“A Paixão que Veio do Frio”, um romance inolvidável

“Os corpos desnudos deixavam-se percorrer por mãos trémulas, ansiosas e suadas. Os lábios encontraram-se no silêncio e nos olhos que por momentos se fecharam. Os dedos titilavam na pele exortando o desejo que o calor do momento impelia.” in, “A Paixão que Veio do Frio”, romance da minha autoria, que pode ser adquirido por encomenda online através do Sitio do Livro. Também disponível na livraria Leya na Barata em Lisboa (Av. Roma). Autor José Guerra

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“JUNTOS PARA SEMPRE” – ( 10 )

José Eduardo Taveira

 

Terminado o castigo, Maria regressa à camarata. O seu aspecto é deplorável. Está magra e doente. Dominada pelo poder absoluto e arbitrário das freiras, sente-se humilhada e ofendida na sua dignidade. Nestas circunstâncias tudo é indiferente, aconteça o que acontecer.

– Para quê viver? Que sentido faz ser uma mulher, quando na realidade sou um monte de carne a quem roubaram a inteligência, os sentimentos, o amor?

Dirige-se à cama para se deitar e parece reconhecer Laurinda numa visão fosca, franzindo os olhos para tentar definir com mais rigor a figura. Sente um impulso fremente de a espancar, mas não tem forças e agravaria a sua situação.

– Nunca te perdoarei, traidora miserável que destruíste a minha vida. Nunca te perdoarei. Nunca!

Laurinda não calculara que a sua denúncia causasse castigo tão horrível para Maria. Reconhece o seu erro e desejava pedir-lhe perdão, mas desiste com medo da reacção da colega. Nunca mais se falaram.

Durante a noite, Maria sente-se mal, com febre, dores no peito e tosse. Como não se levantou ao toque de despertar, uma freira aparece chamando-lhe calaceira. Ao ouvir os sintomas que Maria lhe transmite, vocifera:

– Tu estás infectada e vais ser transferida imediatamente para o Hospital. Desgraçada, que só nos dás problemas. Que Deus seja louvado. Ámen.

Chegada ao Hospital e após exames médicos foi diagnosticada uma pneumonia. Maria vai ficar internada durante alguns meses.

– Apesar de tudo, sempre será melhor estar aqui que no Orfanato. – pensou.

(Continua)

José Eduardo Taveira

 

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Sabe, Excelência:

Os desempregados deste País (setecentos mil, segundo os números oficiais, que, ao certo, ninguém sabe quantos são), essas pessoas que desesperam e passam fome, que vêm os filhos sofrer, gente sem futuro, os que trabalham ainda e temem perder o emprego, os mais esclarecidos e academicamente bem preparados, que os senhores com todo o gosto escorraçam do País, os que todos os dias perdem um pedaço da sua legitima Identidade como cidadãos, porque Suas Senhorias lhes vendem a ortografia para fazerem dinheiro fácil, em fim, todos nós, os gladiadores que, nesta arena ensanguentada erguem aos céus as espadas e gritam: Salve César! Os que vão morrer te saúdam! Todos nós, repito, sempre que Sua Excelência, de cima do seu pedestal, do qual nos olha, reflecte sobre questões de reformas, têm obrigação de o venerar e aplaudir. É que Vossa Senhoria desmascara o sistema. Sem se dar conta, (penso).
Neste nosso mundo, que se quer assim, incivilizado, eternamente queixoso, e profundamente ignorante, apenas os ratos o detestam. É que toda a sociedade da rataria se revia e se escondia em si, por baixo do seu avental maçom ou acobertados sob o seu manto Opus Dei. Conselheiros de Estado e ex-deputados que enriqueceram a servirem-se do sistema, Presidente de uma certa e bem conhecida Região Autónoma, onde o rega-bofe da falcatrua tudo indica que tem força de lei. A ilegalidade de poderosos grupos económicos que viveram e exploraram o sistema até ao tutano; e apenas nós, os minúsculos e insignificantes cidadãos, aqueles que se espantam com despesas de sessenta mil euros para gastos sumptuários com decorações de gabinetes de Estado, que se querem por princípio austeros, limpos, arejados, e bem desinfectados, para afastar de forma cabalística, (que a limpeza e asseio representa), os parasitas indesejáveis, apenas e somente nós, finalmente entendemos, e por isso lhe estamos gratos. Bem-haja, Excelência!
Pessoalmente, sempre o comutei com a orquestra do paquete Titanic.
É que, enquanto o barco mergulha a pique no abismo, Vossa Excelência toca o seu violino…
José Solá

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Sou ave despida do passado…

Respiro a solidão da noite
Sem que do sol a deixe fazer manhã
Grito num prenúncio de uma alvorada
Sou ave despida do passado
Sou do mundo, sou de ninguém

José Guerra (2012)

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“JUNTOS PARA SEMPRE” – (9)

“JUNTOS PARA SEMPRE” – ( 9 )

Durante um mês, Maria viveu tormentos que nunca esquecerá. O quarto dos castigos é horroroso. Apenas um olho-de-boi gradeado na parte superior de umas das paredes permite que uma ténue réstia de luz solar penetre na cela. Uma tarimba e um colchão esburacado servem de cama. Duas mantas velhas e bafientas protegem com insuficiência do frio húmido do Inverno. A um canto, dois baldes, um com água e outro para usar como latrina. Ambos são substituídos de três em três dias. Pendurada num prego ferrugento, uma toalha que nunca foi trocada. As refeições, constituídas de pão seco e macarrão cozido, são transportadas em marmitas amolgadas, negras, gordurosas e repelentes. Passou fome e sede, até não sentir vontade de se alimentar. A escuridão da cela, a humidade e o frio provocaram no seu consciente a visão de um corpo inexistente, insensível e exânime. Deitada na tarimba, de mãos coladas ao peito, olhos cerrados, sugere a imagem de um ataúde esquecido e desprezado à espera que o tempo o devore concedendo a Maria a felicidade eterna.

(CONTINUA)

José Eduardo Taveira

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Poesia e Prosa Poética

Se a poesia fosse mar, seria o sal das tuas lágrimas escritas nas ondas do teu olhar…(JGuerra, 2012)
http://jmbguerra.blogspot.com

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“JUNTOS PARA SEMPRE” – (8)

             Maria dá um grito de pavor quando alguém lhe agarra os cabelos com violência. Aterrorizada, vê uma das freiras, que a arrasta para dentro.

– Sua espertalhona. Com que então queria fugir, a fidalga, a princesa do Orfanato queria ir passear, talvez ver as montras e fazer umas comprinhas para o enxoval! Malandra, vais já para o quarto dos castigos. Ficas lá um mês a gozar as regalias exclusivas só concedidas a fidalgas e princesas. Não vai faltar nada a sua majestade!… Vai à minha frente imediatamente, sua imbecil, sua sem-vergonha! Parvalhona, armada em esperta!

Maria olha para o cimo das escadas e vê Laurinda com um semblante comprometido.

Não resistindo ao sentimento de  revolta,   grita para Laurinda:

– Traidora! Traidora!

 

(Continua)

José Eduardo Taveira

 

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“PARABÉNS! EUGÉNIO DE ANDRADE”

Eugénio de Andrade nasceu na Póvoa de Atalaia, concelho do Fundão, no dia 19 de Janeiro de 1923 e viveu até 13 de Junho de 2005.

Aos vinte anos muda-se para Coimbra, onde cumpre o serviço militar.

Desempenhou as funções de Inspector Administrativo do Ministério da Saúde, durante 35 anos.

Fez várias viagens, cumprindo uma série de convites para participar em vários eventos. Conheceu poetas e escritores, tais como Miguel Torga, Marguerite Yourcenar, Teixeira de Pascoaes, Herberto Hélder, Óscar Lopes, Jorge de Sena, Sophia de Mello Breyner Andresen, Mário Cesariny e muitos outros.

Como reconhecimento pela sua excelente obra poética, traduzida para várias línguas, foi distinguido com vários prémios, tanto em Portugal como no estrangeiro, destacando-se o Prémio da Associação Internacional de Críticos Literários em 1986, Prémio D. Dinis da Fundação Casa de Mateus em 1988, Grande Prémio de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores em 1989, Prémio Camões em 2001 e o Prémio de Poesia do Pen Clube Português em 2003.

Foi agraciado pelo governo Português, com o grau de Grande Oficial da Ordem de Santiago da Espada e a Grã-Cruz da Ordem de Mérito.

Destaca-se algumas das obras poéticas, tais como: As palavras interditas, Rente ao dizer, Matéria Solar, O sal da língua, Oficio da Paciência, etc.

Também foi autor de vários livros em prosa e tradutor de algumas obras de Francisco Garcia Lorca, da poetiza grega Safo, de Jorge Luís Borges, entre outros.

Nesta pequena homenagem no dia do seu nascimento, recordamos o  poema:

“As palavras”

São como um cristal,

as palavras.

Algumas, um punhal,

um incêndio.

Outras,

orvalho apenas.

Secretas vêm, cheias de memória.

Inseguras navegam:

barcos ou beijos,

as águas estremecem.

Desamparadas, inocentes,

leves.

Tecidas são de luz

e são a noite.

E mesmo pálidas

verdes paraísos lembram ainda.

Quem as escuta? Quem

as recolhe, assim,

cruéis, desfeitas,

nas suas conchas puras?

 

José Eduardo Taveira

 

 

 

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Amigos:

Fui incentivado pela minha filha a dar uma espreitadela no meu sítio, no facebook.
Agradeço o vosso apreço, e vou preparar alguma coisa para voltar. Quero, contudo, salvaguardar um princípio que nos toca a todos, e que nunca devemos ignorar: Somos um País, pelo menos, por enquanto. Temos uma cultura nossa, uma língua em que nos exprimimos e, consequentemente, uma lógica, uma maneira muito própria de entendermos as coisas, e se perdemos isso, então ficamos sem saber o que somos. Percebo que nos manipulam a cada dia que passa. É como diz o Fausto, lá do seu Brasil, A Arte de Manipular. Querem-nos uma humanidade formada por povos – rebanhos, medidos pela mesma bitola, cabisbaixos e ignorantes, a trabalhar de borla e a pedir como estímulo mais chicotadas no lombo. Querem-nos fáceis de roubar e de abater. Querem-nos como o “Cavalo do Inglês” que quando se habituou a não comer, quando ficou, portanto, mais “baratinho”, morreu, para espanto do seu dono e senhor.
Perguntam o que tem isto a ver com o facebook. Tudo. A lógica desses senhores não é a nossa lógica, e portanto não somos obrigados a aceitá-la. É que continuamos a ser um País. E mesmo depois de mortos, vamos continuar a ser, a menos que tenham o trabalho e a despesa de nos sepultarem em outras terras, que não as nossas!
José Solá

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“JUNTOS PARA SEMPRE” – Romance – (7)

    “JUNTOS PARA SEMPRE” – (7)

Com a chegada do Inverno voltam as chuvas e o frio que penetram nas paredes e agridem as meninas carenciadas de roupa e calor. A solidão é ainda mais amarga. Sentir o frio do Inverno e o gelo do isolamento. Estar entre gente que não se olha nem se fala. Passar horas, dias, semanas, meses num vazio penoso, sem que surja um instante de expectativa para um futuro diferente.

Maria só pensa em sair dali. E quer que o seu desejo seja realidade. Começa a controlar as entradas e saídas do empregado da mercearia que abastece o Orfanato e a movimentação das freiras. A porta da rua está sempre trancada, mas enquanto decorre a operação logística fica escancarada durante breves minutos.

– É só esperar pelo momento certo. – decide.

Maria resolve partilhar com Laurinda o seu segredo. E quem sabe, fugirem as duas. Ela é a única pessoa que considera ser merecedora de saber da sua intenção, mas não mostra entusiasmo pela ideia. Entretanto, sente-se amedrontada, mas tem de resistir. Afinal, é uma mulher! Tenta disfarçar, trocando um sorriso com Laurinda.

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Será hoje.

O sol tinha nascido radioso como a saudar a partida de Maria. O sino já tocara para o levantar. Sete e meia.

A última noite demorou séculos a passar. A partir de hoje deixará de ouvir os malditos sinos e as vozes esgazeadas daquelas mulheres austeras, enfadonhas e por vezes cruéis na forma como tratam as crianças e as jovens. Está cansada. Mas tem de concentrar todas as forças para executar o seu plano. Quando estiver lá fora, verá o que fazer. Olha para Laurinda que parece adormecida. Sente tristeza por não partilhar com ela a emoção que está a viver. Se tudo acontecer como nas últimas semanas, o rapaz da mercearia bate à porta por volta das oito horas da manhã. Uma freira vai abri-la e ele dirige-se três ou quatro vezes à carrinha para buscar os cestos que transporta para a despensa da cozinha. Entretanto a porta fica aberta. A freira encarregada de conferir as compras está na despensa a receber as encomendas. Maria tem tempo suficiente para sair sem que ninguém a observe. Sente quase uma agonia, um aperto na garganta. O seu corpo transpira de agitação. A sua cabeça está cheia de tanta coisa, que não tem espaço para pensar. É uma mistura de sentimentos que ela não compreende nem sabe explicar.

– São oito e meia e o marçano não aparece. Terá havido algum problema? – sussurra.

Maria percorre o corredor que dá acesso às escadas que terminam na porta, para a qual olha com ansiedade. Finalmente, ouve retinir o badalo. É o rapaz da mercearia. Vacila, mas tem de reagir. Não pode perder esta ocasião. Espera que a freira acompanhe o merceeiro até à despensa. Lentamente, inicia a descida até à porta aberta, desafiando a sua coragem. Solta alguns suspiros de agitação. Está a um passo de atravessar a fronteira e correr, correr para bem longe dali, para que nunca mais a encontrem. Para continuar a ser infeliz, talvez, mas não ali.

(Continua)

José Eduardo Taveira

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