Trecho da obra, o guerreiro nórdico ( de Danilo Pereira )

Aquele lugar era tão magnífico, que o gigante dourado passou alguns minutos na sua contemplação. Ele não sabia que tipo de horrores ele lá poderia encontrar. Na sua mente, era difícil imaginar que naquele lugar pudessem existir demónios, mas a chama azul estava lá e, até àquele momento, ela tinha-o levado a lugares diferentes e estranhos onde o perigo parecia estar sempre presente.

O caminho a seguir estava ali e Wolfgang deveria explorá- lo. Na entrada do monumento não havia viva alma, não havia nem sequer o cantar dos pássaros. O lugar parecia abandonado e ele então aproximou-se da porta e tentou abri-la, mas havia uma espécie de tranca sobre ela. Era um antigo e enferrujado cadeado sobre grossas correntes entrelaçadas. Aquilo não lhe ofereceu problemas, já que conseguiu rebentar facilmente o cadeado e atirá-lo para o chão. As correntes estavam soltas e com muita facilidade ele desenrolou-as como se fossem feitas de borracha.

A gigantesca porta abriu-se e…

 

Obra, Wolfgang, o guerreiro nórdico.

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Chuva outonal…

Sabes a chuva outonal
que o verão beijara no teu beiral
olhava a janela, procurava o teu olhar
que não mais ia chegar
só a chuva teimava em não parar
porque eram lágrimas de mar
de um dia tanto te amar

José Guerra (2011)

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Do livro “O Último Oleiro”

“O Ultimo Oleiro”Imagem e narrativa,

(…) Pequenos pregos cravados nas travessas que ligam os carris, com datas gravadas, indicando o ano da sua substituição, 67, 58, e tantas outras tão longínquas, que nos trazem à memória os dias da nossa infância. (…)

Link
Livro O Último Oleiro de Rómulo Duque

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Espada das almas ( de Danilo Pereira )

Hoje contarei um pouco sobre a espada das almas, que é um dos personagens principais de minha obra. Este artefato que parece ter vida, foi forjado pelos Vanir ( Deuses da magia ) e Aesir ( Deuses da guerra ) sobre o poço de Urd, lugar mágico onde se faziam artefatos divinos. Ela é formadas por tristes faces, que um dia pertenceram a reis e rainhas de uma era distante.

A espada que logo se tornou uma lenda, fora usada na batalha dos Deuses por Tyr ( Deus da guerra ) que aprisionou a alma de Loki ( Deus do submundo ) sobre a lâmina, enviando-a de volta ao inferno. Este glorioso pedaço de aço, se alimenta de almas condenadas na qual vagam pelo mundo nórdico sem rumo e que precisam ser absorvidas e purificadas.

Em minha obra, Odin escolhe Wolfgang para caminhar mais uma vez sobre a terra, que tem como fardo, resgatar sua humanidade e carregar a espada das almas, que procura por demônios que ameaçam o mundo dos humanos.

 

Obra, Wolfgang, o guerreiro nórdico.

 

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Sou poema por dizer…

Sou poema por dizer
Que não se quis ser
Sou sol por nascer
Que a noite viu morrer
Sou lágrima de te ver
Por te amar sem querer

José Guerra (2011)

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Tempos dificeis, conto extraído de contos polémicos – volume 2

Conheci o senhor Gaspar vai para muitos anos, e assim como as nossas vidas num dado momento se entrecruzaram, também depois se afastaram, a bem dizer de um dia para o outro, e o que fica é um processo enriquecedor, ou não, que inevitavelmente marca o contacto entre as pessoas.
O amigo Gaspar, na primeira impressão, (e nestas coisas do social é quase sempre o que conta), não cativava muito os outros, não porque fosse pessoa antipática, daquele lote de pessoas irritantes que logo ficamos ansiosos para os ver pelas costas, não, mas porque mais parecia do género do tipo mosca morta, com má dicção, temas de conversa pouco atractivos para os mortais mais comuns; o homem não se interessava muito por desporto, e muito menos pelo chamado desporto rei, não manifestava interesse pelas músicas pimbas que facilmente nos ficam presas no ouvido, da canção nacional dizia tratar-se de um rosário de fatalismos e de tristezas, uma autentica desgraçaria, um desfiar de destinos feitos de propósito para suprir as necessidades de um povo empurrado para uma má qualidade de vida.
De uma certa maneira Gaspar conseguia prender-me a atenção. Talvez pela sua figura, pela sua presença que se impunha de maneira despropositada e mesmo estranha. Era como se fica-se para sempre preso na nossa retina. E quando encontramos pessoas como esta pelos caminhos da vida, a nossa curiosidade desperta. Quem será? Como terá vivido? De que mundos é feito o seu mundo? E todas estas questões aproximam-nos cada vez mais dessas pessoas, como moscas presas na teia da aranha. Foi o caso. Com as conversas e o tempo, fomos ganhando confiança, as nossas raízes entenderam-se por baixo dessa capa de verniz que pomos para mostrar aos outros, e daí até às confidências foi um salto feito de um desconhecido para outro. Na verdade, ambos carecíamos de um confidente, para vazar o mútuo desgosto de vivermos num mundo feito de interesses pequenos, minúsculos, insignificantes. A imperativa vontade de descascar na sociedade acabou por nos unir.
Começamos por falar de temas de interesse comum, como literatura; primeiro os antigos, os gregos, que foram a pedra de toque para esta nossa civilização do ocidente; depois os recentes, (da nossa época), de Albert Camus, de Jean Paul Sartre, e também daqueles que cimentaram este nosso mundo pequeno, o Eça, o Camilo, para acabarmos com o Alçada Baptista, o Lobo Antunes, e como não podia deixar de ser, o Saramago, à época ainda no inicio. Falámos ainda de pintura, de música, desta coisa de desabafar para o papel, à falta de dispor de quem tenha pachorra para nos escutar, e por fim, como não podia deixar de acontecer, de nós, das raízes que nos fixam à terra, da meninice, dos pecados, (pelo menos dos pequenos, daqueles que permitimos aos outros saber), e dos êxitos, das conquistas, dos amores, das lágrimas que ficam cá dentro enquanto a cara sorri.
E foi assim que o livro do senhor Gaspar se abriu mostrando o conteúdo, a história, a intriga, a comédia da vida.
Gaspar veio da rua, um entre milhões de portugueses que nasceram sem berço nem eira, e fez-se de abandonos e dores, pelas ruas de uma Lisboa dos pobres, e fez tudo quanto havia que fazer para sobreviver à tortura de quem, – por imperativo da natureza, – tem de arranjar que comer no dia-a-dia. Fez recados, foi carregador de carros de mudanças, foi aprendiz de ofícios, trabalhou nas limpezas das ruas, vendeu coisas porta a porta, distribuiu produtos farmacêuticos pelos consultórios médicos, engraxou sapatos, vendeu livros em quiosques, trabalhou nas obras; de tudo fez um pouco na vida, menos roubar ou perder o respeito que o ser gente sempre lhe mereceu, e aqui, neste ponto, o de se respeitar como pessoa, foi contra o normativo da época vigente. Pessoa é pessoa, mas relativamente. Tudo depende de como nos é permitido ser pessoa. Na altura, – e vendo a situação de cima para baixo, – em cima, no topo da pirâmide, existia a Pessoa, como deus, imperativo no mando por ser omnipotente, todo-poderoso por ordem directa de si, – em primeiro lugar, – em segundo lugar dos seus apoiantes. Depois, a uma curta distância da Pessoa, assentavam arraiais na vida as Pessoas, que por desvelo, convicção ou conveniência, coadjuvavam a Pessoa, na feitura das leis ou na execução das obras, a segurarem o leme da grande nau, ou a proteger e afastar as almas dos pecados. Estas pessoas eram gente de berço, com marca de origem registada. Logo a seguir, na escala hierática da organização, vinham os cidadãos de primeira que, obviamente, também eram pessoas, mas, não havendo reticências a apontar quanto à sua natureza humana, se distinguiam das demais porque aceitavam, tacitamente e sem dúvidas ou discussões desnecessárias, a certeza inequívoca de que a Pessoa mandava e prevalecia sobre todas as restantes, nascidas ou por nascer. E por último, já na base da pirâmide, mesmo, mesmo, a roçar o lajedo frio do chão, aparecia o restante da espécie, com roupagens de massa ordeira e herdeira da boa e velha cepa, mas nunca muito de fiar, pois podiam, em resultado de desmandos e desencaminhamentos de agentes externos infiltrados, descarrilar, sair dos eixos, fazer a carruagem estancar. Podemos dizer, de todos estes milhões de almas, que também e de igual modo com o grupo acima, eram cidadãos, mas com algumas reticências. Uns cidadãos sobre os quais se tornara imperativamente preciso exercerem sempre uma determinada vigilância. E neste grupo se incluía o agora meu amigo senhor Gaspar.
– Meu caro, – dizia-me Gaspar, – vivíamos, e você sabe, porque é dessa altura, uma época de improbabilidades de fuga possível ao lugar de “pouca gente”, ou de “gente que não sabe pensar”, que o poder nos reservava. Servíamos para arrotear os campos, ir ao mar apanhar peixe e, nas cidades, fazer pela vida dos outros, dos de cima…
– Então como é que você se interessou pelas coisas da cultura?
– Olhe, pelo imperativo de não ser estúpido por mais tempo! De alguma forma tive a intuição de perceber o que o futuro me predestinara se não conseguisse evoluir…
Na verdade, – e voltando ao conceito de pessoas como escala para definir as classes da altura, – o nosso tipo de pessoas, posicionadas como base da pirâmide, fazia-nos servir apenas como suporte por um lado, por outro, como escada para os outros treparem, e a quietude dos milhões de obreiros que serviam na quinta da Pessoa, a podar as árvores de fruto, ou a abanar o Ser Superior nos dias mais quentes do estio, nada abonava de favorável no que respeita às qualidades pensantes destes milhões. Foi quando, – em breve susto, me sobressaltei com a palmada vigorosa que o meu amigo Gaspar acabava de dar no tampo de mármore da mesa do café Brasileira, ali no largo do Chiado.
– Nem você sabe da missa a metade… – Disse.
– Então? – Quis saber.
– Pois, vou-lhe contar o que nunca contei a ninguém!
– Diga.
– Você tem a certeza que sabe o que é passar fome?
– Alguma, sim. Naquela altura tocou a todos nós…
– Isso… Isso é verdade. Mas quando eu digo fome falo de fome a sério, fome de morrer, fome mesmo de ir roubar para comer!
– Bem; assim tanto também não. O dizer a verdade, fome de causar morte, em Portugal, mesmo nessa altura, custa-me um bocado a crer…
– Pois acredite, meu caro, acredite… Eu conto…
Gaspar ficou calado, com os olhos escuros a olhar para o nada, o vazio. Talvez recorda-se momentos por demais dolorosos, momentos dos que guardamos para levar para o túmulo, coisas que se não as afastamos de nós são bem capazes de nos levar à loucura.
– Você conhece a frase: Quem não viu Lisboa não viu coisa boa? – Perguntou-me.
– Quem não conhece! – Exclamei.
– É porque não estava em Lisboa comigo, naquela noite…
E o homem, finalmente, começou a falar:
– Eu tinha uns dezasseis, quase dezassete anos. Um miúdo, franzino, extremamente magro, o que me fazia parecer tremendamente alto. Na altura não tinha casa. Ficava por aqui e por ali, mais na margem sul do rio do que na margem norte. E naquela noite estava em Lisboa. Tinha fome. Sabe o que é a fome de quatro ou cinco dias, em que apenas se bebeu água pelos bebedouros dos jardins? Abanei a cabeça em sentido negativo. Pois, eu calculei, Disse, e prosseguiu: A noite estava escura mas estrelada, o que só se via nos jardins da cidade, onde não chega a claridade das luzes. Tinha uma barba de cinco ou seis dias, um cabelo extremamente comprido, andava andrajoso e devia de cheirar mal, a ajuizar pela maneira como as pessoas me evitavam. Nos pés uns sapatos em que, a bem dizer, só existiam a parte de cima, quase nada de sola. Sentia por isso o contorno das pedras nas plantas dos pés, se bem me recordo mais no pé esquerdo, e tudo isso impedia-me de conseguir trabalho, mesmo nas obras. Um moinante. Diriam os encarregados. Outros pensariam, Como se pode empregar um indivíduo com semelhante aspecto, o que não diria o engenheiro quando por cá aparecesse. Estas questões de ajuizar os outros pelo aspecto exterior têm muito que se lhe diga. Não é fácil. Mas a verdade é que mesmo nos que estão bem vestidos não se lhes consegue ver a alma, e no entanto é assim, e até eu, que passei por isto, hoje julgo os outros pelo seu aspecto. Não devia de o fazer. Só que temos de ter um critério para nos avaliarmos uns aos outros, e este, apesar de tudo, parece-me melhor do que o outro. Adiante.
– O que tentava você encontrar, na altura? – Atrevi-me a perguntar.
– Não sei. Talvez um amigo, um desconhecido, um sinal qualquer vindo não sei de onde, se de Deus, se dos Homens, ou de alguma coisa até aí desconhecida. Não faço ideia. Sei que, aos poucos, fui indo em direcção da parte nobre da cidade, para os lados do Rossio.
A cidade de então era assim como a cidade de agora. Julgo até que as cidades por esse mundo fora, umas mais coloridas do que as outras, com maior ou menor movimento, acabam sendo muito iguais. Sabe, são sítios onde se passa mais do que se vive. O homem, para viver, precisa de um canto seu, não de um inóspito pedaço de chão onde todos se atropelam e se confrontam, numa concorrência feroz. De qualquer modo eu, na altura, não reparava em nada nem em ninguém. Tentar comer era a necessidade que não deixa a gente pensar em mais nada. Fome de quatro a cinco dias, noites passadas à espera das manhãs, para que o Sol nos livre do frio do orvalho. Uma pessoa fica um farrapo. Andei por ali, pela hora em que as forças do trabalho voltam ao ninho a ver do jantar. Passei tempo frente ao teatro dona Maria II a ver se aparecia algum amigo, depois, sem saber porquê, fui parar ao passeio interior das arcadas do palácio da Independência, e por ali estive um bocado, a ver o movimento constante, o rio de gente que regressa a casa afadigados pela pressa; as pessoas das cidades têm outra característica, é que passam a vida a correr, a bem dizer desde que se levantam até que se deitam, nunca se arranja tempo para ver a vida, se é que a vida dos pobres tem alguma coisa para se ver. Bem. Adiante. Quando me dei conta alguém falava para mim. Uma rapariga aproximada à minha altura, vestindo casaco preto, calças ou saias, já não me recordo, e blusa branca. Uma rapariga de cabelos negros, aspecto de modesta empregada, uns olhos grandes de esperanças, um rosto de traços bonitos, uma voz de tom suave mas firme. Sei que devo ter corado quando percebi o que me estava a dizer. Tenha ânimo, não perca a esperança, a vida dá muita volta. Meteu-me na mão uma moeda de vinte e cinco tostões. Desculpe, disse, é tudo o que posso. Boa Sorte! Eu, que nunca pedi fosse o que fosse aos outros, fiquei vidrado. Antes a morte do que pedir. E morte de gente, como os homens, de armas na mão, não morte de poucochinhos, Morte de acabar a livrar o mundo das pestes. Gostava de a voltar a encontrar, para lhe beijar a mão, agradecer-lhe e oferecer-lhe um ramo de flores. De cravos vermelhos e rosas. É que salvou-me a vida, sabe…
– Na época vinte e cinco tostões não dariam para muito…
– Figos, meu amigo. Figos secos. Ainda eram alguns. Foi o que comi, mais uma carcaça.
– Se fosse hoje as coisas seriam diferentes. – Disse.
– Porquê? Mudaram os homens, o povo mudou?!
– Não. Mas…
– Se, se não mudam os homens como quer você que as coisas mudem?
– Pelo tempo, talvez.
– Os homens, se não são os pais são os filhos. E a quem saem os filhos, senão aos pais? O País tem um povo mole. Pacifico de séculos. Gente que vai no mar das conveniências dos outros, e até gente, porque não dizer, feita de muita inveja e de pouca inteligência. Bem, eu vou indo. Até outro dia!
Apertamos as mãos e Gaspar afastou-se. No outro dia não voltou na hora tardia da nossa cavaqueira. Nunca mais voltou, não sei se é vivo, se morto. Amiudadas vezes recordo o tipo, não muito alto mas também não muito baixo, um rosto vulgar, afinal um homem como tantos outros. Dou por mim em certas alturas a recordá-lo. Os homens não mudam. Os homens nunca mudam; nem os homens nem o País. É sempre igual, só muda um pouco porque a vida é composta de mudanças, como fala a cantiga, mas no fundo, mesmo no fundo, este nosso País é terra de gente vencida, recalcada, apimentada por muita ingenuidade e uma pitada de inveja para dar um gosto, como na culinária. Por isso, este nosso País é uma chatura…

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Crise – Doenças Mentais e Estado Social

Falando com amigos que passam uma parte razoável da vida a circular pelas estradas portuguesas, todos me dizem o mesmo. Circular pelas nossas estradas é, a cada dia que passa, cada vez mais perigoso. Porquê? Porque a violência dos condutores nacionais sobe na mesma proporção do aumento do custo de vida. É assustador senhor jornalista. Por muito bom economista que o senhor ministro das finanças seja, por muito louvável que as intenções do Estado sejam, ao ultrapassarem as pretensões da Troika, a verdade nua e crua é que estamos mais a afundar o país do que a ergue-lo. Estamos condicionados ao factor humano, estamos a lidar com pessoas, e julgo que um país de doentes mentais tem menos possibilidades de pagar dividas quando comparado com os outros países.
Portugal é o país da Europa com mais doenças mentais. Os números simplesmente assustam. Casos graves em Portugal que não têm qualquer tipo de tratamento, são 67%; em cada cinco pessoas uma sofre de perturbações, corresponde a 23%; 43% já sofreu de perturbações mentais, e quando comparado com os restantes países, para o nosso são 6% e para os outros, uns míseros 1%, no global da população. A mim isto simplesmente assusta-me, e penso que a todas as pessoas consideradas normais também. Só não vê quem é cego, ou quem se norteia apenas por partidarismos políticos injustificáveis. E sobremaneira nos preocupamos quando sabemos que as pessoas foram deliberadamente induzidas a endividarem-se. No dia em que os políticos dos dois partidos da área da governação descoraram por completo os meios de produção começou a submissão económica aos interesses do exterior; e hoje, quanto mais de cócoras nos pomos, mais difícil se torna levantarmos as cabeças com a dignidade que um povo com novecentos anos de história merece.
Falemos então do tão apregoado estado Social. Mas falemos com factos concretos. Parece-me que, em assuntos de tanta importância devemos esquecer as retóricas políticas, (mais parecidas com representações teatrais,) tão do agrado das populações “basbaque” que se prendem aos televisores horas a fio a ver as actuações da nossa Assembleia. Pouquíssimas vezes, durante a minha vida profissional, dispôs de tempo para mim ou para os meus “achaques.” Se assim o posso dizer, passei a vida, ou uma parte significativa dela, a correr para satisfazer as minhas obrigações profissionais; quando me disseram que tinha urgência em submeter-me a uma operação de “barriga aberta” perante a inevitabilidade da cirurgia, e na meia hora que durou a consulta, marquei com o médico a data e a hora da intervenção. Depois, para oficializar a baixa através do posto da caixa da minha área de residência, foram precisos três dias! Porquê? É simplíssimo de responder. Porque o dito e apregoado Estado Social não foi feito para satisfazer as necessidades de saúde, ou quaisquer outras, da população que trabalha. Destina-se sim às pessoas que podem perder algum do tão precioso tempo, não digo a preguiçar, mas sim a estar simplesmente doente…
O trágico é pensarmos porque, neste país, as coisas se passam desta maneira e não de outra, e para isso, penso que, ao longo dos séculos, os portugueses ricos aliviaram sempre os seus males de consciência praticando o conceito de esmolas, (quem dá aos pobres empresta a Deus) criando misericórdias, rodas para os enjeitados, (muitos deles filhos de nobres e de serviçais), e aconchegando a consciência dando corpo à “cunhazinha” para satisfazer as necessidades dos ditos “afilhados”!
Se foi este o país que fomos capazes de construir, não é este o país que pode, (por imperativos externos e de consciência de homens e mulheres que se querem modernos, operantes e úteis à sociedade,) continuar a existir. É assim que os ministros das finanças assim tão, (como hei-de dizer?), ingénuos, ao ponto de ignorar leis e princípios de ética, tradições e culturas que nasceram do esforço das gerações na sua justa luta pela melhoria das condições de vida, entrar para a esfera onde os Homens de Bem, os mais inteligentes e aptos, estendem as mãos aos seus semelhantes e os puxam para os patamares superiores da vida.
Atrevo-me a pensar que a necessidade última do Governo é mais voltar aos mercados, para continuar com a vidinha de sempre, do que tornar este país independente e próspero!

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“HISTÓRIAS DE PESSOAS QUE DECIDI DIVULGAR”

                  HISTÓRIA Nº 25 ( FINAL )

                 AMÉLIA DA CONCEIÇÃO

             Olá, Amigo Desconhecido

       Estou um pouco adoentada, ainda não percebi bem o que é. Quando o meu marido, que era médico, como já lhe tinha dito, me via com problemas de saúde dizia-me: “oh! rapariga, tens de ir ao médico imediatamente. Nunca se deve adiar o tratamento de uma doença por mais insignificante que seja.” Ele era muito engraçado. Quando lhe pedia uma sugestão, para tomar um medicamento ou coisa assim, dizia-me que “santos de casa não fazem milagres”. Era tão bom homem!

          Apesar de vivermos numa cidade, chamavam-lhe o João Semana, o médico criado por Júlio Dinis, no romance “As Pupilas do Senhor Reitor”. O Alberto não gostava deste epíteto.

          O seu consultório estava sempre cheio. Quando sentia que um paciente tinha dificuldades em pagar a consulta, além de oferecer alguns remédios, dizia-lhe que só pagava no fim do tratamento. E nunca aceitou um tostão. Que saudades daquele sorriso maroto quando lhe chamava “meu doutorzinho coração de ouro”!

                Amélia

                                                ****

                Amélia

          Espero que se encontre melhor. Esta semana tem sido complicada, mas tenho a certeza que os medicamentos a vão curar. Não a quero incomodar, por isso não vou obrigá-la a ler muito mais. Desejo-lhe as melhoras, rapidamente.

                Até amanhã, Amélia.

                                                 ****

                   Meu querido Alberto,

          Sinto-me cada vez mais doente e o médico que veio cá hoje a casa disse-me que terei de ser internada, para fazer análises e exames para decidirem se tenho de ser operada ou não. Não consigo dormir e o cansaço é cada vez maior. Alberto, meu amor, durante estes anos senti a tua companhia, sem estares fisicamente presente. As cartas que eu te escrevia e que eu me respondia, proporcionaram-me a felicidade de acreditar que tu ainda existias, longe de mim, mas existias. Continuaste a ser o meu companheiro inseparável. O exercício de sedução criado ficticiamente no início da nossa relação epistolar, correspondia ao teu charme e distinção. Foi assim que me trataste quando nos começámos a namorar. Sempre foste um cavalheiro e para ti fui sempre a tua princesa.

          Não sei se esta carta será a última. Se tudo correr bem, peço lá no hospital que me arranjem papel e escrevo-te a contar como estão a correr as coisas. Aguarda por noticias minhas. Agora não fujas, meu querido Amigo Desconhecido! Meu querido Alberto.

          Alberto, meu amor! Meu querido marido!

          Beijos da tua eterna apaixonada

                      Amélia.

               FIM

José Eduardo Taveira

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TEXTO EXTRAÌDO DO ROMANCE GANÂNCIA

Na rua, o céu abria-se entre farrapos de nuvens espalhadas a esmo do acaso, por ventos e correntes a ceifar o manto cinzento da manhã. Os farrapos mostravam arremedos de castelos ou de rostos adivinhados, e a calçada descia ao encontro do novo Grandela ressuscitado das cinzas do fogo. Lisboa, estando diferente, está na mesma, cachopa de idade antiga, garrida das suas cores de chita, varina desinibida com sorriso travesso e luz malandra nos olhos, de pregões cantados em melodias eternas pelas ruas desenxovalhadas pela luz. Pelas praças feitas das sensibilidades dos séculos mostram-se estátuas de reis que o povo admira de dentro da sua fome de sempre. Onde já se viu um português sem fome a ver as estátuas dos seus reis de baixo para cima, se os portugueses sem fome são os reis e os seus amigos mais chegados? Quem olha para cima tendo como pedestal as pedras da rua é sempre quem pouco enxerga, nem mesmo um palmo que seja, à frente do nariz. Quem olha de cima para baixo é sempre quem manda, só porque pode e raramente porque sabe. Por isso, a cachopa antiga, a varina que apregoa cantando, é feita de raivas e de ódios, de sangues nascidos dos medos de ter filhos para os dar à roda dos enjeitados, ali aparecida a cada passo pelos conventos das madres, mães e mulheres de Deus. A paródia da nossa vida é o sortilégio de sermos portugueses, o que equivale a andarmos de cá para lá ao sabor dos ventos e das marés de quem não sabe mandar. Uns pobres coitados, vergados pelas invejas, de sorriso de faz de conta e vénia fácil posta num rosto feito de infantilidades mas também de hipocrisias. De norte a sul temos ditos e mexericos que nos caracterizam a mostrar-nos como somos. Dos algarvios dizem que comem com o prato dentro da gaveta. Se lhes batem à porta fecham a gaveta e dizem à visita: “Eh comadre, se tem chegado mais cedo tinha-a convidado para almoçar!” E dos outros dizem outras coisas. Seremos simplesmente um povo de bobos, os bobos que fazem rir o mundo? As varinas pensaram, sempre a olhar o mar português, que mais vale um filho marinheiro com fome a trazer o dinheiro dos ricos, do que um filho enjeitado largado na roda. Sofrer por sofrer, que ela o veja mariola de verga de galeão, antes do que desconhecê-lo como ladrão criado na sacristia. Pois, pelas nossas alminhas, será que esta pátria tão confusa de ideias alguma vez irá poder respirar? O mais certo é que não. O sofrimento que deu em ódio é hoje temor e tradição, azares da vida, fatalidade do destino, e a fraternidade que busca fazer dos homens, homens, chumbou no exame da vida.

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A Paixão que Veio do Frio

O meu 1º Romance, disponível em breve no Sitio do Livro e na livraria Leya na Barata. Sessão de autógrafos no próximo dia 20 de Novembro pelas 17h00 na Leya na Barata, Av. Roma 11-A em Lisboa

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