A sedutora guerreira ( de Danilo Pereira )

 

 E então ele penou para resistir ao charme daquela maravilhosa mulher. Os seus olhos encantaram-se e serpentearam por aquelas perigosas curvas como se fossem uma ávida serpente deslizando sobre a terra. Já o selvagem não ofereceu a menor resistência. Se não fosse pela monstruosa força de vontade daquele guerreiro nórdico, a sua vida seria facilmente levada por aquela mulher.

O bárbaro perdera as suas forças e aquela mulher tinha-o dominado. Para cima dele ela partiu. Talvez por obra do destino, aquela sedutora guerreira de gelo estava predestinada a conhecer o poder de um Aesir. Com a agilidade de um gato chicoteou a espada no ar, fazendo com que aqueles lindos cachos fossem de encontro à neve. O selvagem apenas viu aquele corpo tombar. A rapidez daquele corte fora tão incrível que os seus gulosos olhos não foram capazes de acompanhar a queda daqueles lendários cabelos dourados, que o tinham deixado completamente sem rumo.

A neve pareceu sentir a perda da sua musa. A tão temida guerreira que enlouquecia os homens com os seus encantos tombara e aquela terrível…

 

Trecho da obra, Wolfgang, o guerreiro nordico.

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“A Paixão que Veio do Frio”

” A PAIXÃO QUE VEIO DO FRIO “ – Já disponível no Sítio do Livro (clique no título)

Sessão de autógrafos no dia 20 de Novembro pelas 17h00 na livraria Leya na Barata – Av. Roma, em Lisboa

José Guerra

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Texto extaido do conto: Os virgulinos da pátria assombrada

A águia descrevia círculos, uns abaixo e outro acima, largos, espraiados no silêncio das asas paradas, planando com a cabeça virada para baixo, um piar de excitação ou de paz, talvez de guerra, quem o poderá dizer, e Alberto desligou o motor da moto e ficou debruçado a ver. A águia continuou a piar, a sua fala de vida, que só as coisas da natureza percebem. Depois picou impulsionando o corpo com um bater de asas frenético, e em dois segundos entrou pelas águas do rio com as asas cingidas ao corpo, como meteoro mandado do céu. E quando voltou trazia no bico um peixe grande a debater-se. A águia subiu como flecha de guerreiro celta trazido dos tempos, passou muito para lá do pico da cabana da velha, largou o peixe sobre um penhasco e mergulhou para o voltar a trazer preso no bico. Depois foi, muito acima, e perdeu-se na distância do céu, até que a vista humana a deixou de ver.
As águias são diferentes de nós, os humanos, não pensam com as mesmas subtilezas e linhas de padrão que nós utilizamos, e isto vocês já sabiam; o que talvez não saibam é que as águias ouvem música, lá no cimo, enquanto dançam o eterno baile da vida, em busca de comer para sobreviver, metidas nas brisas do vento, estampadas no céu, rasando as copas das árvores mais altas ou deixando muito abaixo de si as escarpas mais elevadas das montanhas. As águias escutam no silêncio da natureza os mil violinos do céu, escritos pelo melhor compositor, tendo por cenário de fundo a turbulência das águas dos rios, quais tambores, e a partitura com toda a sua carga orquestral vem de cima, do universo, e também de baixo, e dos lados, pois há universo por baixo e por cima, que somos nós senão partículas de universo, talvez misturadas de maneira diferente, estranha, como se fossemos uma espécie de consciência das coisas eternas que giram na dança da vida, expandindo-se em espiral sem limites intemporais, guardando os segredos da vida, que são simples como tudo o que nos chega do universo, que afinal também somos nós. É um raciocínio estranho, pensar que temos no nosso corpo parte do todo que desde o princípio fez os mundos…
Alberto, – quando atingiu a parte de trás da cabana onde morava a velha, (chamada por uns de bruxa e por outros de santa) – encostou a moto ao tronco do castanheiro que fazia sombra ao alpendre da mulher, e que girava em torno de toda a cabana, de seguida deu a volta, e achou-se no terreiro onde a velha estava sentada na cadeira de verga de pontas soltas e saídas, a olhar com os olhos fechados as memórias vividas e revividas pelos anos, e a velha, (espevitada pela esperteza dos anos) deitando-lhe em cima os olhos negros agudos e expressivos, disse-lhe numa voz de sílabas arrastadas por fôlegos curtos, pouco sonora pela falta de dentes:
– Demoraste muito a cá chegar! A Gabriela esteve a fazer-te o juízo em sarrabulho, pela certa.
– Como sabia a tia Apolinária que eu vinha por cá? Agora adivinha as coisas?
– Sempre adivinhei aquilo que os meus afilhados pensam. É um dom que me vem de os trazer à vida, de os querer e de lhes dar as bênçãos da felicidade. Mas diz-me então ao que vens, subis-te tanto que te vejo vermelho, com essa idade. Eu quando era moça pulava serros mais altos e não me cansava, podes crer. Mas diz… diz…
Alberto humedeceu os lábios secos do vento e da altura, viu a figura de sempre vestida dos mesmos trapos de cor perdida, a face com as marcas das bexigas que diziam que tinham sido das doidas, as mãos rendadas de rugas e um nariz curvo, e pensou que idade teria a velha Apolinária, e quantos moços e moças teria trazido ao mundo com as suas mãos de fada, e logo pensando na sede disse-lhe, Um púcaro de água fresca depois desta subida vinha a calhar!
– Serve-te. Sabes onde está a talha e o púcaro está pendurado por cima, como sempre está!
Alberto entrou na cabana, uma enxerga, uma mesa milagreira pelo equilíbrio dúbio, por ter dois pés partidos, o forno de lenha, a talha da água, a escudela de cortiça posta na prateleira, e o púcaro de alumínio pendurado num prego por cima da talha. Tudo na mesma, e parecia que estava assim desde há séculos. Saciou a sede, passou o púcaro por água que depois espalhou pelo pavimento ensaibrado, e foi quando reparou nas bichas enroladas sobre a esteira. Agora são duas, – pensou, – saiu para fora sempre a olhar para trás, com um arrepio a passar-lhe pela espinha.
– Para que quer vossemecê duas bichas daquelas? Não me diga que dorme com elas?
– E porque não?
– Não tem medo?
– Tenho, mas não é das minhas cobrazinhas, é mais de certas pessoas; vamos lá a saber mas é o que tu queres e deixa as pobrezinhas das minhas amigas cobras em paz. Se não fossem elas já as ratazanas e determinadas pessoas me tinham comido viva!
– Porque não tem antes gatos?
– Menino, se tu visses as ratas sábias que se passeiam por aí à noite e que são maiores do que os gatos, e depois de comerem os gatos vinham-se a mim, cruzes credo, santa Mãe de Deus, ser uma mulher alimento de ratas imundas!
– Mas olhe vossemecê que as cobras têm peçonha nos dentes, senhora!
– Mas têm menos do que certas pessoas que andam para aí, pela vida fora a fazerem mal aos outros! Mas, vá, diz então, que eu tenho mais que fazer do que te dar trela!
– Que é que você tem que fazer, criatura de Deus?
– Saiba o menino que eu fico aqui sentada ao forno da tarde para falar com o meu homem, e falamos de tudo, da vossa vida, do cio das vacas, de como estão este ano bonitas as árvores, por causa da chuva que tem havido, e ele, sabes? Chega-te aqui, isso, que estas coisas não se podem dizer muito alto, por mor de os outros não ouvirem!
Alberto acercou-se de orelha empinada a caminho da boca sem dentes da velha, e ela disse-lhe em sussurro de mistura com golfadas de ar e algum cuspo, Ele conta-me coisas do outro lado, ai se Deus descobre que tem lá um coscuvilheiro assim! Minha santa Maria, que aflição do castigo que o pobrezinho ia a sofrer! Nem pensar em dizer estas coisas muito alto, digo-to a ti mas lembra-te que é um segredo, assim como o da criação do mundo, que não é bom mas é a única coisa que conhecemos! E não fales disto a ninguém, porque o senhor quando é preciso, tem tanto de bom como de mau! Cruzes canhoto! – E a velha persignou-se com os dedos da mão direita, primeiro na testa, depois sobre os lábios, e finalmente abrangendo todo o tórax.
– A senhora antes não era tão beata! – Exclamou Alberto retirando pronto o ouvido de tão perto; é que, para além do cuspo, também o cheiro dos dentes da velha era insuportável.
– Não é esse Deus que os padres inventaram, rapaz, é o outro!
– Outro, que outro?
– O Deus da Natureza, criatura descrente!
– Bem, ontem a senhora viu quem atirou a pedra à cara da turista?
-Vi!
– Pode-me dizer quem foi?
– Sim, posso!
– E quem foi?
– Ninguém, foi a pedra que quis saltar. Sabes, não foi com a cara dela por alguma razão. – Chega-te cá ao pé outra vez, Alberto – E agarrou-o pela manga do blusão, a puxá-lo para si. Tenham cuidado, a terra está farta! E são também os ossos, sabes.
– Ossos, quais ossos?
– O dos antigos, os que fizeram a fala, os que pariram os bisavôs dos nossos bisavôs…
A velha que falava com o marido espírito olhando em frente sentada na cadeira de palha rebentada de anos, a olhar o fim da terra no cimo da montanha, calou-se e nada mais disse. Alberto ligou o motor da moto depois de lhe ter dado um beijo na testa, e começou a descer a serra, de vagar, pensativo.

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Acordei-me em ti…

Hoje acordei-me em ti
Sem me importar se o tempo existe
De veludo os beijos te senti
Mãos cegas te tocaram mudas
Boca que se beija em arpejo
Assim como num simples desejo

José Guerra (2011)

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Talisman da fé ( de Danilo Pereira )

Hoje irei falar sobre os talismãs que carregam um imenso poder à aqueles que possuem muita fé. Os guerreiros e guerreiras nórdicas, na maioria das vezes, usam um talisman que os protegem contra maldições e feitiços.

Há dois tipos deles, os que são carregados nas mãos e os que são usados sobre o peito, numa espécie de amuleto. O talisman de mão, vem de Alfheim ( lar dos elfos ) que significa magia, cura, milagres ligados à Deusa Eir e Freya, que são entidades ligadas ao clã Vanir, que representa os Deuses do lado das magias. Essas peças, foram feitas por tecido élfico e geralmente são carregados pelas mulheres, que o usam sempre sobre a mão esquerda.

Já o outro, é comum entre os homens e vem de Midgard ( lar dos guerreiros )  que significa força, destreza, milagres ligados aos poderosos Deuses Odin e Tyr, que são ligados ao clã Aesir, que representa os Deuses da guerra, da força, do aço. Este talismã, fora forjado pelos anões que o representaram em forma de uma lâmina virada para baixo. Em minha obra, Wolfgang o usa sobre seu peito e durante a sua aventura, diversos milagres são realizados através de sua fé, que nunca o abandona.

 

Obra, Wolfgang, o guerreiro nórdico.

 

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Extraído do conto: A Pátria dos Abrunhos (contos polémicos vol.1)

Mas voltemos à diáspora, ao regresso, às boas novas, às más novas. Naquela manhã de lusco-fuscos comprometedores, os vigias, a mando do infante, não do herdeiro, colocados no cimo das falésias de pudim esticadas para o céu verde, olhos esgazeados de tanto tentar ver, patas firmes no chão, mãos nas testas fazendo de palas, ou de binóculos, ou de holofotes sem luz, começaram a gritar de uns para os outros, ó daí! Tu estás vendo o mesmo que eu? E lá do fundo, da outra encosta, do outro pudim, uma voz que respondia, ou que voltava, ou que gritava: Eu? Não! Eu não vejo népia, afinal o que é que estás vendo? E o outro, o deste lado, o de cá, dizia baixo para si, curioso de merda, tu queres é ganhar as alvíssaras todas só para ti. E depois alto, projectando a voz: Ali, ao fundo, aquela coisa que brilha, que vem para cá, ainda escondida na curvatura da terra! – Já sabiam que a terra era redonda, os Olés não, – Há, agora sim, já vejo, parece um fogo-de-santelmo no topo de um mastro, aceso por alguém que levou isqueiro! Levou o quê? Isqueiro! Tá visto que és da província, és dos saloios? Sim!
Os lusco-fuscos comprometidos empurrados pela mão da luz vão-se escondendo para o outro lado da terra – agora que já descobrimos que a terra é redonda já se pode falar assim, antes não se podia, – e as caravelas estão chegando, primeiro os fogos de santelmo, depois os mastros, logo os paus das velas latinas, os tentilhões de papel de jornal batendo as asas já cansados por cima de tudo, logo a seguir os bojos, aquele bater compassado que ainda não se percebia, eram as chicotadas caindo no lombo dos calhaus pretos que puxavam, corpos inclinados para a frente, mãos calosas agarradas às cordas, navegando, navegando sempre, e os pés dos marinheiros Abrunhos escorregando nos seixos rolados do mar sem água, com a pressa de chegar, com a pressa de abraçar, com a fome de contar, com a ganância de ter. Alguém correu a pedir as alvíssaras ao infante que não era herdeiro e a levar as boas novas, as más novas, as desgraças do reino, as tristezas que vinham de lá, das distâncias, das lonjuras do mar sem água mas já com lágrimas de sangue, com fogos adivinhos de guerras, com pez e fogo, com bombardas que iriam ser construídas à pressa, com espingardas e com setas, com colombinas e com machados. Navegar é preciso, trazer é preciso, roubar é preciso. O vigia ruivo com sardas no lombo correndo direito, vindo do infante, gritando de longe, molhado de Sol, curvado de sede, sedento de ter, que vem gritando sem parar, primeiro não se percebe, parece uma canção de amor, de pois vem mais perto, mais e mais perto, e grita e grita: as alvíssaras, meu senhor! Tenho as alvíssaras, trago as alvíssaras, vai repartir por todos meu senhor? O quê? Pergunta o arrais da chalupa que bolina rente à praia à espera das caravelas, das naus, dos capitães do mar oceano que estampa sortilégios e sonhos, que faz brilhar os olhos, que leva as fêmeas a deitarem-se de costas nos seixos da praia, as seis patas para cima, prontas para ficarem prenhas e depois saciadas da fome, vendo os bichos-de-conta que correm na praia fugindo do Sol. O quê? Pergunta de novo o arrais da barca, olhos tontos de espreitar os bordos, de manobrar a bolina, de puxar as cordas. O quê? As alvíssaras, meu senhor! As alvíssaras!
Os capitães das naus, colados nas amuradas sustidas nos sovacos dos marinheiros, olhos a ver e ver a terra da pátria que volta num abraço de tenaz, lá vem! Lá vem! Corram rapazes, corram! E os chicotes zunindo em estalos sonoros excitando os pretos que puxam, puxam, gemem, riem, sofrem, sopram vendavais de raiva saindo das ventas achatadas, berram canções esquisitas numa voz timbrada e forte, estranham a terra, estranham o céu, céu da cubata não é assim, céu da cubata é céu, tem vida, tem cor, canta quando preto está triste, chora quando preto chora, ama quando preto ama, céu da cubata é céu do mundo, este é céu desta terra. Onde estamos? Porque estamos? Que fizemos? Porque nos batem? Porque nos querem? Já estão próximos, já se vê as proas e os olhos pintados nos cascos para atrair os bons augúrios, já as lágrimas de sangue ficaram perdidas nas entranhas do mar sem água, já o Adamastor dorme, já as sereias cantam outros cantos e namoram outras gentes, outros bichos, outros sonhos, já as fêmeas abrem as patas pedindo vida, as alvíssaras do infante estão no saco feito de folhas de tristeza que foi entregue ao arrais da chalupa que agora puxa o batel do infante que desceu à praia, que embarcou na praia, que voltou à praia, já o infante admira o lombo daqueles pretos calhaus que puxam cordas e faz conta à fortuna, pensa no lucro, avalia os resultados do investimento. Já o infante olha os pretos olhos nos olhos, apalpa-lhes os músculos elásticos e fortes, sente o macio das peles que não são peles, são planos de rocha, admira os dentes a pensar na idade, olha o carvão dos olhos e sente a volúpia, o prazer, o amor que sobe, a ânsia de ter, possuir, sofrer, amar sem ver, no ventre da caverna da vida, preto ao lado, preto que abraça, preto que já não chora, ama.
O Rei no seu campo de liças treinando para os torneios recebeu a notícia, levada pelo estafeta real que correu três dias e duas noites sem parar montado no seu cavalo de pau, deu alvíssaras e evocou os milagres do céu, mas o cavalo segredou-lhe baixinho, orelha com ouvido, boca com boca, olhos com olhos, provei à liça do mundo e esquecei as vãs glórias, desafiai em valentia os gentios e vencei as guerras, dilatai a fé e trazei o lucro, pelejai com denodo e ganhai o mundo.
Que quereis dizer com isso, meu belo cavalo amado? Não vos iludais, senhor, tal como a rainha vos oferece filhos fáceis, também as glórias fáceis são efémeras! Lutai com ardor pelo sal amargo que vem do suor das mãos que trabalham, esquecei as sedas e os cetins, vede quão belo é o mundo quando o ganhamos! Mas o Rei viu a glória e esqueceu o cavalo, o dinheiro da glória compra cavalos, os cavalos não compram glórias, só emprestam sonhos.
O Rei ordenou três dias de festas, de júbilo, de sonhos de quimeras de ter, e com a corte saiu à praia, a ver, a Rainha na sua carruagem de trevas puxada por borboletas pariu mais um filho, e sorrio, vendo o Rei contente montando o seu cavalo travesso, seguido do povo que corria e gritava, vamos à praia a ver!
E lá estavam, fundeadas nos seixos lisos do fundo, sem velas e com os tentilhões descansando pousados no topo dos mastros. Os capitães contavam os fardos que os pretos carregavam para o bojo dos batéis pequenos, por cima de pranchas de pedra e logo os arrais alinhavam a carga, no fundo dos batéis, e os escriturários reais tudo registavam em folhas de pergaminho usando tinta de sangue. Os segredos da navegação, por onde iam, a onde tinham chegado, com quem haviam falado, com quem tinham dormido, o que tinham comido, a quem tinham perguntado o caminho, quanto tinha custado, porque tinham voltado, tudo isto era fechado dentro de arcas trancafiadas com correntes e fechadas por fortes cadeados. Só depois vinham a terra, guardados por Abrunhos fortes armados de longas espadas e rijas lanças, e logo depois iam a dar graças, a pagar promessas, a comprar vinho, a amar fêmeas, a rever o reino.

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Chorei-te um rio de pranto…

Chorei-te um rio de pranto
Desalento vil esperança
Outono mágoas me trouxeste
De um amor que me deste
Sem me dares
Assim me puseste

José Guerra (2011)

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Sobre o futuro dos livros, dos editores e dos livreiros…

Andei a ler por alto as justas preocupações que trazem sobressalto à nossa indústria do livro. É evidente que o consumo do livro se recente do cada vez menor puder de compra que aflige as pessoas. Os livros, sendo uma primeira necessidade para o espírito, não o são de todo para a barriga, e com barriga vazia não existem anseios espirituais. Em primeiríssimo lugar vêem as necessidades da sobrevivência. Quanto aos livros em formato e-book, são uma possibilidade, mas sempre de segundo plano. E porquê? É simples. Chama-se memória. A memória em primeiro lugar, mas logo depois vem a necessidade de renovação de estilos e de ideias, e depois a qualidade do mercado. São questões que fazem dos editores muito mais do que simples comerciantes. O papel de comerciante é fato que assenta melhor ao livreiro do que ao editor, a este o meio-termo; se, por um lado, não pode e não deve descorar as perspectivas de lucro, por outro, cabe-lhe encontrar novos autores, o que implica, em muitos dos casos, (senão mesmo em todos), correr riscos, o que, nos dias que correm, pode significar para muitas editores a falência. Quanto ao nosso mercado, tem a ver com a qualidade e os interesses dos leitores. Se pensarmos no grande Fernando Pessoa, vemos que ele foi aceite pelos portugueses depois de os estrangeiros o descobrirem. Isto salienta as muitas fragilidades do nosso mercado. È difícil a situação dos nossos editores. Como decidir? O recurso sistemático aos autores estrangeiros vai progressivamente afectando os nossos novos escritores, e isso tem como resultado o empobrecimento, até a perda, (atrevo-me a dize-lo), da nossa identidade como povo.
Contudo, e para mim, a questão da nossa memória é fulcral. Muito novo comecei a frequentar alfarrabistas, livrarias e bibliotecas. Nas livrarias perdia horas a folhear livros até descobrir um que mais me prendia a atenção. Nunca fui fã de autores, embora tivesse preferências, mas aprendi que, para definir o que, para mim, é bom, tenho de também entender o que para mim não é o melhor. E tive, com este meu critério, muitas e agradáveis surpresas. Aprendi a pensar melhor com a leitura de obras consideradas de segundo plano, e tive agradáveis surpresas quando, mais tarde, as vi reconhecidas pela crítica e pelo público.
Julgo que a solução mais eficaz passa pela presença da obra, exposta no maior numero possível de locais de venda, de preferência livrarias, só que em pequenas quantidades, (quatro exemplares, no máximo), e, se possível, com o “truque” da redução de preço por não haver despesas de envio. Habituar o publico a encomendar a obra na livraria, depois de, (de acordo com as memórias da infância), a seleccionar após a leitura de uma ou outra página. Promover debates com a presença e a participação dos autores. Não e somente sessões de autógrafos ou lançamento de livros. O porquê do livro, especificamente daquele livro. A razão de ser do tema. Os meandros do raciocínio que levou a abordar o assunto daquela maneira e não de outra. Debates em livrarias, bibliotecas, ou outros locais apropriados e abertos ao público. Façam alguma coisa, mesmo que da primeira vez ocorra um ou outro disparate, mas, por amor de Deus, não deixem morrer os livros, e muito menos por razões economicistas que são de todo incompreensíveis!

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Não durmo…

Não durmo
Porque do sono se fez prosa
Das letras ecoam silêncios que falam
Que o cheiro da chuva levou
Não durmo
Porque penso que voltas
Sem voltares me acordas
Insano fico
Não durmo

José Guerra (2011)

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Que República temos? Que Europa queremos?

As muitas histórias que correm sobre as figuras que passaram pela nossa Assembleia da República, simplesmente, assustam-me.
Lembro-me de José Saramago dizer: “Sou português em primeiro lugar. Depois, Ibérico. Quanto a Europeu, só se me apetecer!”
O evidente orgulho da nacionalidade é bem patente nesta frase. E por estes princípios e com igual orgulho eu tenho pautado a minha simples e modesta vida. Sou português, por nascimento, por orgulho e por respeito pela cultura do meu País. Sou Ibérico pela minha costela espanhola herdada de um bisavô, e de igual modo pelo respeito que a cultura da Espanha me merece. Pela lucidez de homens como Cervantes, pelos escritores, pelos génios da pintura, pela música, enfim, pela “garra” da alma espanhola. Mas, quanto a português, por estes últimos tempos, o meu fervor anda muito por baixo. Quando as figuras públicas surgem-nos como gente faltosa, sem escrúpulos, acusados pela prática de crimes de sangue, assassínios, extorsão, abuso de confiança, o nosso patriotismo baixa o nível. Afinal, que País é este, onde advogados sem história, ex-deputados, compram casas de milhões, movimentam-se no mundo sórdido dos assassinos, aparecem à luz do Sol com roupagem de bandidos, e quando Conselheiros de Estado simplesmente desaparecem, e outros são despesistas inaceitáveis num País onde as pessoas são espoliadas do sagrado direito de comer, e de todos os seus legítimos direitos de cidadania, como a assistência na doença, como a justiça, como o direito ao trabalho, como o direito a terem de seu o que conquistaram ao longo de anos e anos de árdua luta? Que País temos, que República conseguimos construir? O que somos afinal, no entender dos nossos governantes, povo ou gente que serve apenas para pagar impostos, imigrar como sempre sucedeu ao longo dos séculos, e enviar dinheiro para manter de pé este Estado hipócrita, faltoso, imoral, anti-patriótico, assente na legitimidade de uma Assembleia de ricos e tontos senhores, que se reformam ao fim de escassos anos de serviço, (dizem eles) público? E porque ficam sempre sem resposta as criticas e as dúvidas, os anseios e os “gritos de alma” dos poucos portugueses que teimam em manter firme a coragem de denunciar, alto e bom som, a sordidez em que o País mergulhou? Portugal trabalha hoje para pagar juros de juros de juros e mais juros. E pagar como? Com que dinheiro? O das reformas? O dos subsídios? Onde pára o sacrossanto exército equipado com submarinos que combatem por contacto físico, aviões que bombardeiam com a urina dos pilotos, um exército que está em estado de prontidão para travar as guerras que outros geram e abandona às mãos dos carrascos o País a que pertence? É possível descer mais baixo? No meu entender penso que não. Descemos ao fundo de tudo o que a escala da degradação humana permite. Se a nossa grandeza está em sermos insignificantes, aí sim, somos terra de gigantes.
Portugal é terra de gente boa. Somos hospitaleiros, acolhedores, pacíficos, ordeiros, mas, acima de tudo, somos ingénuos e crédulos. Este “calcanhar de Aquiles” é o nosso paradoxo. No nosso território acolheram-se pessoas que vieram por bem. Acolheram-se na beleza, na pacatez e na segurança dos nossos campos. Trouxeram divisas, outras ideias, outro sentir. Vieram por bem e por cá ficaram. Hoje o que temos para lhes dar? Insegurança. Assaltos. Diariamente assaltam-se ourivesarias, espancam-se pessoas, rouba-se, na impunidade gerada num País onde os governantes discutem de forma interminável o deficit que só eles, e apenas eles criaram. Nas televisões são intermináveis as filas de economistas de ocasião a falarem sempre do mesmo, e da mesma maneira, e são sempre os mesmos. Não variam, são como os políticos que se oferecem para compra nas eleições. Amigos: escolham entre este que é péssimo e aquele que sendo mau nos cospe menos na cara. Vá, rápido, tomem uma decisão, mas depois não se queixem. Foram vocês que escolheram. E, olhem, é para ficarem quatro anos, nunca menos; sabem, é preciso tempo para se verem resultados das políticas. Por tudo isto eu pergunto de novo: onde pára o exército, e como pensa? Se estão bem nós podemos estar mal. É um problema meramente civil. Se estão mal nós não podemos estar bem. É um problema nacional!
Falemos agora da Europa. É esta a Europa que queremos? A Europa dos meus anseios passa por uma união de Estados, porque não? Federados; um governo central, um exército comum, uma politica internacional conjunta, direitos de cidadania iguais, salários equivalentes entre todos os Estados; pessoas felizes, prósperas; gente com orgulho não e somente das velhinhas nacionalidades, mas das diferenças, e da grande cidadania Europeia. Gente de Facto Igual, nos credos, nas culturas, nas tradições, no amor pela liberdade. Gente de Bem. Nesta Europa dos meus sonhos cabe, mais do que um mundo de valores; um mundo de pátrias. E também um mundo de Regiões, umas mais ricas, outras mais pobres, mas todas iguais nos direitos pela justiça, no direito à vida e ao Bom Nome. O que temos? Uma Europa de Faz de Conta, dos interesses hipócritas, das Raças Superiores, (que outrora ceifaram dezenas de milhões de vidas), que se pavoneiam num mundo de faz de conta, prontas para repetirem as taras de ontem, espalharem pelo mundo tortura e morte.
NÃO QUERO ESTA EUROPA! Nem que tenha de comer pedras, beijar cobras e fazer vénias ao demónio! Não! Quero ser Homem Livre. Homem sem Mercados. Homem com Dignidade e com Decência! Homem com Pátria, mas Homem de Outro Mundo!

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