno espaço de entender as coisas. Logo sempre que algo o ser humano faz, vem-me sempre esta pergunta: -Porque faz? Todas as repostas podem estar corretas, mas eu fico sempre com uma resposta igual para todas as coisas. “Foi a necessidade de alimentar o seu interior-ego”. Creio que a tudo isto se pode aplicar ao mundo da discórdia, e levarmos as nossas mentes com respostas a ideias diferentes, mas é este ser da concórdia e da discórdia, que obviamente todos são.

Claramente que vou continuar a falar em, “ O Vicio do Artesão”, Sobretudo quando ele mergulha no silêncio do seu trabalho e sobretudo o seu poder de estar embebido num balsamo purificador que é a sua obra. É por aqui que pretendo levar o meu caminho trazer um pouco do seu interior para um exterior mais visível e dar-lhe uma existência de vida partilhada tanto pelos trabalhos que apresenta como vive no seu interior e como é capaz de manter-se lá dentro durante muito e muito tempo. No exterior está somente a sua obra que vai pouco a pouco crescendo, para que ele possa ver fisicamente o que já tinha construído no seu pensamento e estava apenas guardado espera do momento para ser trazido para o mundo real.

O que se passa, são duas situações bem destintas, uma é durante a entrega ao trabalho, a sua mente está vazia do resto do que o rodeia, como que mais nada existisse, ali ora especado ora sentado, entra num estado de pura meditação, tudo à sua volta está em silêncio, não houve nem fala, os ruídos caso existem não lhe perturbam a mente, mantém a sua atitude no silêncio intimo, só o que faz, fá-lo numa impressionante forma de estar, onde os seus pensamentos ficam reduzidos tanto e só, aquele momento, numa concentração absoluta, desaparecendo tudo, ficando a sua mente vazia de qualquer conteúdo.

Muitas vezes os sons da lixa na madeira, das máquinas elétricas, ou os tiques taque do bater dos maços são como se transformassem numa sinfonia semelhante aquelas que se colocam nas aulas de meditação como som de fundo. Mais ainda, o cheiro dos diluentes, das colas e dos vernizes, são entendidos como se estivéssemos a ser envolvidos dum incenso para a libertação de espíritos maus. Enquanto o cheiro das madeiras, se sente que estamos a ser banhados com um perfume de pétalas de plantas aromáticas.

Neste ambiente o Artesão vive no seu local de trabalho, Ateliê como se num templo de meditação se encontra-se. Pode-se entender que estamos num exagero literário, mas creio que, a libertação, a elevação e a tranquilidade do espirito é tão evidente que só quem não pratica um sentimento por uma arte não sente este estado de alma.

Estou grato por Deus me ter dado os meus admiráveis cinco sentidos, para tão de perto observar e sentira esta beleza estrutural, tanto física como espiritual. O outro lado está as obras que as pessoas vão admirando e contemplando, mas certamente como não tiveram a oportunidade de sentir as emoções e as vibrações da felicidade, enquanto se executou o trabalho, ficou para elas a satisfação do que ficou como resultado, do sentir estas alegrias agora compartilhadas e alimentando a sua essência do amor e sensibilidade as obras de arte.

Para este Artesão, estas emoções são os momentos mágicos dum percurso que espero levar tão longe quanto as minhas forças seja capaz. Tanto pelas revelações das emoções como a paz interior que vou encontrando em cada trabalho que termino, o mesmo não é mais do que prolongar da vida para além da existência física.

Em comparação com outras profissões: -O Artesão, utiliza a sua atividade, como uma terapia para fugir ao mundo do “Stress” e das profissões de desgaste rápido. A excelência de colocar em andamento as duas facetas do ser humano; a criatividade e a execução, fundindo-se numa só, ser Artesão!

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Reflexões

Reflexões

TEXTO DO ROMANCE: “A MENINA DOS OLHOS TRISTES”

(EM REVISÃO)

(…)

Josefa não se sente bem; sente-se como se estivesse a tentar impor-se num meio que lhe é, por natureza, adverso, um meio onde não pertence e onde se imiscuiu de maneira um tanto, – se não totalmente – leviana. É como se desse voltas e voltas ao destino para o enredar sobre si próprio, com o intuito de o fazer perder o norte, ou qualquer coisa assim do género; forcei a intimidade desta gente, – pensa – ainda que pertença aqui, o meu papel foi sempre mais o de espectadora, e pouco ou mesmo nada o de interveniente. E conclui, acabrunhada pela aparente fragilidade da sua natureza feminina, o mar é, em exclusividade, para os homens; sempre foi. Aqui, as mulheres não são uma ferramenta útil, nem sequer um mero adorno para enfeitar a vida. Mas, porquê? Essa a pergunta perdida nos tempos. Porquê? Por esse mundo estuporado fora a mulher avança, na certeza de que, na vida, não se limita apenas ao papel de receptáculo da continuação da espécie; a mulher não é mais um mero e insignificante adorno. A mulher conquista-se a si própria e cresce, cresce, e não é mais ou apenas o vaso onde o homem germina e fermenta a vaidade de se continuar; a humanidade completa-se com a emancipação do ser feminino, aparentemente frágil, gracioso e subtil, aparentemente carente e dependente, a eterna sombra que, milhares de anos antes, se deixou apequenar por um outro lado na aparência, mais poderoso e forte, com um lado protector que a cativou e, em consequência, a dominou.

Uma simples questão se sensibilidade, – pensa, – ou a vaga incerteza de que as coisas entre os sexos mudaram na realidade, – conclui, a caminho da cabine num andar desajeitado ao ritmo de um balanço esquecido pelos anos. – Temos mulheres presidentes, ministras, empresárias, cientistas, astronautas, revolucionárias, ou mulheres ainda acomodadas a um puder instituído pelos bons costumes e ancestrais tradições; mulheres donas de casa por inferioridade intelectual, ou medo de crescer e ser gente, a par de mulheres que comandam navios de todo o tipo, ou dirigem sofisticados aviões; mulheres militares. Somos iguais não em género, mas sim em inteligência, em sensibilidade; todavia, o mundo não melhora, não avança e, se o faz, é a passo de caracol! – A comparação arrancou-lhe um sorriso. – Afinal a sensibilidade feminina, quando colocada ao comando dos destinos do mundo, não é o bastante para inverter a sua marcha para a ruína; não será, portanto, uma mera e apenas aparente razão de diferenças de sensibilidade entre os sexos. Os males do mundo são muito mais amplos, muito mais complexos; a evolução faz-se de avanços e recuos, sem uma uniformidade pelo todo que é o planeta. Afinal é somente uma razão genética que motiva os diversos graus de barbárie que, – com disfarces uns mais eficazes que outros – emprestam as máscaras hipócritas que escondem a fealdade dos rostos que presidem, (ou julgam presidir), aos destinos das nações? O machismo que se baseia na ignorância de que o domínio do mais fraco se submete à força bruta dos músculos, persiste por toda a parte, mas dosagens diferentes variam de região para região, deste nosso planeta maravilha; foi erradicado esse mal numa parte ínfima do todo que é a terra; mas permanece bem latente na moral da esmagadora maioria da humanidade; assassinam-se mulheres na civilização imunda de países ufanos da sua história. Vivem na dependência económica dos homens que as utilizam e brutalizam como pertença pessoal, como objecto, como coisa, como capacho, como o que se queira chamar. O machismo é um clube impossível de destronar. Sobrevive nas leis, nas religiões, nas conveniências da imundice e da imoralidade dos prazeres doentios que fervilham nas mentes que se escondem por detrás de culturas e tradições; vem nas inverdades do divino que brotou da fantasia ditada pelo medo do desconhecido; “Com o barro da terra Deus fez o Homem à sua Imagem, e da costela do Homem fez a mulher para que este não se sentisse só,” foi assim que a Inteligência de Deus Fez e não ao contrário! – Raciocina Josefa enquanto se encaminha para a proa da fragata – nas mãos segura a toalha e os talheres – pois, nunca poderia ser ao contrário! – Conclui. – O homem, como a imoralidade bárbara de Deus… (…)

OS PORQUÊS

Porque o assassínio de mulheres e mães indefesas arrepia-me, entristece-me, enoja-me; porque, enquanto homem, (ainda que não brutalize ou humilhe um ser humano, e muito menos uma mulher), sinto-me como parte de um sexo onde muita gente é simplesmente insignificante e pequena. Não atribuo os ditos “crimes domésticos” à estupidez que resulta da ignorância que advém da falta de escolaridade. (MUITOS, SENÃO A MAIORIA DESTES CRIMINOSOS, SÃO GENTE DOS EXTRATOS MAIS ELEVADOS DA NOSSA DITA SOCIEDADE), banqueiros, doutores, (os da chamada mula russa); tristes e patéticos cobardes que se escondem atrás da hipocrisia dos sorrisos.

Mais do que os números das estatísticas, incomodam-me os números que se escondem; os suicídios, as vidas atormentadas que se perpetuam por toda uma existência, as crianças. Assassinam-se quarenta mas destroem-se, talvez centenas, ou mesmo milhares. É triste não puder fazer mais do que escrever, ainda por cima sem grande, (ou mesmo nenhuma) visibilidade. Sentiria satisfação se me fosse permitido envergar a pele de um carrasco executor…

Se me fosse pedido que indica-se dois símbolos que materializassem esta nossa sociedade, eu indicaria, da autoria do nosso grande Malhoa, o quadro intitulado os Bêbados, que também personifica a indecente realidade imposta neste País de cima para baixo, pelos muitos responsáveis políticos. E, (quanto ao segundo símbolo), a minha escolha recaía numa estrebaria; Inicialmente talvez que me inclina-se para um animal, um porco, por exemplo, mas, por respeito pela inteligência que caracteriza esses animais, julgo que a estrebaria contem em si mesma todos os requisitos para, (com a objectividade necessária), identificar esta nossa terra. A estrebaria acoita bestas, alimárias de todos os tamanhos e feitios, credos e extractos sociais; bestas pobres, remediadas e ricas. As pobres e as remediadas chafurdam cá atrás, longe da manjedoura; as ricas, as que dispõem de acesso rápido ao veterinário, que aprendem a escoicearem com estilo e elegância, (entenda-se instrução), são as que directamente acedem às manjedouras e, em consequência, aos fardos da melhor palha…

José Solá

 

 

Reflexões

TEXTO DO ROMANCE: “A MENINA DOS OLHOS TRISTES”

(EM REVISÃO)

(…)

Josefa não se sente bem; sente-se como se estivesse a tentar impor-se num meio que lhe é, por natureza, adverso, um meio onde não pertence e onde se imiscuiu de maneira um tanto, – se não totalmente – leviana. É como se desse voltas e voltas ao destino para o enredar sobre si próprio, com o intuito de o fazer perder o norte, ou qualquer coisa assim do género; forcei a intimidade desta gente, – pensa – ainda que pertença aqui, o meu papel foi sempre mais o de espectadora, e pouco ou mesmo nada o de interveniente. E conclui, acabrunhada pela aparente fragilidade da sua natureza feminina, o mar é, em exclusividade, para os homens; sempre foi. Aqui, as mulheres não são uma ferramenta útil, nem sequer um mero adorno para enfeitar a vida. Mas, porquê? Essa a pergunta perdida nos tempos. Porquê? Por esse mundo estuporado fora a mulher avança, na certeza de que, na vida, não se limita apenas ao papel de receptáculo da continuação da espécie; a mulher não é mais um mero e insignificante adorno. A mulher conquista-se a si própria e cresce, cresce, e não é mais ou apenas o vaso onde o homem germina e fermenta a vaidade de se continuar; a humanidade completa-se com a emancipação do ser feminino, aparentemente frágil, gracioso e subtil, aparentemente carente e dependente, a eterna sombra que, milhares de anos antes, se deixou apequenar por um outro lado na aparência, mais poderoso e forte, com um lado protector que a cativou e, em consequência, a dominou.

Uma simples questão se sensibilidade, – pensa, – ou a vaga incerteza de que as coisas entre os sexos mudaram na realidade, – conclui, a caminho da cabine num andar desajeitado ao ritmo de um balanço esquecido pelos anos. – Temos mulheres presidentes, ministras, empresárias, cientistas, astronautas, revolucionárias, ou mulheres ainda acomodadas a um puder instituído pelos bons costumes e ancestrais tradições; mulheres donas de casa por inferioridade intelectual, ou medo de crescer e ser gente, a par de mulheres que comandam navios de todo o tipo, ou dirigem sofisticados aviões; mulheres militares. Somos iguais não em género, mas sim em inteligência, em sensibilidade; todavia, o mundo não melhora, não avança e, se o faz, é a passo de caracol! – A comparação arrancou-lhe um sorriso. – Afinal a sensibilidade feminina, quando colocada ao comando dos destinos do mundo, não é o bastante para inverter a sua marcha para a ruína; não será, portanto, uma mera e apenas aparente razão de diferenças de sensibilidade entre os sexos. Os males do mundo são muito mais amplos, muito mais complexos; a evolução faz-se de avanços e recuos, sem uma uniformidade pelo todo que é o planeta. Afinal é somente uma razão genética que motiva os diversos graus de barbárie que, – com disfarces uns mais eficazes que outros – emprestam as máscaras hipócritas que escondem a fealdade dos rostos que presidem, (ou julgam presidir), aos destinos das nações? O machismo que se baseia na ignorância de que o domínio do mais fraco se submete à força bruta dos músculos, persiste por toda a parte, mas dosagens diferentes variam de região para região, deste nosso planeta maravilha; foi erradicado esse mal numa parte ínfima do todo que é a terra; mas permanece bem latente na moral da esmagadora maioria da humanidade; assassinam-se mulheres na civilização imunda de países ufanos da sua história. Vivem na dependência económica dos homens que as utilizam e brutalizam como pertença pessoal, como objecto, como coisa, como capacho, como o que se queira chamar. O machismo é um clube impossível de destronar. Sobrevive nas leis, nas religiões, nas conveniências da imundice e da imoralidade dos prazeres doentios que fervilham nas mentes que se escondem por detrás de culturas e tradições; vem nas inverdades do divino que brotou da fantasia ditada pelo medo do desconhecido; “Com o barro da terra Deus fez o Homem à sua Imagem, e da costela do Homem fez a mulher para que este não se sentisse só,” foi assim que a Inteligência de Deus Fez e não ao contrário! – Raciocina Josefa enquanto se encaminha para a proa da fragata – nas mãos segura a toalha e os talheres – pois, nunca poderia ser ao contrário! – Conclui. – O homem, como a imoralidade bárbara de Deus… (…)

OS PORQUÊS

Porque o assassínio de mulheres e mães indefesas arrepia-me, entristece-me, enoja-me; porque, enquanto homem, (ainda que não brutalize ou humilhe um ser humano, e muito menos uma mulher), sinto-me como parte de um sexo onde muita gente é simplesmente insignificante e pequena. Não atribuo os ditos “crimes domésticos” à estupidez que resulta da ignorância que advém da falta de escolaridade. (MUITOS, SENÃO A MAIORIA DESTES CRIMINOSOS, SÃO GENTE DOS EXTRATOS MAIS ELEVADOS DA NOSSA DITA SOCIEDADE), banqueiros, doutores, (os da chamada mula russa); tristes e patéticos cobardes que se escondem atrás da hipocrisia dos sorrisos.

Mais do que os números das estatísticas, incomodam-me os números que se escondem; os suicídios, as vidas atormentadas que se perpetuam por toda uma existência, as crianças. Assassinam-se quarenta mas destroem-se, talvez centenas, ou mesmo milhares. É triste não puder fazer mais do que escrever, ainda por cima sem grande, (ou mesmo nenhuma) visibilidade. Sentiria satisfação se me fosse permitido envergar a pele de um carrasco executor…

Se me fosse pedido que indica-se dois símbolos que materializassem esta nossa sociedade, eu indicaria, da autoria do nosso grande Malhoa, o quadro intitulado os Bêbados, que também personifica a indecente realidade imposta neste País de cima para baixo, pelos muitos responsáveis políticos. E, (quanto ao segundo símbolo), a minha escolha recaía numa estrebaria; Inicialmente talvez que me inclina-se para um animal, um porco, por exemplo, mas, por respeito pela inteligência que caracteriza esses animais, julgo que a estrebaria contem em si mesma todos os requisitos para, (com a objectividade necessária), identificar esta nossa terra. A estrebaria acoita bestas, alimárias de todos os tamanhos e feitios, credos e extractos sociais; bestas pobres, remediadas e ricas. As pobres e as remediadas chafurdam cá atrás, longe da manjedoura; as ricas, as que dispõem de acesso rápido ao veterinário, que aprendem a escoicearem com estilo e elegância, (entenda-se instrução), são as que directamente acedem às manjedouras e, em consequência, aos fardos da melhor palha…

José Solá

 

 

 

 

 

 

 

 

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PARABÉNS, ANTÓNIO GEDEÃO !

António Gedeão nasceu em Lisboa no dia 24 de Novembro de 1906 e viveu até 19 de Fevereiro de 1997.

Foi poeta, professor, investigador, pedagogo, considerado um dos mais talentosos criadores do século XX.

Nesta homenagem no dia do seu aniversário, o poema:

 Pedra Filosofal

 Eles não sabem que o sonho

é uma constante da vida

tão concreta e definida

como outra coisa qualquer,

como esta pedra cinzenta

em que me sento e descanso,

como este ribeiro manso

em serenos sobressaltos,

como estes pinheiros altos

que em verde e oiro se agitam,

como estas aves que gritam

em bebedeiras de azul.

 

Eles não sabem que o sonho

é vinho, é espuma, é fermento,

bichinho álacre e sedento,

de focinho pontiagudo,

que fossa através de tudo

num perpétuo movimento.

 

Eles não sabem que o sonho

é tela, é cor, é pincel,

base, fuste, capitel,

arco em ogiva, vitral,

pináculo de catedral,

contraponto, sinfonia,

máscara grega, magia,

que é retorta de alquimista,

mapa do mundo distante,

rosa-dos-ventos, Infante,

caravela quinhentista,

que é cabo da Boa Esperança,

ouro, canela, marfim,

florete de espadachim,

bastidor, passo de dança,

Colombina e Arlequim,

passarola voadora,

pára-raios, locomotiva,

barco de proa festiva,

alto-forno, geradora,

cisão do átomo, radar,

ultra-som, televisão,

desembarque em foguetão

na superfície lunar.

 

Eles não sabem, nem sonham,

que o sonho comanda a vida,

que sempre que um homem sonha

o mundo pula e avança

como bola colorida

entre as mãos de uma criança.

 

 

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