Tinta preta

 

Seca-me a boca

De tanto silêncio,

De tantos gritos que ficaram

Entalados na garganta.

 

Bebo um copo de água,

A expressão inalterada

Da máquina perfeita,

Da máquina que cumpre,

Que ri quando apropriado,

Na mordaz sensatez

De ser apenas o que de si se espera.

 

Mordo as mãos

Do conformismo que me basta

Como se fosse o último dia

E não houvesse mais tempo

Para protelar a verdade.

Rasgo as letras no papel

Que se tinge de vermelho,

Matam e ferem

E logo se apagam.

 

O ser humano dura menos que um suspiro,

Frágil como um galho ao vento.

A minha mão é quanto basta

Para destruir.

 

Ana Brilha

www.intermitenciasdaescrita.wordpress.com

 

Saiba mais sobre este livro:

http://www.sitiodolivro.pt/pt/livro/a-apologia-do-silencio/9789899718821/

http://www.goodreads.com/book/show/13556712-a-apologia-do-sil-ncio

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        Olá

Venho participar que este livro, JÁ NASCEU e é com MUITA EMOÇÃO E ALEGRIA, que dou esta Notícia.

Podem adquiri-lo através do site Sitio do Livro, por encomenda, recebendo então o livro em casa, em papel.

http://www.sitiodolivro.pt/pt/livro/margarida-e-os-ensinamentos-sabios-da-sua-filha-joana/9789899737549/

Espero que Gostem e que este conto vá ao encontro de Muitas Crianças a partir dos 9, 10 anos, assim como aos adultos, pois “todos nós temos a nossa criança interior que espera por nós” 🙂

Um Grande Abraço

Rita Lacerda

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“AoSol’ÉqueSeEstáBem… a gregântica pena da agnóstico’anárquica espiritualidade, é um manifesto em prosa pó’Ética e conta com todos os direitos reservados… e os esquerdos também…

Image

Num post’e com um título tão grande, não se pode querer um texto maior ainda…

Por isso e só por isso, deixo-vos aqui o link para apreciarem… se quiserem, “aquilo” que tão grande prazer me deu em fazer…

 

B)’iL

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PÉTALAS DE POESIA

                        

 

 

 

                                                           PÉTALAS DE POESIA

A Primavera, as Flores e a Poesia formam uma trilogia inspiradora, de explosão de vida, de paz e reflexão sobre o sentido da nossa existência.

As flores de mil cores, formas e perfumes que a natureza nos oferece para contemplação e delícia dos nossos sentidos, os poemas de todas as origens que nos enternecem uns, nos alertam, outros.

A seguir pétalas de poesia de poetas universais:

Konstantinos Kaváfis – Grécia – Flor: Laurel

                                                        À Espera dos Bárbaros

 O que esperamos na agora reunidos

É que os bárbaros chegam hoje.

Por que tanta apatia no senado?
Os senadores não legislam mais?

É que os bárbaros chegam hoje.
Que leis hão de fazer os senadores?
Os bárbaros que chegam as farão. (…)

T.S.Eliot  –  Estados Unidos – Flor: Rosa

O enterro dos mortos

Abril é o mais cruel dos meses, germina
Lilases da terra morta, mistura
Memória e desejo, aviva
Agónicas raízes com a chuva da primavera. (…)

Federico Garcia Lorca – Espanha – Flor: Cravo vermelho

                                                     A Captura e a Morte

                                                        Às cinco horas da tarde.

Eram cinco da tarde em ponto.

Um menino trouxe o lençol branco

às cinco horas da tarde.

Um cesto de cal já prevenida

às cinco horas da tarde.

O mais era morte e apenas morte

às cinco horas da tarde.

Carlos Drummond de Andrade – Brasil – Flor: Ipê amarela

                                                            Campo de Flores                                 

Deus me deu um amor no tempo de madureza,
quando os frutos ou não são colhidos ou sabem a verme. Deus – ou foi talvez o Diabo – deu-me este amor maduro,
e a um e outro agradeço, pois que tenho um amor.

Pois que tenho um amor, volto aos mitos pretéritos
e outros acrescento aos que amor já criou.
Eis que eu mesmo me torno o mito mais radioso
e talhado em penumbra sou e não sou, mas sou.

             Octávio Paz – México – Flor: Dália

Primavera à Vista

 O dia abre os olhos e penetra

numa primavera antecipada.

Tudo o que as minhas mãos tocam voa.
O mundo está cheio de pássaro

– William Butler Yeats – Reino Unido – Flor: Rosa vermelha

                                                                         A Torre

(…) Estranho; quem fizera a canção era cego;
Mas, pensando bem, não acho
Nada estranho; a tragédia começou
Com Homero que também era cego,
E Helena atraiçoou tanto coração palpitante.
Oh, podem lua e sol parecer
Um raio inextricável
Pois se triunfar tornarei os homens loucos. (…)

– Pablo Neruda – Chile – Flor: Copihue

                                                 Quero apenas cinco coisas.

Primeiro é o amor sem fim
A segunda é ver o outono
A terceira é o grave inverno
Em quarto lugar o verão
A quinta coisa são teus olhos
Não quero dormir sem teus olhos.
Não quero ser… sem que me olhes.
Abro mão da primavera para que continues me olhando.

– Francis Ponge – França – Flor: Íris

                                                                           A Ostra

No interior encontra-se todo um mundo,
de comer e de beber: sob um “firmamento” (propriamente falando) de madrepérola,
os céus de cima se encurvam sobre os céus de baixo,
para formar nada mais que um charco, um sachê viscoso e verdejante,
que flui e reflui para a vista e o olfato,
com franjas de renda negra nas bordas.

Jorge Luís Borges – Argentina – Flor: Ceibo

Viver a Vida

“Se eu pudesse novamente viver a vida…
Na próxima…trataria de cometer mais erros…
Não tentaria ser tão perfeito…
Relaxaria mais…
Teria menos pressa e menos medo.
Daria mais valor secundário às coisas secundárias.
Na verdade bem menos coisas levaria a sério.
Seria muito mais alegre do que fui.
Só na alegria existe vida. (…)

Yu Xuanji – China – Flor: Peônia

                                                       Deixando-se levar

Nenhum laço me prende; sempre livre,

vou sem destino, leve entre as paragens

Nuvens se abrem entre lua e rio,

amarras frouxas, barco em pleno mar (…)

Fernando Pessoa – Portugal – Flor: Lavanda

                                                                   Tabacaria

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?). (..)

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Apesar de não ter ainda ocorrido a cerimónia de lançamento deste novo livro de poesia ele já está disponível para encomenda online no site do Sítio do Livro.
Conta com o contributo da Fundação AFID Diferença, que receberá o evento do lançamento em Abril, e cujos artistas elaboraram a imagem de capa.
Para adquirir o livro basta registar-se no site e proceder à encomenda, indicando a morada desejada e escolhendo uma das diversas formas de pagamento disponíveis.
Boas leituras!

 

Ana Brilha

www.intermitenciasdaescrita.wordpress.com

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PARABÉNS, ILSE LOSA !

Ilse Losa nasceu no dia 20 de Março de 1913 e viveu até 6 de Janeiro de 2003.

Nasceu em Bauer, no norte da Alemanha. Frequentou o liceu e um instituto comercial. De origem judaica, abandonou o seu país em 1930, devido às ameaças da Gestapo de a enviarem para um campo de concentração. Viveu de perto o holocausto nazi.

Viajou até Inglaterra onde contactou escolas infantis e se interessou pelos problemas das crianças. Quatro anos depois chegou a Portugal e viveu na cidade do Porto, onde casou com o arquitecto Arménio Taveira Losa, tendo adquirido a nacionalidade portuguesa.

Em 1943, publicou o seu primeiro livro “O Mundo em que vivi”, onde relata as suas memórias das perseguições aos judeus.

Colaborou em diversos jornais e revistas alemães e portugueses. Trabalhou para a televisão, escrevendo séries infantis.

A sua bibliografia inclui contos, crónicas, literatura para crianças e romances. Está representada em várias antologias de autores portugueses, sendo algumas traduzidas para alemão e publicadas na Alemanha.

Das suas principais obras, destaca-se: “O Mundo em que Vivi”, “Histórias Quase Esquecidas”, “O Rio sem Ponte”, “Aqui havia uma Casa”, “O Barco Afundado”, “Caminhos sem Destino”, “Sob Céus Estranhos”, “A Flor do Tempo”, etc.

Os romances “O Mundo em que Vivi” e “Sob Céus Estranhos”, foram editados na Alemanha.

Recebeu vários prémios: Prémio Gulbenkian; Grande Prémio Gulbenkian pelo conjunto da sua obra para crianças e jovens; Grande Prémio de Crónica da Associação Portuguesa de Escritores.

Numa entrevista ao JN, Ilse Losa afirmou: “há livros escritos para crianças que suplantam em valor literário uma longa fiada de volumosos romances para adultos, do mesmo modo que um pequeno desenho a carvão suplanta, tantas vezes, grandes composições policromáticas a óleo.”

Óscar Lopes, crítico literário, escreveu o seguinte comentário sobre o romance “O Mundo em que Vivi” de Ilse Losa:

“Numa escrita inexcedivelmente sóbria e transparente, e através de breves episódios, este romance conduz-nos em crescendo de emoção desde a primeira infância rural de uma judia na Alemanha, pelos finais da Primeira Grande Guerra Mundial, até ao avolumar de crises (inflação, desemprego, assassínio de Rathenau, aumento da influência e vitória dos Nazistas) que por fim a obrigam ao exílio mesmo na eminência de um destino trágico num campo de concentração. Há uma felicíssima imagem simbólica de tudo, que é a do lento avançar de uma trovoada que acaba por estar “mesmo em cima de nós”. (…) Um romance de características únicas na leitura portuguesa, e emocionalmente certeiro”.

Nesta singela homenagem na data do nascimento de Ilse Losa, um excerto do romance “O Mundo em que Vivi”:

“O primeiro dia da escola. A saca às costas, caminhei ao lado da minha mãe, cheia de curiosidade e de receios. O Sr. Brand, o professor, distribuía sorrisos animadores aos meninos, que o fitavam com desconfiança. A barba grisalha e o colarinho engomado davam-lhe um ar de austeridade, mas os olhos alegres protestavam contra tal impressão. Começou por nos falar, e doseava serenidade com humor para afugentar os nossos medos. De todas as escolas por que passei, a de que verdadeiramente gostei foi a escola primária. Quando o Sr. Brand tomou nota do meu nome ninguém se virou para mim com sorrisinhos por soar a judaico, ninguém achou estranho eu responder “israelita” à pergunta do Sr. Brand à minha religião. Fora a mãe que me recomendara: “Quando o Sr. Brand te perguntar pela religião, diz-lhe que és israelita. Soa melhor do que judia”. Eu não concordava, porque achava “israelita” uma palavra estranha que não parecia pertencer à minha língua e, por isso, corei de embaraço ao pronunciá-la. E quando o Sr. Brand quis saber a profissão do meu pai respondi “negociante de cavalos”. Coisa natural. Muitos alunos eram filhos de lavradores e conheciam o meu pai. Não me sentia envergonhada daquilo que eu e o meu pai éramos, como aconteceria mais tarde, no liceu, quando a minha mãe me recomendou que às perguntas respondesse, além de “sou israelita”, que o meu pai era “comerciante”.

 

José Eduardo Taveira

 

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“A arte de não fazer nada” Crónicas da Brilha

 

 

Qual não foi o meu espanto ao ver o pacote de bolachas todo esburacado! Indecisa, mirei-o de um lado, depois do outro, olhei as 5 bolachas que faltavam e a curiosa rodela em que só o aro da dita bolacha restava e que mais parecia obra de coisa que não conhecia.
 
Raios! – pensei – Há um rato na dispensa!
 
Tinha há dias deixado a porta da rua aberta quando tinha ido despejar o lixo, só podia ser esse o motivo de vir tal inesperado visitante deliciar-se com a minha fruta acabada de colher da árvore e com o pequeno pacote de bolachas que tinha decididamente outro destino, ainda que incerto.
 
Preparei a ratoeira com um delicioso chouriço corrente – sim, que os ratos não ligam muito se é produto regional ou não – mas uma semana volvida e o maroto continuava a preferir as maçãs do meu quintal e as bolachas maria compradas na mercearia da esquina.
 
Depois disto virão os familiares, esposa, filhos, tios e primos afastados postar residência na minha dispensa, pensei. O problema, que era já em si grande, adivinhava-se vir a tomar contornos dantescos em que uma pirâmide de atléticos roedores me faria caretas do lado de lá da porta da dispensa.
 
Esta preocupação começou a andar sempre comigo, tanto o maléfico intrometido se recusava veementemente a cair na ratoeira que lhe preparava escrupulosamente. Chegava a toldar-me o sono e a trazer-me, enquanto dormia, murmúrios de pezinhos pequenos e sujos no soalho, e quanto mais me esforçava para o apanhar mais parecia que o munídeo arreganhava os seus dentinhos sorridentes erguendo as patinhas como se batesse palmas de contente com a minha desgraça e a sua estadia e refeições sem pagar renda.
 
Esta preocupação, que durou largas semanas, começou a afectar-me no trabalho. Chegava a verificar meticulosamente todos os pacotes, embalagens e afins à procura de vestígios do ditador.
 
Nada feito, ele teimava em ir roer-me quotidianamente até os bolinhos com chocolate da prateleira mais alta.
 
Um dia, cansada da desfeita do tratante que não se deixava apanhar, recolhi a ratoeira e deixei aberta a porta da dispensa. “Se não os podes vencer, junta-te a eles”, diz o adágio popular.
 
O que é certo é que a inimizade que me votava o velhaco era tão grande, que desde essa data não voltou a deixar entrever os seus bigodes na minha casa.
 
 
Moral da história:
 
Às vezes grandes problemas têm uma solução simples: deixar que o tempo tome o seu curso.

Ana Brilha
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d’A sessão oratória – Lançamento do “AoSol’ÉqueSeEstáBem…”, na livraria Barata (10.3.2012)

Image MatxuPitxu – Direitos reservados… e esquerdos também…

Maria                                                                                                    

 

Sou profundo, pois sou. Eu sou isto e aquilo, aquele e aqueloutro. Mudo com a lua, sei lá. Não sei ser de outra maneira! Posso ser o que quiser. Sou pedra de sal, mar d’água. Madeira da árvore e folhas. Os galhos são a minha família. As raízes nem sei de onde vêm mas também por agora pouco interessa. As folhas essas, algumas, que são poucas e que nunca chegam a cair. Como as da oliveira. Folhas duras de pequenas que são. A quem eu já peguei fogo e fiquei arrependido. Mas que secaram como da madeira ao carvão e ficaram marcadas para sempre, escritas pelo seu próprio carvão. Com história. Com a vida escrita na sua arborescência. Sou livre de o ser e também vergo com essa idade. E vergo, pois, porque o ar também tem o seu peso. Mas um peso que fica leve com a vontade. O vento é o peso da vontade. E com vontade de ser, eu sou assim. Lucidez de luz intermitente, compassada e determinada. Sou o vento e dou-o de vento em popa. Tal qual copa da árvore lá no alto, redonda de imperfeições e que abana. Estou aqui e vou aqui, porque caminhando vou ali. Se não me dirigir àquela porta

na atitude de a abrir, ela certamente não se abrirá sozinha. Se olho no espelho da vida assim bem vejo. Quando não gosto é porque não estou a ver bem. E por mais que tente lá chegar, a distância tem sempre outra metade da distância percorrida a percorrer. Há sempre mais a outra metade da distância a percorrer. E depois? Continuo. Continuo a percorrer o afastamento do ponto de partida, do espaço da existência, convicto que irei chegar ao destino. Esse é definitivamente infinito, sabendo perfeitamente que nunca se chega ao seu fim. Porque afinal o que gosto mesmo é de percorrer a textura do intervalo. Esse momento, que guardo com carinho e paixão. Paixão que vivo intensamente. E choro. Choro de alegria ao ver que cada passo que dou é mais um metro de conquista.

A conquista do comprimento que tem o amor. Aquele amor que nunca me deixa triste. Aquele amor que nunca me envergonha. Só me enaltece mais ainda. Sim, porque amo com verdade aquilo que ando a fazer. Vocês não? Não amam o que fazem? E porque não hão-de amar? Porque não hão-de também querer que a vossa vontade seja igual à minha? Ou até maior! Basta querer para ser aquilo que se quer ser ou ser o que se é. Pois então que o sejam, meus amigos. Muito obrigado por serem quem são. São vocês que me ajudam a ser assim. Bem hajam, mais uma vez, que não me cansa. Porque resistir é vencer. “Assim seja” 

 

Isabel

 

Caros Amigos, distintos membros de imprensa, senhoras e senhores.

Gostaria de aproveitar esta oportunidade em nome de Pedro Nunes, o Bólice, para agradecer a todos, por se juntarem aqui neste particular evento.

Passar a mensagem é com certeza o que se quer, quando se escreve, e, principalmente quando se publica.

O Bólice descobriu este prazer há uns poucos de anos e só agora com esta idade, é que se atreveu a publicar o que pensa, sob a forma de manifesto em prosa e poesia e deu-lhe o nome de prosa pó’Ética.

É uma forma artística, um termo em figura de estilo artístico. A arte é manifesto, a arte é mensagem.

 

Maria

 

Cabelos brancos são sabedoria

Preserva-los, é personalidade

Vitalidade só tem harmonia

Quando amamos a nossa idade

Aprender a amar, nunca é tarde

Se amas, eu amo, é a verdade

Sentimento deste coração arde

Reconhece essa necessidade

Se há, duas coisas bem diferentes

Uma delas é ser velho e estragado

Outra, ser antigo mas preservado

Ambos são conceitos e são parentes

Ignorância mantém o defeito

Sabedoria merece, respeito

Isabel

A literatura é uma forma de arte e neste meu caso particular, se são muitos ou poucos os que a vão ler, ou se é má ou boa a mensagem, isso já vai além do que eu ou alguém possa julgar, ou achar que o seja. O fazer, o publicar, já são atitudes que se devem ter. Pelo menos, não nos arrependemos de o não ter feito, devendo-se para isso ter o cuidado e consciência no conteúdo e no propósito dessa mensagem. Partilhar é o principal propósito da mensagem.

Das palavras às acções, podem-se ter infinitas distâncias, ou até nenhumas. E como é que isto se compreende? Se por ventura o que escrevo o não faço, no mínimo é como o velho ditado do médico que diz ao paciente, faz o que eu te digo, mas não faças o que eu faço.

Há sempre nisto um lenga-lenga medonha e chata, mas não é por isso que se deva desistir em tentar transmitir positivamente por palavras os nossos sentimentos. É nelas que existe a eterna mensagem. Resumindo, sugiro que se tenha em conta que quando se aponta o dedo a alguém, esse dedo é virado para nós.

“Já dizia o velho ditado dos nossos avós. A culpa é sempre dos outros e os outros somos nós.”

Esta é uma verdade em que acredito. Mas toda a verdade depende do seu espaço – temporal. A memória ou seja a história guia-nos e dir-nos-á o caminho. E uma coisa é certa, a verdade, ela existe mesmo para além da nossa compreensão, o que faz dela um valor incalculável. Mas o que é verdade afinal?!

 

Maria

Abril de Otelo, grande parada

Rumam fileiras na grande jornada

Benditos capitães, tropas em cacho

Maia renite apagar o facho

Querida liberdade alcançada

Demite papões temendo já nada

Cravam cano, travam tiro unido

Bradam povo jamais será vencido

Logo à pátria eles submetem

Meio cavaco aponta fuzil

Encarcera companheiros d’Abril

Grande estratega todos subvertem

Acusado, apagado, é triste

Verdade não dizem, ela existe

Isabel

O sua antítese, o “falso”, também é uma verdade. Por isso tudo leva a crer que apenas a verdade é um facto consumado e o que é falso será sempre forjado doutra verdade. A prova está em que, as coisas são como são e nunca como nós as vemos ou muito menos como as queremos ver. Pois cada qual a vê na sua medida e perspectiva.

Para isso é necessário conhecimento. Para se ter conhecimento é preciso ter uma boa e acompanhada educação para uma boa formação de carácter individual. A educação é um conceito a que eu dou muita importância. Sendo eu o humano mais pequenino na terra, sinto-me um privilegiado em poder exercer esta minha vontade de pensar e comunicar, da melhor forma que sinto e sei, tentando assim dar o meu melhor.

É dando que se mostra o que se vale. Eu nem estou aqui para vos dar nada, mas sim, para vos vender um livro. Por isso neste tipo de sistema em que vivemos valho muito pouco e quem dá o melhor que tem a mais não é obrigado.

Somos todos iguais nas nossas diferenças e isso é difícil de aceitar. E assim se atribui o valor às coisas, aos conceitos e aos sentimentos.

A natureza segue uma ordem anárquica e tende sempre a equilibrar-se. Essa ordem é justa e daqui ninguém sairá vivo.

Por isso será uma ordem de ideias justa, o que aqui estou a dizer?

Romain Rolland, Francês Novelista, Biógrafo, Compositor e Musicólogo

Dizia:

 

“Quando a ordem é injusta, a desordem é já um princípio de justiça.”

…  a isto chamo simplicidade e pureza …

por isso, não te deixes corromper

porque viver não custa

custa é… saber ver viver

mesmo que seja uma dureza

… resistir é já, vencer …

Sou um agnóstico’anarco-panteísta, por isso reservo todos os meus direitos … e os esquerdos também …

Maria

 

Liberdade sim, mas porquê saudade ?

quanto mais gosto de ti, é de mim

que mais sinto nesta minha vontade

de criar cá de dentro esse fim

P’los teus e p’los meus, estou na vanguarda

preparado p›ra saltar esse muro

da vida, espiral manifestada

liberdade, afincado futuro

Não sei crer, mas anseio derradeiro

que este mundo mesmo desordeiro

tem-se na forma de ser sempre certo

Eu me reservo nos direitos, canhoto

nos esquerdos, tenho o mesmo afouto

de ter essa liberdade por perto.

  

 

Pedro

 

É sobre estes princípios, de que se trata esta minha pequeníssima obra.

Nada dela poderá mudar os malefícios do mundo, mas pelo menos tenta ajudar a melhorá-lo.

Só quero aqui deixar mais uma ideia… uma verdade minha …

Uma grande verdade … um pensamento contundente …

… o mundo é nosso e ninguém nos deu … nós é que o, usurpamos …

ABRÇs e BJÑs                                                                                            B)’iL

 

Ficha técnica da sessão oratória:

 

Produção artística – Rui Jr.

Gestora editorial – Sara Coito

Alter-ego do Bólice – Maria Ceia

Narração do discurso – Isabel Guimarães

Autor dos textos – Pedro Nunes, o B)’iL

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CARTA AO PAI

 

 

 

 

Carta ao Pai é uma das obras de Franz Kafka, editada postumamente, onde o escritor revela o seu talento para entender a alma humana, as causas da relação inquietante com o seu pai, comerciante judeu, que sempre impôs aos filhos a sua visão do mundo. As suas emoções em relação ao pai oscilavam entre o ódio e a admiração. Esta extensa carta com mais de cem páginas manuscritas e que nunca foi enviada ao seu destinatário, é uma obra de arte, sobretudo na análise do relacionamento entre pais e filhos:

Querido pai

          “Perguntaste-me há pouco tempo por que razão digo que tenho medo de ti. Como de costume, não soube o que responder, em parte precisamente devido ao medo que sinto de ti, mas também porque para fundamentar esse medo seria preciso entrar em muitos pormenores, que nem de longe conseguiria ter presentes ao falar. E se tento por este meio responder-te por escrito, o resultado continuará a ser muito incompleto, porque também ao escrever o medo e as suas consequências perturbam a comunicação contigo, e a escala da matéria se situa muito para além da minha memória e do meu entendimento. (…)

         (…) Para ti, as coisas colocavam-se mais ou menos assim: toda a tua vida trabalhaste muito, sacrificaste tudo pelos teus filhos, especialmente por mim, e por isso “vivi à grande”, tive toda a liberdade de estudar o que quis, nunca tive preocupações materiais nem de qualquer outra ordem. (…)

           (…) Eu era uma criança assustadiça, e apesar disso também teimosa, como são em geral as crianças. É verdade que a mãe me mimou, mas não acho que fosse uma criança especialmente difícil. (…) 

          (…) Tu, só sabes tratar uma criança à luz da tua própria natureza, com força, barulho e cólera, e neste caso até achavas que era o método mais adequado, já que querias fazer de mim um rapaz cheio de força e audácia. (…)

          (…) Lembro-me, por exemplo, de quando nos despíamos juntos numa cabine. Eu, magro, fraco, esguio; tu, forte, alto, largo. Logo na cabine, já me sentia uma figura lamentável, não apenas perante ti, mas perante o mundo inteiro, porque tu eras para mim a medida de todas as coisas. (…)

         (…) Bastava eu mostrar algum interesse por alguém – coisa que, dada a minha natureza, não acontecia muitas vezes – para tu intervires brutalmente, sem querer saber dos meus sentimentos e sem respeitar a minha opinião, com injúrias, calúnias, humilhações. (…)

        (…) Como tinhas sempre muita fome e um gosto especial pela comida, engolias tudo depressa, quente e em grandes bocados, e eu, pequeno, tinha de me apressar, fazia-se um silêncio de cortar à faca, só interrompido por exclamações tuas: “Primeiro come-se, depois fala-se.” (…)

        (…) Era proibido roer os ossos – mas tu roías. Era proibido sorver o vinagre – mas tu sorvias. (…)

        (…) Por favor, pai, vê se me entendes bem: tudo isto não passaria de pequenas coisas insignificantes, que só se tornavam humilhantes para mim porque tu, o homem que era o meu exemplo maior, não obedecias aos mandamentos que me obrigavas a mim a seguir à risca. (…)

        (…) Reconheço que temos os nossos conflitos, mas há dois tipos de combate. O cavalheirismo, em que se defrontam dois adversários independentes, e cada um fica só, ganhando ou perdendo sozinho. E o combate do parasita, que não só pica como suga o sangue do outro para sobreviver. É o que se passa com o soldado profissional e contigo. És incapaz de viver, e para te poderes instalar sem preocupações, confortavelmente e sem remorsos, provas que fui eu quem te tirei a capacidade de viver e a meti no bolso. Que te importa agora se és ou não capaz de viver, se a responsabilidade é minha! ” (…)

José Eduardo Taveira

 

 

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PARABÉNS, AUGUSTO ABELAIRA !

 

 

 

Augusto Abelaira nasceu a 18 de Março de 1926 em Ançâ (Cantanhede) e viveu até 4 de Julho de 2003.

Licenciou-se em Ciências Histórico-Filosóficas. Foi professor, romancista, dramaturgo, tradutor e jornalista. Foi director da “Seara Nova” e “Vida Mundial”. Entre 1977 e 1978 assumiu o cargo de director de programas da RTP. Foi presidente da Associação Portuguesa de Escritores. Como jornalista colaborou no “Diário Popular”, “Diário de Lisboa”, “Almanaque”, “Gazeta Musical e de todas as Artes”, “Vértice”. Foi cronista do “O Jornal” com uma coluna intitulada “Escrever na água” e do JL com “Ao pé das letras”.

“A Cidade das Flores” foi a sua primeira obra literária, editada pelo autor em 1959, porque nenhuma editora o quis publicar. Outras se seguiram, tais como: “Os Desertores”, “As Boas Intenções”, “Enseada Amena”, “Bolor”, “O Triunfo da Morte”, etc.

Escreveu 12 romances, 3 peças de teatro, um livro de contos, um monólogo e dezenas de crónicas jornalísticas.

Augusto Abelaira foi um interventor político desde os tempos da Faculdade, tendo sido um opositor ao regime salazarista.

Fez parte das tertúlias dos cafés Chiado, Monte Carlo e Bocage, entre outros. Aliás, era um frequentador assíduo dos cafés de Lisboa.

Recebeu diversos prémios:

Prémio Ricardo Malheiros, da Academia das Ciências de Lisboa, Prémio Cidade de Lisboa, Grande prémio de romance e novela, da Associação Portuguesa de Escritores, Prémio da Crítica, Prémio Pen Club, Prémio da Crítica da Associação Portuguesa dos Críticos Literários, Prémio Municipal Eça de Queirós.

Numa entrevista ao Ciberkiosk, Augusto Abelaira, declarou:

“Certos romancistas contam histórias, histórias a que assistiram, que ouviram, leram nos jornais, inventaram. Tais romancistas escrevem romances muito diferentes uns dos outros. Mas há aqueles que se contam a si próprios, digamos assim (isto não significa que escrevem autobiografias). Estes últimos escrevem sempre o mesmo romance, variações sobre os mesmos temas (os temas que os preocupam). Estou a simplificar, claro, as fronteiras não são nítidas. Mas é neste sentido que tenho dito que escrevo sempre o mesmo romance (tanto assim, que não os distingo uns dos outros, não sei se certas cenas pertencem a este ou àquele). Embora talvez pudesse dizer que escrevo dois romances – ou sirvo-me de duas perspectivas para escrever o mesmo romance. Na verdade, parece-me que o meu estado de espírito ao escrever obras como “Bolor” não é exactamente o mesmo quando escrevo obras como “O Bosque Harmonioso”. Se o primeiro pode ser considerado irónico (não sei), o segundo é manifestamente satírico”.

Para terminar esta singela homenagem a Augusto Abelaira, no dia do seu aniversário, alguns excertos do seu livro “Bolor”:

(…) – “Ela olha pra mim em silêncio, escrevo que ela olha pra mim em silêncio, e aguardo as palavras restantes a fim de as congelar neste diário [escrevo que aguardo as palavras restantes a fim de as congelar neste diário (e escrevo que escrevo que aguardo as palavras restantes a fim de as congelar neste diário”. (…)

(…) – “A minha própria vida transformou-se em adivinhar quem és, a minha vida própria, mesmo quando me limito a pensar, mesmo quando não escrevo, deixou de estar conjugada na minha primeira pessoa ou até na terceira pessoa referida a ti – mas numa primeira pessoa que é a tua.” (…)

(…) – “Agora, porém, desejaria conjugar-me na minha primeira pessoa e não na tua, desejo recuperar-me, ser eu, independentemente daquilo que tu és – e a caneta emperra, já não sei escrever. Desejo dirigir-me a mim mesma, fazer de mim a segunda pessoa, mas não sei.” (…)

 

(…)  – “Faz hoje oito dias que comecei. Resolvi divertir-me. Abri este caderno a meio, comecei a escrevê-lo com data certa e depois fui escrevendo em direcção à primeira página, em direcção a Fevereiro, a Janeiro, a Dezembro. Agora já não tenho mais folhas para trás, não posso chegar a Novembro ou a Outubro, agora só tenho folhas para frente: Maio, Junho, Julho… Quando chegar ao fim do caderno termino a brincadeira.” (…)

 

José Eduardo Taveira

 

 

 

 

 

 

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