Felicidade não é para quem pode, é para quem quer.

fb1

Acabadinha de aqui chegar e muito verde nesta “coisa” de publicar livros, sinto ainda alguma timidez, confesso…

Aproveito o simpático convite do Sítio do Livro, que agradeço, para me juntar a este blogue e vos apresentar o pequeno  livro sobre a felicidade que acabei de lançar.

Mantenho, desde 2007, um blogue  (Sopa de Ideias) onde divago sobre o tema  e apeteceu-me finalmente ter algo físico, papável… Se tiverem curiosidade, aqui escrevi pela primeira vez sobre o meu livrinho azul.

Deixo também, para quem possa interessar, o filme do lançamento.

 

Irei agora explorar esta casa cujas portas me abriram. 🙂

Obrigada

Cristina Rodo

Deixe um comentário

Crescendo Constroem-se os Sonhos (II)

Tenho-me interrogado acerca desta questão, perguntando a mim mesmo se a realidade que vivemos em cada fase da nossa vida não poderia ser vivida de modo diferente, se não poderia ser ao menos reforçada pela presença permanente de laços de ternura e sentimentos de espera por uma presença que queremos e que não deveria acabar nunca. Compreendo que não podemos ser sempre donos do nosso tempo e da nossa vontade; sei que um dia, quando somos maiores e mais velhos, temos de aprender a tomar conta de nós e até da comunidade a que pertencemos. Sei que é necessário o exercício da libertação e da responsabilidade que a Escola e a Sociedade nos iniciam no tempo próprio, pois não podemos viver sempre na dependência dos outros. Mas não compreendo que não possamos ser acompanhados eternamente de laços de ternura e de espera, pela chegada ao lugar e ao coração do que a nossa existência nunca deixou de sentir e desejar. Sei que são muitos aqueles em que as condições humanas são muito pobres e o aconchego não é senão desespero, mas não creio que isso tenha de ser assim. Julgo que muitas vezes essas realidades vivenciais são a expressão final e dolorosa de um mundo desumano que a sociedade prepara sem se lembrar que o que vê nos outros é a imagem do seu próprio sofrimento.

Se a Sociedade fosse capaz de entender que um bocadinho de ” pão”, com a alegria do afecto e a estima do sentimento pode dar força para enfrentar os grandes obstáculos, não sentiria tanta dor em tantas pessoas nem os grupos tentariam a fuga para um mundo que não estará completo, se lá não estivermos todos. Se a sociedade fosse, não apenas a expressão do grupo, mas o seu verdadeiro valor, que vale pelas qualidades e capacidades das pessoas e, sobretudo, pela força que dispõe para resolver os problemas do mundo em que é basicamente responsável. Se a sociedade fosse assim, ela seria um valor que todos queriam e não um valor que é por muitos rejeitado dadas as falsas qualidades, que são em grande parte as mais evidentes. A sociedade terá que entender cada vez mais que serão as qualidades verdadeiras que a tornarão coesa e elevada, serão esses valores que farão elevar o homem aos sentimentos mais profundos do valor da vida.

Falo de ternura, da presença e da espera, falo de qualidades do afecto e do coração, mas também outras devem começar muito cedo a serem evidentes para a criança. A justiça, a coragem, a rectidão, a liberdade, a amizade e outros valores vão-se descobrindo pela experiência, mas os adultos não podem demonstrar às crianças a sua importância, pela exemplificação das falsas qualidades. Não se podem resolver os problemas do mundo se não se melhorarem as nossas atitudes, os nossos actos e os nossos pensamentos. Tenho ainda presente o que ouvia contar sobre alguns acontecimentos que marcaram positivamente a nossa história nos domínios da conquista e da expansão, mas fundamentalmente nos domínios da coragem e da sinceridade dos vários exemplos humanos que ficaram para sempre gravados na minha memória de criança. A personalidade de uma criança, a sua memória e a sua imaginação têm que ser construídas com conteúdos sinceros, acontecimentos com alguma heroicidade e factos que criem plasticidade. Também guardo com carinho algumas passagens de que foram exemplos pessoas das mais diversas origens – o seu carácter, a sua sinceridade e a convicção com que praticavam os seus actos, servem-me, ainda hoje, de reforço para o equilíbrio emocional e social, especialmente nos momentos em que na sociedade actual não encontro senão um ambiente desconexo e vazio de sentido. É nestes valores que se formam as maneiras da sensibilidade e os diversos pensamentos que muito cedo serão repartidos na caminhada da nossa vida e no valor da expressão que lhe vamos dando à medida que crescemos e nos tornamos homens.

Quem não se lembra de alguns dos momentos da sua meninice? Daqueles momentos que facilitaram a abertura da nossa memória pelas traquinices consentidas e pelas brincadeiras atordoadas de emoção. Era menino e gostava tanto de pescar, que me esquecia do comer e da promessa de chegar cedo, que tinha feito a minha mãe. Depois da escola ou aos fins de semana pegava numa cana com linha e anzol, metia um bocado de pão no bolso e lá ia a procura do melhor pesqueiro que houvesse próximo de onde morava. Atirava algumas pedrinhas aos peixes, brincava com eles, sem ter consciência disso! Depois, gostava de os atacar com todas as minhas habilidades, com pedras maiores afastava-os uns dos outros, a água formava círculos concêntricos e uma certa ondulação que os confundia. Esperava que esta voltasse a normalidade e à sua limpidez, fazia uma bolinha de pão e colocava-a no anzol a servir de isco. Como precedente, atirava à água bastantes bocadinhos de pão para os atrair, e como consequência não tardava a trazer para cima uma “boga”, um “escalo” ou um “barbo”, que manifestavam tanta vida como aquela que é própria de uma natureza pura. Foram momentos que tive e que devem ser semelhantes a todas as crianças, senão nos factos, pelo menos nos desejos e na vontade de experimentar. Momentos que temos num certo tempo que são bons quando realizados ou são tristes quando insatisfeitos ou irrealizáveis por qualquer razão, mas que nem por isso deixaremos de estar alegres e de ser crianças sadias.

Foram sensibilidades da inocência e da pureza do nosso espírito; foram elas que nos deram força, nos alimentaram de ternura e até nos guindaram da solidão das tristezas ou das alegrias quando não tínhamos grupo para as manifestarmos. Foram o prémio de um valor que exaltava a nossa alma de pequeninos e nos abria os sonhos das ilusões passageiras que, apesar de tudo, tinham uma graça especial.

Quem não se lembra de pouco ter dormido na noite em que lhe tinham dado alguma coisa para calçar ou vestir, jogar ou passear? Quem não sentiu que a noite era demasiado longa e o dia tardava a nascer, para podermos ver e mostrar o que nos tinham dado? Fossem umas botas de cabedal duro e forte para atestarem alguma humildade económica, fossem uns belos sapatos de verniz para estrearmos em cerimónia ou prendarmos os valores materiais da vida de quem tinha um pouco mais para gastar e podia viver do luxo. Quem não se lembra destas palpitações nervosas pela causa de uma realidade que era necessária, mas que para nós era uma prenda que fazia notar e, ao mesmo tempo, nos fazia dizer: “Vês o que eu tenho novo, não é bonito?”

Todos se lembram com certeza, mas a maior parte de todos nós, nas grandes ocasiões da vida, esquecem esse sentimento de pertença dado pelos valores vividos que não “ilustram na sua recordação”, mais pela origem económica do que pelos factos, pois os meninos são sempre desculpáveis! Esquecem estes sentimentos por julgá-los pobres e tornam-se sobranceiros em relação a estas “meninices”, julgando-se muito certos e muito mais crescidos como adultos.

Grande erro em que caímos, que poderá ser desculpável quando resulta da nossa ignorância, do desconhecimento do valor cultural que tem origem e riquezas diversas ou do desconhecimento do valor dos valores. Mas já não poderá ter desculpa se esta atitude for de elevação social, sem ter substrato real nem o valor cultural da humildade, em virtude da negação dessas vivências, querendo-se ser arrogante e ter mais que os outros, mesmo através dessa distinção falsa. Estaremos numa atitude baixa, porque negamos a nossa sensibilidade de crianças e mostraremos um adulto que ainda não somos nem nunca seremos se não mudarmos. Será uma atitude sem exemplo, porque todos devemos ser mentores de exemplos comparativos de um mundo de valores com partilhas diferentes e origens diversas; o nosso mundo de crianças é um mundo mais semelhante e comum que os mundos seguintes.

As maneiras da sensibilidade são várias e serão tanto mais ricas quanto mais história factual tiverem. A todos sem excepção é reconhecida a sua vida e a qualidade igual que esta deve ter; se diferenças houver, serão naturais, e por qualquer razão que não será da nossa conta. Essas qualidades não criarão sentimentos de abaixamento social em quem as viveu e experimentou; se forem pobres os objectos com que brincáramos, terão o sabor da recordação de como foram experimentados no efeito da diversão e não pelas capacidades tecnológicas ou culturais que possuíam. Se os objectos forem materialmente ricos e muito sofisticados, trarão à recordação o mesmo sentimento de alegria, porque as crianças brincam mais pelo gosto do prazer do que pelo gosto do ter. A afirmação pelo ter objectos valiosos em adultos é uma noção social de poder que tem uma raiz mais dominadora do que humana. E é bom que se diga, que são as experiências de criança e a riqueza do mundo em que esta vive e é educada, que permitem o equilíbrio, mais tarde, entre a ordem do poder social e a ordem do dever humano.

Não se sabe, com pormenor, a força da sensibilidade que recebemos em cada fase ou ocasião da nossa vida, mas é específico da ordem natural, que sejamos estimulados por forças e tensões para a criação de atitudes cada vez mais originais. Emergem, por efeito destas riquezas, as maneiras da sensibilidade que criarão o nosso mundo que, sendo natural, se tornará cada vez mais humano e, por isso, perfeito como as nossas vontades o querem. O nosso mundo terá que ser cada vez mais sensível e imaginário, terá que ter uma história rica de acontecimentos, especialmente da nossa infância, acontecimentos que sejam simples e que permaneçam sempre na nossa memória, para que possamos ser mais tarde como pessoas e adultos muito mais elevados.

Macedo Teixeira

Deixe um comentário

Crescendo Constroem-se os Sonhos(I)

Titulo – CRESCENDO CONSTROEM-SE OS SONHOS EDITORIAL PANORAMA, LDA. Apartado 5070       4018 Porto CODEX Autor Macedo Teixeira Capa – Zélia Mota Responsabilidade Editorial   Maria do Céu…

Fonte: Crescendo Constroem-se os Sonhos(I)

Deixe um comentário

Crescendo Constroem-se os Sonhos(I)

Titulo – CRESCENDO CONSTROEM-SE OS SONHOS

EDITORIAL PANORAMA, LDA.

Apartado 5070       4018 Porto CODEX

Autor Macedo Teixeira Capa – Zélia Mota

Responsabilidade Editorial   Maria do Céu Ribeiro

Pré-impressão, impressão e acabamentos: Tipografia Nunes, Lda.

Rua D. João IV. 590 4000-299 Porto

500 ex. – Março de 2002

Dep6sito Legal N.° 178235/02

Em Jeito de Prefácio…

Jean Lacroix, insigne pensador francês, nosso contemporâneo, representante do Personalismo, corrente filosófica iniciada, em meados do século passado, em França, por Mounier[1], dizia que a filosofia era, para ele, a “tradução intelectual de uma experiência espiritual” e que essa experiência profunda se poderia traduzir sob múltiplas formas: poderia assumir uma vertente religiosa, metafísica, moral, estética ou até mesmo política, para além de outras… E acrescenta, noutro passo do mesmo excerto: “Façam os homens o que fizerem, eles pensam para agir e enquanto agem. O Filósofo é um homem como os outros, que pensa primeiro participando nos trabalhos e na dor dos homens.” Filosofar será, então, reflectir sobre este pensamento “imediato” e “espontâneo” (Lacroix refere-se ao pensamento que decorre da Vida e das acções concretas que os homens realizam no âmbito do quotidiano em que decorre a sua Existência) a fim de descobrir ou de dar um sentido…

 

Se vem a propósito evocar o nome de Jean Lacroix é porque as lucubrações desenvolvidas no último livro de Macedo Teixeira[2] seguem de muito perto as directrizes traçadas, a risco fino, por este filósofo francês, para quem a filosofia só tem validade, se for entendida como uma “reflexão sobre a totalidade da experiência vivida”, se ao saber que dela resultar (utilizo o termo saber, não no sentido de “savoir”, mas no sentido de “sagesse”)[3] lhe for conferida uma dimensão essencialmente práxica que a faça voltar para o “mundo da vida” (a “Lebenswelt” de que falava o célebre filósofo alemão Edmund Husserl), para os problemas práticos que decorrem da existência humana.

Em jeito de anamnese, o autor leva a efeito uma incursão reflexiva sobre alguns dos momentos mais significativos do seu percurso existencial. Afinal, a História não é só a dos grandes eventos, dos magnos cometimentos sociais e políticos, a História é também feita pelas histórias dos indivíduos concretos, cujas vidas encerram misérias e grandezas, tristezas e alegrias, fracassos e sucessos, momentos de dor e de sofrimento mas também de júbilo e de regozijo, de festa e de satisfação plena: “Todo o indivíduo — diz, uma vez mais, Jean Lacroix — é uma história.” Uma história — acrescente-se — que encerra todas as contradições da existência humana[4]. E é essa história (ou melhor, pedaços, fragmentos dessa história que, no seu conjunto, entretecem a trama existencial da vida do autor) que Macedo Teixeira nos procura relatar, para daí extrair algumas congeminações que irão constituir a base configuradora da sua percepção do Mundo e da Vida. Dando largas aos seus devaneios, realizando contínuos excursos sobre alguns dos aspectos que mais timbraram a sua infância e adolescência, o autor parte daí para enaltecer o valor de uma vida prenhe, plenamente vivida, onde o trabalho, o sacrifício, o sofrimento, a dor, numa palavra, os aspectos duros e decantados da vida ombreiam com os aspectos lúdicos, jocosos, poéticos, oníricos, porventura, os mais exuberantes da existência. Afinal, o que nos surge neste livro é um retrato do “homem total”, do “homem contrastivo” de que nos fala a “hermenêutica filosófica” de H. G. Gadamer[5], à luz da qual, o ser, o “ser-aí”, o “ser-no-mundo” (o “In-der-Welt-sein” de que fala Heidegger) só ganha sentido a partir de um reflectido exercício de autocompreensão. É no âmbito de um inusitado esforço para se compreender a si próprio que o autor procede a uma extrapolação para a compreensão daquilo que, no seu entender, constitui a estrutura nuclear da condição humana, que a relação dialógica “Eu-Tu”[6] (autor ↔ leitor, entenda-se) expressa de forma clarividente. Na tessitura em que o texto é urdido, constata-se, por parte do autor, um inexcedível desejo de aproximação e abertura à alteridade, uma espécie de “entrega”, uma vontade de partilhar um espólio que decorre do seu roteiro existencial (materializado sob a forma de vivências, valores e visões do mundo) com alguém que estivesse efectivamente disposto a lê-lo e a escutar os seus ensinamentos. É este o desafio que eu faço ao leitor desta pequena nótula, feita em jeito de prefácio… Que leia o livro que ora se apresenta e que, por um momento, seja capaz de entrar no mundo do autor e de partilhar da sua experiência vivencial…

Páscoa de 2002 Joaquim Faria dos Santos

As palavras que eu digo

Fui juntando, como se fosse para fazer uma estrela de papel (fio, goma, canas de bambu e papel de seda), e esperei, guardando estes valores com muito segredo e ansiedade, guardando do mesmo modo como quando esperava em criança por quem me havia de fazer a estrela de papel que lançaria nos ares para a olhar através de um sonho. E hoje, com um desejo semelhante aos desejos de criança, mostro, nestas páginas que escrevi, acontecimentos que fizeram parte de mim, pois julgo que já chegaram todos os que existem, para fazermos com os elementos que guardei um pouco de uma outra estrela, que não sendo igual às de papel nem se podendo agarrar do mesmo modo fará parte de um sonho que é de todos nós, e que cada um, como pessoa, o pode ver, conforme a parte que dela escolher e à medida que for lendo este livro. Seja ele, então, inspirador de uma qualquer oportunidade e eu veja, como vós, a parte que há muito procuro e que dessa estrela dos meus sonhos haja sempre algo de comum à vossa, e possa eu sempre sonhar com uma idealidade que não acabe, mas que seja sempre referência da história, do nosso caminho e imaginação, do Tempo que não tivemos.

O autor

No momento em que nascemos e no género que nos define marcam-se os principais sinais que hão-de mostrar-se em expressão e revelar-se na própria vida. Fica registado no acto e na integração social um acontecimento que não volta a ter semelhança nem será mais reversível. O lugar do berço e do sonho começam a revelar-se e o ano em que nascemos a tornar-se pouco a pouco no tempo do que nos contam, quando perguntamos por ele ou quando o saudamos em aniversário e festejamos o nascimento. É um acontecimento esperado com fascínio e ansiedade e só o desejo e a alegria vão superando todas as canseiras até ao momento de nascer. Creio que não há outro acontecimento mais preocupante como o que envolve todo o mistério de um nascimento, especialmente, o nascimento de qualquer ser humano.

Não conheço, mesmo em questões de grande experiência, pessoas que não se quedem perante esta realidade, pois não se sabe o que virá, mesmo quando em formações completamente sãs. Aliás, é numa linguagem de silêncio e num élan de ternura que os futuros pais vão manifestando esse ambiente apreensivo e fazem adivinhar um acontecimento numa natalidade feliz, mesmo sem a evidência dessa certeza.

É neste ambiente que se forma a vontade natural do desejo de toda a perfeição, pois o mistério da vida é oculto, mas nós acreditamos que nos faz a vontade aos nossos mais secretos desejos. É assim que julgamos que este facto acontece e fazemos deste sentimento uma espécie de força para caminhar com os sonhos que nascem, com os filhos que vemos nascer e damos depois ao mundo. Não se espera, nem se deseja, praticamente nada — só aquilo que é natural e perfeito — a vida na sua máxima força e na sua mais bela perfeição. Uma espécie de prémio para uma caminhada que desperta muito cedo nos olhares de cada criança, mesmo que ainda não saiba como viver na emoção dos sentimentos de cada jogo e das suas brincadeiras. É uma forma e um movimento que se abrem para as traquinices que vão causar prazer pela energia da vida a uma qualquer criança. Aliás, é ao brincar que esta começa a descobrir que quanto mais se confunde com as suas brincadeiras e contradições, mais se sente notada e sente que o regaço da mãe é o melhor sítio para estar segura. A criança, à medida que vai crescendo, vai descobrindo que o colo é a melhor almofada para se sentar e estar aconchegada. E vai descobrindo, também, que entre o que há para fazer, conforme o desejo materno, e o gosto de brincar para contrariar a ordem dada, nascerão entre ambas sentimentos de ternura que ninguém conhecerá melhor do que elas neste modo tão perfeito de viver. A mãe não é outra senão aquela que nos deu à luz e nos guarda, aquela com quem brincamos e nos sentimos seguros. Um filho é tudo o que de mais importante existe e tudo o que de mais belo e perfeito acontece. A separação é para sossegar e dormir e, mesmo aí, dizemos: “Não te distancies, mãe, nem fujas de mim, que eu vou dormir, mas amanhã cá estarei! — Guarda-me, e não te esqueças de me beijar, porque assim não terei medo e a noite passará depressa.” O pai é o sonho que aguardamos com alegria e segredo, desejamos que ele chegue a casa, que chame por nós e nos desperte para si mesmo. Corremos para o seu carinho e na pressa do encontro grassa em nós um certo receio de alguma coisa não termos feito como devíamos. Nesta descoberta de relações, uma certa intimidade vai marcando as nossas vidas e uma “pontinha” de diferença nos separa e nos faz viver entre dois e não um, como em crianças às vezes desejamos. A mãe ralha e beija, vai abrindo as portas de um destino com trajectos e movimentos, que são a consistência de uma vida que ganhará mais a forma da mãe e mais o espírito do pai. Qualquer que seja o sexo, o ser humano mantém traços que evidenciam mais a forma do sentido materno e o espírito do sentido paterno. É a forma que tendemos a ir buscar para a fixação em lugar seguro e protegido da nossa vida. Uma forma em que o valor da vida não é apenas qualificado pelo projecto ideal e único, pois tem uma base física que é assegurado pela forma mater. É essa forma que ganha sentido fisiológico e mental e que procura a ordem das leis da sobrevivência. A mãe não sobrevive sem se fixar e ganhar raízes; a sua segurança e a dos seus tem que se basear nesta dimensão. Não é que não possa ser aventureira por um ideal, mas o nascimento de qualquer razão tem de ter uma base de apoio. É esta forma que é o sustentáculo do espírito paterno e que ganha uma força própria para buscar o sentido da elevação. O espírito do pai é mais aventureiro e distante, torna-se em cada um de nós na vontade de viver, mas é a forma materna que o enraíza na segurança de um qualquer sonho.

É nesta síntese que se realiza parte do mistério da nossa vida, nas relações vividas e experimentadas no jogo do amor, no jogo que fará nascer formas mais definidas e concretas na relação materna, mas mais íntimas e profundas na relação paterna. Somos mais semelhantes do que diferentes e no ser da semelhança é mais fácil e definível o jogo das relações com a mãe. O pai não é diferente, é igual a mãe, as crianças não distinguem um do outro e, a intimidade de ambos, faz nascer nos filhos o mesmo pulsar de sentimentos. O que acontece e faz parecer diferente é que a mãe, enquanto somos crianças é “nossa”, enquanto o pai é “nosso”, mas só o temos quando lhe falamos ou quando o ouvimos. É ele que nos conta o que queremos saber, e é ele que nos faz sonhar na eleição do que mais nos fascina e nos faz inclinar para o culto daquele que para nós é a pessoa mais extraordinária; não existe ninguém que seja maior herói que o nosso pai. A nossa mãe é a ternura do que queremos ter, o sinal do que queremos ver e sentir, o sinal da interdição, mas só quando ela é mais “forte do que nós”, o que é raro e só quando não há alternativa. No jogo da mãe estão implícitas as regras, só variam os movimentos e se alteram os sentimentos; as respostas estão nas motivações e os resultados previamente preparados. Cada criança descobre no jogo de cada gesto e no mando de cada palavra que os pais a querem e desejam, descobre que os pais prendem o coração à intocabilidade daquele que é o seu maior enlevo e a sua maior satisfação. Cada criança sente que agrada pelo que faz e pelo que diz, pelo que é verdade, de facto, ou pelo que é pura imaginação na tentativa de ocupar e prender a atenção dos outros. Com estas diversões de espírito, cada ser pequenino chama eternamente pela sua própria vida, que não acaba em si nem termina nos seus pais. Uma vida que não mora longe e que está acima dos seus olhos; uma vida que é a sua e que está para além de si mesmo a “morar” algures no espaço da sua imaginação.

Quem não tem, a este propósito, leves recordações da sua meninice? Quem não tem recordações do momento em que brincou com os seus pais, até pelo “jogo” de querer fazer o que lhe estava vedado ou o que sabia de antemão, que o mais certo era apanhar algum castigo por ter desobedecido?

Era o desejo de se mostrar capaz, mas também a vontade de fazer o que queria sem que alguém soubesse. Diz-se que a criança vive por força do princípio do prazer, não sabe ainda o que é a responsabilidade nem quando tem necessidade de ser responsabilizada. Diz-se que a criança vive a brincar com o tempo e com o jogo, vive como criança na ingenuidade amorosa dos adultos que a amam e a desculpam com exagero. A criança faz tudo o que lhe causa prazer e evita o que lhe causa dor, aliás, é num misto de prazer e de felicidade que ela vive, vivendo do que não sabe e vivendo do que mais gosta. Esta expressão singela e delicada vai-se tornando numa expressão cada vez mais definida e orientada para trajectórias mais definitivas e mais custosas de percorrer. Quando a escola começa, somos como pequenos pássaros a ganhar sentido de orientação e força para voar, começam a percorrer-se distâncias e a deixar-se ambientes que a sua recordação nos entristece. A neve pela manhã começa a fazer doer as mãos e as personagens dos nossos jogos já não são como eram dantes; os pais, com quem brincávamos e aborrecíamos, já não são os únicos na nossa vida. Só os intervalos de tempo, em que não há deveres para fazer ou recados para executar, nos permitirão de novo viver e jogar com os sentimentos do tempo e da alegria de sermos somente nós a brincar como queremos. Entretanto, até estes raros momentos de liberdade estão já carregados de perturbação; os deveres que não sabemos ou que não queremos fazer para aprender na escola, o beijo que não nos deram; o ralho e o medo com que nos inspiraram na revolta do coração ou nos carinhos que já não estão nas lágrimas que choramos. Tudo isto torna-se nas sementes de outros “espinhos”, que havemos de sentir quando tivermos a idade e o poder para abrir outras janelas e percorrer outros caminhos.

Páginas 1 a 17.

Macedo Teixeira

[1] Emmanuel Mounier (1905 -1950) é um dos teóricos proeminentes da doutrina social-cristã. Apologista de um cristianismo socialmente operante e politicamente interveniente, Mounier nunca deixou de criticar a Igreja por esta se revelar, frequentemente, incapaz de contribuir para a renovação do mundo em que vivemos e sobretudo por se identificar com as estruturas e instituições sociais e politicas mais reaccionárias, adversas do progresso e da libertação do homem.

[2] Embora este livro não seja uma obra de acentuado pendor filosófico, será bom não esquecer que o seu autor é um homem de aturada formação filosófica, uma formação que — vale a pena dizê-lo — não é apenas académica… Aqui e ali, ao sabor das circunstâncias, pressente-se que a intenção que preside à sua escrita é essencialmente uma intenção moralizadora. Implícita ou explicitamente, o campo da filosofia moral está sempre presente na sua reflexão, constituindo, por isso, o horizonte de referência do seu pensamento. Neste sentido, pode mesmo dizer-se que constitui o verdadeiro leitmotiv que, no plano meramente conceptual, anima, de fio a pavio, a estrutura retórico-discursiva do texto.

 

[3] Perdoe-se-me o uso deste galicismo, mas — como bem notou Joel Serrão num dos textos didácticos mais significativos sobre a natureza da “reflexão filosófica” — é ele que traduz, com maior rigor e propriedade, o sentido etimológico deste saber.

[4] Vem a talho de foice, lembrar, aqui, aquilo que um dos mestres do espiritualismo existencialista disse, urn dia: “O conhecimento filosófico — diz o filósofo russo Nicolai Berdiaeff (1874-1948) — depende da amplitude da experiência vivida, supõe a experiência essencialmente trágica de todas as contradições da existência humana.” E acrescenta: “Na origem da filosofia está a experiência da existência humana na plenitude.” É à luz desta definição que o livro de Macedo Teixeira também pode ser entendido corno uma obra de filosofia. Ou, para sermos mais claros nas nossas insinuações, diremos simplesmente que se trata de uma obra envolta num mundo revivescente de recordações, entremeada com alguns arremedos de filosofia… de filosofia moral… Um texto onde as fronteiras que separam os domínios do literário e do filosófico se esbatem e não são facilmente contornáveis.

[5] H. G. Gadamer (1900- ), filósofo alemão, fundador da “hermenêutica filosófica”, corrente filosófica do nosso tempo, muito em voga, que se situa na esteira da “filosofia existencial” desenvolvida por Heidegger (1889-1976), de quem, aliás, foi discípulo, porventura o mais ilustre. Para muitos, Gadamer é mesmo o maior pensador da segunda metade do século XX.

[6] Esta relação de “abertura” e “diálogo” de um Eu a um Tu que o transcende deu origem a um importante movimento especulativo, que perdurou ao longo do século XX — e que a história da filosofia registou sob a designação de “filosofia da alteridade” —, congregando no seu seio nomes de pensadores ilustres, tais como Martin Buber, Theodor Rosenzveig e Emmanuel Levinas. Em certa medida, o pensamento hermenêutico de H. G. Gadamer apresenta-se como herdeiro legítimo desta tradição especulativa.

1 Comentário

Uma Mãe que não serei capaz de imaginar

Sentimo-nos às vezes estranhos, às vezes até tristes e muitas vezes fascinados com uma ou outra mulher, mulher jovem, mulher adulta ou mulher mais velha.

E é verdade, pois penso que não é só por ser o nosso género diferente, muitas vezes difícil de compreender, ou por ter um corpo que exala beleza e nos compromete por encanto a contemplá-la, como se por instantes nos esquecêssemos de que é um ser igual e a quiséssemos adorar.

Não sei se neste momento seria capaz de falar só da mulher em geral, falar daquela que um dia nos fascinou e nos acompanha pela vida fora, nos atrai no olhar e nos deixa por instantes perdidos no sonho intemporal, ou falar da irmã que amamos incondicionalmente através da sua alma, ou falar simplesmente da mãe que nos dá colo e aconchego eternamente; pois sei que medito num ser que é das mais belas criaturas do Mundo que Deus criou.

Às vezes, fico a meditar no tempo que tenho vivido, com a alma em que medito nos meus sonhos impossíveis, a alma que me aconchega na semelhança da mãe que me deu à luz, quem sabe se através de reflexos daquela Mãe que se transforma e ganha imensos rostos, tão proporcionais à nossa inteligência quanto ao nosso sentimento humano?!

Reconheço que, em cada homem, há uma constelação de surpresas e de forças, umas boas e outras más; reconhecendo por isso que homem e mulher justificam em parte a Paixão com que Deus Se multiplicou na Essência e continua a jogar os dados para manter a multiplicação e nos surpreender entre a nossa Caminhada.

Mas hoje queria ser moderado a dissertar sobre o estranho, não queria colocar palavras onde ainda gravitam algumas lágrimas. Queria, por isso, falar-vos de uma mãe que vi de modo ocasional há uns tempos e que não pude deixar de a olhar durante muito tempo, tempo em que cheguei a contemplá-la até ela desaparecer no horizonte, levando consigo aquele menino, que eu tive ao colo, embrulhado num xale e bem preso, para não cair pelos movimentos bruscos que ainda fazia naquela ocasião, os nossos caminhos desde a altura em que chegámos à última estação andaram noutro sentido.

Sentada numa daquelas carruagens antigas, bancos mais duros e espaços apeados de gente, num daqueles comboios vindos do Alto Alentejo e que demoravam mais de seis horas a chegar à estação do Entroncamento, vinha sentada uma mulher que segurava ao colo um menino ainda bebé, lindo, aliás, como são todas as crianças, mas a gritar em altos sons e a rejeitar o biberão de leite que aquela mãe insistia em dar-lhe a beber desesperadamente.

Sem saber como, supliquei-lhe para que me deixasse pôr um pouco de água a correr sobre o recipiente, parecera-me que este estaria quente e daí os seus gritos de dor, julgara eu!

Olhou-me de modo aflitivo, mas, sem mostrar nenhuma dúvida, consentiu que eu fosse a correr pelo corredor até à fonte do comboio, para ali abrir a torneira da água até refrescar um pouco o biberão, refrescar o suficiente para não ficar frio.

Voltei rápido, dei-lho para a mão, e ela borrifou algumas gotas sobre o rosto da mão procurando-lhe com grande certeza a boquinha da criança e continuar a dar-lhe o alimento.

Não resultou, o meu pequeno gesto de ajuda não resultou melhor: o menino permanecia em altos gritos, apressei-me a pensar que certamente seriam de alguma dor momentânea, e a mãe, já com algumas lágrimas nos olhos e o rubor das faces muito alteradas, ia olhando em agradecimento, reforçando lá nos seus botões a confirmar em silêncio que ela não falhara, não era a temperatura do leite que estaria em questão.

De repente, fiquei imensamente nervoso e, num gesto de pai, supliquei-lhe que me deixasse pegar naquele anjinho, sem lhe dar tempo, e quase roubando-lho dos braços, peguei nele ao colo e, de pé, com firmeza, comecei a embalá-lo num gesto de afeto para o tentar distrair enquanto em simultâneo empurrava para a sua boquita o bico do beberão, mas com um pouco de mais energia, para ele sentir no paladar o seu precioso alimento e começar a beber.

Mas nada, nada o fizera calar e não fora capaz de beber uma gota. Fiquei triste, frustrado, mas bastante meditativo. Não demorara muito mais tempo a chegarmos à última estação da linha; entretanto, reparei que ela continuava a insistir sem resultado.

Depois, ainda mais chocado, reparei que, quando nos apeámos na estação e eu me dirigi para a estação do Entroncamento, para poder regressar ao Porto, aquela mãe arrastava-se lá mais longe com a criança ao colo e, ainda entre gemidos, suportava entre aquele tormento o peso de um saco ao ombro e puxando colado a si ainda um outro que rolava a esmo.

Tudo isto me ficou gravado na memória, mas muito mais ainda é que, entre aquele sofrimento, ela continuava a olhar na minha direção; eu jamais esquecerei aquele olhar, de tal forma que ainda hoje me subiu aos pensamentos a minha fé, pois acredito que o menino, entre aquele soro de desespero e os aconchegos de ternura, acabou certamente por adormecer até ser capaz de beber o leite que entre os nossos sonhos e pesadelos ficara à espera dele.

Não sei o que aquela mulher viu em mim, mas na viagem para casa interroguei-me bastante como fora possível ela subir tanto até à Mãe, não ter tido medo que fizesse mal ao seu menino, que confiasse em mim como se eu fosse o seu próprio marido, que acredito que será abençoado por ter aquela mulher, esposa, mãe. Sabe-se lá qual a diferença entre ela e a Senhora da Paz, que em todos os momentos nos socorre, principalmente na aflição humana.

Macedo Teixeira,António

Deixe um comentário

Godel e a teoria do tudo

Da mesma maneira que há incompletude de Godel para lógica base 2,
há para base 3,
há para base 4,
etc.
Há para tantas bases tal como o número de elementos finito que queiramos enumerar, pelo que tal como a teoria da incompletude de Godel, a minha lógica também faz parte da teoria do tudo.
A teoria de Stephen Hawkins sofre de um mesmo problema que a relatividade de Einstein.
O maior problema da filosofia são os homens e não as crenças, porque tal como se aprende em engenharia de software filosofias contraditórias aplicam-se a contextos distintos.
Einstein tinha um contexto e Stephen Hawkins tem outro, embora uma teoria seja mais global que a outra e não sejam assim tão contraditórias.

Publicado em Opiniões | Etiquetas | Deixe um comentário

Educação e Poesia

Para quem deseje ler o texto da minha intervenção sobre “Educação e Poesia” durante o I Fstival de Lisboa, pode acedê-lo em http://www.dulcerodrigues.info/educa/PDF/educacao_poesia.pdf.

Para os vídeo-excertos :

Boa leitura e visualizações.

Publicado em eventos, Notícias, Notícias, eventos, Novidades, lançamentos, Opiniões, Opiniões, testemunhos, testemunhos | Etiquetas , , , , , , , , , | Deixe um comentário

O Plano Comum

A mulher é como a flor, depois de cortada, murcha e perde o brilho do rosto. É uma comparação que assume uma preocupação sobre o modo como vamos desenvolvendo as relações de comunicação e de partilha das tarefas e das responsabilidades, que fazem dos seres humanos, mais semelhantes e menos estranhos.

Homem e Mulher são a unidade da beleza humana que se especifica no género e se distingue na forma; são elementos, que em separado percorrem trajetos de sonho e de realização, que revelam o fascínio natural que a vida humana contém, nas suas partes e no seu todo. Trajetos de sonho que ganham outro significado, quando se tocam na semelhança de esforço com vista a uma realização individual, mas também, em conformidade social, de desejo e sentimento mútuos.

 Não há qualquer diferença entre o homem e a mulher, senão na subtileza da realização e na sensibilidade da vida; ambos a sentimos como homem ou como mulher, a vivemos como semelhantes e nos realizamos em conformidade com a nossa natureza.

 Mas existe um plano que é comum e que permite que tanto o homem como a mulher vivam a sua vida singular ou de conjunto; de modo individualizado ou de modo coletivo e que é constituído por duas partes ou planos geométricos de um mesmo plano; como se fosse um jardim com dois terrenos; com flores semelhantes, mas de características e canteiros distintos.

Um plano onde a mulher e o homem gravitam, onde se tocam e fundem, nas ideias e desejos, nos gostos e aventuras; e acima de tudo, onde reúnem a vida para lhe darem significado e sentido, e a tornarem mais bela e diferente. Um plano que contém o caminho e o processo que sensibiliza a vida de ambos; homem e mulher, mas que não permite o afastamento de cada uma das suas partes, nem que haja confusão de características, lugares ou formas; somos semelhantes e comuns, mas não somos a mesma realidade.

É esta preocupação que deve estar presente nas relações do nosso dia-a-dia; a preocupação de mantermos a ordem em cada um dos espaços em que nos movemos e o sentido certo da nossa especificidade, no género e na forma, pelo respeito e acordo de princípios, pela responsabilidade de tarefas e pela exigência do rigor. A preocupação de fazer da relação humana a relação social e ética, a relação de coexistência num mundo em que a partilha de tarefas vai sendo cada vez mais igual e o plano comum se vai tornando mais homogéneo e equilibrado. Num mundo onde os valores são avaliados pelas qualidades que acrescentam outras realidades à vida humana e a melhoram na sua semelhança; aliás, num mundo em que somos iguais, se forem iguais as oportunidades.

Parece-me, por estas razões, continuar a ser razoável a análise em relação a esta preocupação, pois foi boa a rapidez com que chegámos ao reconhecimento desta necessidade, da necessidade de nos sentirmos iguais, mas parecemos esquecer que estas realidades têm que ser, de facto, tão cheias de conteúdo como de humanidade, e não apenas partilhas cheias de conteúdo e vazias de humanismo.

 É uma realidade que a mulher de hoje sente-se mais livre, semelhante e igual em oportunidades, mas a mulher como mãe não está tão próxima dos filhos como estava; os filhos falam-lhe através das máquinas ou dos brinquedos! A mulher esposa é um elemento da casa que já não está só; e os maridos, nos nossos dias, até ajudam nas lides domésticas, mas a maioria, mais para colaborarem na relação conjugal; para não estarem fora da imagem social do nosso tempo.

 Os jovens facilmente iniciam relações de amizade com o sexo oposto, mas também com a mesma facilidade se desvinculam; estão muito próximos no corpo, mas afastados no coração. E a preocupação torna-se muito mais aflitiva, se soubermos que o principal foco destes problemas reside no facto de estar a verificar-se uma certa confusão nas limitações dos planos que dizem respeito ao homem e à mulher; isto é, as oportunidades que realizam são vazias de humanismo, não têm o reconhecimento de ambos, pela sua semelhança; ou seja, faz-se e participa-se, mais para se ser moderno e não se ser notado na sociedade do que de modo voluntário e livre.

O reconhecimento da necessidade de nos sentirmos iguais não está a ser acompanhado pela tolerância e esforço de cooperação de ambos; aliás, julgo que se insiste muito mais na afirmação da igualdade do que na procura de soluções para se viver de modo igual e sem ter que se sacrificar os filhos ou um qualquer dos elementos; homem e mulher, marido ou esposa, à satisfação egoística das vontades emancipadoras, sem o consequente sacrifício de ambas as partes.

 É bom não esquecer que existe um plano constituído por dois planos tangentes e geométricos, onde o homem e a mulher se realizam e tornam a vida mais bela, mas que não permite que nos afastemos de cada uma das suas partes nem troquemos as suas ordens; o que é do homem, só ele o poderá realizar, o que é da mulher, só ela o poderá solucionar. Vale a pena a tolerância, em troca de um amor verdadeiro e de uma vida saudável; a mulher e o homem são as partes de uma unidade que quanto mais se força mais se enfraquece e perde o brilho.

Macedo Teixeira

 

 

Deixe um comentário

A Vida nos dará o Tempo!

A Vida nos dará o Tempo!

Macedo Teixeira

Devemos saber esperar até podermos dar o passo. A Vida nos dará o Tempo!

Quiçá será esta uma síntese orientadora para resolvermos algumas das situações que nos serão comuns no nosso dia-a-dia. Especialmente as situações que mais terão a ver com a regularidade dos nossos afazeres e das nossas necessidades diárias e que, muitas vezes, em virtude das dificuldades que sentimos por não termos uma solução rápida para cada problema que nos surge, deixamos nascer por dentro de nós estados de maior conflito psicológico que nos vêm turvar a nossa sensibilidade e nos retirar a alegria para poder ver por outras janelas e encontrar outras soluções entre o que o Mundo e a Vida continuarão a ter de belo e de fascinante.

Quem poderá apreciar o Mundo e sentir a Vida que o vai animando, se não se sentir nem se preparar a si próprio para ser capaz de admirar as diferenças e descobrir as alternativas perante as imprevisíveis e mais difíceis circunstâncias da vida humana?

Devemos saber esperar até podermos dar o passo. A Vida nos dará o Tempo!

Devemos saber esperar até termos a certeza de que perante as nossas decisões não nos encaminharemos para estados de crise de ansiedade e de tormenta. Aliás, não é muito invulgar na nossa vida, mesmo que com alguma prudência nas decisões, acontecer o contrário do que tínhamos pensado, pensarmos num certo resultado e obtermos um outro completamente diferente, às vezes até muito pior do que o que era esperado na menor incerteza!

Ora, se em certas situações a realidade pode acontecer assim, então é porque a Vida, e em especial a vida humana, não será tão linear como às vezes nos parece ser; logo, perante qualquer necessidade, deveremos aceitar que nem tudo na vida poderá ser tão previsível como desejaríamos e que os resultados poderão ser ainda muito piores quando nos precipitamos nas nossas decisões e vivências.

A atitude de saber esperar, ao que parece, será um dos domínios mais difíceis de atingir pelo homem durante o seu crescimento e desenvolvimento. Todos somos impelidos pela pressa da ocasião e na voragem de qualquer momento vemos sempre um tempo normal da nossa realização e crescimento: pensamos que, quanto mais depressa vivermos, maior será o ganho e maior será o proveito. Julgamos e fazemos questão de assim proceder!

Ora, se é verdade que o Movimento é Vida, é ganho e é proveito, não será menos verdade que a espera tranquila e sem remorsos são contemplação e merecimento dos mesmos efeitos. Esperar que a Vida aconteça pelo merecido, esperar que ela nos dê o tempo necessário para se especificar em cada um de nós e nos tornar felizes na globalidade do Grupo.

Olhar meditando entre a espera e o acontecimento de cada momento temporal, olhar pelas diferentes janelas da Vida e vê-la passar por instantes diante dos nossos olhos, tomar-lhe o sabor e sentir-lhe o efeito nos nossos desejos, serão aspetos tão necessários para a compreensão da beleza da Humanidade como necessário será que a Vida seja para cada um de nós na parte que nos pertence tão integral como o movimento que a anima.

E assim como a água de cada fonte especifica o sabor do lugar, e o caudal a rapidez com que abastece quem a procura, também a nossa pressa mais agilizada, cum anima (com alma), e a nossa lentidão mais ponderada, ex abundantia cordis (com efusão do coração), especificam o nosso beber da Vida e o modo como a bebemos no tempo de que dispomos.

Ninguém deverá esforçar-se por manter-se sentado quando precisa de caminhar, mas não precisaremos de andar sempre a correr com o receio de não chegarmos a tempo, nem termos disso o proveito ou ganho suficiente; o que é nosso jamais deixará de o ser, e o tempo é uma acessão da nossa sensibilidade e do nosso entendimento que irá para além da relatividade; se não recebermos o que é nosso com o tempo do Prazer, haveremos de recebê-lo com o merecimento do Dever.

Devemos saber esperar até podermos dar o passo. A Vida nos dará o Tempo!

O tempo necessário para resolvermos os nossos problemas, manter os nossos hábitos, guardar as nossas colheitas e semear as novas sementes, aliás, nos dará o tempo para fazermos todos os “recados” e resolvermos todos os problemas com a sociedade de que fazemos parte, encomendas mais ou menos “pesadas” que transportamos com alegria e que colocamos nos patamares mais elevados da nossa “casa”, sempre na esperança de a elevarmos no máximo com que nos for possível pela nossa inteligência e com a força que formos capazes de entender.

E se a Vida não pode esperar, segundo a nossa “pressa” e perante cada ocasião menos previsível, também não se deverá duvidar de que o sabor e a delicadeza dos resultados dessa “pressa” serão sempre muito mais agradáveis sempre que sabemos cuidar do Tempo e temos a paciência de esperar. Esperar até podermos dar o outro passo e sem nos atropelarmos a nós próprios. Esperar que os frutos cresçam e amadureçam, esperar que a Vida aconteça no tempo de um qualquer plano da Criação, sem que a criação tenha de ser mais rápida por nossa vontade e com isso trazer-nos dissabores e tristezas.

Devemos saber esperar, com a responsabilidade de querer ser e o desejo de querer chegar, mas sem atropelos nem desejos apressados; aliás, ter consciência de que o que importa é estar a viajar no “comboio” da Vida, mesmo que se vá na última carruagem, o Condutor é o mesmo, e o sabor deste dom não depende nem do lugar, nem da distância; bastará sentir que se vai a viajar no “Comboio” e o Condutor nos levará até onde podemos ir sabendo que sentiremos o mesmo que os outros sentem.

Devemos saber esperar, a Vida nos dará o Tempo!

Deixe um comentário

Instantes de Movimento e Vida

Fixara da agenda os assuntos a tratar naquele dia, abrira sem ansiedade o seu computador e lera seletivamente as mensagens que entretanto chegaram à sua caixa de correio. Passara rapidamente os olhos pelas notícias dos jornais diários, sublinhara os acontecimentos mais importantes e preparara-se um pouco melhor para sair até ao primeiro local donde habitualmente entrava para entre o sabor de uma xícara de café dar azo aos primeiros desabafos sociais; o proprietário do café era um homem simpático e gostava da asserção das coisas da bola, principalmente do seu clube desportivo, de que era um grande fã.

Nestes gestos de cordialidade e de registo social, verificava-se uma espécie de interlúdio para os Instantes da composição de mais um dia e que, nos acontecimentos mais gerais, se previa complexo e sempre algo imprevisível.

Assumia-se numa mistura de ingredientes plasmada de movimento e vida, que com o intercalar dos diversos trechos sociais se tornava na origem de uma composição complexa a ser narrada pela história da pegada humana.

Ataviara-se melhor e com um aprumo mais rigoroso descera até à garagem do seu andar para pegar no seu automóvel de cor preta e já usado mas muito limpo, e ainda com uma aparência de sinal bastante positivo; o automóvel não era apenas o seu meio de transporte, também representava um pouco do valor económico da sua riqueza conseguida na honra e dignidade do trabalho.

Naquele dia o café não estava tão cheio como de costume, era um tempo de férias escolares e a escola que ficava próxima, apesar de ser um lugar para os mais pequeninos, dava-lhe uma garantia de maior trabalho, não só os pais das crianças como também funcionários e professores acorriam durante esse período formando a maior parte das vezes uma enchente de pessoas.

Mesmo assim, aquele homem que servia no café de forma lesta e atenciosa estava com um ar sorridente para todos os que iam chegando, quer para ocuparem as mesas, quer para ficarem de pé pregados no balcão durante um tempo que não se alongava para além do saborear o paladar aconchegante que tem em Portugal uma xícara de café.

Fizera o mesmo, cumprimentara e sorrira de igual modo para os presentes, havia entre ambos uma amizade gerada pela convivência que depressa se estendia num ambiente de carinho, mesmo aos mais estranhos; o ambiente social urbano será certamente um pouco diferente daquele que decorre de uma matriz de envolvência campesina, é de crer que só o ato de tomar café se apresenta como uma realidade de sentido transversal, in actu.

Naquele dia o espaço, que estava mais vazio do que o habitual, não lhe seria vantajoso para aligeirar o momento da saída. Não dispunha de grande satisfação nem de grande tempo para poder tagarelar sobre as realidades mais simples ou então complexas pelas confusões muitas vezes reinantes em cada situação, como são as dos encontros desportivos e dos resultados do futebol, que na maior parte das vezes são sentidos apenas como expressão do resultado da vitória, do resultado do neutro ou do resultado da derrota, numa atividade social desportiva que acima de tudo deverá ter como finalidade a convivência entre pessoas, o seu recreio e o seu lazer.

De qualquer forma, mesmo assim, esta será sempre uma realidade agradável e não terá em nenhuma situação, por muito complicada que seja, nada de grave ou de tamanha insatisfação que não possa ser compensada por outras realidades sociais; não será como a realidade da fome e da miséria humanas, que destroem e matam a vida sem lhes darem nenhuma compensação nem lhes permitirem qualquer retorno.

Sem demonstrar desencanto nem dar sinal de tédio, despedira-se com um “Até à próxima”, misturando-se entre os demais nas despedidas agradáveis e de bom senso; há nestes lugares e nestes locais de natureza rural uma certa simbiose na amizade, que fraquejará no seu encanto quando se esquecem os pormenores da simpatia, do respeito e da elegância na conduta; o ser humano aqui torna-se mais transparente.

Entrara no carro e com delicadeza mantivera por alguns segundos o motor a trabalhar sereno e sem pressa, assinalara depois o pisca na direção a seguir e pusera-se a caminho. Com o rádio ligado em tom suave, deixara-se embalar levemente por uma linda canção a que, sem grande força, não resistira a trautear na intermitência alguns dos versos da melodia.

Entretanto começara a pensar na primeira coisa que deveria tratar naquele dia, a situação em que se encontrava não era nada agradável e daí evidenciar alguma perturbação no seu ânimo. Precisava de encontrar o gerente do banco a quem ia recorrer a um empréstimo, necessitava que este se mantivesse atencioso e humano para lhe conceder um pedido de crédito, em situações especiais de idade, pois tinha uma prestação global vencida no tribunal da casa de habitação que comprara, ainda como inquilino e que, numa razão inesperada e bastante posterior, pois no momento da sua promessa de compra acreditara que não teria de ir até uma situação daquelas e já tão avançado na idade para o crédito à habitação, pois por razões de incompreensão e de injustiça de algumas pessoas levaram na contenda a que o caso fosse resolvido sem prévio conhecimento do inquilino nos termos da Justiça por venda em hasta pública no Tribunal da Comarca.

Necessitava de encontrar naquele momento alguém que compreendesse a aflição, que confiasse na honra e na seriedade da pessoa e estivesse disposto a correr algum risco aparente perante a administração do banco no entendimento que poderiam fazer da sua competência e zelo na defesa do dinheiro da instituição.

Como se procurasse no movimento a resposta que procurava, olhara desinteressadamente para as realidades que avistara naqueles instantes, uma mulher com uma criança ao colo anunciando um quadro de maternidade que lhe lembrara a mãe quando caminhara com ele a gritar para pedir socorro perante a gravidade do ferimento que lhe abrira a água fervente quando era ainda pequenino e a sua mãe dormitava sobre a mesa. Lembrara-se de que ela fora buscar forças sem saber onde para sulcar as águas que, alvoroçadas, naquele dia de inverno corriam barrentas e enchiam com uma força medonha o carreiro que a mãe com ele a gemer de dor e abraçados na tragédia tivera de percorrer até à primeira povoação.

Um pouco mais adiante, reparara num enorme camião carregado de troncos de madeira que rasgava a estrada sem piedade na alegria expressiva do condutor que parecia segurar o volante como se este fosse a rédea de um cavalo que teria de domar num certo tempo e entre uma certa distância; aquele homem dera-lhe força e coragem para acelerar a velocidade e ir sem tibieza ao encontro de um pouco de felicidade no dinheiro que procurava e na casa que passaria a ser definitivamente sua; tornara-se de repente um jovem repleto de loucura e de sonho.

Na azáfama do caminho a percorrer misturara a emoção com alguma lucidez; sentira-se turvo por instantes, mas depressa fora acordado por um taxista que procurava na distância alguém para transportar, sabe-se lá quem! Talvez uma pessoa como eu, que procurasse naquele instante os sonhos, mesmo que não pudesse revelá-los por não lhe conhecer rigorosamente a origem, uma casa, um carro, um curso para um filho, um emprego para a filha ou, simplesmente, que o levasse até um lugar sagrado onde pudesse encontrar a paz para uma desavença havida no seu lar.

Entrara no banco possuído de uma coragem e de uma força que jamais certamente algum gerente sentira; decidido, fora expedito na explicação do que pretendia, e ao cabo de pouco tempo o gerente estava a colocar-lhe condições de pegar ou largar. Respirara fundo, ouvira a sua mulher e lembrara-se num ímpeto de surpresa de que o que lhe acontecera não fora senão mais um acontecimento para o pôr à prova perante outras circunstâncias ainda mais difíceis.

Aquela mulher que segurava a criança ao colo não era nenhuma gigante, mas parecia ter uma força que não emanava da sua doçura; era a vida agreste que pulsava nela e naquela ocasião.

O condutor não era um domador de cavalos, mas encarnava a luta da natureza para conseguir os seus fins.

O taxista não era intolerante, naquele momento era o guia que, em certo desencanto da vida, vai buscar dentro da alma um dito de espírito para alegrar na solidão humana ou no corpo por um grito de buzina para acordar aquele que adormece desencantado pelo peso do sofrimento e da amargura nos caminhos ásperos da vida.

Assim somos os seres humanos, e em cada instante que vivemos há um movimento e um acaso a experimentarem a nossa vida.

Macedo Teixeira

Deixe um comentário