Tempos difíceis

Tempos difíceis

Pequeno conto, de José Solá

Conheci o senhor Gaspar vai para muitos anos, e assim como as nossas vidas num dado momento se entrecruzaram, também depois se afastaram, a bem dizer de um dia para o outro, e o que fica é um processo enriquecedor, ou não, que inevitavelmente marca o contacto entre as pessoas.

O amigo Gaspar, na primeira impressão, (e nestas coisas do social é quase sempre o que conta), não cativava muito os outros, não porque fosse pessoa antipática, daquele lote de pessoas irritantes que logo ficamos ansiosos para os ver pelas costas, não, mas porque mais parecia do género do tipo mosca morta, com má dicção, temas de conversa pouco atractivos para os mortais mais comuns; o homem não se interessava muito por desporto, e muito menos pelo chamado desporto rei, não manifestava interesse pelas músicas pimbas que facilmente nos ficam presas no ouvido, da canção nacional dizia tratar-se de um rosário de fatalismos e de tristezas, uma autentica desgraçaria, um desfiar de destinos feitos de propósito para suprir as necessidades de um povo empurrado para uma má qualidade de vida.

De uma certa maneira Gaspar conseguia prender-me a atenção. Talvez pela sua figura, pela sua presença que se impunha de maneira despropositada e mesmo estranha. Era como se fica-se para sempre preso na nossa retina. E quando encontramos pessoas como esta pelos caminhos da vida, a nossa curiosidade desperta. Quem será? Como terá vivido? De que mundos é feito o seu mundo? E todas estas questões aproximam-nos cada vez mais dessas pessoas, como moscas presas na teia da aranha. Foi o caso. Com as conversas e o tempo, fomos ganhando confiança, as nossas raízes entenderam-se por baixo dessa capa de verniz que pomos para mostrar aos outros, e daí até às confidências foi um salto feito de um desconhecido para outro. Na verdade, ambos carecíamos de um confidente, para vazar o mútuo desgosto de vivermos num mundo feito de interesses pequenos, minúsculos, insignificantes. A imperativa vontade de descascar na sociedade acabou por nos unir.

Começamos por falar de temas de interesse comum, como literatura; primeiro os antigos, os gregos, que foram a pedra de toque para esta nossa civilização do ocidente; depois os recentes, (da nossa época), de Albert Camus, de Jean Paul Sartre, e também daqueles que cimentaram este nosso mundo pequeno, o Eça, o Camilo, para acabarmos com o Alçada Baptista, o Lobo Antunes, e como não podia deixar de ser, o Saramago, à época ainda no inicio. Falámos ainda de pintura, de música, desta coisa de desabafar para o papel, à falta de dispor de quem tenha pachorra para nos escutar, e por fim, como não podia deixar de acontecer, de nós, das raízes que nos fixam à terra, da meninice, dos pecados, (pelo menos dos pequenos, daqueles que permitimos aos outros saber), e dos êxitos, das conquistas, dos amores, das lágrimas que ficam cá dentro enquanto a cara sorri.

E foi assim que o livro do senhor Gaspar se abriu mostrando o conteúdo, a história, a intriga, a comédia da vida.

Gaspar veio da rua, um entre milhões de portugueses que nasceram sem berço nem eira, e fez-se de abandonos e dores, pelas ruas de uma Lisboa dos pobres, e fez tudo quanto havia que fazer para sobreviver à tortura de quem, – por imperativo da natureza, – tem de arranjar que comer no dia-a-dia. Fez recados, foi carregador de carros de mudanças, foi aprendiz de ofícios, trabalhou nas limpezas das ruas, vendeu coisas porta a porta, distribuiu produtos farmacêuticos pelos consultórios médicos, engraxou sapatos, vendeu livros em quiosques, trabalhou nas obras; de tudo fez um pouco na vida, menos roubar ou perder o respeito que o ser gente sempre lhe mereceu, e aqui, neste ponto, o de se respeitar como pessoa, foi contra o normativo da época vigente. Pessoa é pessoa, mas relativamente. Tudo depende de como nos é permitido ser pessoa. Na altura, – e vendo a situação de cima para baixo, – em cima, no topo da pirâmide, existia a Pessoa, como deus, imperativo no mando por ser omnipotente, todo-poderoso por ordem directa de si, – em primeiro lugar, – em segundo lugar dos seus apoiantes. Depois, a uma curta distância da Pessoa, assentavam arraiais na vida as Pessoas, que por desvelo, convicção ou conveniência, coadjuvavam a Pessoa, na feitura das leis ou na execução das obras, a segurarem o leme da grande nau, ou a proteger e afastar as almas dos pecados. Estas pessoas eram gente de berço, com marca de origem registada. Logo a seguir, na escala hierática da organização, vinham os cidadãos de primeira que, obviamente, também eram pessoas, mas, não havendo reticências a apontar quanto à sua natureza humana, se distinguiam das demais porque aceitavam, tacitamente e sem dúvidas ou discussões desnecessárias, a certeza inequívoca de que a Pessoa mandava e prevalecia sobre todas as restantes, nascidas ou por nascer. E por último, já na base da pirâmide, mesmo, mesmo, a roçar o lajedo frio do chão, aparecia o restante da espécie, com roupagens de massa ordeira e herdeira da boa e velha cepa, mas nunca muito de fiar, pois podiam, em resultado de desmandos e desencaminhamentos de agentes externos infiltrados, descarrilar, sair dos eixos, fazer a carruagem estancar. Podemos dizer, de todos estes milhões de almas, que também e de igual modo com o grupo acima, eram cidadãos, mas com algumas reticências. Uns cidadãos sobre os quais se tornara imperativamente preciso exercerem sempre uma determinada vigilância. E neste grupo se incluía o agora meu amigo senhor Gaspar.

– Meu caro, – dizia-me Gaspar, – vivíamos, e você sabe, porque é dessa altura, uma época de improbabilidades de fuga possível ao lugar de “pouca gente”, ou de “gente que não sabe pensar”, que o poder nos reservava. Servíamos para arrotear os campos, ir ao mar apanhar peixe e, nas cidades, fazer pela vida dos outros, dos de cima…

– Então como é que você se interessou pelas coisas da cultura?

– Olhe, pelo imperativo de não ser estúpido por mais tempo! De alguma forma tive a intuição de perceber o que o futuro me predestinara se não conseguisse evoluir…

Na verdade, – e voltando ao conceito de pessoas como escala para definir as classes da altura, – o nosso tipo de pessoas, posicionadas como base da pirâmide, fazia-nos servir apenas como suporte por um lado, por outro, como escada para os outros treparem, e a quietude dos milhões de obreiros que serviam na quinta da Pessoa, a podar as árvores de fruto, ou a abanar o Ser Superior nos dias mais quentes do estio, nada abonava de favorável no que respeita às qualidades pensantes destes milhões. Foi quando, – em breve susto, me sobressaltei com a palmada vigorosa que o meu amigo Gaspar acabava de dar no tampo de mármore da mesa do café Brasileira, ali no largo do Chiado.

– Nem você sabe da missa a metade… – Disse.

– Então? – Quis saber.

– Pois, vou-lhe contar o que nunca contei a ninguém!

– Diga.

– Você tem a certeza que sabe o que é passar fome?

– Alguma, sim. Naquela altura tocou a todos nós…

– Isso… Isso é verdade. Mas quando eu digo fome falo de fome a sério, fome de morrer, fome mesmo de ir roubar para comer!

– Bem; assim tanto também não. O dizer a verdade, fome de causar morte, em Portugal, mesmo nessa altura, custa-me um bocado a crer…

– Pois acredite, meu caro, acredite… Eu conto…

Gaspar ficou calado, com os olhos escuros a olhar para o nada, o vazio. Talvez recorda-se momentos por demais dolorosos, momentos dos que guardamos para levar para o túmulo, coisas que se não as afastamos de nós são bem capazes de nos levar à loucura.

– Você conhece a frase: Quem não viu Lisboa não viu coisa boa? – Perguntou-me.

– Quem não conhece! – Exclamei.

– É porque não estava em Lisboa comigo, naquela noite…

E o homem, finalmente, começou a falar:

– Eu tinha uns dezasseis, quase dezassete anos. Um miúdo, franzino, extremamente magro, o que me fazia parecer tremendamente alto. Na altura não tinha casa. Ficava por aqui e por ali, mais na margem sul do rio do que na margem norte. E naquela noite estava em Lisboa. Tinha fome. Sabe o que é a fome de quatro ou cinco dias, em que apenas se bebeu água pelos bebedouros dos jardins? Abanei a cabeça em sentido negativo. Pois, eu calculei, Disse, e prosseguiu: A noite estava escura mas estrelada, o que só se via nos jardins da cidade, onde não chega a claridade das luzes. Tinha uma barba de cinco ou seis dias, um cabelo extremamente comprido, andava andrajoso e devia de cheirar mal, a ajuizar pela maneira como as pessoas me evitavam. Nos pés uns sapatos em que, a bem dizer, só existiam a parte de cima, quase nada de sola. Sentia por isso o contorno das pedras nas plantas dos pés, se bem me recordo mais no pé esquerdo, e tudo isso impedia-me de conseguir trabalho, mesmo nas obras. Um moinante. Diriam os encarregados. Outros pensariam, Como se pode empregar um indivíduo com semelhante aspecto, o que não diria o engenheiro quando por cá aparecesse. Estas questões de ajuizar os outros pelo aspecto exterior têm muito que se lhe diga. Não é fácil. Mas a verdade é que mesmo nos que estão bem vestidos não se lhes consegue ver a alma, e no entanto é assim, e até eu, que passei por isto, hoje julgo os outros pelo seu aspecto. Não devia de o fazer. Só que temos de ter um critério para nos avaliarmos uns aos outros, e este, apesar de tudo, parece-me melhor do que o outro. Adiante.

– O que tentava você encontrar, na altura? – Atrevi-me a perguntar.

– Não sei. Talvez um amigo, um desconhecido, um sinal qualquer vindo não sei de onde, se de Deus, se dos Homens, ou de alguma coisa até aí desconhecida. Não faço ideia. Sei que, aos poucos, fui indo em direcção da parte nobre da cidade, para os lados do Rossio.

A cidade de então era assim como a cidade de agora. Julgo até que as cidades por esse mundo fora, umas mais coloridas do que as outras, com maior ou menor movimento, acabam sendo muito iguais. Sabe, são sítios onde se passa mais do que se vive. O homem, para viver, precisa de um canto seu, não de um inóspito pedaço de chão onde todos se atropelam e se confrontam, numa concorrência feroz. De qualquer modo eu, na altura, não reparava em nada nem em ninguém. Tentar comer era a necessidade que não deixa a gente pensar em mais nada. Fome de quatro a cinco dias, noites passadas à espera das manhãs, para que o Sol nos livre do frio do orvalho. Uma pessoa fica um farrapo. Andei por ali, pela hora em que as forças do trabalho voltam ao ninho a ver do jantar. Passei tempo frente ao teatro dona Maria II a ver se aparecia algum amigo, depois, sem saber porquê, fui parar ao passeio interior das arcadas do palácio da Independência, e por ali estive um bocado, a ver o movimento constante, o rio de gente que regressa a casa afadigados pela pressa; as pessoas das cidades têm outra característica, é que passam a vida a correr, a bem dizer desde que se levantam até que se deitam, nunca se arranja tempo para ver a vida, se é que a vida dos pobres tem alguma coisa para se ver. Bem. Adiante. Quando me dei conta alguém falava para mim. Uma rapariga aproximada à minha altura, vestindo casaco preto, calças ou saias, já não me recordo, e blusa branca. Uma rapariga de cabelos negros, aspecto de modesta empregada, uns olhos grandes de esperanças, um rosto de traços bonitos, uma voz de tom suave mas firme. Sei que devo ter corado quando percebi o que me estava a dizer. Tenha ânimo, não perca a esperança, a vida dá muita volta. Meteu-me na mão uma moeda de vinte e cinco tostões. Desculpe, disse, é tudo o que posso. Boa Sorte! Eu, que nunca pedi fosse o que fosse aos outros, fiquei vidrado. Antes a morte do que pedir. E morte de gente, como os homens, de armas na mão, não morte de poucochinhos, Morte de acabar a livrar o mundo das pestes. Gostava de a voltar a encontrar, para lhe beijar a mão, agradecer-lhe e oferecer-lhe um ramo de flores. De cravos vermelhos e rosas. É que salvou-me a vida, sabe…

– Na época vinte e cinco tostões não dariam para muito…

– Figos, meu amigo. Figos secos. Ainda eram alguns. Foi o que comi, mais uma carcaça.

– Se fosse hoje as coisas seriam diferentes. – Disse.

– Porquê? Mudaram os homens, o povo mudou?!

– Não. Mas…

– Se, se não mudam os homens como quer você que as coisas mudem?

– Pelo tempo, talvez.

– Os homens, se não são os pais são os filhos. E a quem saem os filhos, senão aos pais? O País tem um povo mole. Pacifico de séculos. Gente que vai no mar das conveniências dos outros, e até gente, porque não dizer, feita de muita inveja e de pouca inteligência. Bem, eu vou indo. Até outro dia!

Apertamos as mãos e Gaspar afastou-se. No outro dia não voltou na hora tardia da nossa cavaqueira. Nunca mais voltou, não sei se é vivo, se morto. Amiudadas vezes recordo o tipo, não muito alto mas também não muito baixo, um rosto vulgar, afinal um homem como tantos outros. Dou por mim em certas alturas a recordá-lo. Os homens não mudam. Os homens nunca mudam; nem os homens nem o País. É sempre igual, só muda um pouco porque a vida é composta de mudanças, como fala a cantiga, mas no fundo, mesmo no fundo, este nosso País é terra de gente vencida, recalcada, apimentada por muita ingenuidade e uma pitada de inveja para dar um gosto, como na culinária. Por isso, este nosso País é uma chatura…

José Solá

 

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Sobre jsola02

quando me disseram que tinha de escrever uma apresentação, logo falar sobre mim, a coisa ficou feia. Falar sobre mim para dizer o quê? Que gosto de escrever, (dá-me paz, fico mais gente), que escrever é como respirar, comer ou dormir, é sinal que estou vivo e desperto? Mas a quem pode interessar saber coisas sobre um ilustre desconhecido? Qual é o interesse de conhecer uma vida igual a tantas outras, de um individuo, filho de uma família paupérrima, que nasceu para escrever, que aos catorze anos procurou um editor, que depois, muito mais tarde, publicou contos nos jornais diários da capital, entrevistas e pequenos artigos, que passou por todo o tipo de trabalho, como operário, como chefe de departamento técnico, e que, reformado, para continuar útil e activo, aos setenta anos recomeçou a escrever como se exercesse uma nova profissão. Parece-me que é pouco relevante. Mas, como escrever é exercer uma profissão tão útil como qualquer outra, desde que seja exercida com a honestidade de se dizer aquilo que se pensa, (penso que não há trabalhos superiores ou trabalhos inferiores, todos contribuem para o progresso e o bem estar do mundo), vou aceitar o desafio de me expor. Ficarei feliz se conseguir contribuir para que as pessoas pensem mais; ficarei feliz se me disserem o que pensam do que escrevo… José Solá
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2 respostas a Tempos difíceis

  1. José Eduardo Taveira diz:

    Caro Solá, gostei destes seus “Tempos Dificeis”. Parabéns. Um abraço.

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  2. Também eu, José Solá, também eu gostei muito!

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