“A arte de não fazer nada” Crónicas da Brilha

 

 

Qual não foi o meu espanto ao ver o pacote de bolachas todo esburacado! Indecisa, mirei-o de um lado, depois do outro, olhei as 5 bolachas que faltavam e a curiosa rodela em que só o aro da dita bolacha restava e que mais parecia obra de coisa que não conhecia.
 
Raios! – pensei – Há um rato na dispensa!
 
Tinha há dias deixado a porta da rua aberta quando tinha ido despejar o lixo, só podia ser esse o motivo de vir tal inesperado visitante deliciar-se com a minha fruta acabada de colher da árvore e com o pequeno pacote de bolachas que tinha decididamente outro destino, ainda que incerto.
 
Preparei a ratoeira com um delicioso chouriço corrente – sim, que os ratos não ligam muito se é produto regional ou não – mas uma semana volvida e o maroto continuava a preferir as maçãs do meu quintal e as bolachas maria compradas na mercearia da esquina.
 
Depois disto virão os familiares, esposa, filhos, tios e primos afastados postar residência na minha dispensa, pensei. O problema, que era já em si grande, adivinhava-se vir a tomar contornos dantescos em que uma pirâmide de atléticos roedores me faria caretas do lado de lá da porta da dispensa.
 
Esta preocupação começou a andar sempre comigo, tanto o maléfico intrometido se recusava veementemente a cair na ratoeira que lhe preparava escrupulosamente. Chegava a toldar-me o sono e a trazer-me, enquanto dormia, murmúrios de pezinhos pequenos e sujos no soalho, e quanto mais me esforçava para o apanhar mais parecia que o munídeo arreganhava os seus dentinhos sorridentes erguendo as patinhas como se batesse palmas de contente com a minha desgraça e a sua estadia e refeições sem pagar renda.
 
Esta preocupação, que durou largas semanas, começou a afectar-me no trabalho. Chegava a verificar meticulosamente todos os pacotes, embalagens e afins à procura de vestígios do ditador.
 
Nada feito, ele teimava em ir roer-me quotidianamente até os bolinhos com chocolate da prateleira mais alta.
 
Um dia, cansada da desfeita do tratante que não se deixava apanhar, recolhi a ratoeira e deixei aberta a porta da dispensa. “Se não os podes vencer, junta-te a eles”, diz o adágio popular.
 
O que é certo é que a inimizade que me votava o velhaco era tão grande, que desde essa data não voltou a deixar entrever os seus bigodes na minha casa.
 
 
Moral da história:
 
Às vezes grandes problemas têm uma solução simples: deixar que o tempo tome o seu curso.

Ana Brilha
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