TEXTO EXTRAÌDO DO ROMANCE GANÂNCIA

Na rua, o céu abria-se entre farrapos de nuvens espalhadas a esmo do acaso, por ventos e correntes a ceifar o manto cinzento da manhã. Os farrapos mostravam arremedos de castelos ou de rostos adivinhados, e a calçada descia ao encontro do novo Grandela ressuscitado das cinzas do fogo. Lisboa, estando diferente, está na mesma, cachopa de idade antiga, garrida das suas cores de chita, varina desinibida com sorriso travesso e luz malandra nos olhos, de pregões cantados em melodias eternas pelas ruas desenxovalhadas pela luz. Pelas praças feitas das sensibilidades dos séculos mostram-se estátuas de reis que o povo admira de dentro da sua fome de sempre. Onde já se viu um português sem fome a ver as estátuas dos seus reis de baixo para cima, se os portugueses sem fome são os reis e os seus amigos mais chegados? Quem olha para cima tendo como pedestal as pedras da rua é sempre quem pouco enxerga, nem mesmo um palmo que seja, à frente do nariz. Quem olha de cima para baixo é sempre quem manda, só porque pode e raramente porque sabe. Por isso, a cachopa antiga, a varina que apregoa cantando, é feita de raivas e de ódios, de sangues nascidos dos medos de ter filhos para os dar à roda dos enjeitados, ali aparecida a cada passo pelos conventos das madres, mães e mulheres de Deus. A paródia da nossa vida é o sortilégio de sermos portugueses, o que equivale a andarmos de cá para lá ao sabor dos ventos e das marés de quem não sabe mandar. Uns pobres coitados, vergados pelas invejas, de sorriso de faz de conta e vénia fácil posta num rosto feito de infantilidades mas também de hipocrisias. De norte a sul temos ditos e mexericos que nos caracterizam a mostrar-nos como somos. Dos algarvios dizem que comem com o prato dentro da gaveta. Se lhes batem à porta fecham a gaveta e dizem à visita: “Eh comadre, se tem chegado mais cedo tinha-a convidado para almoçar!” E dos outros dizem outras coisas. Seremos simplesmente um povo de bobos, os bobos que fazem rir o mundo? As varinas pensaram, sempre a olhar o mar português, que mais vale um filho marinheiro com fome a trazer o dinheiro dos ricos, do que um filho enjeitado largado na roda. Sofrer por sofrer, que ela o veja mariola de verga de galeão, antes do que desconhecê-lo como ladrão criado na sacristia. Pois, pelas nossas alminhas, será que esta pátria tão confusa de ideias alguma vez irá poder respirar? O mais certo é que não. O sofrimento que deu em ódio é hoje temor e tradição, azares da vida, fatalidade do destino, e a fraternidade que busca fazer dos homens, homens, chumbou no exame da vida.

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Sobre jsola02

quando me disseram que tinha de escrever uma apresentação, logo falar sobre mim, a coisa ficou feia. Falar sobre mim para dizer o quê? Que gosto de escrever, (dá-me paz, fico mais gente), que escrever é como respirar, comer ou dormir, é sinal que estou vivo e desperto? Mas a quem pode interessar saber coisas sobre um ilustre desconhecido? Qual é o interesse de conhecer uma vida igual a tantas outras, de um individuo, filho de uma família paupérrima, que nasceu para escrever, que aos catorze anos procurou um editor, que depois, muito mais tarde, publicou contos nos jornais diários da capital, entrevistas e pequenos artigos, que passou por todo o tipo de trabalho, como operário, como chefe de departamento técnico, e que, reformado, para continuar útil e activo, aos setenta anos recomeçou a escrever como se exercesse uma nova profissão. Parece-me que é pouco relevante. Mas, como escrever é exercer uma profissão tão útil como qualquer outra, desde que seja exercida com a honestidade de se dizer aquilo que se pensa, (penso que não há trabalhos superiores ou trabalhos inferiores, todos contribuem para o progresso e o bem estar do mundo), vou aceitar o desafio de me expor. Ficarei feliz se conseguir contribuir para que as pessoas pensem mais; ficarei feliz se me disserem o que pensam do que escrevo… José Solá
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