Reflexões

Reflexões

O Antes e o depois

O ANTES

Extracto do livro: “O Filho de Ester” de: Jean Sasson

(…) Os aviadores que largavam a sua carga mortífera não se preocupavam com a população civil da Polónia. Aqueles homens tinham sido instruídos para acreditar piamente na sua missão.

Nos dias que precederam o ataque da Luftwaffe e antes de os exércitos alemães invadirem a fronteira polaca, Adolf Hitler fez um discurso aos seus generais num esforço supremo para fortalecer o seu apetite decrescente pela guerra.

As palavras de Hitler foram enfáticas, as suas ordens específicas. “ Fechem os vossos corações à piedade! Ajam com brutalidade! Oitenta milhões de pessoas devem ter o que é de seu direito e o homem mais forte tem razão. Devem ser cruéis e não ter quaisquer remorsos, insensibilizando-se perante sinais de compaixão! Quem quer que tenha meditado sobre este mundo sabe que o seu sentido reside no sucesso dos melhores através da força.”

O destino do sentido de Hitler era contagiante, como uma doença infecciosa, e contaminou rapidamente toda a Alemanha militar.

E, como lutadores excepcionais que eram, os soldados alemães acataram as suas ordens. (…)

O DEPOIS

Sessenta e sete anos depois da vitória da decência sobre a imoralidade, a dona Consciência sacode a sua habitual preguiça e afoita-se a trabalhar; é uma mulher magra, mesmo esquelética, com uns olhinhos pequenos e redondos, indefinidos quanto à cor, apáticos. Tem faces rugosas onde sobressai uma pele terrosa, amarelada, e quanto à idade, ficamos incapazes de dar palpites; é talvez eterna, como ninguém o é, logo, uma improbabilidade da lógica humana…

Consciência é serviçal no Arquivo Morto onde se guardam volumes e volumes da História da Imoralidade Humana, em pacotes etiquetados por assuntos e depois atados com atilhos, ou embalados em papel grosso vedado com fita-cola transparente. Trabalha num casebre perdido algures numa montanha gigante rodeada por florestas densas e perigosas, e acomoda-se num cubículo sem janelas contíguo à sala das reuniões onde, agora, encostada ao cabo da vassoura tenta vencer a sua preguiça, derrotar a eterna inércia que a caracteriza, e assim satisfazer as suas obrigações profissionais.

A sala é quadrada e de razoáveis dimensões. Não tem janelas. Uns móveis velhos de portas envidraçadas e, no seu interior, prateleiras repletas de pastas de cartolina; no chão uma carpete gasta pelo uso. No centro, – sobre a carpete – uma mesa de pé de galo, rodeada de cadeiras de costas altas. É admissível supor que ali se reúnem os anfitriões e utentes do arquivo, dado a existência de etiquetas brancas com letras pretas coladas nas costas das cadeiras, pelo lado contrário do assento. Dizem: Religiões, Hipocrisia, Arrogância, Mediocridade, Fanatismo, Ideologias e Ganância. É ainda admissível supor que a sala se destina a práticas espíritas, face à mesa com pé de galo, e ao que está escrito no seu centro: “Refugio das crendices”…

Dona Consciência, (que transpira suores frios e sente náuseas, fruto do imenso esforço que despendeu), passa pela testa um lenço encardido e repleto de nódoas; ela, afinal, não passa de uma Consciência comprometida com a sujidade natural desta vida. Varreu o lixo em volta da carpete, ao redor da sala, sobre um chão acabado a velhos tacos de pinho, e o distribuiu por três montículos, todos de razoável dimensão; depois colocou sobre cada um uma placa, para os identificar, conforme as superiores e rigorosas instruções que as chefias lhe tinham transmitido. As placas dizem: Cem milhões de Mortos, Falta de Escrúpulos, e na última, Remorsos. A serviçal Consciência sente, mais uma vez, falta de forças nas pernas magras, esqueléticas, que por nada acatam as ordens vindas do cérebro, fruto de um imensurável esforço; sente-se derrotada, incapaz de assumir atitudes. De soslaio olha os sacos onde deve colocar os montículos do lixo, cada qual em seu saco, para os levar de imediato para o exterior do casebre, e aí os atirar para dentro dos caixotes do lixo. “Com o frio que deve de estar lá fora, nem por sombras, ainda que perca o emprego.” Num último e insano rasgo de energia, Consciência levanta a carpete e varre o lixo, cada montículo para seu canto; entre os seus dentes pobres, num murmúrio cansado, diz: “longe da vista, longe do coração”…

Entram na sala seis figurões altos que se adivinham esqueléticos por baixo das túnicas negras que os cobrem da cabeça aos pés. Trazem capuzes pontiagudos que lhes escondem os rostos. São eles quem arquitecta as directrizes responsáveis pelo destino do mundo, que se reúnem amiúde para deliberar sobre o futuro. Sentam-se. Dão as mãos. Inclinam as cabeças para o centro da mesa e parecem rezar.

Dona Consciência, silenciosa, passa despercebida por outra porta lateral e entra no seu cubículo; atira-se para cima da cama. Dos seus velhos lábios sai uma frase: “Enfim, finalmente só e tranquila,”e logo adormece…

José Solá

 

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Sobre jsola02

quando me disseram que tinha de escrever uma apresentação, logo falar sobre mim, a coisa ficou feia. Falar sobre mim para dizer o quê? Que gosto de escrever, (dá-me paz, fico mais gente), que escrever é como respirar, comer ou dormir, é sinal que estou vivo e desperto? Mas a quem pode interessar saber coisas sobre um ilustre desconhecido? Qual é o interesse de conhecer uma vida igual a tantas outras, de um individuo, filho de uma família paupérrima, que nasceu para escrever, que aos catorze anos procurou um editor, que depois, muito mais tarde, publicou contos nos jornais diários da capital, entrevistas e pequenos artigos, que passou por todo o tipo de trabalho, como operário, como chefe de departamento técnico, e que, reformado, para continuar útil e activo, aos setenta anos recomeçou a escrever como se exercesse uma nova profissão. Parece-me que é pouco relevante. Mas, como escrever é exercer uma profissão tão útil como qualquer outra, desde que seja exercida com a honestidade de se dizer aquilo que se pensa, (penso que não há trabalhos superiores ou trabalhos inferiores, todos contribuem para o progresso e o bem estar do mundo), vou aceitar o desafio de me expor. Ficarei feliz se conseguir contribuir para que as pessoas pensem mais; ficarei feliz se me disserem o que pensam do que escrevo… José Solá
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Uma resposta a Reflexões

  1. Ele foi um dos mais brutais ditadores da história, responsável pela morte de milhões de pessoas. Mas apesar de sua tenebrosa reputação, apareceu a oportunidade de alguém ter a face de Josef Stalin na sala de estar de casa.A máscara mortuária do antigo líder da União Soviética será leiloada esta semana.A máscara de bronze foi feita de um molde do rosto e das mãos do líder comunista, tirado logo após seu último suspiro. Acredita-se que seja uma das duas únicas cópias que existem no ocidente – a outra está guardada em uma coleção privada em Londres.Máscaras mortuárias são feitas das faces dos mortos pouco depois do óbito, preservando seus últimos momentos serenos para sempre, e estão mais comumente associadas a grandes artistas ou compositores.No entanto, Stalin foi preservado num molde antes de seu corpo ser embalsamado, pronto para ser exibido por quase uma década.O leiloeiro Richard Westwood-Brooks disse que a as peças de bronze são incrivelmente raras. “Há somente nove máscaras originais, todas na Rússia”, disse ele. “Somente em 1990 um ocidental pôde ver uma delas”.“Esta foi feita a partir de uma máscara original, e há somente duas no ocidente. Esta é uma chance única, é o mais próximo que alguém pode chegar de ter Stalin na sala de estar”.“A máscara mostra-o calmo e sereno. Essas máscaras são uma tradição antiga, que surgiu na Grécia e no Egito, para gerar uma lembrança da última face da pessoa. Normalmente estão associadas a artistas. Somente Stalin e Napoleão, em matéria de grandes líderes, têm uma. Nem Churchill teve uma”.O reinado de terror de Stalin terminou em 1952, quando ele sofreu uma série de ataques cardíacos no Kremlin, em Moscou . Seu corpo foi embalsamado e colocado em exibição ao lado de Lenin no mausoléu, sendo removido de lá em 1961 como parte do processo de “desestalinização” da URSS.Fonte: Daily Mail, 23 de janeiro de 2012.

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